quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A nipo-brasileira que cobre política

Foto: Reprodução/Prefeitura de Aracaju

Publicado originalmente no site Alô News, em 10/12/2018

A nipo-brasileira que cobre política

Por Ivan Valença (Ponto de Vista/Alô News)

Se você é leitor assíduo do “Jornal da Cidade”, já deve ter sua atenção chamada para  textos da área política assinada por Mayusane Matssunae. Náo, não é pseudônimo, mas o nome próprio de uma jovem de 35 anos, baiana de nascimento, filha de pai cearense e mãe potiguar, neta de japoneses  que moravam no Brasil. Foi por influência do seu avô paterno, que recebeu este nome, um tanto quanto complicado para nós, brasileiros, tanto que ela é tratada na redação do “JC” tão simplesmente como Maju.

Maju é uma moça prendada e trabalhadora. Formada duas vezes – uma vez em Direito, a outra em jornalismo – ela mora em Aracaju praticamente sozinha, sem a presença de familiares. Não tem sequer um namorado – o que tinha ela mandou embora, livrando-me de um sujeito pouco confiável. Tem uma vontade louca de ir ao Japão, mas para isso é preciso ter bastante dinheiro, coisa que el não tem.

Atualmente divide sua atividade profissional entre o “Jornal da Cidade”, onde dá expediente pela manhã, e o portal de notícias do Canal 8, TV Atalaia.  Correndo sempre atrás da notícia, Maju vai para a Câmara de Vereadores e depois para a Assembleia Legislativa, na parte d manhã antes de se dirigir à redação do “Jornal” para escrever suas matérias. A tarde é mais folgada, no portal de notícias do Canal 8 mas quando sai de lá não pensa em mais nada senão ir pra a própria casa ode só quer descansar.

Maju começou na reportagem geral, onde fazia de tudo, mas aí apareceu uma vaga no setor de política. Embora sem nenhuma experiência nesta área, resolveu encarar e topou preencher a vaga. “E estou adorando, você não imagina quanto”, apesar da correria entre os dois Legislativos, o estadual e o municipal.  O avô mora em Natal, juntamente com sua mãe. O seu pai mora em Aracaju mas é casado com outra mulher que não sua mãe. E ela pouco o vê.

Quando veio para Aracaju ela foi trabalhar como free lancer na Emurb. Era a gestão de Marcelo Deda, mas por lá passou pouco tempo. Passou uma temporada como produtora na TV Ponta Negra, em Natal, mas voltou depois já com o emprego efetivo na própria Emurb. Foi também assessora da vereadora Lucimara Passos. Atualmente não tem cargo público. Então quando você se deparar de novo com o nome Mayusane Matssunae encimando uma matéria política no “Jornal da Cidade” saiba que ali está uma jovem brasileira, com poucos traços dos seus ancestrais japoneses, bonita, trabalhadora que sempre corre atrás de um furo.                                                                                                                                                 
Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Jornalistas são ‘Personalidades do Ano’ da revista ‘Time’

Capas da revista 'Time' com as ‘Pessoas do Ano’ REUTERS

Publicado originalmente no site do jornal Brasil El País, em 11 DEZ 2018 

Revista ‘Time’ escolhe Jamal Khashoggi e outros jornalistas perseguidos como ‘Personalidades do Ano’

Pela primeira vez, publicação divide seu reconhecimento anual entre vários profissionais do jornalismo

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2 de outubro deste ano no consulado de seu país em Istambul, é uma das Personalidades do Ano escolhidas pela revista norte-americana Time. A publicação dividiu a distinção com outros jornalistas: a filipina Maria Ressa, perseguida pelo regime de Rodrigo Duterte, e dois repórteres da agência Reuters presos: Wa Lone e Kyaw Soe Oo, da Birmânia. A Time também reconhece o trabalho do jornal local Capital Gazette, de Annapolis (Maryland, EUA), que teve cinco funcionários mortos em um ataque perpetrado em 28 de junho.

"Como todos os dons humanos, a coragem chega a nós em quantidades e em momentos diferentes", disse o diretor da revista, Edward Felsenthal. "Este ano reconhecemos quatro jornalistas e uma empresa jornalística que pagaram um preço terrível por enfrentar o desafio deste momento." A Time anunciou sua decisão com a publicação de quatro capas diferentes, com o título The Guardians and the War on Truth (os guardiães e a guerra pela verdade).

A revista também faz uma menção ao Brasil, mais precisamente à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. "No Brasil, a repórter Patricia Campos Mello foi alvo de ameaças depois de informar que partidários do presidente eleito Jair Bolsonaro haviam financiado uma campanha para espalhar notícias falsas sobre o WhatsApp". Ouvida pela revista norte-americana, Cristina Zahar, secretária-executiva da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), diz que "com a polarização, a crença em sua própria verdade se fortaleceu, e não importa se os outros dizem que é mentira". "Estes são novos tempos, realmente novos tempos", diz, em referência aos ataques de Bolsonaro à mídia, acrescentando que "os jornalistas precisam encontrar maneiras de lidar com isso."

A decisão da revista, que concede a distinção de Pessoa do Ano desde 1927, desta vez quebrou a tradição de concedê-la a uma pessoa viva e, também, de concedê-la a um único jornalista. Esta é a segunda vez consecutiva em que a publicação reconhece um grupo e não uma única pessoa. Em 2017, dedicou o reconhecimento às mulheres que romperam o silêncio contra o assédio sexual.

No passado, a revista não apenas reconheceu personalidades dignas de admiração, mas também outras que, por diversas razões, atraíram o interesse da mídia. Foi o caso de Adolf Hitler (1938), Josef Stalin (1939 e 1942), seu herdeiro político, Nikita Kruschev (1957), e o aiatolá iraniano Khomeini (1979).

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Entrevista com o jornalista Jon Lee Anderson


Publicado originalmente no site SESCSP, em 31/10/2018

Jon Lee Anderson

Escritor e jornalista da revista The New Yorker, Jon Lee Anderson foi correspondente de guerra no Oriente Médio, na África e na América Latina, zonas de conflito que ficaram impressas em publicações e na memória do repórter. “Não é como ir e voltar sem nenhum dano. Como os bombeiros: eles acabam sofrendo alguma queimadura, entende? Se você é um policial num bairro violento, mais cedo ou mais tarde, pode levar um tiro ou atirar em alguém. É assim que as coisas são”, desabafa. Cidadão do mundo, o norte-americano nascido na Califórnia também trabalhou em outros jornais e revistas, como The Nation, Harper’s Magazine e Life. Como escritor, publicou Che – Uma Biografia (Objetiva), A Queda de Bagdá (Objetiva), entre outros livros sobre controversos protagonistas da história. Em São Paulo, o repórter compartilhou todas essas experiências no seminário Jornalismo – As Novas Configurações do Quarto Poder, realizado em parceria com a revista Cult, no Sesc Vila Mariana, em agosto. Também falou sobre a metodologia para entrevistar nomes como o ditador Augusto Pinochet e o escritor Gabriel García Márquez, além de compartilhar perspectivas acerca do futuro do jornalismo. “Vivemos num momento em que a mídia tem mais poder do que em outras épocas. Você vê isso pela forma como ela é atacada hoje, mais do que nunca. No entanto, economicamente, a mídia passa por uma situação muito mais insustentável que antes”, pondera.

Você escreveu sobre Fidel Castro, Che Guevara, entre outros importantes nomes da história, mas foram poucas as mulheres. Como se dá essa escolha?

É verdade, escrevi sobre poucas mulheres. O fato é que a maioria das pessoas sobre as quais fiz um perfil eram pessoas com poder político e, por essa razão, a maioria era de homens. Além de serem homens associados à guerra ou à violência. Mas fiz um perfil, em 2006, sobre a então presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf [a primeira presidente desse país e do continente africano]. O que me motiva a fazer um perfil é o interesse sobre certos tipos de pessoas. De uma forma ou de outra, elas fazem o mundo girar, não necessariamente para melhor. Sempre me interessei pelo poder político porque passei a acreditar na capacidade de um indivíduo mudar a história. Sei que há outras escolas com opiniões diferentes, que acreditam que as forças do mercado é que mudam a história. Eu diria: existe a era Obama e a era Trump. Não perfilei todas as pessoas que chamaram a minha atenção, mas escrevi sobre muitas. Tenho também muito interesse em como a violência pode ser uma arma política e como ela busca estabelecer a “legitimidade” de um governo em vez de torná-lo ilegítimo. Como você reivindica legitimidade se busca o poder com armas e sangue? Em que momento esse derramamento de sangue passa a ser visto como um problema? Há muitos governos supostamente legítimos que mantêm poder por meios ilegítimos como corrupção e violência de vários tipos. Acho que quando estou escrevendo o perfil de figuras políticas, busco a autenticidade da pessoa, mas também aquele ponto em que eu possa julgá-la. E, normalmente, julgo-as em pontos relacionados à humanidade delas.

Mas e quando seu perfilado é um escritor, a exemplo de Gabriel García Márquez?

Gabriel García Márquez foi uma exceção. Ele não era presidente, chefe de estado ou algo do tipo. O que me motivou a abordá-lo foi sua fascinação pelo poder. Esse foi o mote da narrativa que escolhi para escrever sobre ele. O poder o fascinava e tinha um papel na sua vida pessoal, como jornalista e como escritor, por sua longa relação com Fidel Castro e por mediar, nos bastidores, guerrilhas em seu país (Colômbia). Nos bastidores também fez mediações entre Cuba e Bill Clinton. Ele tinha um papel interessante e, provavelmente, foi o perfil que mais gostei de fazer. Passei sete meses me encontrando com ele. Conheci sua família, amigos, lugares onde ele viveu e cresceu. Conversei com pessoas que o conheciam e passei a gostar muito dele. De alguma forma, era mais um perfil como tantos outros que já havia feito. Há coisas no texto das quais ele não gostou, mas, em vários aspectos, esse foi o perfil menos crítico que já fiz.

O Brasil é muito mais do que um país.
É um mundo à parte

Como define a abordagem para escrever cada perfil?

