quinta-feira, 27 de abril de 2017

Morre aos 79 anos, o jornalista Carlos Chagas


Publicado originalmente no site do G1 DF., em 26 de abril de 2017.

Morre aos 79 anos o jornalista, professor e advogado Carlos Chagas

Ele é pai da ex-ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Helena Chagas. Ao G1, filha disse que ele sofreu um aneurisma do coração e descreveu o pai como 'maravilhoso e protetor'.

Por G1 DF.

Morreu nesta quarta-feira (26) o jornalista, professor e advogado Carlos Chagas, pai da ex-ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Helena Chagas. Nascido em Três Pontas, em Minas Gerais, e morador de Brasília, ele iria completar 80 anos no próximo dia 20 de maio.

O velório do jornalista está previsto para as 10h desta quinta (27), na capela 7 do cemitério Campo da Esperança da Asa Sul. O corpo deve ser sepultado às 16h, no mesmo local.

Em uma rede social, a ex-ministra na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff informou a morte do pai. "Amigos, meu pai, jornalista Carlos Chagas, acaba de falecer. Era a melhor pessoa que conheci nesse mundo."

Ao G1, Helena Chagas disse que o pai sofreu um mal súbito por volta das 6h desta quarta. "Ele já andava tendo de um ano para cá alguns problemas circulatórios, teve isquemia sem sequelas. Hoje foi um mal súbito. Entrou na UTI e estourou um aneurisma de aorta. Com isso, sei que ele não sofreu."

Segundo ela, sem saber, o pai "convocou" a família para uma última reunião ainda no hospital.

"Ele deu instruções: 'Tem que pagar meu imposto de renda. O cheque está lá em cima da mesa'. São coisas que uma pessoa diz naturalmente", descreveu Helena Chagas.

Ao descrever o pai como "muito lúcido e muito ativo", Helena diz que a vida dele foi "muito bonita".

"Ele foi um grande jornalista. Um exemplo de seriedade, de amor à notícia, de honestidade. Não só para mim, mas para muitos outros alunos dele da Universidade de Brasília. Sempre com amor à notícia, amor à verdade."

"Agora, falando como filha, posso dizer que meu coração está despedaçado. Ele foi um grande pai, um pai maravilhoso e protetor. Falando como filha, não tenho mais palavras."

Pesar.

Chagas era professor emérito do curso de comunicação da UnB, onde lecionou por 25 anos. Em nota, a direção da Faculdade de Comunicação lamentou a morte.

"Seu trabalho em sala de aula [foi] reconhecido por gerações de estudantes que o elegeram paraninfo e patrono de sucessivas turmas de formandos, e sua atuação profissional [foi] considerada um exemplo de dedicação e de promoção da ética e da liberdade de expressão", diz.

O governador Rodrigo Rollemberg também lamentou a morte e prestou condolências aos familiares. Segundo ele, Carlos Chagas "deixará um vazio difícil de ser preenchido na mídia brasileira".

O presidente Michel Temer emitiu nota em que classifica Chagas como "uma das maiores referências" do jornalismo brasileiro. Segundo o texto, ele "foi intransigente defensor da ética, em sua mais profunda definição" e deixa como legado "o compromisso com a verdade e a sua responsabilidade no trato da notícia".

"Que a sua nobre lembrança conforte seus familiares e nos inspire na reconstrução de um Brasil grande e justo, como o idealizado e defendido por Carlos Chagas", diz Temer na nota de pesar.

Trajetória.

Chagas começou a carreira de jornalista no final do anos 1950, quando ainda cursava direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC). A primeira contratação foi no jornal O Globo, em 1959.

Na década de 1960 trabalhou no palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, como secretário de imprensa do então governador Negrão de Lima, quem conheceu durante coberturas jornalísticas do Partido Social Democrático (PSD).

Chagas também trabalhou no jornal " O Estado de S. Paulo" entre 1972 e 1988, sempre ligado a assuntos políticos. Na televisão, o jornalista foi chefe da "TV Manchete" em Brasília e passou por outros três canais. A última participação como comentarista político foi em dezembro do ano passado.

Durante a ditadura, em 1969, foi nomeado secretário de imprensa de Costa e Silva e escreveu 20 reportagens sobre os acontecimentos políticos da época, todas publicadas no Globo e em "O Estado de S.Paulo".

A série ganhou um Prêmio Esso de Jornalismo e deu origem ao livro “113 dias de angústia” – ambos foram censuradas pelo regime militar. Em 1995, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Chagas também publicou “Resistir é preciso”, uma coletânea de artigos escritos entre 1972 e 1974; “A guerra das estrelas”, de 1985, que aborda as sucessões presidenciais militares; e “Revolução no Planalto”, de 1988, sobre a redemocratização.

Na carreira acadêmica, Chagas foi professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) durante 25 anos. Ele ingressou em 1978 e foi titular das disciplinas “Ética e legislação nos meios de comunicação” e “Problemas sociais e econômicos contemporâneos” na graduação e de “Tópicos especiais” na pós-graduação.

Chagas casou-se com Enila Leite de Freire Chagas, com quem teve duas filhas.

Texto e imagem reproduzidos do site:  g1.globo.com

sexta-feira, 24 de março de 2017

Histórias de Joel Silveira


Foto reproduzida do site: overmund.

Publicado no site Diário Indústria e Comércio, em 20/08/2007.

Histórias de Joel Silveira.

Em fins de 1964, o ex-governador de Sergipe, Seixas Dória, voltou de Fernando de Noronha, para onde havia sido desterrado logo depois de golpe de 64, com Miguel Arraes, Djalma Maranhão, Mário Lima, outros, e lançou no Rio, com um sucesso retumbante (mais de 800 autógrafos), “Eu, réu sem crime”, apresentado pelo também sergipano Joel Silveira.

Na manhã seguinte embarcaram, no Rio, Seixas, Joel, José Aparecido, Oswaldo Peralva e Niomar Moniz Sodré, e foram lançar o livro em Belo Horizonte, na sede da sucursal do “Correio da Manhã”. Mal chegaram, receberam, no Hotel Normandy, a visita de um oficial do Palácio da Liberdade. O governador Magalhães Pinto comunicava que o lançamento do livro estava proibido, “para não perturbar a ordem pública”.

Seixas e Niomar foram ao palácio e disseram ao governador que o livro seria lançado de qualquer jeito, e foi. Só que o primeiro autógrafo foi para a polícia, que chegou, cercou, expulsou todo mundo, televisões, rádios, jornais. O episódio virou um escândalo nacional. Na saída, o grupo ainda foi agredido, a pedradas, pela famosa “falange do general Bragança”.

Neurose.

Dali, seguiram para a casa de Bernardino Machado de Lima, ex-presidente do Partido Socialista Brasileiro em Minas, fraterno amigo de Aparecido. Chegaram, limparam e arrumaram as roupas agredidas, rasgadas, começaram a conversar. Água, cafezinho e um estirado papo mineiro.
Em cima de um móvel, intocada, uma maravilhosa garrafa de uísque 17 anos. Joel Silveira, com a garganta desesperada, olhava, suspirava, bebia o rótulo, mas, sem intimidade, não se aventurava a pedir uma dose.
De repente, uma bomba poderosa, fortíssima, explodiu na varanda, arrebentou vidros, arrombou a janela. Joel voou para a garrafa, chamou Marielza, a dona da casa:
– Minha senhora, tenho neurose de guerra e ela só cura com uísque.
A garrafa morreu em instantes.
Lacerda.
Carlos Lacerda escrevia na “Revista Acadêmica” e Joel em “Diretrizes”. Um dia, Lacerda fez uma proposta a Joel: “Está tudo muito parado, tudo muito morno nesta ditadura aí (a de Vargas). Vamos procurar um assunto e agitar o ambiente. Escolhemos um figurão, um ataca e o outro defende. Dá certo.
– Ótimo, Carlos. Quem?
– O Portinari, por exemplo. Está na crista da onda, com um prestígio enorme e uma obra muito importante. Você escreve um artigo metendo o pau nele, depois eu defendo.
– Está bem, Carlos, mas vamos fazer o contrário. Você ataca o Portinari que eu defendo”.
A imprensa continuou morna.

Peralva.

Oswaldo Peralva era dirigente do Partido Comunista, ficou escandalizado com o Relatório de Kruschev denunciando os crimes de Stalin, não quis mais, saiu, escreveu “O retrato”, um livro corajoso e magistral, e andava muito chateado com a situação toda. Encontrou-se com Lourival Coutinho, conversaram. Lourival contou a Joel:
– Coitado do Peralva. Saiu do PC decepcionado, perdeu os melhores anos da vida dele.
– Avisei a ele. Ele não me ouviu porque não quis. Eu sempre dizia a ele: “Peralva, faça como eu, entre para o Partido Socialista, porque lá você não se ilude mas também não se desilude”.

