segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A volta do JB mudará o cenário da imprensa no Rio e no Brasil


A volta do JB mudará o cenário da imprensa no Rio e no Brasil

Por J. Carlos de Assis
Mais importante título da imprensa escrita brasileira, o “Jornal do Brasil” será relançado nos próximos dois meses como jornal impresso depois de vários anos em hibernação. De acordo com Omar Peres, empreendedor conhecido mais como do ramo de restaurantes e que decidiu lançar-se no setor de comunicação, faltam alguns procedimentos jurídicos para desembaraçar  o jornal de suas pendências trabalhistas prévias. Contudo, ele está otimista. Na verdade, está entusiasmado em face da reação favorável ao anúncio da volta.

O empresário não é exatamente um neófito na área de imprensa. Fundou e dirigiu um jornal diário em Juiz de Fora, do qual, aliás, fui colunista. Não deu certo, mas a experiência lhe ensinou por onde não seguir. Lembro-me que Al Neuhart, o audacioso criador do “US Today” no início dos anos 80, experimentou um fracasso retumbante com seu “Florida Today” antes de conquistar o maior sucesso do jornalismo norte-americano desde a consolidação dos até então nunca desafiados jornais de Nova Iorque, de Washington e da Costa Leste.

Acho que o empreendimento de Peres será vitorioso. O relançamento do “Jornal do Brasil” é uma necessidade da democracia brasileira. A chamada grande imprensa escrita, formada pelo Globo, Estadão e Folha de S.Paulo, esgotou a paciência dos leitores brasileiros. Não desempenha o papel normal de jornais enquanto intermediários de notícias. São manipuladores de informação. Seja pelo que escolhem publicar, seja pelo que não publicam, funcionam nas páginas de noticiários como seção opinativa do jornal.

De acordo com Omar, o novo “Jornal do Brasil” procurará ser independente e imparcial na informação e plural na página de opinião, que pretende abrir ao público, notadamente os intelectuais do Rio. Lembrei-lhe a fórmula da “Folha de S. Paulo” em seu período de ascensão nos anos 80: boa parte de sua afirmação entre os grandes jornais se deveu ao fato de ter aberto suas páginas de opinião aos intelectuais paulistas contrários à ditadura, entre os quais se destacava gente como Fernando Henrique e José Serra.

Enquanto a Folha subia no conceito do leitor o JB descambava. Um dos motivos é que a estrutura gráfica do jornal não permitia muitos colaboradores voluntários de fora. Mais do que isso, o jornal perdeu, em fins dos anos 80, seu caráter independente, alinhando-se cada vez mais a um Governo decadente. Já a decadência da Folha nos últimos anos se  deve, em grande parte, à perda de seus colaboradores voluntários e a uma atitude arrogante de sua direção ao acompanhar os concorrentes numa pauta de manipulação da notícia.

Diz-se que a imprensa escrita está condenada a desaparecer. Não acredito nisso. O que vai desaparecer é essa imprensa sórdida brasileira, manipuladora do noticiário, que apenas os ingênuos suportam. Sou um autor frequente de textos para a internet, mas não perco a perspectiva de que a internet é ligeira demais para formar opinião. Ela só é imbatível no campo da notícia curta. Enquanto formador de opinião, o que é imbatível mesmo é o jornal impresso. O sujeito lê, relê, recorta, leva para a casa ou para o trabalho. Fixa conceitos.

A iniciativa de Omar é do interesse nacional tendo em vista a brecha de opinião independente e noticiário imparcial deixada aberta pela chamada grande imprensa atual. O “Jornal do Brasil” vai acrescentar uma peça para formar um quarteto. Em futuro próximo, é possível que nem seja um quarteto. Os três jornais, de tão ruins, estão quebrando. O leitor está perdendo totalmente o interesse neles. Assim como as revistas, só recuperam algum leitor quanto noticiam escândalos reais ou fabricados. Mas mesmo isso acaba cansando.

Contudo, Omar Peres sabe perfeitamente das limitações do jornal imprenso. Ele já não tem um suporte em si mesmo. Precisa, de alguma forma, apoiar-se na internet. Ele deverá fazer isso com o “Jornal do Brasil”. Em todo o caso, espera-se que o Rio volte a ter um grande jornal formador de opinião para concorrer sobretudo com O Globo, atuando numa linha progressista e nacionalista. No Congresso, quando comentei a notícia da volta do JB, a reação foi de entusiasmo. Agora é esperar para ver a materialização do sonho de Omar e do Rio.

Texto e imagens reproduzidos do site: jornalggn.com.br

Hildegard Angel anuncia volta do JB impresso


Publicado originalmente no site da revista FORUM, em 03 de janeiro de 2018  

Hildegard Angel anuncia volta do JB impresso

Primeiro jornal a abandonar a versão impressa e focar apenas no digital, o Jornal do Brasil voltará a circular nas bancas no dia 25 de fevereiro. Hildegard Angel, ex-colunista do JB, comemora: “A volta do Jornal do Brasil impresso é muito mais do que um feito empresarial ou editorial, é um grito de independência do pensamento”

Por Redação

Após mais de 7 anos, o Jornal do Brasil voltará a circular nas bancas. Uma das mais prestigiadas publicações noticiosas do país, o JB deixou de circular em papel em setembro de 2010 e prepara-se para voltar a sua edição impressa em 25 de fevereiro.