No caso do García Márquez, já havia lido muitos dos seus livros, outros reli. Entrevistei não somente ele, mas amigos e família. Fui à cidade natal e visitei outras residências; conversei com pessoas de diferentes países, amigas ou não. Nos perfis que escrevo para a revista The New Yorker, entrevisto, em média, 40 pessoas, mas não cito todas elas. Normalmente, cito apenas seis desse total. E são poucas aquelas que vou descrever. É como construir uma galáxia em volta de uma estrela. Você tem um universo já conhecido e outro desconhecido, por isso precisa saber quais são esses limites e qual é o seu objetivo. Parece bastante com o processo de criação de uma biografia. Nos perfis mais densos que já fiz, senti que, se continuasse, poderia escrever um livro. Foi assim com García Márquez, entre outros. Trata-se de, essencialmente, compreender o perfilado. Normalmente, eu o abordo sob uma perspectiva tendenciosa, mesmo que eu seja crítico. Tento achar tudo que posso a seu respeito. E, normalmente, tento encontrar uma coisa em especial da vida pessoal do perfilado. Não me refiro a detalhes íntimos, mas algo na vida dele que esteja à margem da política e pelo qual ele também é conhecido. Algo que possa me guiar.

Que metodologia utiliza nesse processo?

Minha metodologia é a seguinte: abordagem, diplomacia, acesso, entrevistas. Mas você nunca pode escrever um perfil baseado apenas em entrevistas. O entrevistado pode ficar no controle. Por isso, para fazer um perfil você precisa construir até quatro dimensões. Não apenas conversar com a pessoa que está do outro lado da mesa, mas andar em volta dela, observá-la de costas, de lado. Você precisa sair das quatro paredes e ver como a sociedade olha para aquela pessoa. A ideia é poder viajar com o entrevistado para ver como se move na própria cidade ou em outros países; ver como reage com as pessoas e como reagem a ele. Aí, sim, pode-se ver o verdadeiro poder que exercem. Se for apenas para um perfil, você pode parar em um determinado momento. Todos têm uma vida pública, uma vida privada e uma vida secreta. Talvez você não consiga saber qual é a vida secreta daquela pessoa e talvez você não precise saber. Depende de sobre quem você está escrevendo. Se for alguém que tem muitos segredos, e não é uma boa pessoa, então você precisa saber o máximo de segredos que puder. Mas, por exemplo, quando eu estava com Gabo, não precisava saber da vida secreta dele. Não era ético compartilhar esse lado porque ele estava sendo generoso comigo ao se mostrar em outros aspectos. Eu aprendi algo, sempre aprendemos algo, mas não necessariamente incluo tudo [no perfil]. Até chegar a um ponto em que começo a escrever. No caso do García Márquez, levei sete meses. Mas, normalmente, são um ou dois meses apurando, três ou quatro semanas escrevendo e este mesmo tempo editando. Se fizesse somente perfis, seriam três por ano. 

Repórteres de guerra, os poucos que existem,
desejam não ter visto muitas das coisas que veem

Você foi um dos poucos jornalistas a entrevistar o ditador Augusto Pinochet. Como foi esse episódio?

Foi um perfil difícil de fazer porque, primeiramente, ele desprezava jornalistas. Mas, por vários fatores, consegui, de maneira diplomática, que ele me conhecesse. Na primeira entrevista, tinha consciência de que tudo poderia cair por terra. Ele veio com dois militares como seguranças, sentados lado a lado dele, que me olhavam como se quisessem me matar. Então, eu tinha que ter muito cuidado com o que iria dizer. Já tinha feito várias pesquisas sobre Pinochet e descobri que ele tinha uma fundação que buscava perpetuar seu legado. E esse legado é de um homem que fez grandes obras. Ele tinha, particularmente, muito orgulho de uma estrada que construiu chamada Carretera Austral. Então, conversei com ele sobre essa estrada. Isso acabou se conectando a outra fascinação: os romanos. Tanto que Pinochet batizou dois filhos com nomes de imperadores romanos. Além disso, ele tinha uma coleção particular de objetos que pertenceram a Napoleão: livros, espadas, chapéus... E, na época da entrevista, ele havia inaugurado um museu militarista, o que me deu várias pistas: tratava-se de um homem que tinha uma compreensão amoral sobre governo e poder. Tivemos ainda outras três entrevistas. O mais revelador foi que, certa vez, Pinochet, que na maioria das vezes só respondia “sim” e “não”, revelou ser um admirador de Mao Tsé-Tung [ditador da República Popular da China entre 1949 e 1976]. Ele já havia visitado o túmulo dele na China duas vezes. Perguntei como era possível que ele o admirasse, sendo anticomunista. Ao que ele respondeu: “Eu não acho que Mao era comunista. Ele tinha que ser, mas era, de fato, um nacionalista”. Perguntei o que passava pela cabeça dele quando estava diante do túmulo de Mao. Ele me disse: “Aqui está o homem que eliminou milhões de pessoas”. E ele falava aquilo com devoção. Respondi: “Eu só o compreendi agora, senhor Pinochet”. Ele realmente olhava Mao Tsé-Tung com admiração, como um homem que teve um poder que ele jamais teve. Pinochet se julgava pequeno e desejava ter sido um imperador romano, Mao Tsé-Tung ou Napoleão.

Você já escreveu sobre guerras e conflitos em países como Síria, Iraque, Afeganistão. Como separar razão de emoção nessas coberturas jornalísticas?

Algumas vezes não é fácil, mas a experiência ajuda. Foi muito difícil, no começo, manter qualquer tipo de imparcialidade e até mesmo escrever a respeito desses eventos. É claro que você paga um preço por isso. Não é como ir e voltar sem nenhum dano. Como os bombeiros: eles acabam sofrendo alguma queimadura, entende? Se você é um policial num bairro violento, mais cedo ou mais tarde, pode levar um tiro ou atirar em alguém. É assim que as coisas são. Repórteres de guerra, os poucos que existem, desejam não ter visto muitas das coisas que veem.

Houve algum momento em que pensou em desistir da profissão?

Não, porque essa não é a única coisa que faço. Mas há momentos em que tudo fica muito escuro. Como explicar... É um sentimento ou algo psíquico cujos sinais já consigo perceber. Quando algo fica muito obscuro, quando começo a ficar com raiva o tempo todo e fico obcecado por coisas que vi ou por amigos que foram mortos – o que aconteceu bastante –, tento fazer outra coisa por um tempo. Já fiz isso conscientemente pelo menos três ou quatro vezes, nos últimos três anos. Por isso voltei para a América Latina. Porque no período de dois anos perdi seis amigos. O que foi muito duro para mim. Se você lida com a morte o tempo todo, isso se torna parte do seu mundo. Como havia dito, uma das coisas que me interessam nessa estrutura da violência é o fato de que sei que parte disso existe em mim. Então, sempre tive curiosidade em saber como se dá esse gatilho. Vou te contar uma história. Passei muito tempo no Iraque e, na volta para casa, passava alguns dias na Jordânia. Chamávamos o rei de lá de Boredom (Tédio, em inglês), porque ele era um tédio e o país também. Era exatamente o que precisávamos depois de tanta adrenalina no Iraque. Não tínhamos noção de como estávamos vivendo no limite. Então, a gente precisava da Jordânia para fazer esse tipo de “despressurização” antes de voltar para nossas famílias e amigos. Eu fazia isso para não carregar raiva comigo. Mesmo assim, cheguei a brigar fisicamente com algumas pessoas. Foi aí que percebi: se você vive num meio em que falta respeito, como acontece com prisioneiros, há uma transformação na hora. Você pode controlar sua reação se você tiver consciência dela, e até levar uns dias para “despressurizar”, mas, muitos soldados, como nós sabemos, passam por isso. Alguns conseguem controlar, outros ficam loucos. A sociedade não sabe exatamente como ajudá-los. E o mesmo acontece com o jornalista de guerra. Tenho uma família, animais de estimação, amo a natureza... Por causa de tudo isso eu consigo relaxar e me curar.

Minha metodologia é a seguinte:
abordagem, diplomacia, acesso, entrevistas

Ainda assim, você acredita no lado bom dos seres humanos ou se tornou pessimista?

Sim. Não sou cínico. Vi o lado ruim, ele existe, mas o lado bom também. A natureza humana é frágil. Alguns de nós temos ambos os lados. Eu tenho os dois. Muitas sociedades coexistem com a violência ou têm uma relação de cúmplice com ela. Esse é um tipo de dualidade moralmente danosa, que afasta a sociedade da possibilidade de ser plena ou feliz. O estado de direito é essencial. É a chave. Mas a guerra é capaz de acabar com isso. Foi desse embate que surgimos e por isso estamos sempre a um passo de voltar a esse percurso. Mas não sou amargo, nem cínico.

Como as redes sociais afetaram o jornalismo?

Uso o Twitter, mas não gosto. Não vi o porquê do Facebook, apesar de ter tido um perfil por poucos anos. Parece um espaço para exercitar a vaidade. Também não vejo qual o objetivo de fazer parte do Instagram se posso postar fotos no Twitter. Agora as pessoas estão tomando mais consciência dos efeitos das redes sociais. É uma Torre de Babel que torna esse mundo virtual cada vez mais narcisista. Olhe para as pessoas para as quais estamos dando poder político. Elas são os maiores narcisistas. Mas aí tem o lado positivo: as redes tornam tudo mais fácil. Você pode pegar um táxi em segurança, por exemplo. Em vários aspectos, as redes tornaram a vida mais fácil.

Que análise faz desse impacto?

No final, é tudo uma questão de escolha: como queremos viver a vida. Então, como isso repercute nos veículos de informação? Isso criou um mundo como o dos Estados Unidos: impossível assistir a um canal como a Fox, pela caricatura que se tornou. Da mesma forma, se você assistir à CNN, o canal ficou cada vez mais medíocre e não há mais notícias. Agora vamos à mídia impressa: para tentar sobreviver, ela busca formas na era digital e todos participamos disso. Por enquanto, sou sortudo por ainda ter um espaço na The New Yorker, que de alguma forma existe porque há pessoas dispostas a ler, comprar e manter a revista. Mas também me sinto forçado e obrigado a tuitar ou comentar e escrever em blogs de vez em quando como uma forma de participar disso. Se você me fizesse essa pergunta há oito anos, eu seria diplomático. Diria que tudo ficou mais democrático e que, se você não tem um emprego e é jovem, você poderia fazer um blog e dão a própria opinião. Agora, todos dizem o que isso não ajudou em nada. Ainda temos esse fenômeno – eu odeio esse nome – das fake news. Vivemos num momento em que a mídia tem mais poder do que em outras épocas. Você vê isso pela forma como ela é atacada hoje. No entanto, economicamente, a mídia passa por uma situação muito mais insustentável que antes. Ela caminha na corda bamba: com o máximo de poder e com as maiores chances de extinção ao mesmo tempo. 