“Diretrizes”.

Joel, já nos tempos de “Diretrizes”, conquistou a fama de maior repórter do País, porque tratava as coisas cruamente, sem medo e piedade. Começou uma série de reportagens sobre velhos dirigentes políticos. E acabava sempre dando umas bordoadas nos coitados, que saíam mal nas matérias. Um dia foi procurar o velho Antonio Carlos de Andrada, que, depois de governar Minas e presidir a Câmara dos Deputados, foi ser presidente do Banco Lar Brasileiro, durante a ditadura de Vargas.
Mal entrou, Joel levou um susto. O velho Andrada começou a falar de Sergipe, do pai dele, dos amigos dele, da geração dele. Depois, perguntou como iam os livros de Joel, citou um a um, fez comentários, elogiou as crônicas da FEB, na Itália. Joel ficou encantado, fez a entrevista e publicou em “Diretrizes” uma matéria muito simpática sobre o velho Antonio Carlos.
Um amigo, surpreso, perguntou a Antonio Carlos como conseguiu.
– Muito simples. Passarinho que não pode fugir de cobra fica voando em volta. Eu dei um vôo em torno dele, dos livros, ele amansou. Foi só jeito.

O tempo.

Joel viveu (e bebeu) a vida vorazmente. E ainda reclamava: “Uma das coisas mais aborrecidas na velhice é essa história de a hora só ter 30 minutos e o minuto 30 segundos”. Com seu riso sarcástico e sua alma de menino grande, viveu o tempo (88) de nos deixar muitas das mais belas páginas da imprensa brasileira.

Texto reproduzido do site: diarioinduscom.com

Estátua em homenagem ao Pequeno Jornaleiro (RJ)


Um pingo de História...
Por Ancelmo Gois.

A nova geração talvez não dê valor a esta figura emblemática da história da imprensa, o Pequeno Jornaleiro, que por aqui surgiu no fim do século XIX.

Eram, quase sempre, meninos maltrapilhos que gritavam as manchetes dos jornais. A imprensa deve muito a eles.

Texto e imagem reproduzidos do blogs.oglobo.globo.com/ancelmo

segunda-feira, 20 de março de 2017

Jornal "O Capital", de Ilma Fontes

Foto reproduzida do blog: progcultblog.blogspot.com.br

25 Anos do jornal O Capital, editado por Ilma Fontes


Publicado pelo blog Movimento Ativista, em Julho de 2015.

Eduardo Waack escreve sobre os 25 Anos do jornal O Capital, editado por Ilma Fontes.

Ilma Fontes é figura legendária da literatura nacional, da nordestinidade e do jornalismo alternativo. Mulher tão forte quanto bela, partiu corações e fez muitos intelectuais reverem opiniões, embalados pela clareza de sua presença iluminada e rara. Não é figura fácil, defende suas posturas com a mesma firmeza com que acolhe amigos oriundos dos quatro cantos do planeta. Tenho o enorme prazer de conhecê-la há quase 25 anos, quando um dia recebi em minha casa, no final de 1991, um exemplar de O Capital. Meses antes, amigos comuns residentes em Pernambuco lhe entregaram a edição nº 9 de O Boêmio, jornal por mim editado. Era um tempo em que as pessoas se escreviam longas cartas, que o correio postal entregava e eram aguardadas com verdadeira ansiedade. Não havia internet e nem telefones celulares, que diluem os afetos e afastam os seres, dando a falsa impressão que nos une a todos numa aldeia global. O mundo digitalizado sufocou os afetos e esfriou os carinhos. Com o mesmo carinho recebi cada uma das 251 edições de O Capital que Ilma gentilmente me enviou mensalmente.

A alegria contagia toda a família, pois este valente jornal tem lugar cativo em minha residência, em cima do balcão que une a cozinha à sala. Sempre existe um exemplar de O Capital à disposição de quem chega em casa e tê-lo à mostra me faz tanto bem quanto a felicidade de respirar sem precisar pagar. Ler Ilma é saber e sentir que estamos vivos e atuantes. Por suas páginas passaram aplaudidos nomes da cena cultural brasileira e pequenos grandes segredos tornaram-se públicos. Ilma vai até as últimas conseqüências para honrar seus compromissos e posição. Exemplar cronista, ela deixa o nome de Sergipe, e em especial sua querida Aracaju, em evidência no atlas nacional. Lembro-me das colunas de Newman Sucupira e Mano Melo, dos poemas de Ane Walsh, Maria Cristina Gama e Djanira Pio, da fresca elegância de Araripe Coutinho, ousado como o perfume de flores silvestres. 

Lembro-me de Rosemberg Filho e Lapi, viajo com Henry Jaepelt e Márcia Guimarães. E sou leitor assíduo dos 24 Comentários de Jorge Domingos. Ilma é nossa grande mãe, nossa mestra, irmã e musa inspiradora. Aonde ela vai, vamos todos nós. Seus editoriais reunidos são literatura da melhor qualidade. E assim seguimos esta batalha num intenso intercâmbio. Somos resistentes ao ordinário, o que fazemos é cultura popular independente e evolucionária. O destino nos uniu. Como me disse certa vez na Universidade de São Paulo o poeta concretista Augusto de Campos, referindo-se a Haroldo, somos irmãos siamesmos. A primeira edição de nossos jornais foi publicada em 26 de junho de 1991, no mesmo dia mês e ano. O Capital para mim é referência obrigatória, é tendência, vanguarda e história. Ele me guia como um pastor conduz suas ovelhas. Procuro dialogar com O Capital e resolver os enigmas por Ilma propostos. E tenho em mente uma certeza: enquanto existir O Capital e Ilma Fontes, eu sigo editando O Boêmio. Um dia sei que não estaremos mais aqui. Porém, fizemos a nossa parte, estamos fazendo, acertando e errando, da melhor maneira possível. Ilma é a serena lua cheia que cruza os céus da poesia e ilumina os apaixonados na longa noite latino-americana. Ilma Fontes sou eu. Eu sou Ilma Fontes.

Eduardo Waack.

Texto e imagem reproduzidos do blog: movimentoativista.blogspot.com.br

quinta-feira, 16 de março de 2017

Juarez Conrado, jornalista, político e escritor (1931 - 2010)




Juarez Conrado,  jornalista,  político e escritor (1931 - 2010).

“O jornalista Juarez Conrado deixou em Sergipe um legado significativo de compromisso com a memória, com a informação, com a cultura sergipana. Acalentava projetos literários com a mesma seriedade e carinho com que lidava com a notícia, e por isso fez História..." (Marcelo Rangel).

Juarez Conrado nasceu na Bahia, radicado em Aracaju, e pelos serviços prestados a este Estado, foi reconhecido Cidadão Sergipano pela Assembléia Legislativa em título concedido no ano de 1995. Foi diretor da sucursal do jornal A Tarde (BA) em Sergipe e atuou em diversos veículos de comunicação do Estado.

A estréia literária acontece com Sindicato da Morte, pesquisa sobre o banditismo organizado no Nordeste Brasileiro, lançado em 1966. Em seguida, revela-se romancista e lança ‘A Dama da Noite’ e ‘O Último dos Coronéis’. Retoma o jornalismo investigativo no ano de 1983 e lança A Última Semana de Lampião, que foi adaptado para o cinema, num filme de 60 minutos de duração, totalmente gravado em Sergipe, com técnicos e artistas sergipanos.

No ano de 1990, incursa pelas veredas da Prosa e da Poesia e lança ‘O Grande Akuntô’, sobre a escravidão negra no Brasil. A obra foi traduzida para o francês, inglês e yorubá, e lançado simultaneamente na Nigéria, Angola e Zaire.

Juarez Conrado Dantas, faleceu em 25 de outubro de 2010.

Fonte: agencia.se.gov.br

Fotos/Reprodução:
F/1 - reproduzida do site: onordeste.com
F/2/3 - reproduzidas do blogdobrown.wordpress.com

terça-feira, 14 de março de 2017

Jornalista Sergipano, Joel Silveira

Capa do livro - O inverno da Guerra - Editora Objetiva.

Joel Silveira, o jornalista sergipano que cobriu a Segunda Guerra Mundial.