Hildegard Angel, jornalista que por anos foi colunista do JB, anunciou a volta da publicação impressa em seu blog com um texto comemorativo. “A volta do Jornal do Brasil impresso é muito mais do que um feito empresarial ou editorial, é um grito de independência do pensamento”.

Confira a íntegra.

Os cariocas inauguram 2018 em contagem regressiva para o novo JB impresso, e o Rio vai bombar mais, muito mais!

O publisher do novo Jornal do Brasil, Catito Peres, realiza um sonho pessoal e o sonho de todo o público que quer consumir um jornalismo imparcial, sem meias verdades, descomprometido, fazendo com que o Estado do Rio de Janeiro retome sua posição de formador de opinião, e não apenas continue mero repetidor de opiniões únicas, que nos são impostas como alternativa indiscutível.

A volta do Jornal do Brasil impresso é muito mais do que um feito empresarial ou editorial, é um grito de independência do pensamento, é a possibilidade de troca de idéias, de análise ampla das questões, que poderão ser apresentadas em sua plenitude, e não pasteurizadas e embaladas ao gosto do produtor, como temos sido obrigados a engolir.

E o Rio vai voltar a amanhecer alegre, colorido, achando graça na vida e nas pequenas coisas. No comportamento do dia a dia. Nas gracinhas, nas carioquices. Bem como vai sentir aquele gostinho na boca do antigo JB, o Jornal do Brasil inteligente e participativo, politicamente atuante e moderno. Neste ano eleitoral: JB tudo a ver!

O Rio anda tão de crista caída, protocolar, desorientado e sem referências, não acham? E a cidade vai rir mais, vai sair mais, dançar mais, frequentar mais, agitar muito mais, se mostrar mais e mais. Vai bombar como há muito tempo não acontece mais.

Com aquela descontração que só quem é carioca de lei e de fé sabe ser e fazer. E o carioca de lei e de fé quem é? É o somatório do Brasil inteiro. O carioca capixaba, o mineiro, o pernambucano, o paraibano, o paulista, o gaúcho, enfim, os cariocas de todos os brasis que formam esse grande caldeirão que borbulha intensamente no dia, na noite, no comércio, na vida cultural, na política, na academia, nos business, na moda do Rio.

Agora é a contagem regressiva até o próximo 25 de fevereiro, quando o Jornal do Brasil saltará do forno do Catito direto para as bancas da cidade, e mais o JB virtual e a TV-JB… e alô, alô, JB impresso, aquele abraço!

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaforum.com.br

'JB' voltará às bancas no tradicional formato standard


Publicado originalmente no site do Jornal do Brasil, em 22/12/2017

Empresário Omar Resende Peres é o novo gestor do 'Jornal do Brasil'

'JB' voltará às bancas no tradicional formato standard

Jornal do Brasil

Publicado desde 2010 apenas na versão digital, o Jornal do Brasil voltará às bancas no seu formato tradicional, standard, no final de fevereiro.

Os planos de revitalização da marca Jornal do Brasil envolvem a reformulação tecnológica do site, com a criação da JB-TV.

O diretor de Redação do Jornal do Brasil será o jornalista Gilberto Menezes Côrtes. Outros grandes nomes do jornalismo carioca e nacional se juntarão à equipe para o retorno do JB ao papel de vanguarda na imprensa brasileira.

Omar Peres tem larga experiência no setor de mídia. Foi dono de uma afiliada da Rede Globo e comandou um jornal em Juiz de Fora.

Texto e imagem reproduzidos do site: jb.com.br

sábado, 6 de janeiro de 2018

Morre o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony

Carlos Heitor Cony em entrevista ao GLOBO, em 2016 - Ana Branco/Agência O Globo

Publicado originalmente no site do jornal O Globo, em 06/01/2018 

Morre o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cony estava internado no Hospital Samaritano, na Zona Sul

Por Bolivar Torres  

RIO - O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony morreu na noite de sexta-feira, aos 91 anos, por volta das 23h. A causa da morte não foi confirmada. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele deixa a viúva Beatriz Lajta e três filhos: Regina, Verônica e André. Cony estava internado no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio. Os familiares ainda não definiram a data e o local do velório e do enterro.