O que me motiva a fazer um perfil é o interesse sobre certos tipos de pessoas.
De uma forma ou de outra, elas fazem o mundo girar, não necessariamente para melhor

Se pudesse escolher um tema relacionado ao Brasil sobre o qual escrever, qual seria?

Anos atrás, escrevi sobre a relação entre favelas e asfalto no Rio de Janeiro. Estive com traficantes. Tudo aquilo abriu meus olhos e me mostrou quão precária é a sociedade. Um dos mais poderosos traficantes que conheci tinha mais ou menos a minha idade. Perguntei-lhe por que ainda estava fazendo aquilo. Ele me respondeu: “Estou pagando a faculdade de Direito da minha esposa”. Hoje, escreveria novamente sobre a Amazônia. Iria para o Vale do Javari [região com a maior concentração de indígenas vivendo em isolamento voluntário no mundo, uma das áreas mais conservadas da Amazônia]. Porque amo a floresta e o que é selvagem. Dois ou três anos atrás, fiz uma matéria sobre uma tribo isolada. Fiquei fascinado pelo que encontrei. O fim do homem em seus primórdios logo ali na fronteira entre o Brasil e o Peru: 70% das últimas pessoas que existem sem nenhuma proteção. É o Velho-Oeste. Muito do Brasil e do interior da América do Sul é assim. Pessoas costumam ler sobre cowboys e índios nos Estados Unidos, mas isso acontece hoje e aqui. Nem parece 2018, mas é 2018 e também 1873. Eu vejo isso como algo fascinante. Há tantas histórias para contar sobre o Brasil. Talvez para a população urbana essas histórias soem clichês do país. Mas sou consciente de quão estratificada é a vida aqui também. Porque, se você vive no meio urbano brasileiro, talvez nunca conheça esses lugares. Nem precisa, porque você já tem sua zona de conforto. Talvez vá ao litoral, mas não até esses lugares onde “coisas assustadoras” acontecem. O Brasil é muito mais do que um país, é um mundo à parte.

Texto e imagem reproduzidos do site: sescsp.org.br

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Jornalistas e Homens de Ciência


Publicado originalmente no Facebook/JorgeNascimento Carvalho, em 29/11/2018

Jornalistas e Homens de Ciência

Por Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento

Estamos vivendo a segunda década do século XXI sem que tenhamos conseguido resolver problemas como a pobreza, a ignorância e a segurança pública. Da mesma maneira, não conseguimos distribuir equanimemente a riqueza, o bem estar social e o conhecimento científico. Qual é a importância neste período em que vivemos do chamado jornalismo científico? Seria apenas para divulgar curiosidades que ele existe? Por que em muitas situações jornalismo científico é visto como ilustração inútil por parte de jornalistas responsáveis por editorias de maior prestígio como política e economia ou desperdício de tempo, por parte de alguns pesquisadores? Efetivamente, para que serve esse tipo de prática jornalística? No Brasil ainda há muito por conquistar quanto ao jornalismo de divulgação científica, muito embora não haja qualquer tipo de dúvida quanto ao fato de as suas práticas serem objeto do interesse de diversos campos do jornalismo e de todos os campos da ciência. O jornalismo científico possui padrões próprios e categorias de análise específicas, tendo obtido reconhecimento nas editorias dos jornais e nos cursos de jornalismo em diferentes países do mundo.

Noticiar e comentar sobre o trabalho e as descobertas da pesquisa científica, bem como os cientistas, prosperou como gênero e deu certo. Títulos de trabalhos preocupados com as descobertas e revelações da ciência e com a vida dos cientistas congestionam os catálogos das editoras e as prateleiras das livrarias, da mesma maneira que as colunas de divulgação científica ocupam espaço em jornais e revistas. Espaço utilizado agora, com preocupações com a natureza da informação e das fontes, de modo coerente com as regras contemporâneas.

O primeiro jornal que circulou em Aracaju foi o Correio Sergipense, em 19 de março de 1855. Tinha uma tiragem de 300 exemplares, circulava três vezes por semana e era impresso na Tipografia Provincial. O segundo foi O Progresso, que circulou a partir de sete de fevereiro de 1857, na tipografia particular de B. J. J. Guedes, a primeira da capital sergipana, para a edição de jornais, revistas e de livros e encadernações. Depois vieram Aurora Sergipana, em 1857, A Época e A Borboleta, em 1859. 27 outros jornais foram criados na década de 70 do século XIX, dentre eles O Bouquet, uma "revista literária e recreativa", redigida por senhoras. Na década de 80 do século XIX apareceram 43 periódicos. Francisco José Alves fundou o jornal O Libertador, em 1880, editando-o até 1885. Em 1882, ele passou a editar O Descrido, enquanto o jornal Luz Matinal tinha entre seus redatores o bacharel e crítico Prado Sampaio. O jornal O Republicano tinha como redator o professor Brício Cardoso.

Desde a circulação do nosso primeiro jornal, a ciência tem frequentado as páginas da imprensa em Sergipe, seja através do noticiário, de artigos e crônicas avulsos dando conta das descobertas e das aplicações da ciência e da tecnologia, seja por meio de colunas publicadas com regularidade, assinadas e redigidas em estilo mais livre e pessoal, com notas, crônicas ou artigos. Os divulgadores da ciência sejam eles jornalistas ou pesquisadores se impuseram, pelo menos, duas obrigações: criar uma consciência pública acerca do valor da ciência; fazer com que a maioria conheça as descobertas de uma minoria especializada, democratizando o conhecimento. O jornalismo científico no Brasil foi marcado, durante o século XX, por nomes como os de José Reis, Júlio Abramczyk, José Marques de Melo, Wilson da Costa Bueno e Glória Kreinz, entre tantos outros. Em Sergipe, desde o século XIX, muitos cientistas e jornalistas frequentaram as páginas da imprensa fazendo divulgação científica. É claro que desde a circulação do nosso primeiro jornal a imprensa sergipana tem dedicado espaço aos fatos e feitos da ciência. Não certamente o espaço que esse tipo de informação deveria ocupar. O espaço da ciência sem foi infinitamente inferior ao noticiário policial ou ao que foi dedicado a frivolidades como as colunas sociais.

Bisbilhotar a vida privada interessou bem mais que o conhecimento científico. Saber dos feitos da pesquisa histórica, dos avanços do conhecimento médico, das descobertas sobre recursos minerais ou de processos acerca da conservação de alimentos interessou menos aos editores e a sociedade que o menu da última recepção oferecida pela mulher de um importante industrial. O espaço dedicado à fofoca, aos fatos policiais foi sempre maior que aquele dedicado à difusão da ciência, o que leva a uma reflexão indagando se aquilo que é mesmo importante do ponto de vista da vida dos homens é o que efetivamente serviu para vender jornais.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/JorgeNascimento Carvalho

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ÉPOCA é eleita Mídia do Ano/Revista

 Redação integrada no Rio de Janeiro Foto: Roberto Moreyra/Agência O Globo

Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA, em 23/11/2018

ÉPOCA é eleita Mídia do Ano/Revista

A publicação teve a “ousadia de reinventar a forma de fazer uma revista semanal”, afirma a Aberje, a associação de comunicação empresarial

Redação Época

A Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) escolheu ÉPOCA como Mídia do Ano de 2018 na categoria Revista. De acordo com a entidade, o prêmio foi concedido à publicação por causa da “ousadia de reinventar a forma de fazer uma revista semanal”.

A Aberje lembrou que ÉPOCA completou duas décadas de existência neste ano e que lançou um novo projeto gráfico e editorial “com foco no jornalismo de qualidade, investindo em grandes reportagens, apostando em um texto mais literário e em conteúdos exclusivos”.

Na justificativa do prêmio, a associação citou ainda o fato de a revista ter passado neste ano a circular às sextas-feiras, com os jornais O Globo e Valor Econômico, “e com isso alcançou uma circulação semanal de mais de 500 mil exemplares e quase seis milhões de usuários únicos no ambiente digital”.

É a primeira vez que ÉPOCA conquista o título de Mídia do Ano, concedido anualmente a veículos e empreendimentos de mídia que se destacaram em suas áreas de atuação. Os vencedores são definidos por um júri integrado pelos membros dos Conselhos Deliberativo e Consultivo da Aberje e por sua Diretoria Executiva.

Fundada em 1967, a Aberje desenvolve pesquisas e estudos estratégicos na área de comunicação. Presidida por Paulo Nassar, professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a entidade tem o objetivo de “fortalecer a Comunicação nas empresas e instituições e dignificar o papel do comunicador”.

A entrega do Prêmio Aberje, que está em sua 44ª edição, será realizada em 26 de novembro, às 19 horas, na Casa Bisutti (Rua Casa do Ator, 577), em São Paulo.