Joel Silveira nasceu no dia 23 de setembro de 1918, na cidade de Lagarto, Sergipe. Morreu no dia 15 de agosto de 2007, na cidade do Rio de Janeiro, vítima de câncer na próstata.

Ficou célebre pela carreira pioneira e pela linguagem ferina. Chamou a atenção de Assis Chateaubriand, então magnata da imprensa brasileira, por causa da ironia de uma reportagem intitulada Eram Assim os Grã-Finos de São Paulo. Apelidado de “víbora” pelo diretor dos Diários Associados, recebeu dele a tarefa mais séria: a de cobrir a participação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. O conflito lhe rendeu material para parte de seus mais de trinta livros. Em sua longa carreira, criticou artistas que outros jornalistas tratavam com veneração, como o cantor João Gilberto e os escritores Oswald e Mário de Andrade.

Além dos livros decorrentes de sua atividade jornalística, escreveu outros quatro de ficção: Dias de Luto (1985), O Dia Em Que o Leão Morreu (1986), Não Foi o Que Você Pediu? (1991) e Os Melhores Contos de Joel Silveira (1998). Em 2003, a mais polêmica reportagem que fez para a revista Diretrizes, abordando os grã-finos de São Paulo, (1946), foi publicada em livro. Para escrever a reportagem, ele ficou uma semana circulando pelos mais badalados salões. Destruiu, sem usar adjetivos, ricos industriais, dondocas, colunistas sociais e playboys, o que gerou um ódio mortal na sociedade paulistana. Por causa da reportagem, foi escorraçado da cidade e voltou corrido para o Rio de Janeiro.

Texto reproduzido do site: tiooda.com.br

Joel Silveira (1918 - 2007)

Foto reproduzida do site: obviousmag.org

Joel Silveira (1918 - 2007).

Joel Silveira nasceu em Aracaju em 23 de setembro de 1918 e se mudou para o Rio de Janeiro em 1937. Ele publicou mais de 40 livros, entre eles, ‘Luta dos pracinhas' (1983), ‘Memórias de alegria' (2001), ‘A camisa do senador' (2000) e ‘Inverno da guerra' (2005), e ganhou o premio ‘Machado de Assis', da Academia Brasileira de Letras, em 1998, pelo conjunto de sua obra.

Como jornalista, Joel Silveira se destacou como correspondente de guerra. Ele também assumiu, por um curto período de tempo, a Secretaria de Estado da Cultura, na administração de Antônio Carlos Valadares. Joel Silveira faleceu no dia 15 de agosto de 2007, na sua casa, em Copacabana, no Rio de Janeiro, aos 88 anos.

Fonte: agencia.se.gov.br

segunda-feira, 13 de março de 2017

A trajetória de Roberto Civita, criador de VEJA



Publicado originalmente no site da revista Veja, em 18 de setembro de 2016.

O dono da banca: a trajetória de Roberto Civita, criador de VEJA.

Com cadência de romance e precisão de reportagem, biografia narra sua inclinação pelo risco, sua ambição de mudar o mundo e seu gosto pelo divertimento

Por Dora Kramer.

A biografia de Roberto Civita, cujo lançamento acontece nesta quarta, às 18h30, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo, não é um livro dirigido a iniciados. Não fala só a quem por vivência ou convivência conheceu a fundo a história do Grupo Abril e/ou a trajetória do brasilo-ítalo-americano que herdou do pai, Victor, uma editora que viria a ser a maior da América Latina.

Em Roberto Civita — O Dono da Banca não faltam atrativos para o leitor amante de um bom enredo: segredos, intrigas, amores, conflitos de família, desentendimentos, traições, brigas de negócios, ressentimentos acumulados, mágoas nunca aplacadas, afeições exacerbadas, prazeres extraordinários e uma leve atmosfera de suspense no relato de altos que muitas vezes precederam baixos com suas respectivas reviravoltas. Movimentos constantes na vida de um editor com gosto especial pela aposta no risco.

O jornalista Carlos Maranhão, um iniciado com mais de quarenta anos de Abril, conta uma história com começo (na Nova York dos anos 1930), meio (a vinda da família Civita para o Brasil, expulsa pelo fascismo italiano) e fim, a morte, aos 76 anos de idade, de um homem cujo objetivo era mudar o mundo. Se possível, divertindo-se ao máximo.

Com cadência de romance, precisão de reportagem e linguagem sem rodeios, Maranhão fala para o grande público, aplicando, assim, um princípio seguido, perseguido e difundido pelo biografado: a excelência de uma publicação está na capacidade de estabelecer conexão com o leitor. É ele o alvo primordial, nunca o anunciante, o governo ou os amigos. Não por diletantismo à deriva, mas por convicta fidelidade ao foco. “Sem anunciantes não há independência, sem independência não há imprensa livre e sem imprensa livre não há democracia”, dizia, deixando subentendido que o pilar dessa equação é a credibilidade com o cidadão que vai à banca (ou compra uma assinatura) em busca de conhecimento de qualidade confiável.

Otimista, dono de si, sedutor, orgulhoso da própria cultura, vaidoso, sem a menor “vocação para coadjuvante”, difícil de aceitar um “não” como resposta, mas refratário a embates diretos, Roberto, Bob, Rob, Robbie, dr. Roberto, RC ou Dé (corruptela de daddy, usada em casa) era movido a paixão. Pelas mulheres, pelo Brasil de adoção e, sobretudo, por sua maior criação: a revista VEJA, personagem de destaque neste relato de êxitos, crises e reveses. Desde o fracasso inicial, em 1968, até o sucesso absoluto, quando viveria trinta anos depois o apogeu editorial e financeiro que antecederia uma grande crise, entre 2011 e 2012.

Dez anos antes, a Abril quase faliu em decorrência da situação econômica aliada a decisões erradas de Roberto, um homem arraigado à comunicação impressa, resistente e algo displicente em relação aos meios eletrônicos (notadamente os digitais), aos quais não dedicaria o mesmo empenho e perspicácia aplicados à editora.

A tentativa de investir em televisão durou pouco e rendeu dívidas astronômicas, além de desavenças e disputas com o Grupo Folha e as Organizações Globo, das quais sairia derrotado. Em compensação, faria história na imprensa com a introdução do conceito de publicações segmentadas (inédito no Brasil dos anos 1960), dirigidas a público de interesse específico, Playboy, Quatro Rodas, as femininas, lideradas por Claudia, e a estrela da companhia, Realidade, lançada em abril de 1966 disposta a produzir grandes, inovadoras, surpreendentes e ousadas reportagens naquele Brasil de ditadura iniciante, recalcitrante à abordagem de determinados temas, e de puritanismo reinante. De onde enfrentaria apreensões desastrosas para sua saúde financeira, não obstante o sucesso de público.

Aos maiores de 60, Carlos Maranhão presenteia ao rememorar detalhes sobre edições marcantes: Pelé com o chapéu alto e peludo (busby) usado pela guarda da rainha da Inglaterra (anfitriã da Copa do Mundo daquele ano), tendo posado 92 vezes para a foto de capa; a rejeição à presença de nossos soldados — “Brasileiros, go home” — como força auxiliar a uma intervenção americana na República Dominicana; “A juventude diante do sexo”, uma pesquisa atrevida para a época; a publicação de uma foto explícita de um bebê nascendo em parto normal; as imagens inéditas de fetos no útero; entrevistas de atrizes nacionais e estrangeiras pregando o amor livre, nome dado então ao sexo casual. Mal comparando, uma espécie de Pasquim em traje a rigor.

Não obstante os percalços, Roberto privilegiava o prazer de realizar as condições que havia imposto ao pai para desistir de uma oferta da Time para trabalhar na sucursal de Tóquio depois de um estágio na revista em Nova York, consequência do bom desempenho nas cadeiras de jornalismo e administração na Universidade da Pensilvânia, uma das três que cursaria nos Estados Unidos.

Com a editora progredindo no Brasil, Victor achou que era hora de o primogênito voltar ao país. “O que você quer fazer, quer mudar o mundo? Pois terá muito mais espaço trabalhando no que é seu”, desafiou. Depois de uma noite insone, Roberto retomou a conversa dizendo ao pai que seu projeto era fazer três revistas: uma semanal de informações, uma de negócios e uma dirigida ao público masculino.