Cony foi o quinto ocupante da cadeira numero 3 da ABL, para a qual foi eleito em março de 2000, sucedendo Herberto Sales. Em sua carreira como escritor, ele recebeu diversas honrarias. Conquistou o Prêmio Jabuti em 1996 pelo romance "Quase Memória". Voltou a vencer o prêmio no ano seguinte, por "A Casa do Poeta Trágico", e em 2000, por "Romance sem Palavras". Também recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra em 1996. Em 1998, recebeu do governo francês a Ordre des Arts et des Lettres. Já como jornalista, iniciou a carreira em 1952, no "Jornal do Brasil" e passou por outras publicações importantes, como "Correio da Manhã" e "Manchete". Atualmente Cony era colunista da "Folha de S. Paulo" e comentarista da rádio CBN.

"Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe”, diz a certa altura o protagonista do romance de estreia de Carlos Heitor Cony, “O ventre” (1958). Aos 32 anos, Cony resumiu nessa frase o ceticismo irônico que o acompanhou por toda a vida. Na juventude, estudou para ser padre, mas abandonou o seminário. Durante a ditadura, como jornalista, escreveu contra o autoritarismo, foi perseguido pelo regime, mas não se furtou a criticar dogmas de esquerda, e por isso foi acusado de alienado. Em seus romances, expressou com uma linguagem seca e por vezes sarcástica suas dúvidas e desencantos sobre a sociedade brasileira e a condição humana.

Nascido em 14 de março de 1926, em Lins de Vasconcelos, subúrbio carioca, Carlos Heitor Cony foi uma criança de poucas palavras. Filho do jornalista e funcionário público Ernesto Cony Filho e Julieta de Moraes Cony, tinha um problema de dicção que o impediu de frequentar a escola regular e aprendeu a ler e escrever com o pai. Aos 11 anos, depois da primeira comunhão na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Mangaratiba, Cony começou a frequentar o Seminário de São José, no Rio Comprido. Dois anos depois, iniciou carreira de seminarista.

A experiência no seminário o marcou para toda a vida. Em entrevista à revista “IstoÉ”, em 1993, afirmou que “a única coisa que eu realmente quis na vida foi ser padre”. O ceticismo, porém, o impediu. O São José foi a grande escola de formação intelectual do escritor. Lá estudou latim, português, grego, francês, italiano, música, matemática, filosofia, psicologia, ética e até cosmologia. Devorador de livros e crítico implacável, definiu assim o abandono da formação para o sacerdócio: “Comecei a duvidar de tudo. Comecei a preferir Santo Agostinho a São Tomás de Aquino. Foi um ponto de atrito, porque toda a filosofia dos seminários, hoje (na época), é tomista. Eu tinha muito mais interesse pessoal na figura de Santo Agostinho, com aquele passado devasso, do que na filosofia angélica. Eu não achava nenhuma graça nele”.

Um ano depois de largar o seminário, em 1946, Cony se inscreveu no curso de Letras Neolatinas da Faculdade Nacional de Filosofia, mas não chegou a concluí-lo. No mesmo ano, começou a colaborar para a imprensa, ajudando o pai no “Jornal do Brasil”. Em 1947, recebeu sua primeira carteira de jornalista como redator da Gazeta de Notícias. Mas sua carreira começaria para valer cinco anos depois, na Rádio Jornal do Brasil. Contudo, não acompanhou o colega Reynaldo Jardim na mudança para o jornal. Jardim, junto com Jânio de Freitas e Odílio Costa Filho foram as cabeças por trás da revolucionária reforma gráfica e editoral do diário, no final dos anos 1950.

Na época, Cony estava decidido a ser escritor. E foi um dos mais prolíficos. Entre 1955 e 1972, publicou nove romances em sequência. O primeiro, “O ventre”, foi inscrito no concurso de literatura patrocinado pela Secretaria de Educação e Cultura em associação com a Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar de ser apontado como o melhor romance, teve negado o Prêmio Manuel Antônio de Almeida por sua visão pessimista e sua linguagem rude. Em apenas nove dias, escreveu “A verdade de cada dia”, inscreveu-se novamente e ganhou o prêmio, em 1956, sob o pseudônimo Isaías Caminha, referência ao escrivão de Lima Barreto. No ano seguinte, venceu novamente o concurso com “Tijolo de segurança”. “Eu não fui o jornalista que se transformou em escritor, fui um escritor que se transformou em jornalista”, disse.

Em 1961, entrou no “Correio da Manhã” e lançou “Informação ao crucificado”, romance em forma de diário sobre um jovem seminarista em crise existencial. Um ano depois, deu início à coluna “Da arte de falar mal” e publicou “Matéria de memória”. Em 1964, mais uma ficção sua é editada, “Antes, o verão”. Considerado pouco politizado por seu pares, antes e depois do golpe militar, Cony foi atacado tanto pela direita quanto pela esquerda, que cobrava engajamento partidário. Ele respondeu em uma de suas crônicas: “Sou inteligente o bastante para não ser de direita, mas muito rebelde para ser de esquerda”. Em outro texto da época, disparou: “No dia em que me der na telha, pegarei no fuzil — e, ainda que não saiba manejá-lo, saberei contra que lado atirar”.