Texto e imagem reproduzidos do site: epoca.globo.com

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Cinform volta às bancas


Texto publicado originalmente no Blog/Ivan Valença/Infonet, em 5 de novembro de 2018

O Cinform volta às bancas

Por Ivan Valença 

Lembra-se do Cinform? E por que não?, não faz tanto tempo assim que deixou de frequentar  as bancas de jornais e revistas, e passou a ser visto exclusivamente através da internet, “on line”, portanto. Pois deverá voltar às bancas de jornais, possivelmente em janeiro próximo. É que todo o conglomerado Cinform – tinha uma bela sede própria na rua Porto da Folha onde estava armazenada toda a gráfica, com uma potente máquina impressora – acaba de ser adquirido por um grupo baiano que pretende voltar as origens do jornal. Assim, dentro dos próximos dias reconstitui a equipe jornalística e começa a desenhar o novo Cinform, que no período áureo circulava com gordas edições de 100 páginas e mais de dez mil exemplares. De fato, o Cinform nunca deixou de circular: todas as semanas havia um número novo do jornal nas redes sociais. Diante do peso da dívida que contraiu no tempo do jornal impresso ficava impossível voltar a circular. Agora, parece, o novo grupo dirigente do Cinform já tomou gosto pelo negócio e quer vê-lo nas bancas, brigando pela conquista dos leitores, no mais breve espaço de tempo. O dono atual do Cinform, o empresário Antônio Bonfim e seus três filhos, não cabe em si de contente. Com um passivo que ronda os 35 milhões de reais, o martelo foi batido por 45 milhões de reais. Pelo menos foram esses os números passados ao escriba. O Cinform foi a única experiência jornalistíca de Sergipe na área de classificados. E quer voltar a ser forte também nosso classificados…

Texto reproduzido do site: infonet.com.br

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Jornalista sergipanos se unem em defesa de Cristian Góes

Foto: Divulgação

Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 18 de setembro de 2018

JORNALISTAS DE SERGIPE SE UNEM EM DEFESA DE CRISTIAN GÓES

Coletivo Carolina Maria de Jesus de Pesquisa em Jornalismo e Cultura arrecada doações para pagar a multa sentenciada pelo Judiciário de Sergipe

De Redação 

Num ato em defesa da liberdade de expressão e do fortalecimento da democracia, o Coletivo Carolina Maria de Jesus de Pesquisa em Jornalismo e Cultura, formado por jornalistas de Sergipe, lançou nesta semana uma campanha de apoio e solidariedade ao jornalista Cristian Góes, acusado pelo desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe (TJSE), Edson Ulisses, e condenado em 2013, pelo mesmo tribunal, por conta da publicação do texto fictício “Eu, o coronel em mim”.

Agora, após cumprir pena criminal por 8 meses, prestando serviços num posto de saúde da capital sergipana, o jornalista está sendo obrigado a pagar indenização de R$ 54.221,97 ao desembargador. Serão acrescidos ainda a esse valor os honorários advocatícios, fazendo com que a conta chegue à casa dos R$ 66.000,00.

O coletivo está arrecadando contribuições pela internet e divulgando um texto explicativo sobre o que aconteceu. “Todas e todos sabemos que esse é um valor altíssimo para a grande maioria das trabalhadoras e trabalhadores. Por isso, decidimos somar esforços para coletivamente colaborar com a arrecadação, que pode ser de qualquer valor. Entendemos também que se engajar nessa causa, contribuindo financeiramente e divulgando o caso, para além de apoiar o jornalista, é acima de tudo um ato em defesa da liberdade de expressão e do fortalecimento da democracia”.

ACESSE O LINK E COLABORE COM ESTA LUTA
HTTPS://WWW.KICKANTE.COM.BR/CAMPANHAS/ESCREVER-NAO-CRIME

DETALHES SOBRE O CASO

Em 29 de maio de 2012, o jornalista Cristian Góes publicou em um portal de notícias de Sergipe o texto ficcional intitulado “Eu, o coronel em mim”, uma crônica sobre o exercício de poder que poderia se adequar a qualquer contexto, época, local e personagens.

Entretanto, sob a interpretação dúbia e fundada de subjetividade, o Desembargador e atual Vice-Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Edson Ulisses, e o Ministério Público Estadual de Sergipe (MPE) moveram dois processos – um criminal e outro cível – contra o jornalista, alegando que o personagem “jagunço das leis” se traduziria na figura do Desembargador.

Em julho de 2013, em um julgamento extremamente ágil, o Judiciário sergipano já condenava o jornalista a mais de sete meses de prisão.

A partir da defesa integral da liberdade de expressão, o caso começou a ganhar uma repercussão nacional e internacional, inclusive com uma denúncia formalizada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), em outubro de 2013.

No entanto, mesmo com toda pressão exercida em torno do caso, em mais uma posição refratária do Poder Judiciário brasileiro, o recurso impetrado no Supremo Tribunal Federal com o pedido de revisão da condenação em solo sergipano foi negado, no dia 15 de agosto, sem sequer ter o seu mérito julgado.

Texto e imagem reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br

40, ou 41 anos, com Thais Bezerra

Foto: (Reprodução/SOMESE)

Publicado originalmente no site Alô News, em 01 de outubro de 2018

40, ou 41 anos, com Thais Bezerra

Por Ivan Valença

Como o faz anualmente nos últimos quarenta anos, Thais Bezerra, a nossa mais notável colunista social, fez circular o seu caderno especial, recheado com informações preciosas do “high so” sergipano, chistes e comentários muito bem colocados. Não à toa, Thais é uma das rainhas do jornalismo local, sem ninguém a ameaçar-lhe o trono. É bom destacar que os 40 anos que ela comemora agora não são os de jornalismo dela, mas de sua passagem pelo “Jornal da Cidade”, casa que a abriga desde 1978 quando se transferiu de mala e cuia para o jornal então dirigido pelo saudoso Antônio Carlos Franco.         

De fato, Thais Bezerra começou um pouco antes, talvez em 1977, na extinta “Gazeta de Sergipe”, o oráculo de Orlando Dantas de cuja equipe fiz parte a partir de 1958, com quatorze anos de idade. Naquela época eu dirigia a redação  e havia lançado um produto novo com vistas a alcançar uma faixa de leitores mais jovem, pois a “Gazeta” estava envelhecendo a olhos vistos. A “Gazetinha” iniciou a busca por uma colunista social que se dispusesse a falar da juventude da cidade.

Fui então fazer uma reportagem (o repórter designado, Nilson Socorro, não pode ir) sobre o lançamento de uma prancha em fibra de vidro, no Iate Clube de Aracaju. Quatro belas jovens estavam por lá para testar o novo modelo. Entre elas, uma me chamou a atenção não só pela beleza como pela desenvoltura.  De mim para mim mesmo, cheguei a conclusão imediata que ela era a garota ideal para o que eu precisava. Chamava-se Thais Bezerra, era filha de seu Álvaro Bezerra, do Banco do Brasil, e d. Juju. Como não pude falar com ela naquele dia, tão logo cheguei em casa liguei para Jorge Lins, também colaborador da “Gazeta”, para que providenciasse3 um encontro meu com ela. O que foi concretizado dois dias depois. Feito o convite, Thais Bezerra estreou no  domingo seguinte, com a “Gazetinha” acrescentando um “Gente Jovem” à sua denominação.

Já na primeira coluna, todos nós da “Gazeta” sentíamos que ali estava uma colunista social perfeita. E não deu outra: foi um sucesso imediato. Mas, que durou pouco, menos de um ano: Antônio Carlos Franco  tirou-a da gente, oferecendo-lhe uma enormidade de vantagens. Incluindo um caderno, aos moldes da “Gazetinha” com o seu nome. Lá se vão quarenta anos dessa história que só me traz orgulho. Afinal não é todo dia que se descobre uma Thais Bezerra para a vida profissional do jornalismo.

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Entrevista com o escritor e jornalista Sérgio Augusto


Publicado originalmente no site SESC S. Paulo, em 01/12/2012

Sérgio Augusto

Com profícua carreira no jornalismo, Sérgio Augusto fez parte das redações mais importantes do país. O início se deu em 1960, quando foi crítico de cinema do jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. Atuou nas diferentes frentes do jornalismo, sendo repórter, redator e editor no Correio da Manhã, O Pasquim, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, além de ter sido colaborador das revistas Veja, Isto É e Bravo!.

Também atua na vertente literária como escritor e organizador de livros. Publicou um ensaio histórico sobre a chanchada (Este Mundo é um Pandeiro. Companhia das Letras, 1989), uma biografia musical de Tom Jobim (Cancioneiro Jobim. Casa da Palavra, 2000), uma história do Botafogo (Entre o Céu e o Inferno. Ediouro, 2004), duas coletâneas de ensaios (Lado B. Record, 2001, e Penas do Ofício. Agir, 2007), organizou e traduziu uma série de cartuns da revista The New Yorker (Desiderata, 2009), e um guia de viagem pela Paris da Geração Perdida (E foram Todos para Paris. Casa da Palavra, 2011).

Atualmente é colunista do jornal O Estado de S. Paulo, nos cadernos Sabático e Aliás. Nesta entrevista para a Revista E, Sérgio Augusto analisa, entre outros assuntos, a posição do jornalismo cultural na imprensa. “Podemos dizer que o jornalismo está curvado à indústria cultural”, diz. “Sem considerar a internet e as inovações tecnológicas, porque antes disso já estava sentindo esse direcionamento do jornalismo cultural para um jornalismo de serviço. Mas só isso é muito pouco, é uma coisa danosa.” Acompanhe os principais trechos.

Tendo em vista a sua experiência como jornalista, o que você acha das mudanças que ocorreram na imprensa do Pasquim, para o qual você colaborou, até os dias atuais?

Podemos dizer que o jornalismo está curvado à indústria cultural. Sem considerar a internet e as inovações tecnológicas, porque antes disso já estava sentindo esse direcionamento do jornalismo cultural para um jornalismo de serviço. Mas só isso é muito pouco, é uma coisa danosa. Esse era um assunto que eu abordava com frequência quando era colunista da revista Bravo!.

O jornalismo cultural calcado no serviço está ultrapassado?

Sim, o caminho é o jornalismo analítico que esteja disponível online também. Se eu, escrevendo um artigo sobre os filmes do Eduardo Coutinho, posso fazer referências a outros filmes por meio de links, clicar e me informar sobre eles, essa é uma possibilidade extraordinária da internet que antes não existia.

A que se deve essa submissão à indústria cultural?

À força da indústria e à preguiça de alguns jornalistas. Falta preparo e discernimento em algumas redações. Por exemplo, quando morre um escritor ou um diretor de cinema. Um caso recente foi quando morreu Gore Vidal [escritor norte-americano, 1925-2012], a chamada de um portal de notícias era: Morreu Gore Vidal, roteirista do filme Calígula. Reduzir o Gore Vidal ao roteiro de um filme, que, aliás, ele repudiava, é falta de informação. Falhas desse tipo acontecem com frequência.

Que fatores conduziram a essa situação?

Acho que é um problema de formação do jornalista e das escolas de má qualidade, tanto nos anos iniciais quanto no [nível] superior. Quando comecei minha carreira, com 18 anos, no jornal Correio da Manhã, na sala ao lado eu encontrava Carlos Heitor Cony [escritor e colunista], Otto Maria Carpeaux [ensaísta e crítico literário, 1900-1978], uma fauna poderosa, e com eles aprendi muito. Sinto falta desse convívio, dessa troca de aprendizado, na imprensa de hoje.