Aceita a proposta, voltou ao Brasil, e em outubro de 1958, aos 22 anos, roupa de americano e sotaque idem, que no decorrer dos anos se tornaria leve, mas não deixaria de ser cuidadosamente cultivado mediante uma constante mistura inglês-­português, entrou no prédio da empresa fundada pelo tio César na Argentina, em 1941, e instalada no centro de São Paulo nove anos depois. Dava, assim, início a 55 anos de materialização de um sonho, a frutificação de uma árvore, não por acaso o logotipo da editora, cujo nome teria razão lógica de ser: abril é mês de primavera no Hemisfério Norte, de onde se originam os Civita, cuja vida vamos conhecer desde o nascimento do avô Carlo, em 1878, na cidade italiana de Reggio Emilia.

O autor aproveita o simbolismo para denominar as quatro grandes divisões do livro, que se inicia com A Árvore Desfolhada I. À primeira cena, com Roberto Civita já inconsciente no hospital, em maio de 2013, quatro dias antes de morrer, segue-­se uma espécie de perfil de apresentação, com um resumo dos meios e modos, hábitos e obsessões, gostos e desgostos do personagem.

A partir daí, o relato é feito em ordem cronológica. A segunda parte, A Árvore Germinada, abrange a mudança da família para os Estados Unidos e as origens da empresa no Brasil, entre 1950 e 1962. A terceira, A Árvore Frutificada, fala sobre o crescimento e a consolidação da editora, suas glórias e fracassos, entre 1965 e 2013, bem como bastidores de embates na empresa por divergência de enfoque jornalístico, estilo de gestão, desavenças em torno do conceito da separação entre Igreja (o editorial) e Estado (o comercial). Ali o leitor terá detalhes sobre a vida familiar de Roberto, sua relação com os três filhos, mulheres e ex-mulheres.

A quarta e última parte antes do epílogo e do posfácio, A Árvore Desfolhada II, retoma o relato, agora pormenorizado, da súbita partida de Roberto Civita em decorrência de uma cirurgia para a colocação de um stent, procedimento tido como relativamente simples. Havia, segundo seus médicos, 2% de risco fatal. O rompimento inesperado de uma aorta, no entanto, o levaria, em 26 de maio de 2013. À sombra de uma árvore frondosa plantada 63 anos antes pelo pai, por ele cultivada com obsessão. Mas, sobretudo, com muito, mas muito divertimento.

Texto e imagens reproduzidos do site: veja.abril.com.br

sábado, 11 de março de 2017

Jornalista sergipano Ancelmo Gois



Publicado originalmente no Blog do Brunet, em 3 de agosto de 2014.

Ancelmo Gois: o menino de Sergipe que virou o maior colunista do país.

Vou publicar aqui (e com certa frequência) textos sobre jornalistas e suas boas histórias. A estreia será com Ancelmo Gois, o colunista do GLOBO, com quem trabalho há uns três anos. Minha ideia inicial era apenas registrar uma história, um grande caso, uma grande cobertura. Mas não deu.

No vídeo abaixo, Ancelmo conta um pouco da trajetória dele no jornalismo, fala sobre o sonho de mudar o mundo, da revelação que fez no “Informe JB” sobre PC Farias e de seu primeiro dia no Jornal do Brasil. Vale a pena assistir.

Sergipano de Frei Paulo, Ancelmo, de 65 anos, começou a trabalhar aos 15 anos na “Gazeta de Sergipe”. Sua primeira função foi arquivar fotos. Entre uma tarefa e outra, corria para ouvir os jornalistas conversando sobre os problemas da cidade. O menino logo se interessou pelos assuntos, principalmente os que envolviam política. A transição do arquivo para a reportagem foi natural, como era antigamente.

Antes mesmo de completar 18 anos, Ancelmo já escrevia a coluna “Reclamações do povo”, que publicava pequenas queixas da população. O trabalho dele era selecionar e reproduzir as cartas enviadas pelos leitores. Como já apresentava talento, o jovem sergipano migrou para a reportagem, e a pequena estrutura da “Gazeta de Sergipe” abriu espaço para que ele fosse testado em outras áreas. Chegou, inclusive, a fazer crítica de cinema.

Em dezembro de 1968, logo após o AI-5, Ancelmo, que participava da luta contra a ditadura, acabou preso e passou o réveillon de 1969 atrás das grades. Quando deixou a cadeia, já não tinha mais o seu emprego na “Gazeta de Sergipe”. Clandestinamente e com apoio do Partido Comunista, ele se exilou em Moscou, na Rússia. Lá ficou mais de um ano.

Na volta, já depois da Copa de 1970, Ancelmo foi morar no Rio de Janeiro. Queria continuar trabalhando como quadro político, mas a pouca grana que recebia na militância o obrigou a procurar emprego. Decidiu voltar ao jornalismo. Bateu na porta do jornalista Maurício Azêdo, que era um quadro do Partido Comunista.

Por indicação dele, Ancelmo começou a fazer freelas em publicações, da editora Abril, sobre trabalhos técnicos, relacionado a metalurgia, siderurgia. Ele, por exemplo, acompanhou, de dentro da Redação, o surgimento da revista “Exame”, uma fusão das antigas publicações da Abril.

AGDe lá, Ancelmo foi para a revista “Veja”, no início dos anos 1980. Foi repórter de economia, subeditor, editor. Em 1986, trocou a “Veja” pelo “Jornal do Brasil”, a convite do amigo Marcos Sá Corrêa. Ancelmo Gois conta ter realizado um sonho ao entrar no “JB” (veja o vídeo). Foi lá que ele engatou a carreira de colunista, ao se tornar titular da “Informe JB”, que na época era a coluna mais importante do país.

Seis anos depois, em 1992, o jornalista voltou para a “Veja”. Dessa vez, como chefe na sucursal da revista no Rio e titular da coluna “Radar”, que estava sendo reformulada.

– Quando eu fui pra lá, fui tocar o projeto da “Radar” com duas páginas. Antes, só tinha uma, e as notas eram mandadas pelos chefes das sucursais – conta.

Nesta segunda passagem, Ancelmo ficou cerca de oito anos. Em 2000, foi para o site Notícias de Opinião (NO). Foram os primeiros passos do jornalismo brasileiro na internet. E, no ano seguinte, assumiu a principal coluna de notícias do jornal O GLOBO, onde está até hoje.

Apesar dos seguidos furos, das grandes revelações e dos inúmeros prêmios, Ancelmo Gois mantém a simplicidade daquele menino de Sergipe. Costuma sempre dizer pra gente:

– Muita gente bate no nosso ombro e diz que fazemos a melhor coluna do país. No dia em que acreditarmos nisso, ficaremos para trás…

Ancelmo Gois é um grande mestre, talhado nas pernas ágeis da notícia.

Texto, fotos e vídeos reproduzidos do blogdobrunet.com.br

Gazeta de Sergipe, de Combativa a Combatido...



Revista Crítica Histórica Ano V, nº 10, dezembro/2014 ISSN 2177-9961.

GAZETA DE SERGIPE: “GAZETA COMBATIVA”? (1959-1968).
Carla Darlem Silva dos Reis51.

Resumo:

Os jornais sergipanos exerceram uma forte influência no que diz respeito ao aprofundamento nas questões sociais e políticas e a Gazeta de Sergipe foi o principal periódico sergipano no período de 1950-2000. Intitulava-se de jornal “combativo”, por conta de seu posicionamento político. Entretanto, após o Golpe Civil-Militar de 1964, o posicionamento do impresso é modificado, passando de combativo a combatido. Esse artigo visa compreender a posição política desse jornal antes e após o golpe, estudando as diferenças e continuidades de sua ideologia, além disso, busca perceber a maneira com a qual o AI-5 e os censores influenciaram na vida dos jornalistas que formavam a redação desse meio de comunicação, tendo como recorte temporal o ano de 1959-1968.


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terça-feira, 7 de março de 2017

O 1º Carnaval de Propriá



O Primeiro Carnaval de Propriá.
Por Gilmar Araujo Gomes.

O Jornal S. Francisco nasceu em Propriá, de propriedade de M. Alves Machado, circulando sempre às sextas-feiras. Seu primeiro exemplar, de onde se extrai essa nota, data de 01 de março de 1889.

Após a Apresentação no Editorial de abertura, o novel jornal indicava seu Programa, onde se lê parte: "O pequeno jornal que se intitula S. Francisco nada tem que ver com com as lutas políticas é absolutamente imparcial, assim como também o é seu proprietário, que, na idade de 37 annos, ainda não filiou-se sob bandeira alguma partidária, unica e simplesmente porque ainda não sentio desejo para isso, e porque ainda não estudou essa vasta sciencia tão necessaria, mas tão desfigurada em nosso imperio.(...)" E continuava afirmando ser um jornal para todos que se dedicava a ser um órgão do povo, literário e recreativo. Nos registros digitalizados apenas as edições do ano 1889 são encontradas.