Em seus textos, até 1964, Cony não abordava a política com frequência. Também por isso tentavam rotulá-lo de “alienado”. E o escritor provocava: certa vez, disse que largou no meio o filme “Vidas secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, porque se sentia entendiado ante a visão de uma vaca. Contudo, foi uma das primeiras vozes a se levantar contra o regime militar, com a coluna intitulada “Da salvação da pátria”, em 2 de abril de 1964, apesar da posição de amplo apoio do “Correio da Manhã” ao golpe. Um de seus textos mais duros, “A revolução dos caranguejos”, rendeu ameaças anônimas contra suas filhas e uma operação policial na sua casa, em Copacabana. As crônicas do período foram reunidas no livro “O ato e o fato”, cuja primeira edição foi um sucesso de vendas e esgotou em poucas semanas.

Durante a ditadura, Cony foi preso seis vezes e também enquadrado na Lei de Segurança Nacional pelo então ministro da Guerra, General Costa e Silva (que mais tarde se tornaria presidente). O maior período de detenção foi após a decretação do AI-5, em 1968. A situação ficara insustentável. Cony aproveitou um convite para ser jurado do prêmio Casa de las Americas e viveu quase um ano em Havana. Retornou ao Brasil para assumir um cargo no grupo “Manchete”, a convite de Adolpho Bloch.

“(Adolpho) me ofereceu condições que eu gosto: bom salário, bom ambiente de trabalho. Não me pediu nada em matéria de compromisso ideológico, a não ser que eu compreendesse o desenho da casa. Ofereceu-me, em última análise, uma prisão confortável, com mordomia, podendo viajar e coisa e tal. Prisão por prisão, era melhor que o Batalhão de Guardas”, afirmou em entrevista a revista “Imprensa”, em 1993. Foram mais de 20 anos na Bloch Editores, onde dirigiu as revistas “Ele & Ela” e “Desfile”, além de participar da redação da “Manchete”, onde também foi editor e na qual voltou a publicar crônicas que, apesar dos anos de chumbo, eram plenas de alusões simbólicas à ditadura.

Em 1974, publicou aquele que pretendia que fosse seu último romance, “Pilatos”. Antes, lançara “Balé branco” (1966) e “Pessach: A travessia” (1967), com duras críticas ao Partido Comunista Brasileiro, o que lhe rendeu um boicote do Partidão, além de “Quem matou Vargas”, publicado em capítulos na revista “Manchete”. No entanto, nenhum alcançaria a repercussão de “Pilatos”. “Considero este meu romance definitivo. Depois dele, não tinha mais nada a fazer” disse em entrevista a “Folha de S. Paulo”, em setembro de 2012.

Mas Cony voltou a publicar um livro, por um motivo que pode ter surpreendido os que viam apenas como um cético. No início dos anos 1990, sua cadela Mila ficou doente e ele voltou a escrever “para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos”, como disse ao GLOBO em 2012. O resultado foi “Quase memória”, mescla de ficção e autobiografia em que o narrador parte da descoberta de um envelope com a letra do pai, morto havia dez anos, para fazer uma revisão lírica e afetuosa do passado.

Lançado em 1995, o livro se tornou um grande sucesso, vendendo mais de 400 mil exemplares, e foi adaptado para o cinema em 2015, pelo diretor Ruy Guerra. Cony o definia como “um desabafo” e relegava os romances que publicou depois a um lugar secundário em sua obra, mero resultado de “pressões comerciais”. Mas muitos leitores e críticos saudaram livros como “O piano e a orquestra” (1996), “A casa do poeta trágico” (1997) ou “A tarde da tua ausência” (2003), que colecionaram prêmios. “Quase memória” e “O piano e a orquestra” venceram o Prêmio Jabuti, assim como “Romance sem palavras”, em 2000.Em 1996, Cony também recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra. O último romance do autor, "A morte e a vida" (2007), abordou o polêmico tema da eutanásia.

Enquanto retomava a carreira de romancista, continuava na imprensa. Na década de 1990, após deixar a Bloch, Cony voltou a colaborar com a “Folha”, numa coluna que manteve ativa até a sua morte. Em 2000, foi eleito para a ABL, na vaga de Herberto Sales. Mas várias vezes direcionou sua ironia seca à instituição, que em entrevista recente ao GLOBO chamou de “jardim de infância às avessas”: “No jardim de infância você não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros. Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom, brilhante ou medíocre”.

Em 2004, o escritor foi muito criticado ao ter aprovado o seu direito a uma pensão vitalícia de R$ 23 mil (valores da época) como compensação à sua demissão do “Correio da Manhã”, em 1965, por críticas ao regime militar. Em um texto no site “Observatório da Imprensa”, Cony rebateu dizendo que apresentou um dossiê de mais de 100 páginas para comprovar a perseguição sofrida e que, se estivesse a cargo do postulante decidir o valor, “teria pedido quantia maior”.