É comum que os jornais e revistas chamem os mesmos artistas para opinar sobre diferentes assuntos. O que acha dessa postura da imprensa?

Acho irresponsável. Nesse caso o Caetano Veloso sempre é citado. Os jornalistas pedem opinião sobre qualquer assunto e ele mesmo brinca com isso, mas não resiste em comentar. Felizmente ele é um cara inteligente e sensível, por isso é tão solicitado.

A situação acontece mais pela vontade do editor ou do próprio artista?

O editor tem culpa, pois as pautas giram em torno desse universo, das mesmas fontes. Antes existia o papel do divulgador, que ficava ali roendo as unhas para que o jornal publicasse uma matéria favorável a um filme, por exemplo. Hoje o jogo se inverteu. Não que fosse maravilhoso quando o jornalista ficava nessa tensão, mas eu não quero ser o dono da verdade quando escrevo um texto crítico, pois o leitor tem que assistir ao filme para construir sua própria opinião.

Qual a importância do Cinema Novo na cinematografia brasileira?

Muitos criticam o Cinema Novo, mas existia uma cumplicidade enorme, conhecíamos os cineastas, havia um projeto de cinema brasileiro. Não que fôssemos condescendentes, mas víamos com certa simpatia, até reconheço que elogiei demais cineastas que não deveria, mas acho que esses problemas pioraram, pois houve o aumento da produção de filmes. Vivenciei uma época em que tínhamos aquela desculpa da falta de infraestrutura, que já não pode ser usada, porque a TV Globo conseguiu criar uma indústria junto com um mercado de atores e técnicos que puderam continuar trabalhando no país.

Passados vários anos da morte de Glauber Rocha [1939-1981], ele ainda divide opiniões. Alguns o endeusam, outros o acham um baita chato. Qual a relevância da obra produzida por ele?

O Glauber era um grande agitador cultural, um cineasta muito criativo, mas houve uma época complicada. Diziam que ele era muito avançado e que não conseguíamos acompanhar o raciocínio dele, o que pode ser visto com certo exagero. Deus e o Diabo na Terra do Sol tinha uma grandeza, momentos de grandes sacadas, embora seja um filme de quem ainda não sabia filmar direito. Isso me lembra Jean-Luc Godard [cineasta e principal nome da Nouvelle Vague, movimento artístico do cinema francês] do início de carreira, transformando os chamados erros gramaticais em coisas criativas. Ficava um caos visual, uma sensação de alucinação fantástica. Gosto muito de Terra em Transe; é um filme caótico que dribla a censura e aborda o problema da ditadura no Brasil, é muito bem realizado. Gostei muito da fotografia e do aspecto visual de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Glauber estava sempre atrás de projetos irrealistas, o que acabou refletindo em seus filmes. No final da carreira, o cinema dele foi se fechando em vez de se abrir.

Acredita que haja uma condescendência por parte da crítica ao avaliar filmes brasileiros? Não há uma simpatia mais do que explícita no momento da avaliação?

Sim, existe. Também acho que há festivais de cinema demais no país. O insuspeito Bruno Barreto afirma que há diretores demais no Brasil. Estão todos dirigindo, é como escrever livros, todos agora são memorialistas. Quanto mais festival de cinema tem, mais você circula com os cineastas, e a troca de experiências que podia ser ótima, com pessoas pensando e fazendo cinema brasileiro, o que de alguma forma existiu no Cinema Novo, acabou, pois não temos espaço para isso. Há algumas revistas de cinema, mas os jornais não oferecem mais espaço para essa discussão.

Nem no destaque dado às estreias do cinema nos jornais? O que diminuiu foi a qualidade dos textos ou a criticidade?

Não adianta dar espaço se não tem um pensamento crítico que embase o que está escrito, uma reflexão que seja feita sem sombra de corporativismo ou coleguismo. Eu já fiz criticas negativas para filmes do Paulo César Saraceni, Ruy Guerra, Walter Hugo Khouri e eles me trataram normalmente; não porque esperavam que eu elogiasse o próximo, mas porque eram pessoas elegantes, que entendiam que não era nada pessoal. Já outros não, grandes amigos cineastas ficaram bravos comigo devido a críticas que escrevi.

Ainda há espaço para criticar uma obra? Não se caminha para uma grande contemporização?

O problema é quem exerça essa função com qualidade e tenha coragem para dizer que o filme é ruim. Os últimos comentários que li sobre o cinema brasileiro foram de pessoas que não trabalham com crítica de arte, não exercem a crítica militante. Por exemplo, Jean-Claude Bernardet [teórico, crítico e autor de livros sobre cinema], que é uma pessoa amiga do cinema nacional, mencionou em um artigo que o cinema argentino quando acerta é melhor do que brasileiro. Uma afirmação verdadeira para mim também.

E como os argentinos alcançaram essa comentada qualidade cinematográfica?

A cinematografia argentina e a brasileira caminham juntas e têm histórias parecidas. Mesmo sem a ajuda de organizações como a Globo Filmes, por exemplo, conseguiram ter um aparato técnico de alto nível e aliam isso a histórias bem contadas.

A qualidade do trabalho dos roteiristas brasileiros é reconhecida e os mais renomados são disputados no mercado.

Há um problema nessa questão dos roteiros, pois, se por um lado temos roteiros bem elaborados, por outro vemos um mercado que exige repetição de fórmulas. Olhe as produções da Globo Filmes, que são feitas à base de fórmulas, ou seja, basta um filme fazer sucesso para ocorrerem as continuações. O cinema brasileiro está muito parecido com o que já existe na televisão, usando os mesmos atores e reaproveitando as histórias.

Há alguma produção recente que mereça destaque?

Fora os documentários do João Moreira Salles, que são excelentes, gostei dos filmes do Beto Brant, do Cao Hamburger, em especial Quando meus Pais Saíram de Férias. Um que me instigou pela narração foi O Céu de Suely, de Karim Aïnouz. Mas fora os documentários do Eduardo Coutinho e do João Moreira Salles não há nada que tenha me impactado recentemente.

Qual o motivo de os documentaristas brasileiros merecerem toda essa atenção?

Sobretudo o talento, a maneira de narrar a realidade. O Eduardo Coutinho, que, aliás, era um grande crítico de cinema, teve a história do primeiro Cabra Marcado para Morrer, na qual deu a volta por cima. O filme ganhou uma transcendência a partir da proibição, da truculência da ditadura militar. É uma característica da imaginação fértil e da inteligência superior do Coutinho. Ele escolhe um tema e nós pensamos que não poderia ser feito de outra forma, só da maneira que ele fez. Isso caracteriza um grande diretor.

Com a internet, como ficou o seu universo de trabalho, de pesquisa?

Antes eu frequentava bancas de jornal e parecia que estava em uma catedral, olhava e admirava. Hoje eu passo em banca e nem olho, não compro quase mais nada impresso, a não ser as publicações de que eu tenho assinatura, como a New Yorker. A tecnologia facilitou até a vida do meu computador, porque antes eu procurava o arquivo que me interessava, abria uma pastinha, colocava os artigos, transformava em Word. Isso com o tempo vai consumindo o HD, hoje vai tudo para as nuvens, para os bancos de dados.

Há fundamento em afirmar que o jornalismo cultural ficou chato?

Chato, sobretudo porque sem muita imaginação, atrelado demais ao que estão lançando no mercado e à pressão ou à lábia dos divulgadores. Já foi diferente. Houve um tempo em que as capas dos cadernos de cultura ou de variedades guardavam uma diferença entre si, concorriam de forma diferente, não destacavam os mesmos shows, os mesmos filmes, os mesmos livros, como hoje, tediosamente, acontece, como se todos fossem pautados por uma mesma pessoa. Em 1964, quando eu era editor do Segundo Caderno do Correio da Manhã, tendo à minha disposição uma primeira página limpinha, sem publicidade, não pensei duas vezes entre ocupá-la com umas fotos maravilhosas de leões africanos, que acabara de receber, creio que da Magnum, e dar força a um show musical sem pedigree que estava estreando na zona sul do Rio. Distribuí as fotos na página, escrevi um texto sobre a magnificência dos felinos e sua importância na cultura ocidental, e, à guisa de título, declinei a palavra leão em latim (Leo, leonis...) e estampei-a na vertical, no canto da página. Hoje, se eu fizesse isso, seria demitido – ou, no mínimo, tachado de louco pelo editor chefe. A capa com os leões, diga-se, fez o maior sucesso.

O jornalismo feito no Brasil ainda continua com a síndrome do cachorro vira-lata? Tudo que é feito fora do país tem mais destaque do que a produção nacional?

Acho que sim, embora tenha menos do que antigamente. Não tivemos complexo de vira-lata com música brasileira, muito pelo contrário. No caso do cinema, prefiro destacar um bom filme brasileiro do que colocar o filme do Batman na capa, mas quem vai conseguir tirar o Batman da capa do caderno de cultura?

Você passou por momentos capitais no jornalismo. Como foram essas épocas diferentes, com modos diferentes de fazer jornalismo?

Eu era um garoto quando comecei na redação do Correio da Manhã. Era um espaço maravilhoso, tinha circulação nacional, tive a sorte de estar lá. Já O Pasquim, era um prêmio fazê-lo, uma liberdade total. Depois eu o acumulei com o Opinião, que era uma coisa mais séria, diferente, mas enriquecedora. Estava num tripé: a Veja, na qual eu trabalhava com cinema e literatura, o Opinião e O Pasquim, coisas diferentes e que se complementavam. Havia momentos em que eu olhava para o Millôr [Fernandes, jornalista, escritor e cartunista, 1923-2012] e brincava dizendo: “Eu sou mais censurado que você”. Trabalhei muito, mas foi uma coisa tão rica e maravilhosa que repetiria.

Você costuma ler jornal impresso ou na internet? Acompanha as colunas de quais jornalistas?

Impresso, pouca coisa. Costumo ler jornal na internet. Acompanho o Luís Fernando Veríssimo, a Lúcia Guimarães, Milton Hatoum, Humberto Werneck. O engraçado é que eu leio muito mais economia e política do que cultura nas publicações nacionais.

Na sua opinião, quem se destaca na literatura contemporânea brasileira?