A pequena nota que o blog JORNAIS ANTIGOS DE SERGIPE resgata hoje traz aquele que pode ser o primeiro registro de comemoração do carnaval em Propriá. Diz o texto:

"Carnaval - Pela primeira vez nesta cidade vai haver depois d’amanhã o brinquedo do Carnaval, promovido por um crescido grupo de pessoas qualificadas, sob a denominação de Club dos Progressistas [trecho inelegível] grupo de Senhoras, ao qual chamarão Club Amavel. Alem da passeiata haverà a noute uma partida. Providencia se para que saia com muito aceio e regularidade, sendo para esperar uma festa que nos deixará gratas recordações."

CARNAVAL. S. Francisco: litterario e recreativo, Propriá/SE, ano 1, n. 1, 01 mar. 1889, p. 3.

Texto e imagens reproduzidos do blog: jornaisantigosdesergipe.blogspot.com.br

domingo, 5 de março de 2017

O jornalista Zeca Déda



Publicado originalmente no Facebook/Amaral Cavalcante, em 4 de setembro de 2017.

O jornalista Zeca Déda
Por Amaral Cavalcante.

Ele publicou no seu jornal - “A Semana”- o meu primeiro poema, “Elegia a Cristina”, dedicado a uma menina fatalmente morta pelo irmão que brincava com uma espingarda. Doloroso poema juvenil, meio que plagiado dos grandes sonetistas que nutriam minha incipiente criatividade numa antologia de cabeceira. Era a coletânea “Os mais Belos poemas de Amor” organizada por J.G. de Araújo Jorge que me fora presenteada, aos 16 anos, por mamãe Corina. Seiscentas páginas contendo os melhores sonetos já escritos, desde Petrarca aos irmãos Campos.

O jornal “A semana” saía aos sábados. Cândida Candhão, a hiper- plus fofoqueira municipal, chegou lá em casa pela manhã com o jornal já recortado, transtornada e tilintando os berloques de ouro 14 nos peitões descomunais: Corina, que coisa linda! E toca a declamar pra mamãe o trágico soneto que o filho dela, eu, tinha publicado no jornal de seu Zeca, sobre a morte da Cristina, filha do prefeito Nelson Pinto.

Mas pensa que foi fácil publicar no “A Semana”? Não com o casmurro Zeca Déda. Ele tinha oficina e escritório na Rua do Comércio, onde se abriam três portas. Minto! Uma delas, a do seu birô de chefe político, estava sempre fechada. Quem quisesse entrar que arrodeasse. Lá dentro, um mundo incompreensível, mas fascinante: caixas tipográficas, a monstruosa prensa manual do arco da velha em seus claps- claps ritimados, uma temerária guilhotina encostada na parede frontal e papéis -muitos papéis - derramados pelo chão.

Eu costumava chegar de mansinho - moleques invisíveis que éramos as crianças do interior, com direito a entrar em qualquer casa e ali ficarmos sem que ninguém se importasse - eu ficava encostado na parede sem ser percebido, vendo aquele homem de faina diferente - o terno cáqui manchado de tinta - a comandar as doidas engrenagens. Ele não me via, nem nunca conversava comigo.

Um dia, cheguei com o poema manuscrito e ele me disse: vou publicar

Conquistar a aprovação daquele monstro sagrado, foi, para o menino encabulado que eu era, o maior incentivo que eu já encontrai na vida; afinal, o jornalista Zeca Déda era a maior expressão cultural que eu conhecia e uma espécie de dignidade moral na minha cidade.

O Grêmio Estudantil “Padre Mário Reis”, do Ginásio Carvalho Neto, promoveu um Júri Simulado sobre Calabar e o Dr. Zeca Déda indicou o filho, Arthur Oscar, recém formado bacharel, como seu opositor na tribuna. Era o velho rábula debicando da Academia.
O evento, promovido pelo Grêmio, deu-se na sede do Caiçara Club e foi um sucesso de público: Zeca Déda acusava o réu com brilhante e convincente oratória justificada na história oficial, aqueles argumentos de traição à Coroa portuguesa difundida nos compêndios escolares; enquanto Arthur Oscar defendia a opção política do Réu pela colonização holandesa.

Durou dois dias o embate entre aqueles titãns da oratória, mas Arthur tornou-se logo o ídolo da meninada descrente da história colegial. Calabar foi absolvido, mas ficou, do episódio, o meu inesquecível encontro com o vigor poético da oratória, com o poder de transformação que ela exerce sobre a imutabilidade das nossas frágeis certezas e com o poder da palavra dita no contexto certo, com entonação precisa e prenha de emoção.

Amaral Cavalcante - 2008.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Amaral Cavalcante.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A importância da mídia impressa


Publicado originalmente no site Cardquali, em 14 de março de 2014.

A importância da mídia impressa
Por Tatiana Apolinário.

Somos feitos de 5 sentidos. Isso faz parte da essência humana e sempre fará.

Sentir, tocar, nos remete ao presente, ao agora. De certa forma é estar com os pés no chão e a mente focada. Estar presente fisicamente na vida das pessoas parece utopia. O relacionamento, as conversas, os olhares não são presenciais, são virtuais. Um simples telefonema hoje é praticamente uma surpresa para parte da população, 100% conectada, o tempo todo. A posição atual do ser humano é com o pescoço para baixo, teclando com amigos, opinando sobre assuntos diversos, compartilhando o que lhe agrada. Dentro e fora de casa o comportamento das pessoas mudou. Mas apesar dessa nova era em que vivemos, práticas tradicionais jamais deixarão de existir. Ao acordar, escovamos os dentes, tomamos café da manhã, ficamos com a família, trabalhamos. O jornal impresso ainda faz parte da manhã da maioria das famílias brasileiras. Este tipo de leitura (e de revistas impressas também), independente da época, ainda está presente em nosso cotidiano. Dificilmente, esta realidade mudará.

Com a popularização da internet e a banalização da informação, nossas mentes (e corpos) são condicionados à rapidez desta informação e a facilidade de encontrá-la.

O crescimento das publicações digitais nos fornece conteúdo mais rápido, porém, muitas vezes, de pouco valor. Todo o processo, da pesquisa do tema ao resultado final parece-me de uma prontidão inquietante. É preciso um feedback mais humano, palpável, tangível. Antes, tínhamos que planejar a ida à biblioteca para mergulhar nos livros e ter uma boa pesquisa em mãos. Hoje, os buscadores online, 24 horas de prontidão, respondem o que você quer saber no exato momento em que digitar o interesse. Qualquer assunto, tema, pesquisa ou informações estão à sua disposição, com a diferença de que alguns dados (e não são poucos) não são verdadeiros e podem comprometer todo o seu projeto. É uma questão muito mais dos profissionais e experts envolvidos na publicação de um livro, revista ou qualquer impresso, que elaboram algo mais aprofundado sobre qualquer tema, do que qualquer indivíduo poder inserir informações na internet sem nenhuma base de estudos. Obviamente, isso faz parte da nossa cultura atual e a população sabe que as referências precisam ser muito bem analisadas na internet. É maravilhoso, com o tempo escasso que temos, podermos contar com um meio tão prático quanto o virtual. Porém, é preciso cuidado quanto a veracidade das informações pesquisadas.

O cheiro do jornal em suas mãos, a beleza da diagramação e brilho das folhas impressas de uma revista tem atualmente ainda mais valor, uma junção de pequenos detalhes com lembranças de uma vida inteira. Até pouco tempo atrás, estas publicações nos traziam as notícias da região, do país e do mundo. Hoje, tudo está a distância de um clique.

Pode-se afirmar, de certo modo, que as publicações impressas são de extrema relevância e inteligência, pois para fazer a impressão, trabalhar na distribuição e procurar anunciantes gasta-se muito dinheiro e precisa valer a pena.

O marketing das empresas está se adaptando as plataformas digitais e off-line. É fato que divulgar seus produtos e serviços na internet tem o custo menor do que fazer a publicação de um anúncio em revista, por exemplo. Mas, para atingir todo o seu público, é fundamental a impressão de materiais como cartão de visita, folder, banners e cartazes. Afinal, é preciso estar presente na vida dos clientes e deixar sua marca fisicamente a cada visita ou exposta no local de trabalho ou em determinado evento. Um bom exemplo da importância do impresso no meio empresarial é a chamada “gestão a vista”, que é praticada pelas maiores empresas do mundo e é uma ação reconhecida por empresários e colaboradores. A “gestão a vista” nada mais é do que tornar as ações da empresa visível para facilitar o acompanhamento de todos. Partindo desse principio, temos tanta informação quando estamos conectados e vidrados na frente do computador ou celular, que toda a praticidade e rapidez desse conteúdo é facilmente esquecido e raramente fixado em nossas mentes. Esta é a metodologia dos impressos: a certeza do palpável, o tangível, da textura, a visibilidade e maior facilidade na memorização do que se lê.