Texto e imagem reproduzidos do site: oglobo.globo.com

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Fim de Caros Amigos


Publicação do Editorial da Edição 248, em 14 de dezembro de 2017

Fim de Caros Amigos

É o pior editorial que um jornalista pode escrever: anunciar o fim de um projeto acalentado por 20 anos. A revista Caros Amigos resistiu o quanto pôde, mas não resistiu ao golpe, ao cerco ideológico do governo ilegítimo, ao aprofundamento da crise deste ultraneoliberalismo que pune a nação com vingança, ódio e descaramento institucional contra os avanços e conquistas sociais. Circula esta, sua última edição, também diante de um mercado editorial em profunda transformação, com queda nas vendas em todos os nichos, e o avanço das mídias digitais, dominadas por grandes corporações e assoladas por fake news e ações de rapina ideológica. Mas também é da necessidade de bom jornalismo nesses tempos de “mídias da confusão” e ambiente digital bruto que a editora vai manter o site de Caros Amigos e continuar oferecendo nas bancas republicações de suas edições temáticas, produzidas ao longo dessa jornada.

A última edição de Caros Amigos aproveita para olhar para este contexto da era digital e suas “novidades”. A guerrilha virtual das fake news, robôs e novos hábitos de busca e consumo de informação, como os da plataforma de vídeos YouTube, que cria celebridades de conversas banais e por vezes racistas e discriminatórias e é contudo, sonho de fama das novas gerações. Como questiona o teórico da contemporaneidade Massimo Canevacci, em uma das reportagens, não era pra ser assim — para ele, a era digital cria a “personalidade digital autoritária” de um “fascismo sem controle”.

Esta edição tem ainda a história dos jornais da resistência, publicações que desafiaram ditadores, governos, censura e mesmo o mercado, para manter acesa a chama por um mundo mais justo e plural. E, ainda, artigos sobre a democratização da mídia e análise dos governos petistas e seus laços com projetos neoliberais, seus impactos na geopolítica na América Latina. Além das colunas dos colaboradores, que também se despedem de Caros Amigos, alguns deles, sem falhar em nenhuma das 248 edições. Fique aqui registrada uma profunda admiração e nosso agradecimento. A todos que passaram pelas páginas e redação de Caros Amigos, jornalistas, articulistas, são tantos; aos anunciantes que acreditaram na marca e ajudaram na sobrevivência, FNAE, CNTE, entre outros. Também aos caríssimos e fiéis leitores. Valeu a caminhada!

A revista se vai nesse vendaval de mudanças tecnológicas e seus impactos nas relações sociais, na comunicação de massa, na reorganização das  sociedades e mercado. O site vai manter a chama dessa batalha no ciberespaço selvagem e sempre manipulável das novas plataformas e atores da informação. Embora de outra forma, o sonho continua.

Boa leitura!

Texto e imagem reproduzidos do site: carosamigos.com.br

domingo, 24 de dezembro de 2017

Homenagem à Caros Amigos

A primeira e a última edições de Caros Amigos: o fim de uma era

São Paulo - 15/12/2017

Homenagem à Caros Amigos

Por Haroldo Ceravolo Sereza 

Como foi bacana chegar à banca de jornal e encontrar essa revista grandona, cheia de texto, falando coisas que eram totalmente não ditas nos grandes jornais

Quando surgiu a Caros Amigos, eu achei o nome meio velho, ainda que eu fosse e hoje seja mais ainda um grande admirador do Chico Buarque.

Achava que a revista era confusa, e até me incomodava com certo conservadorismo em colunistas, como Leo Gilson Ribeiro e outros que eram nacionais e populares demais para o meu gosto.

Achava ela incerta, com números incríveis (como o perfil do empreiteiro Cecilio Rego Almeida) e números chatíssimos. Se eu fazia tantas críticas, é porque eu não podia deixar de ler, né? Como foi bacana chegar à banca de jornal e encontrar essa revista grandona, cheia de texto, falando coisas que eram totalmente não ditas nos grandes jornais.

A Caros Amigos foi a revista mãe de todos os projetos jornalísticos independentes que surgiram depois.

A direita tentou com a República, depois Bravo!, depois Primeira Leitura. Apesar de fontes de financiamento muito mais consolidadas, faliram.

À esquerda com a Caros Amigos nos anos 1990, tivemos a Atenção! que durou 13 números. Depois, surgiu a possibilidade de fazer imprensa na internet. E novos projetos surgiram.

Um monte de gente abriu e faliu nesse tempo, com muito, pouco ou nenhum dinheiro. Alguns continuam (vide Cult), e a Caros Amigos se segurou por duas décadas com pouca ou nenhuma publicidade oficial, com pouca ou nenhuma publicidade privada, com e depois sem o Sérgio de Souza, com um posicionamento político bacana, de resistência.

Resistiu até a essa situação em que cada assinatura vendida é um custo a mais, porque o que os leitores estão dispostos a pagar mal cobre a impressão e o envio da revista.

A Caros Amigos deu certo por 20 anos. Parabéns a todo mundo que participou desse projeto. Parabéns mesmo.