Há escritores interessantes, como o Michel Laub. Meus autores brasileiros preferidos são Milton Hatoum e Cristóvão Tezza.

Texto e imagem reproduzidos do site: sescsp.org.br

Sérgio Augusto e o jornalismo cultural


Publicado originalmente no site do  Observatório de Imprensa     

Sérgio Augusto e o jornalismo cultural

"Precisamos democratizar o elitismo"

Por Fabrício Marques *

O jornalista Sérgio Augusto nasceu em 25 de janeiro de 1942, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Publicou sua primeira crítica de cinema, profissionalmente, na Tribuna da Imprensa, em novembro de 1960. Com mais de meio século de atividade como crítico, repórter, redator e editor, participou, não por acaso, dos momentos mais importantes das mais importantes publicações do país, como os jornais Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo,nas revistas O Cruzeiro e Veja e nos semanários alternativosPasquim e Opinião. Não se pode esquecer, ainda, suas colaborações para a Senhor (a revista das revistas),Diner’s e Leia Livros. Desde 1996 escreve para o Estado de S. Paulo.

Em todas essas publicações o jornalista deixou a marca de uma inteligência sofisticada, entendendo a cultura de um modo ampliado, sem que nenhuma fronteira o impeça de falar de livros, filmes, discos, acontecimentos, enfim, tudo aquilo que levou certa vez o poeta Fernando Pessoa a afirmar a necessidade da arte em um mundo civilizado, pois “só a vida não basta”.

Dá prova desse interesse expandido o amplo arco de assuntos que perpassam esta entrevista, feita pore-mail. A maioria das perguntas é motivada pelos ensaios de jornalismo cultural reunidos em Lado B(Record, 2001) e As penas do ofício (Agir, 2006). No primeiro, Sérgio Augusto escolheu textos lançados anteriormente, entre 1997 e 2001, em duas publicações, a — em suas próprias palavras — “séria, chique à beça, mensal e paulista” Bravo!, e a “anárquica, escrachada, semanal e carioca” Bundas. O segundo livro reserva espaço apenas para textos da revista de São Paulo, de 2001 a 2005.

Com exceção de Botafogo – entre o céu e o inferno (Ediouro, 2004), seus outros livros também são voltados para momentos luminosos do universo cultural: Este mundo é um pandeiro (Cia das Letras, 1989),Cancioneiro Jobim (Casa da Palavra, 2000), Cancioneiro Vinicius de Moraes/Orfeu (Jobim Music, 2003) e O Melhor do Pasquim (Desiderata (2006-2009). O mais recente é E foram todos para Paris (Casa da Palavra, 2011).

No final do ano passado você lançou E foram todos para Paris(Casa da Palavra), em torno dos pontos turísticos da capital francesa relacionados à cena artística e cultural. A França exerceu uma influência marcante sobre a cultura brasileira (especialmente a literatura) nas primeiras décadas do século passado. A partir de determinado momento, contudo, a cultura americana se impôs, com sua rica diversidade (negros, judeus, latinos, árabes e orientais), o que prevalece até hoje. Para você, como essas influências afetaram o jornalismo cultural praticado no país?

Sérgio Augusto– No mundo inteiro essas prevalências ocorreram. Na Belle Époque, a cultura francesa ditava as modas, impunha gostos, com mais intensidade em países periféricos como o Brasil. O colonialismo cultural então falava francês. O Rio de Janeiro modernizou-se seguindo paradigmas parisienses. O prefeito Pereira Passos foi o Barão Haussmann carioca. Ele não apenas limpou e saneou a cidade como fez dela uma Paris-sur-Mer, uma miragem de progresso e civilidade. Nossas elites imitavam os franceses—e também os ingleses—em quase tudo: nas escolas, nos clubes fechados, no interesse por corridas de cavalo, as crianças aprendiam francês, às vezes antes mesmo do português, liam livros impressos em Paris, tinham lições de boas maneiras ministradas por governantas inglesas, nossos escritores devoraram a literatura francesa e as publicações culturais e mundanas impressas em Paris.

Nossa ligação com a França e sua cultura vem desde meados do século 16 e atingiu seu ápice com a Inconfidência Mineira, alimentada pelos ideais libertários dos Enciclopedistas franceses, com o Romantismo, o Positivismo, o Modernismo, o Existencialismo, e estendeu-se até a Nouvelle Vague, inspiradora do Cinema Novo. Houve um tempo em que as livrarias, as confeitarias, as casas noturnas e as salas de cinema tinham nomes franceses. Uma de nossas primeiras revistas de cultura, Nytheroy, lançada em 1836, era editada em Paris pelo poeta carioca Gonçalves de Magalhães, Visconde do Araguaia.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a cultura americana, com toda sua modernidade, sua diversidade, seu charme, mais a força econômica do dólar e o status de lingua franca que o inglês adquiriu, ocupou o que lhe parecia de direito após a derrota do nazismo. Os soviéticos também foram fundamentais para a destruição do 3º Reich, mas nunca conseguiram impor sua cultura em escala mundial porque não tinham as mesmas armas de sedução dos americanos. Os russos não tiveram Hollywood, não usufruiram de um melting pot cultural com negros e judeus, não produziram um Cole Porter, um Hemingway, um Armstrong, um Sinatra, uma Marilyn, um Elvis Presley, nem revistas como Time, Esquire e New Yorker, e foi com esses trunfos que os americanos varreram os franceses de nosso horizonte cultural.

O sociólogo Zygmunt Bauman definiu nosso tempo como “inóspito à educação”. Em 2001, ao definir o Brasil como “uma nação de videotas”, você prescreve que, para para compensar essa lavagem cerebral e espiritual imposta pela TV há um caminho: “Educar, inocular ou pelo menos atenuar os efeitos do soma [isto é, o soro da alegria de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley], popularizar outras formas de entretenimento e fontes alternativas de prazer e oxigenação cerebral, e estimular o seu consumo, para que a fleixibilidade mental não seja um privilégio de poucos”. Você arremata com essa frase definitiva: “Precisamos democratizar o elitismo”. Mas, de modo prático, como se pode fazer isso? Já se percebe um movimento das TVs pagas de privilegiar filmes dublados em detrimento do legendado, por exemplo.

S. A. – Na verdade, a única coisa que se democratizou por aqui desde a implantação do Plano Real, e com maior ímpeto a partir do governo Lula, foi o acesso das classes C e D aos bens de consumo cultural. Isso é bom do ponto de vista social e econômico, mas configura uma evolução meramente quantitativa, boa para as vendas e índices de audiência, mas nociva para uma efetiva evolução mental e espíritual da população, na medida em que, para usar uma metáfora gastronômica, a presuntada se impõe ao patê cultural. Chamei atenção para esse pacto faustiano com o mefistófeles do consumismo 15 anos atrás, quando, em plena era FHC, a cultura, já órfã de gênios, emasculada pela supremacia mercadológica e desassistida por uma mídia submissa aos mais rasteiros interesses da indústria cultural, começou a ser amplamente dominada pelo pagode, pela vulgaridade, pela cretinice satisfeita, tendo como paradigmas a Carla Perez e o Tiririca. Só os paradigmas mudaram, substituídos por avatares de igual perfil populista. A TV Globo virou uma Record com mais recursos e mais telespectadores cativos. A ordem, lá e por toda parte, é baixar o nível. A televisão a cabo é uma vergonha, da programação aos pacotes fechados impostos aos clientes, dos intervalos entupidos de comerciais aos filmes dublados, que, em certos dias, tomam conta dos canais. O filme dublado é o suprassumo do nivelamento por baixo, da subserviência ao analfabetismo, do desrespeito à criação alheia—e também, não nos esqueçamos, aos deficientes auditivos.

Muito embora os jornalistas tenham hoje à disposição todo o acervo acumulado em séculos, assistimos a um rebaixamento do nível de conhecimento. Há uma perda de parâmetros, de referências. Quando morreu o diretor John Hughes, um repórter da Folhaclassificou seu filme “Curtindo a vida adoidado” de obra-prima, por exemplo. Como você avalia essa situação? Você mesmo escreveu: “Sou de um tempo em que nenhum repórter, por mais jovem e tímido que fosse, deixaria passar em brancas nuvens tolices ditas hoje impunemente até mesmo de reconhecido valor”. Para exemplificar, você fala do caso de Carlinhos Brown, que numa entrevista recusou-se a reconhecer Mozart como um clássico pelo simples fato de conhecer apenas uma parte de sua obra.

S. A. – É constrangedor. Qualquer filme com mais de 20 anos agora é tachado de “clássico” ou “obra-prima”. Quando, faz tempo, o filme Desirée, o Amor de Napoleão passou pela primeira vez na televisão, o “Caderno B” do Jornal do Brasil referiu-se ao abacaxi como “uma obra-prima com Marlon Brando”. Putz! Nem a mãe de Henry Koster, diretor do filme, o tinha em tão alta conta. Volta e meia, quando morre um figurão do cinema, seus obituários nos agridem com distorcidas observações do gênero, supervalorizando o que nunca teve mérito. Não sei o que é pior, se a reverência descabida, ditada pela ignorância e a insegurança, ou a detonação gratuita, falsamente iconoclasta, de filmes antigos só por serem antigos, também típica das novas gerações. A culpa maior é dos editores que aceitam trabalhar com mão de obra pouco qualificada. O cinema sofre mais por ser a casa-da-mãe-joana das artes ou do entretenimento. Como todo mundo vê filmes desde criancinha, acredita-se que qualquer um esteja apto a criticar um filme. Com a ópera, a música erudita e o balé, o buraco é mais embaixo, os amadores, os curiosos e os aficionados tout court não têm vez.

Carlinhos Brown, numa entrevista à Playboy, disse que se recusava a reconhecer Mozart como um clássico por ter ouvido apenas uma parte de sua obra. Mesmo que só tivesse ouvido duas peças de Mozart na vida, o percussionista baiano não tinha por que submeter um conceito universalmente aceito—Mozart é um clássico—ao arbítrio de sua insuficiente cultura musical.

O advento de sites como o Youtube, que fornece uma infinidade de informação visual disponível a qualquer um que tenha acesso à internet, cria uma nova relação com a memória. Posso ler uma crítica sobre um CD e imediatamente acompanhar essas músicas, saber mais sobre quem a compôs. Hoje é possível acessar o passado de uma maneira sem precedentes. Antes, o passado estava em lugares específicos – bibliotecas, coleções de revistas antigas, microfilme, as informações eram mais difíceis de se conseguir, tal como observa o crítico britânico Simon Reynolds Retromania (faber & faber). Para você, quais as implicações desse acesso facilitado ao passado?