A comunicação e o marketing atual traz a junção perfeita da velocidade com o trivial, da ligeireza com o concreto. Estamos na era digital das empresas, mas que não podemos esquecer do principal auxilio para o impalpável que é a mídia impressa.

Em um meio obcecado pela tecnologia, que dificilmente vivemos sem (fato), é necessário adequar o conteúdo para ambas as plataformas para conseguir atingir todos os públicos e mercados. Basta ter a estratégia e planejamento corretos e obter o máximo de cada um: a rapidez, impessoalidade e praticidade do meio digital com os sentidos humanos à flor da pele das publicações impressas.

Texto e imagem reproduzidos do site: cardquali.com 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Jornal do futuro ou jornal sem futuro?

Imagem simplesmente ilustrativa, reproduzida do site: pesquisamundi.org

2 de julho de 2010.

Jornal do futuro ou jornal sem futuro?
Por Ethevaldo Siqueira.
   
As novas gerações quase não lêem jornais. A tiragem mundial dos periódicos vem caindo continuamente há mais de 20 anos. É possível que, antes de 2030, a maioria dos jornais já tenha migrado para a internet. No futuro, toda informação tende a ser eletrônica ou virtual. O período de transição, que já começamos a viver, deverá ser conturbado sob todos os aspectos.

Essas foram algumas das conclusões que publiquei há dois anos após um debate de que participei com um grupo de cinco jornalistas, profissionais especializados em comunicações e tecnologias digitais – durante o NAB Show, em Las Vegas. Vale a pena rever o assunto e submetê-lo aos internautas deste blog. Em geral, a mídia não discute seus problemas nem seu futuro. Não vejo problemas em fazê-lo aqui.

Vi em um grande diário norte-americano, um gráfico imenso na parede da redação mostrando a queda contínua da circulação dos jornais no mundo, nos últimos 20 anos, com uma projeção da curva descendente que chega ao zero por volta de abril de 2043. Ou seja: nessa data a circulação dos jornais impressos chegará a zero. Sobre o gráfico, uma frase declara de modo categórico: “O jornal está morrendo”. No rodapé do quadro, os jornalistas escreveram: “Mas o jornalismo, não”.

No debate que tenho mantido via internet com os mesmos jornalistas que pensam o futuro da mídia, estamos chegando ao consenso de que o jornal impresso deverá passar por transformações profundas nos próximos 20 ou 30 anos. A pergunta crucial que ninguém consegue responder e que é conhecida de todos os meus colegas: como competir no futuro com a internet, o rádio e a TV, que hoje mesmo já fazem jornalismo eletrônico noticioso em tempo real? A não ser que o jornal impresso do futuro deixe de ser um veículo de notícias, como hoje o conhecemos e mude radicalmente suas funções.

Publicações de nicho

É provável, portanto, que o jornal, como o conhecemos, venha a desaparecer antes de 2030. O maior desafio à sua sobrevivência talvez esteja em seu modelo industrial, ainda dependente de impressão e de uma logística complicada de distribuição domiciliar de centenas de milhares de exemplares aos assinantes ou às bancas. E o mais grave é que esse modelo industrial tem pouca flexibilidade para competir com o jornalismo eletrônico.

Os teóricos e otimistas dizem que o jornal sobreviverá porque poderá optar pela mudança seu enfoque e de conteúdo, podendo transformar-se em publicação de nicho, voltada para públicos específicos, com predominância de matérias e artigos de análise, de opinião, de reflexão, de debate de tendências, de teses mais especializadas. Eu mesmo leria com prazer um jornal de análise econômica. Ou de comportamento da juventude. Ou de debates sobre música. E acho que milhares de pessoas teriam prazer em ler publicações periódicas que debatam seus temas e segmentos preferidos – e que poderão ser tratados pelo jornal de 2030.

O desafio da tecnologia

Algumas mudanças tecnológicas podem postergar o fim dos jornais impressos. Assim, por volta de 2015 ou 2020, os maiores jornais do mundo talvez poderão ter optado pelo formato totalmente virtual – como já sinaliza o jornalismo da internet.

Outros jornais poderão ser impressos na casa do assinante com a tecnologia do papel eletrônico. O leitor selecionará exatamente o que mais lhe interessa para imprimir de forma eletrônica, podendo depois armazenar tudo digitalmente ou apagar pura e simplesmente os textos já lidos e imagens já vistas.

Muitos perguntarão: mas que é papel eletrônico?  De modo simplificado podemos definir papel eletrônico ou tinta eletrônica como tecnologias que buscar imitar o papel convencional com uma impressão eletrônica de textos e imagens, que podem ser apagadas ou alteradas a qualquer momento sem necessidade de se consumir mais papel. Em inglês são utilizadas as expressões electronic papel (e-paper) ou electronic ink (e-ink).

O desafio da velocidade

Por sua natureza industrial, o jornal impresso de hoje não pode competir, em velocidade, com a informação eletrônica e virtual, do rádio, da TV, das novas redes sem fio e, em especial, da internet. Nem haveria sentido em repetir, no dia seguinte, tudo que o cidadão já ouviu no rádio, viu na TV e leu na internet. O espaço em que jornal continua imbatível é o da análise e da interpretação competente dos fatos, de suas causas e conseqüências.

Ao longo do século 20, o jornal sobreviveu mesmo com a chegada de dois grandes concorrentes: o rádio e a televisão. O terceiro e maior desafio, no entanto, veio nos anos 1990, com a internet, que representa ao mesmo tempo uma forte ameaça e uma incrível oportunidade para os jornais.

Vale lembrar, também, que o rádio não matou o jornal. Nem a TV matou o rádio. Não tenho tanta certeza em afirmar que o jornal – como o conhecemos – sobreviverá à  a internet. A não ser que faça profundas reformulações, em seu conteúdo, no enfoque de seus textos, no seu modelo industrial e, em especial, em seu modelo de negócios.

O jornal de 2025

Que reformulações serão essas? Por volta de 2025, o jornal virtual do futuro deverá ter consolidado sete mudanças fundamentais:

1) passar de produto físico a virtual;

2) evoluir de conteúdo predominante noticioso para o de análises, reflexões e discussões de grandes temas de interesse geral;

3) concentrar-se mais na defesa de valores éticos e sociais do que de posições político-ideológicas;

4) elevar sempre os padrões de qualidade de todos os conteúdos e de credibilidade das informações;

5) evoluir do modelo de negócio baseado na publicidade tradicional, para um novo tipo de publicidade, mais próximo do estilo do Google;

6) estimular ao máximo a participação colaborativa do leitor, tanto do cidadão comum como, em particular, de especialistas de alto nível, como na Wikipédia;

7) estar disponível, de forma ubíqua, em qualquer computador, laptop, celular, iPod, iPad, tweeter, e outros dispositivos portáteis.

Convergência total

Do ponto de vista tecnológico, todos os meios de comunicação convergem: jornal, revista, rádio, TV, podcast, blog ou a internet. Conseqüentemente, não há mais sentido em tratá-los como se fossem segmentos autônomos, estanques ou separados.

Essa convergência ou fusão de mídias decorre inexoravelmente do processo de digitalização, que reduz tudo a bits. Nas tecnologias digitais voz, sons, dados, textos, imagens e vídeo – tudo é representado por bits. A esse processo de digitalização se soma uma outra tendência decorrente da própria internet: todas as formas de comunicação já adotam o protocolo IP da internet. Por outras palavras, nos últimos 20 anos o mundo se transformou numa plataforma IP.

Janela para o mundo

Graças a essa convergência, mesmo num país emergente como Brasil, fazemos hoje coisas que eram simplesmente impensáveis em 1990, como acessar, a qualquer instante, de nosso desktop ou laptop, os maiores jornais ou revistas do Brasil e do mundo, emissoras de rádio ou de TV, bancos de dados, enciclopédias, sites de universidades, das maiores e das menores empresas ou do Vaticano.

E, com a mobilidade do celular e de outras redes sem fio, já começamos a dispor desse jornalismo eletrônico nascente, que nos traz informação, opiniões e entretenimento anytime, anywhere. Como negar a realidade e o impacto da convergência de mídias?