Texto e imagens reproduzidos do site: operamundi.uol.com.br

domingo, 17 de dezembro de 2017

Editorial: Jornal da Cidade, 45 anos



Texto publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em 26/02/2016 

EDITORIAL: 45 anos

O JC está comemorando hoje 45 anos, desde aquele distante 1971, quando chegou às bancas pela primeira vez e inaugurou uma nova era na imprensa.

A Aventura Começa. Naquele 26 de fevereiro de 1971, esta era a manchete principal de um novo jornal que chegava às bancas em Aracaju. O JORNAL DA CIDADE inaugurava na imprensa local um novo formato, o tabloide, e como veículo impresso, era apenas uma aventura que tinha que dar certo.

Gestado por dois profissionais competentes nos seus respectivos setores – o publicitário Nazário Ramos Pimentel, dono da agência de publicidade Pimentel Promoções e Publicidade; e Ivan Valença, vindo da “Gazeta de Sergipe” –, o jornal conseguiu, logo nas primeiras semanas, vencer a resistência dos leitores sergipanos, sempre refratário às novidades impressas e tornou-se logo líder de vendas diretas ao consumidor.

Em menos de um ano, o JORNAL DA CIDADE investiu num excelente corpo de repórteres, articulistas, diagramadores (coisa desconhecida até então na imprensa sergipana) e confiou, principalmente, na argúcia dos leitores, sem vincular-se a partido algum, a não ser o “partido do povo sergipano”.

As grandes causas foram defendidas em nossas colunas, porque, de certa forma, era isso o que o povo queria: a defesa dos minérios sergipanos, do petróleo explorado pela Petrobras, a construção de um porto em Sergipe, a melhoria dos fornecimentos de água e energia elétrica, para que as novas indústrias que aqui chegavam pudessem investir com tranquilidade, sem ameaça à falta de insumos básicos.

Em pouco tempo, o JORNAL DA CIDADE já se identificava como o que o povo sergipano queria e, principalmente, era parceiro do desenvolvimento da indústria e do comércio de Sergipe. Tudo isso só melhorou quando o empresário e governador de Sergipe Augusto do Prado Franco comprou o veículo e deu-lhe mais dinamicidade.

Nunca faltou ao JORNAL DA CIDADE a credibilidade que hoje ainda dispõe. As grandes lutas para livrar Sergipe do atraso econômico continuaram e o veículo gozou sempre da preferência popular.

Tanto em seus textos jornalísticos como em suas colunas opinativas, e principalmente nos seus editoriais, o JORNAL DA CIDADE sempre se identificou com o povo e as causas sergipanas. Os interesses de Sergipe e do povo sergipano inspiraram obras primas em suas páginas vibrantes e coloridas pela independência política a qualquer custo.

Ainda na primeira fase do jornal, a independência política foi a tônica predominante. Quando passou às mãos do Dr. Augusto Franco, o jornal ganhou em agilidade. Com o seu filho, Dr. Antônio Carlos Franco, o JORNAL DA CIDADE incorporou a independência como “leit motiv” para continuar a servir o povo sergipano.

Agora, obedecendo a direção dos empresários Marcos Franco e Osvaldo Franco, além da Sra. Tereza Franco, o JORNAL DA CIDADE procura respeitar o dístico do filósofo francês Beaumarchais que há algum tempo ostenta na primeira página deste veículo: “Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero”.

A subserviência passa distante do JORNAL DA CIDADE, que abriga, ainda hoje, os melhores profissionais da imprensa sergipana. Nesta edição, o leitor vai conhecer a história do jornal e quem, afinal, são aqueles que preparam as edições diárias.

Estas se tornam possível com amplo noticiário local, nacional e internacional, graças principalmente ao apoio dos leitores e dos seus familiares. São 45 anos de lutas e, sem falsa modéstia, de vitórias perante leitores qualificados.

Texto reproduzido do site: jornaldacidade.net

sábado, 16 de dezembro de 2017

Ivan Valença, entrevistado por Carlos França



Rádio do TCE, em 15/07/2014

Jornalista Ivan Valença é o entrevistado do Em Tom de Conversa.

"Em tom de Conversa" bate um papo com o jornalista e cinéfilo Ivan Valença.

 Durante 40 minutos Ivan Fala sobre sua história em um Aracaju diferente, a Aracaju dos anos 50 e 60, onde era possível caminhar pelas ruas sem o menor problema, onde as amizades faziam a diferença, conta como se envolveu com o jornalismo ainda criança sob a orientação do jornalista Pascoal Maynard, um dos seus incentivadores.

Foi Ivan que lançou vários jornalistas a exemplo de Ancelmo Góis, nome de renome nacional. 

Na segunda parte da conversa ele fala sobre o amor ao cinema, discorre sobre o cinema de ontem e de hoje, sobre a chegada das locadoras de filmes a Sergipe...

Texto e imagens reproduzidos do site: antigo.tce.se.gov.br

A história do Jornal Gazeta Hoje


A história do Jornal Gazeta Hoje

A história do jornal Gazeta Hoje se confunde com a história da Gazeta de Sergipe, sim, porque os fundadores da Gazeta Hoje são jornalistas remanescentes do periódico jornalístico.