S. A. – Entre outras coisas, a obsolescência de elefantes como eu, que agora também posso me dar ao luxo de não me lembrar de nada que não esteja ao alcance de qualquer um na internet. Passamos a exercitar menos a memória, o que é cômodo mas não é saudável; ganhamos espaço em nossos arquivos “analógicos”, jogando fora recortes e outros papéis que agora são armazenados de maneira mais econômica, e até nas nuvens. Mas a informação pura e simples pouco ou nada vale se você não sabe como utilizá-la, vale dizer, relacioná-la com outras de forma eficaz, inteligente, produtiva. É preciso saber transformar a informação em conhecimento, em saber. O Google, a Wikipédia e o IMDB facilitaram nossa vida, agilizaram nosso trabalho, transformaram qualquer um de nós em sabichão, em polímata, aliviaram a barra dos estudantes (que agora dispõem de cola digital, online), mas, a exemplo da substituição da pena pela máquina de escrever, não melhoraram a qualidade da nossa produção intelectual.

Quando o Chico Buarque lançou seu disco mais recente, falou: “Eu achava que era amado, porque as pessoas iam ao show, me aplaudiam e, na rua, me cumprimentavam. Descobri, na internet, que sou odiado. Agora entendi as regras do jogo”. Quais são as regras do jogo agora, na sua opinião?

S. A. – A internet é um território sem lei, logo sem regras, onde as vaias, os insultos e as bravatas podem se proteger no anonimato, se esconder atrás de pseudônimos. Chico, como todo artista de sucesso, sempre despertou inveja e ressentimentos, só que os invejosos e ressentidos não tinham coragem de extravasar seus baixos sentimentos às escâncaras. Quando passaram a dispor de um dispositivo como a internet, abriu-se a caixa de pandora.

Você trabalhou no Correio da Manhã. Era chegar à redação e deparar-se, em pessoa ou em textos, com Otto Maria Carpeaux, Carlos Heitor Cony, Carlos Drummond de Andrade... Dessa geração, quem você considera importante para sua formação? Vale dizer que você escreveu sobre o Carpeaux chamando-o de nosso “último renascentista”. O poeta Affonso Ávila disse que o Brasil deve ser considerado Antes e Depois de Carpeaux.

S. A. – Faltou acrescentar à lista Antonio Callado, José Lino Grünewald e Antonio Houaiss. Trabalhavam todos numa sala chamada de Petit Trianon, que ficava a uns 3 metros da minha mesa, à direita de quem entrava na redação. Eu não saía de lá. Era um noviço com 19 para 20 anos de idade, imagine o que aquela convivência significou para mim. Meus três ou quatro anos de Correio da Manhã valeram por um curso universitário. Se juntarmos todas as redações de jornal ou revista de hoje ainda ficaremos a anos-luz daquela. A figura mais importante para minha formação, embora não citado por você, foi o crítico de cinema Antonio Moniz Vianna, meu guru desde os 15 anos, quando o li, por acaso, pela primeira vez. Mesmo sem entender a maior parte do que li, dada a minha falta de repertório, fiquei fascinado, e disse para mim mesmo: é isso que eu quero ser na vida. Herdei a coluna do mestre quando ele assumiu a chefia de redação do Correio, e me senti como se sentiria um pároco de aldeia subitamente convidado pelo papa para tomar seu lugar na Santa Sé.

Carpeaux foi a pessoa mais culta que eu conheci e que mais coisas me ensinou. Só não entendia de futebol e música popular. Fazíamos testes de brincadeira, para avaliar sua erudição, e ele passava em todos. Ainda trabalhei com ele, Callado e Houaiss nas enclopédias Barsa e Mirador. Foi uma figura fundamental para o nosso processo civilizatório.

Você foi preso pela ditadura uma vez, em 29 de fevereiro de 1972 (ano bissexto como este agora). Sete anos depois, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por conta de “Mar de lama”, reportagem sobre casos de corrupção no governo Geisel. Você depois descobriu que os órgãos de segurança mantinham um dossiê a seu respeito desde novembro de 1965, quando trabalhava no Jornal do Brasil. Você pode falar um pouco dessa experiência? De que modo ela te afetou (ou não)?

S. A. – Foi chato, mas não tirou sangue. A turma do Pasquim vivia debaixo de censura e sob constante ameaça de uma temporada nos porões da ditadura, e vários de sua equipe original passaram dois meses na cadeia, na Vila Militar, sem uma acusação formal, sem processo. Minha prisão, em fevereiro de 1972, justo no aniversário do Jaguar, resultou de um acúmulo de equívocos e coincidências. Preparávamos uma edição especial sobre Ipanema, Miguel Paiva fora escalado para entrevistar Ricardo Amaral em seu bunkerna Lagoa Rodrigo de Freitas, e Bruno Barreto faria as fotos. Bruno, estagiando como fotógrafo do jornal, tinha só 17 anos. Como fazia um dia lindíssimo e eu, cuidando da edição do número, não tinha nada para fazer naquele início de tarde, resolvi acompanhá-los. Fomos no Opala branco que o Paulo Francis vendera ao jornal antes de se mudar para Nova York, no ano anterior. Miguel Paiva ao volante. Quase no estacionamento da Lagoa, fomos parados por uma blitz. A polícia buscava um Opala branco envolvido num assalto a banco pela manhã, no centro da cidade. Assalto por militantes da luta armada. Talvez nos tivéssemos livrado da blitz se os documentos do carro estivessem no porta-luvas e Miguel não trouxesse em sua bolsa uma carteira falsa de estudante, que usava para pagar meia entrada nos cinemas. Resultado: fomos levados para a 14ª Delegacia, no Leblon, e depois para o DOPS, onde ficamos presos até o fim da noite. Havia no DOPS um dossiê a meu respeito, por ter assinado um manifesto contra a prisão dos “18 do Glória”, em 1965, mediado um debate sobre o filme Terra em Transe, no Museu da Imagem e do Som, em 1967, e constar da caderneta de endereços do Fernando Gabeira, que havia sido meu colega no Jornal do Brasil, participara do tal debate sobre o filme do Glauber, e, last but not least, ajudara a raptar o embaixador americano. Por uns tempos precisei da autorização da Polícia Federal para viajar ao exterior. O enquadramento na Lei de Segurança Nacional me levou a um tribunal militar, mas afinal não deu em nada. O veredito demorou tanto a sair que acabei beneficiado pela Lei da Anistia. Resumindo: sofri apenas apreensão e constrangimentos durante a ditadura. Ali por volta de 1974 era censurado previamente nos três veículos para os quais escrevia: Pasquim, Veja e Opinião. Cheguei a brincar com o Millôr, que escrevia nos dois primeiros, mas não no Opinião: “Sou eu, não você, o jornalista mais censurado do país”.

Em um de seus textos você lembra o coronal Darci Lázaro, que ameaçou: “Se essa história de cultura vai-nos atrapalhar a endireitar o Brasil, vamos acabar com a cultura durante trinta anos”. Qual o tamanho do estrago que o regime militar provocou na cultura brasileira?

S. A. – O estrago foi enorme, como é sabido e está exaustivamente documentado em livros, como também é fato que quando chegamos a 1994 pudemos olhar para trás e dizer: “Já se passaram os 30 anos dados pelo coronel Darcy Lázaro e sua ameaça não se cumpriu”. O único Darcy daquele tempo que entrou, gloriosamente, para a história do Brasil foi o Darcy Ribeiro, odiado por seu xará fardado, que hoje é apenas um estande de tiro em Brasília, preito irrelevante de que só tomei conhecimento consultando o Google.

Escrevendo sobre Art Spiegelman, você lembra que ele levou ao editor da New Yorker, David Remnick, uma série de quadrinhos sobre a experiência de se viver numa cidade ameaçada simultaneamente por Bush e Osama bin Laden (no Brasil, saiu com o título À sombra das torres ausentes, pela Companhia das Letras). Na sequência, Art pediu demissão e publicou a série em outro jornal. A partir desse episódio, pergunto: qual o papel e a importância de um editor quanto aos critérios e valores que norteiam uma publicação? Lembro ainda aquela história do Paulo Francis, que publicou um texto criticando atuação da atriz Tônia Carrero. Depois, afirmou que, se o editor tivesse conversado com ele, talvez não publicasse a crítica.

S. A. – O editor é ou deveria ser o superego de qualquer publicação, seja ele o dono do negócio ou apenas seu mais graduado intermediário. O ideal é que seja o mais capacitado, experiente e sensato da redação ou ao menos dê essa impressão. Afinal, são desses atributos que deriva sua ascendência. David Remnick é um excelente editor mas é difícil julgar se exagerou na dose de cautela ao vetar os quadrinhos do Spiegelman. Todo editor tem seu dia de censor; faz parte da função. No Brasil houve e continua havendo editores que, se trocados pelo contínuo, ninguém notaria a diferença.

O capitalismo global cometeu um erro fatal: modelar as diversas economias mundiais por um único padrão, sem levar em conta suas diferenças econômicas e culturais. Essa é uma avaliação de John Gray, no livro Falso Amanhecer(Ed. Record, no original, “False Dawn”), sobre o qual você escreveu. De que maneira essa estandardização se faz presente no jornalismo cultural praticado no Brasil hoje?

S. A. – Nosso jornalismo cultural já foi um dos melhores da imprensa mundial. Nos anos 80, Matinas Suzuki Jr., que então editava a “Ilustrada”, o caderno cultural e de variedades da Folha de S. Paulo, ousou proclamar essa excelência nas páginas do jornal. O “Caderno B” do Jornal do Brasil, desde que surgiu, no final dos anos 50, até os anos 80, foi um farol de inteligência e inventividade. O mesmo se diga do “Quarto Caderno” do Correio da Manhã, editado pelo Francis na segunda metade dos anos 60. Nas duas últimas décadas, todos os “segundos cadernos” ficaram parecidos, excessivamente caudatários da indústria cultural, como se pautados por uma central de divulgadores. O “Caderno 2” do Estado de S. Paulo é, hoje, uma honrosa exceção. E não sou só eu que assim pensa.