O maior desafio desse novo jornalismo virtual e eletrônico parece estar na participação e na interação entre a nova mídia e seu novo público. No conceito do futurólogo e visionário Alvir Toffler, vivemos a era dos prossumers, cidadãos que são produtores e consumidores (producers and consumers) ao mesmo tempo. Um bom exemplo são os “repórteres virtuais”.

O problema é o despreparo da maioria desses prossumers. Sua contribuição, até aqui, não é das melhores. Nossa maior frustração – tanto de jornalistas quanto de leitores –é perceber que a elevada a interatividade deste jornal do futuro muitas vezes se transforma um retrocesso.

Texto reproduzido do site: blogs.estadao.com.br

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A imprensa do arco da velha


Publicado originalmente no Facebook/Amaral Cavalcante, em 17/02/2017.

A imprensa do arco da velha.

O primeiro jornal que eu conheci foi o Jornal “A Semana”, de Simão Dias. Escrito, editado, ilustrado e impresso pelo jornalista Zeca Déda, era produzido no antigo processo tipográfico: cada linha era pacientemente composta com seus respectivos espaços e pontuações, a partir de letras de chumbo separadas por fontes e tamanhos em centenas de escaninhos dispostos em gavetas.

Já em Aracaju, o primeiro jornal onde eu trabalhei foi o “Sergipe Jornal” que fora do Jornalista Paulo Costa e houvera sido comprado por José Carlos Teixeira. Era editado, então, por Edmundo de Paula e composto, ainda, por tipos móveis e impresso numa velha máquina apelidada de “perereca”, zuadenta e estrambólica. O Sergipe Jornal, vendido ao grupo “Diários Associados”, de Assis Chateaubriand, deu lugar ao “Diário de Aracaju”, editado por Raymundo Luiz da Silva e já em processo de linotipia. A máquina Linotipo, inóspita e barulhenta, era como um dragão de sete cabeças vomitando os lingotes de chumbo que, devidamente empilhados, formatavam a página matriz para a impressão do jornal.

A Linotipo

Agora imaginem vocês a Linotipo, um monstrengo de ferro alimentado com chumbo derretido a não sei quantos graus, chiando e bufando fedores num ambiente exíguo e sem ventilação, enquanto movia hastes e alavancas como um transformer louco, para, depois de tanta zuada, cuspir apenas um lingote de letras formando uma frase, na bandeja final. Uma tirinha de chumbo onde se lia: “ na tarde dessa quinta feira o meliante”... O calor era tanto e tão grande o stress nas oficinas que os linotipistas só trabalhavam tungados na cachaça. Os vapores do chumbo abreviaram a vida de muitos deles.

Depois, esses lingotes eram acomodados em uma bandeja de ferro com travas delimitando o espaço da página e, ali, formavam a uma coluna de chumbo com a matéria. Os títulos ainda eram compostos com letras tipográficas e as lustrações, em forma de clichê, gravadas com ácido numa placa de zinco e pregadas depois num suporte de madeira para alcançar a altura dos lingotes. Cada jornal tinha a sua clicheria com fotos das principais autoridades já devidamente montadas, para uso eventual. Era caro produzi-los e não era todo dia que a clicheria dispunha de material para tanto. Assim, eram constantemente usados os mesmos clichês para ilustrar matérias diversas.

Não era raro trocarem-se os clichês, muitos deles meio apagados pelo uso constante. Na Gazeta de Sergipe, certa vez, publicaram o clichê do piedoso arcebispo D. Brandão ilustrando a notícia sobre a fuga de um “perigoso meliante”. O clicherista miope foi demitido.

Pronta a página com os lingotes de chumbo devidamente arrochados e os clichês colocados na altura certa, a tarefa era levar até a Perereca impressora o pesado trambolho, sem o desmanchar. De lá saia o jornal nosso de cada dia.

A modernidade gráfica foi implantada entre nós por Nazário Pimentel e Ivan Valença, no avançado “Jornal da Cidade”, composto em máquina IBM de esfera e impresso em Off-Set.

Amaral Cavalcante - 2004.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Amaral Cavalcante.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Bemvindo Sales de Campos (1928 - 2010)

Foto: César Oliveira.

Publicado originalmente no site Osmário Santos, em 17/05/2010.

Com boas histórias: Bemvindo Sales, um jornalista da pesada.
Por Osmário Santos.

Bemvindo Sales de Campos Neto nasceu em 23 de setembro de 1928, na cidade do Rio de Janeiro, sendo filho de João Sales de Campos e Odete Ferreira Sales.

O pai foi durante muitos anos administrador da mesa redonda da cidade de Estância, fiscal de renda do Estado e fundador do Ipes.

Um homem extraordinário na concepção de Bemvindo, que era compositor, boêmio, poeta, cantor e muito liberal. Um homem, que pela sua veia revolucionária na revolução comandada por Maynard Gomes, foi preso, fugindo posteriormente para o Rio de Janeiro, onde conheceu a sua Odete, vindo da união o carioca, apenas de nascimento, Bemvindo de Sales Campos Neto.

Hoje em vida, o filho aplica a honestidade tão bem passada por memoráveis lições. “Meu filho,
por amor de Deus, não tire um tostão do palácio pra você”.

Por ter sua mãe morta quando tinha um ano de idade, Bemvindo não possui nenhuma lembrança dela.

Um ano após a morte da mãe, veio morar em Aracaju com seus avós, chegando no ano de 1929. Uma infância cheia de peripécias, deliciando-se da brisa do Ivo do Prado, quando morava na fundição, onde hoje é a Capitania dos Portos. Ali tinha duas casinhas iguais e, adiante, tinha uma fundição, onde produzia trabalhos em ferro e bronze para embarcações. Da Capitania dos Portos até o Cotinguiba, naquela época, chamava-se Fundição. De lá até a praia 13 de Julho, chamava-se O Carvão e Praia Formosa.

Na idade de ir para a escola, em vista do casamento do pai, já retornando a Sergipe, sem mais impedimentos políticos, foi morar com ele, na cidade de Estância.

Não se lembra da primeira professora, mas tem grandes recordações da famosa professora Maroca Monteiro, do Colégio Camerino, que recebia em Estância alunos vindos de todo o Estado, por sua capacidade de educadora, dizendo que foi ela responsável por um bem feito curso primário, reforçando no 4º ano, com os ensinamentos da professora Ofenísia Soares Freire, prima de sua madrasta.

Em Aracaju, veio fazer o curso ginasial, estudando três anos no Colégio Tobias Barreto e um ano no Colégio Atheneu Sergipense.

Foi sargento

No Tobias, dirigido pelo professor Zezinho Cardoso, que funcionava em esquema militarizado, foi sargento e rebaixado a cabo quando foi flagrado com a mão na botija. “Uma vez o professor Zezinho me pegou roubando uma manga rosa e daí fiquei como cabo”.

Concluiu o curso ginasial no ano de 1944, indo morar em Propriá junto ao pai, que tinha sido transferido para aquela cidade por motivo de trabalho.

Resolveu deixar os estudos para enfrentar o trabalho, com primeiro emprego na Exatoria, como
ajudante de despachantes. Depois, foi encarando o trabalho numa boa, sempre com o gosto de experimentar algo de novo. Foi representante comercial, vendendo material químico, indo parar no ramo de sal da Usina Mangaba, de Nestor Dantas, irmão de Orlando Dantas. Vendia em Sergipe, Alagoas e Bahia. O sal era transportado por navio e trem.

Vendedor esperto, ainda construiu um depósito em Propriá, dando-se bem até que o Rio Grande do Norte entrou no mercado de sal, acabando com o sal de Sergipe e deixando Bemvindo a ver navios.

Em Propriá, ainda no tempo das vacas gordas, de muito sal, escrevia coisas bonitas para as meninas, até que num certo dia resolveu publicar uma de suas crônicas de amor, que resultou os primeiro trabalho na imprensa de Sergipe, através do Correio de Propriá, um dos jornais mais antigos do interior de Sergipe, que foi fundado por Domúsio de Aquino, famoso político sergipano de Propriá, que foi deputado, sendo um dos republicanos fervorosos. O jornal ainda existe, sendo dirigido por Jaime Laudário, que está velhinho, mas continua firme no jornalismo, lutando e mantendo o jornal. “É um herói”. Saindo do sal foi ser vendedor de Eliezer Góes onde viajou por todo o são Francisco, vendendo perfume e calçados.