Tudo começou, quando uma crise financeira abalou as estruturas do país no inicio do século XXI. Os veículos de comunicação naquela época sofriam com decadência financeira que assolava o Brasil. Foi muita luta para permanecer vivo um jornal considerado a escola de jornalismo. Boa parte dos grandes jornalistas do estado havia trabalhado na Gazeta de Sergipe do saudoso Orlando Dantas.

Mesmo com a crise o periódico mantinha a prestação de serviços ao público e na defesa de pluralidade de opiniões, sendo uma trincheirado bom jornalismo. As condições em inentemente capitalista não foram superadas e o jornal sucumbiu.

 A suspensão editorial, ou melhor, o fechamento da Gazeta de Sergipe faz parte da preocupação daqueles que são proprietários de empresas de comunicação, principalmente jornal impresso
Para não deixar o nome Gazeta no esquecimento, vários jornalistas juntaram seus conhecimentos e experiência e fundaram a Gazeta Hoje. A partir daí, começa uma nova página do jornalismo sergipano, em pauta um novo jornal, outra Gazeta, agora com nova roupagem, mas mantendo os mesmos parâmetros digamos da mãe Gazeta de Sergipe.

Com a linha do jornalismo de credibilidade, imparcialidade e transparência, e com muita dificuldade mantendo a postura de um jornal sério, compromisso com leitor e a sociedade, o jornal chega aos 10 anos e para comemorar essa data estamos com o jornal online para seguir os avanços da tecnologia da informação.

A Gazeta de Sergipe passou mais de quatro décadas escrevendo a história desde estado, agora é a vez da Gazeta Hoje dar sequência a esse trabalho, ontem hoje e sempre.

*Rubens Barroso

Texto e imagem reproduzidos do site: gazetahoje.com

Os 11 anos do "Jornal do Dia"


Os 11 anos do JD.

Há mais de uma década, com o fechamento da Gazeta de Sergipe, um grupo de jornalistas começou a discutir a viabilidade de criar um novo jornal mediante a lacuna deixada na imprensa escrita de Sergipe com o fechamento do jornal mais tradicional do Estado, fundado por Orlando Dantas.

Foram várias reuniões de viabilidade do novo projeto, que seria um grande desafio para quatro jornalistas: Elenilton Pereira, Gilvan Manoel, André Barros e Rita Oliveira. Isso porque a grande maioria dos veículos de comunicação de Sergipe pertence a grandes empresários e políticos.

O projeto de um jornal diário saiu do papel e tornou-se realidade em 11 de janeiro de 2005. Nas bancas, não faltaram especulações de que o novo jornal era do empresário A, do político B. Poucos acreditavam que o Jornal do Dia era de jornalistas que sonhavam com uma imprensa livre e com compromisso com a verdade.

Com grandes profissionais em seus quadros, muitos oriundos da Gazeta de Sergipe, o jornal vingou mesmo não tendo faltado quem trabalhasse para o seu fechamento. Quem mais atuou nessa direção foram aqueles que estavam no poder quando o jornal dava os primeiros passos com a circulação diária e venda nas bancas.

A ação mesquinha e de quem não aceita uma imprensa livre não prosperou. Neste fim de semana o Jornal do Dia comemora 11 anos de fundado. Ele completa mais um ano vencendo o grande desafio de levar as informações diárias aos seus milhares de leitores com ética, respeito ao cidadão e a própria notícia, sem sensacionalismo.

Todos os dias o Jornal do Dia se encontra nas bancas e nas residências dos assinantes levando a notícia de Sergipe e do país, e as colunas de grandes jornalistas baluartes da imprensa sergipana como Gilvan Manoel e Luiz Eduardo Costa. Assim como a opinião de vários leitores e profissionais renomados.

Com o seu nome consolidado o grande desafio agora do Jornal do Dia é superar essa crise econômica que assola o país e continuar sendo uma opção de leitura diária do povo sergipano.

Se depender da garra do diretor Elenilton Pereira e do editor Gilvan Manoel, que carregam o jornal nas costas, além de todos os que fazem o Jornal do Dia, esse novo desafio será vencido por mais alguns anos.