Ao mencionar o Instituto Moreira Sales, com ações no Rio, em São Paulo e em Poços de Caldas, você pergunta: “Quantos institutos e fundações culturais patrocinados por sobrenomes ilustres existem aqui?” Por que os nossos ricos não são como os ricos dos EUA, que fazem filantropia pelo menos para conquistar status?

S. A. – Faltam-lhes tradição nessa forma de acumulação do chamado capital prestígio. A formação socioeconômica do país nos condenou a ter mais empresários e argentários que preferem guardar quadros em cofres e comprar cavalos e jatinhos particulares do que obras de arte para usufruto público. Contam-se nos dedos os que nos legaram coleções, museus, bibliotecas e fundações. Nossas leis de incentivo fiscal, além de recentes em relação às de outros países, nasceram cheias de furos, permitindo que determinadas instituições criassem fundações que funcionam mais como apêndices do departamento de marketing daquelas corporações.

Não mais do que 10 ou 15 gigantes da mídia decidem o que vamos ver e ouvir. São eles que dominam a indústria do entretenimento e da informação. Como resistir à homogeneização cultural?

S. A. – Não sei. Talvez se os editores de jornais e revistas fizessem um pacto para enfrentar juntos a tirania da mesmice, repudiando a homogeneização, alguma mudança poderia ocorrer. Mas isso é umwishful thinking, uma utopia. A concorrência ficou muito acirrada, sempre uma ou mais publicações romperiam o acordo para obter algum tipo de vantagem sobre as demais, e assim iludir-se de que terão mais tempo de vida. Para enfrentar a homogeneização é preciso, antes de mais nada, ter ousadia e condições para ser heterogêneo.

George Orwell cunhou a expressão “Thought Police” (polícia do pensamento), a propósito do controle de ideias nas ditaduras comunistas. Parece que eclodiu uma nova era desse controle, através do “politicamente correto”. Para você, o politicamente correto de hoje têm o mesmo sentido das patrulhas ideológicas dos anos 70?

S. A. – O politicamente correto é o primo rico e estrangeiro da patrulha ideológica; é um fenômeno globalizado, uma pestilência mundial propagada pelos americanos, sem prazo de validade, portanto mais daninho.

Sei que você trabalhou com editor no segundo caderno do Correio da Manhã. Em outra(s) publicação(es) também exerceu esse ofício? Pode falar um pouco dessa experiência? Você se sentia melhor como repórter, ensaísta ou editor?

S. A. – Fui alçado à condição de editor quando o Correio da Manhã passou a ser estrangulado economicamente por ter-se voltado contra o regime militar depois do primeiro Ato Institucional, em 9 de abril de 1964. Só uma situação anômala como aquela pode explicar a entrega do “Segundo Caderno” a um menino de 22 anos de idade e apenas quatro de redação. Foi maravilhoso enquanto durou. Minha liberdade era total. Não havia, naquele tempo, a obrigação de cobrir todos os eventos culturais da cidade; se o show ou o filme estreante era bom, ganhava matéria e crítica; se não era, dava-se outra coisa. Não nos submetíamos à agenda da semana, nem as editoras de livros impunham as datas em que seus grandes lançamentos tinham de ser resenhados, como há tempos acontece. Não havia o servilismo de agora. Até por isso os segundos cadernos dos jornais não pareciam clones ou covers uns dos outros, como os de hoje. Uma vez gastei a primeira página com cinco fotos espetaculares sobre leões na África, sustentadas por um texto meu sobre tudo que sabia e aprendi correndo sobre o rei dos animais, sem exclusão de Androcles e o leão da Metro, claro, e, à falta de um título que me satisfizesse, declinei na vertical o substantivo leão em latim: “Leo, leonis, leoni, leonem, leo, leone”. Fez o maior sucesso, sobretudo pelo inesperado.

Em O frenesi do furo, você afirma que, por volta de 1985, “a Folhadeu ao caderno de cultura o mesmo status jornalístico da política e da economia. Foi sem dúvida um avanço, mas algumas deformações ocorreram. Nenhuma tão desatinada quanto o culto ao furo, à exclusividade” (2000). Você acha que ainda hoje essa seja a principal deformação?

S. A. – Acho. E talvez tenha até piorado. Sei de escritores que morrem de medo que algum jornalão publique uma resenha ou uma matéria, mesmo favoráveis, sobre seu livro, antes dos concorrentes, pois isso, quase certamente, é uma sentença de morte, uma condenação ao silêncio ou, na melhor hipótese, a um cantinho de página.

No Pasquimvocê tinha uma página de crítica da mídia duas vezes por semana. Há um episódio em que, nesta seção, você criticou o próprio jornal e foi demitido. Pode falar sobre isso? O que aconteceu realmente? Qual foi a sua crítica?

S. A. – A página, intitulada “É isso aí”, só saía uma vez por semana porque o Pasquim era um semanário. Tomei as dores do Mino Carta, que, por causa de uma reportagem maldosa do Wagner Carelli sobre a esquerda festiva de Ipanema, publicada na IstoÉ, dirigida pelo Mino, foi ferozmente criticado e gozado noPasquim pelo Ziraldo, pelo Ivan Lessa e não sei mais quem. Ora, se eu criticava o resto da imprensa, por que haveria de livrar a cara do Pasquim? Jaguar me demitiu. Por carta! Alegou que eu “não estava vestindo a camisa” do jornal. Ziraldo alegou que ele, Jaguar, estava de porre quando me demitiu; tentaram voltar atrás, mas não cedi e saí, no final de 1979. Depois fizemos as pazes, mas nunca aceitei voltar ao jornal.

Quando você saiu da Folha, em 1996, o Francis disse que sua saída marcava o fim de uma época do jornalismo cultural. E terminava assim: “Acabou o asfalto”, tal como registrado em entrevista para o livro Pós-tudo, 50 anos de cultura na Ilustrada(Publifolha). Curiosamente, essa sua saída coincide com a ascensão das mídias digitais, possibilitada pelo avanço da internet. Nesses quase quinze anos, quais as principais mudanças que afetaram o jornalismo cultural, em sua opinião?

S. A. – Exagero do Francis. Mas a frase é maravilhosa como epitáfio para o modelo de jornalismo no qual Francis e eu fomos criados. O computador foi, para mim, um bálsamo; a humanidade deveria ter saltado do cinzel direto para o computador sem passar pela máquina de escrever. A internet é um luxo, agiliza o serviço, mas a qualidade do jornalismo cultural não melhorou depois do seu advento. Como podia melhorar com tantos palpiteiros sem qualificação (e sem um superego) online? Se e quando inventarem um programa com várias opções de lead para qualquer texto, a qualidade cairá ainda mais, aí, sim, teremos sacramentado a homogeneização.

Nos jornais impressos europeus e americanos predomina a publicação de suplemento ou revista semanal de cultura. No Brasil, ganhou forma o caderno diário. Por que acha que o modelo americano não vingou aqui?

S. A. – Como gostava de dizer Antonio Houaiss, discrepo. Temos um histórico farto de cadernos culturais: o “Suplemento” do Estado de S. Paulo; o também legendário SDJB (“Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil), que apesar do nome saía aos sábados; o suplemento literário da Tribuna da Imprensa, editado por Mário Faustino; e, mais recentemente, o “Folhetim”, “Mais!”, “Leia Livros”, “Prosa e Verso”, “Sabático”.

Destaco duas observações suas. 1) “Assim como no resto do mundo, temos produzido bons e maus filmes, sendo que os maus continuam sobrepujando os bons, ainda que a nossa crítica especializada, no geral complacente e paternalista, tente nos convencer do contrário”; e 2) “O moderno cinema brasileiro não teria chegado aonde chegou senão fosse a participação ativa, entusiástica e, não raro, benevolente da imprensa, vale dizer, da crítica de 30 e tantos anos atrás [essa escrita em 1998]”. Quero contrapô-las à afirmação de Antoine de Baecque, crítico francês que chefiou os Cahiers du Cinéma: em Cinefilia, ele diz que nunca se escreveu tanto sobre filmes quanto agora, e nem tanta bobagem. Vivemos um momento difícil em relação à crítica de filmes?

S. A. – Fecho inteiramente com de Baecque. Existem hoje milhões de críticos de cinema na internet, muitos até são bons, mas cadê a Pauline Kael, o Jean Douchet da era digital?

Como você mesmo registrou, “as maiores emoções que o cinema já proporcionou ao público ocorreram em 1895 (quando chegou), em 1927 (quando falou) e em 1953 (quando agigantou-se)”. Poderíamos acrescentar aí o uso da cor, em 1935. Você incluiria o 3D como um desses marcos? No lançamento de A Invenção de Hugo Cabret, Scorsese se disse encantado com essa técnica, e criticou o clichê segundo o qual o 3D“só deve ser usado se tiver a ver com a história”. Qual sua opinião a esse respeito?

S. A. – Até prova em contrário, o 3-D é um gimmick perfeitamente dispensável, como o Cinerama. Wim Wenders usou-o inventivamente em Pina, mas gostaria de rever o filme em dimensões normais para testar sua imprescindibilidade. Se de fato veio para ficar, só daqui a alguns anos saberemos. Como o cinema hoje hegemônico é dirigido prioritariamente ao público infanto-juvenil, é provável que fique.

Em 2004, você disse que os documentários têm, “em sua dieta cinematográfica, o mesmo valor que, na alimentar, dá às saladas e legumes cozidos. Sei que fazem bem à saúde – do cinema e da gente – mas é quase por obrigação que deles me sirvo”. Contudo, de lá pra cá o país viu um certo boomdo gênero, com novos filmes de Eduardo Coutinho, o Santiago, do João Moreira Sales... Há alguma razão para que esse tipo de narrativa – que tem um parentesco com o jornalismo, de certa forma – tenha esse destaque?

S. A. – Há. É muito mais fácil rodar um documentário do que fazer um filme narrativo, de ficção. Mas criar um documentário original, com os de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, exige um talento especial, não é para qualquer bico. Ou seja, rodar um documentário ruim é bem mais fácil do que fazer um filme de ficção medíocre.

* Fabrício Marques é jornalista e diretor do SLMG

Texto reproduzido do site: jornalggn.com.br/blog/luisnassif