Foi escrivão de polícia

Vindo até Aracaju para participar de Congresso Eucarístico, ficou na casa da tia, quando passou a sentir saudades do tempo em que pintava e bordava na cidade. Não resistindo, após o evento religioso, resolveu trabalhar no comércio de Aracaju, conseguindo emprego na maior barbada com a firma Preço Fixo, que funcionava onde hoje é a esquina Ric, na rua Itabaianinha, na função de balconista.

Depois, foi trabalhar na firma J. Carneiro, na rua São Cristóvão, vendendo produtos farmacêuticos. Sempre na procura do melhor, foi ser representante de Hercílio Prado Almeida, chegando tempos depois, na Polícia civil, como ajudante de escrivão, graças ao amigo de Própria, Paulo Xavier de Andrade Moura, que era o chefe de Polícia da época. Dois anos depois chegou em casa com um revólver bonito no quarto. “Meu pai perguntou o que era. Quando disse que era uma arma, ele mandou que eu, imediatamente voltasse para devolve-la e para pedir demissão, pois não queria me ver como pistoleiro, nem como investigador”.

Dos inquéritos em que participou como ajudante de escrivão, não pode deixar de falar aos relacionados com defloramento, por despertar-lhe uma atenção especial. Eu assistia aos exames médicos de defloramento, quando acontecia os exames das meninas que vinham do interior, desvirginadas pelos malandros. O médico fazendo exame, eu aqui olhando e datilografando o que ele ditava (risos). Saindo da Polícia civil, com ajuda do pai, que era amigo do Dr. Marcos Freire de Jesus, um dos grandes administradores de Aracaju, tendo sido presidente da Assembleia Legislativa, governador interino, deputado federal e prefeito de Aracaju, Bemvindo foi nomeado encarregado do expediente da Câmara Municipal de Aracaju, onde fez carreira, saindo como diretor.

Sendo ligado à família Alencar por laços de afetividade, recebeu de Alencar Filho o convite para ser o seu assistente no gabinete do então prefeito Godofredo Diniz Gonçalves. Com o golpe de 64, Alencar saindo do cargo, Bemvindo assume o cargo de gabinete do prefeito, o equivalente hoje a secretário geral da prefeitura. Tempos depois, foi nomeado por Godofredo como secretário de Administração Geral.

Com a posse de Lourival Baptista no governo de Sergipe, não recusou o convite do governador e foi nomeado secretário de imprensa, administrador do Palácio Olímpio Campos, controlador de verbas e assistente técnico do governo. Uma façanha e tanta. Bemvindo, mostrando os dentes e o seu largo sorriso diz: “Exerci quatro cargos e só ganhava por um, por proibição da lei”. Após saída de Lourival do governo, voltou para a Câmara de Vereadores, mas logo foi requisitado pelo Tribunal de Contas. Assim aconteceu por ter feito concurso para escrivão e conquistado o 1º lugar.

Sendo sempre requisitado, foi nomeado secretário de Imprensa de governo José Rollemberg Leite, continuando como assessor de Imprensa do governo Augusto Franco, quando foi aposentado como escrivão efetivo do Tribunal de Contas.

Com João Alves assumindo o governo do Estado, foi nomeado assessor de Imprensa, continuando na função no governo de Antônio Carlos Valadares. No Tribunal de Justiça, também trabalhou como assessor de Imprensa, voltando no segundo governo de João Alves, com a Assessoria de Imprensa, com toda sua experiência de jornalismo no serviço público.

Jornalismo

No Jornalismo, uma outra história, que inicia em Aracaju, no tempo em que trabalhava na Polícia Civil, quando fez amizade com um dos políticos responsáveis por um dos jornais de circulação da época.

Havia aqui três jornais: o do PSD, que era do governo, chamado Diário de Sergipe, o jornal de Paulo Costa, Sergipe Jornal, que era o balanço nem de um lado, nem de outro, pois era imparcial, e existia o jornal da UDN, que era o Correio de Aracaju. “Fui escrever uma coluna no Diário de Sergipe, do PSD, que dei o nome de Chumbo Muído atendendo convite do Dr. Marcos Ferreira de Jesus”.

Atuou no jornal O Nordeste, pertencente a Francisco de Araújo Macêdo, que era presidente do Partido Trabalhista Brasileiro, Sempre com os bolsos limpos, foi escrever a Gazeta Socialista de Orlando Dantas, que tinha sua redação na rua são Vicente. Era o responsável da coluna literária.
Bemvindo conta que na Gazeta Socialista, só escrevia o que era ligado ao partido. Seu Orlando, Antônio Garcia, José Rosa, Hildegardes, Astrogélio Porto, Bandinha, fazendo esporte e outros intelectuais da época.

Convidado por Hugo Costa escreveu no Sergipe Jornal. Sempre cotado, passou pelo jornal da UDN, Correio de Aracaju. Os diretores eram: Fernando Franco e Gilton Garcia. No Correio de Aracaju Bemvindo trabalhou como diretor gerente. O jornal combatia Seixas Dória.

Passagem pelo rádio

Bemvindo também registrou passagem no rádio sergipano, trabalhando como produtor de programas na Rádio Cultura. “Trabalhei uns três anos, tendo produzido vários programas: Radioscope, Arraial da Panelinha, Encantamento e outros que não me lembro mais.

Como secretário de Imprensa foi diretor da Rádio Difusora por algumas vezes, por ocasião das viagens do diretor Santos Santana. Na Revista Alvorada, trabalhou por cinco anos, como diretor cultural. No polimento da memória pela sua passagem em jornais de Aracaju, lembrou-se a tempo de dizer que no seu tempo de estudante, fez o jornal O Imparcial. Já adulto, tentou reeditá-lo e não deu certo. No Tribunal de Justiça, editou três revistas, e era o responsável pelo Diário Oficial do Tribunal. “Hoje não tem, mas na minha época tinha. Saía na primeira página a foto do presidente, dos desembargadores, recebendo autoridades, numa solenidade.

Editou o Álbum de Sergipe nos anos de 89 e 90. Pouca gente em Sergipe conhece. Participou da Revista de Aracaju, que foi editada por ele, Hugo Costa e Santos Santana. Escreveu crônicas na Gazeta de Sergipe, Jornal da Manhã, escrevendo atualmente na Folha da Praia, com muita leveza.
Considera memorável o período em que foi eleito presidente da Associação Sergipana de Imprensa, quando passou a conviver mais com colegas de profissão. Gostou tanto que promete, na saída de Elito Vasconcelos, sair candidato, com força e disposição total.

De feito como jornalista que considera um marco, foi quando fez uma entrevista com o senador Leandro Maciel. Aconteceui em plena revolução, quando todo mundo tinha medo das Forças Armadas, Exército, principalmente. “Perguntei a ele se podia fazer umas perguntas para revista Alvorada. Ele me respondeu: Perfeitamente. Quando perguntei se me respondia tudo que perguntasse, também me respondeu com o seu perfeitamente Aí fiz a entrevista, onde ninguém naquela época respondia nada, pois todo mundo tinha medo. Preparei as perguntas mostrei ao diretor da revista, Hildebrando, o Bandinha, levei e Leandro me respondeu todas. Tinha uma que era a seguinte: O Senhor acha que a revolução já cumpriu o seu papel e que os militares devem voltar aos quartéis? Ele me respondeu: Perfeitamente, é uma boa pergunta, é isso mesmo que eu penso, pois já é tempo dos civis voltarem a tomar conta do Brasil. Isso foi um sucesso na época”.

Cabarés

Na vida noturna de Aracaju, Bemvindo sempre foi bem vindo pelas mulheres, quando era um dos bons dançarinos de tango, dos cabarés de Aracaju. Das mulheres da noite que fizeram sucesso, ele se lembra muito bem: Maria Pernambucana, uma mulher lindíssima, que os homens pagavam rios de dinheiro e ela só iria com quem bem queria. China, uma outra mulher bonita. “Nessa época eu era bonitão e dinheiro era para os bestas, os velhinhos. Comigo a conversa era outra, pois eu ia com muito carinho”.

Uma outra lembrança, vem de uma chácara no bairro Santo Antônio freqüentada pelos homens da alta sociedade sergipana. A chácara era de Agrepino Leite, que construiu uma casa belíssima. Quando ele morreu, os filhos venderam e o seu proprietário alugou a Nelson de Rubina, que fez um senhor cabaré chamado Rancho Alegre. Era um cassino onde só tinha mulheres da Bahia e do Rio de Janeiro.

Família

Casou com Maria Aliamor ribeiro, com mais de 25 anos de união, tendo dois filhos: João Mário e Odete. É avô de dois netos.

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