Texto e imagem reproduzidos do site: politicaemfoco.net.br

Uma análise dos editoriais da Gazeta de Sergipe (1964)

 

Visitando a Imprensa Sergipana: Uma análise dos editoriais da Gazeta de Sergipe durante a Ditadura Militar (1964)

Carla Darlem Silva dos Reis1

Resumo:

A pesquisa analisa os editoriais do jornal Gazeta de Sergipe (GS), para compreender o pensamento político-ideológico do periódico a respeito do golpe civil-militar e entender a relação história-imprensa e repressão em Sergipe no primeiro ano do golpe militar. Para tanto, foram pesquisados, no acervo da Biblioteca Pública Epifânio Dória, os editoriais desse jornal, que versavam sobre a política no ano de 1964. A escolha da GS se deu por esse periódico ser de grande importância na imprensa sergipana e também por conta da dicotomia apresentada por ele. Era um jornal dito de oposição e foi o único, nessa situação, que continuou circulando após o golpe. Para entender quais os motivos que levaram os militares a permitir a circulação desse periódico mesmo durante os anos de chumbo é que esse estudo vem sendo desenvolvido. Sentimos a necessidade de questionar a sua mudança político-ideológica durante o primeiro ano do regime. Para isso foi feito um comparativo entre os editoriais que antecedem o golpe e os posteriores. Quanto à sua estrutura, era um diário de diagramação simples e linguagem direta, com aproximadamente oito páginas. A metodologia desse estudo se construiu através da leitura, catalogação e análise dos editoriais cruzando-os com a produção historiográfica sobre História e Imprensa, História Política e História Cultural, utilizando autores como René Remond, Marialva Barbosa, Roger Chartier, Nelson Werneck Sodré, René Dreifuss, Vamireh Chacon, entre outros, para identificar e discutir os principais temas veiculados por esse jornal de grande expressão na sociedade sergipana. Em uma pesquisa historiográfica se faz essencial à delimitação do espaço temporal. O espaço é o estado de Sergipe, pois naquele ano tínhamos um governador, o senhor Seixas Dória, partidário das causas nacionalistas e que foi preso pelos militares. A necessidade de acompanhar o primeiro ano da repressão militar em Sergipe em um meio de comunicação justifica a delimitação do espaço e do tempo do estudo. De janeiro a dezembro de 1964 é o período trabalhado por apresentar dois extremos. Após a análise observamos dois momentos distintos nesse jornal, antes do golpe (de janeiro a março) o periódico apresentava uma visão política muito forte, mas após 1º de abril os editoriais políticos cessam; de maio a dezembro temos uma coluna (que cumpre o papel do editorial) versando sobre comportamento, moda e beleza. Através dessa análise conseguimos perceber que não apenas o periódico, mas toda a sociedade sergipana sofreu uma repressão expressiva por ter lideranças políticas fortes e a Gazeta de Sergipe, teve que adaptar-se ao novo momento político vivido no país para que assim pudesse continuar circulando. À guisa de conclusão podemos afirmar que fontes, como jornais, se tornam imprescindíveis para a realização de estudos que possuem lacunas como possibilitando-nos esclarecer dúvidas e preencher esses espaços em temas como história e imprensa durante a ditadura militar em Sergipe.
Palavras-chave: Ditadura/Imprensa/Sergipe

INTRODUÇÃO

Esse artigo é parte do Trabalho de Conclusão do curso de licenciatura em História intitulado História da Imprensa em Sergipe: Uma análise dos editoriais da Gazeta de Sergipe (1964-1968) – ainda em fase de desenvolvimento -, pela Universidade Federal de Sergipe, orientado pela profª Drª Célia Costa Cardoso. Utilizando o jornal Gazeta de Sergipe como fonte primária para o desenvolvimento da pesquisa.

A partir de 1930 com o advento da escola dos Annales, o conceito de fonte histórica é modificado e materiais como imagens, cartas e periódicos são elevados à categoria de fonte. Mesmo considerado como fonte, os jornais não ganham credibilidade de imediato, pois alguns historiadores acreditavam que eles “pareciam pouco adequados para a recuperação do passado, uma vez que [...] continham registros fragmentários do presente, realizado sobre o influxo de interesses, compromissos e paixões”. (LUCA, 2006:112). E estudos baseados nos periódicos só ganham força, ao menos no Brasil, na década de 1970.

Embora o interesse pelo estudo da imprensa se amplie a partir de 1970, podemos observar produções de décadas anteriores. Tornou-se um clássico o livro História da Imprensa no Brasil (1999), de Nelson Werneck Sodré, que faz um apanhado da imprensa no Brasil desde a origem em 1808, analisando de que maneira a imprensa influencia na sociedade.

A mídia está presente constantemente na vida das pessoas, formando ou auxiliando na criação de opiniões. Durante muito tempo o meio midiático mais influente era o jornal impresso, pois estava ao alcance de todas as classes sociais. E os governantes viam na imprensa um meio para disseminar suas ações e a oposição utilizava-se para denunciar os possíveis erros da situação já que é um meio formador de opinião e um elemento de controle social, ideológico e político.

Quando o Estado muda o regime de democrático para ditatorial uma das primeiras providências tomadas é o controle dos meios de comunicação. No Brasil temos dois exemplos, o primeiro de 1937-1945, quando se deu o Estado Novo, durante esse período a imprensa sofreu uma mudança, passando a ter um caráter nacionalista. A fala do Estado é alargada, enquanto a da população é cada vez mais silenciada. Para Marialva Barbosa “falar em imprensa no Brasil dos anos 1930 é perceber as suas relações com o Estado” (2007:109), pois ele ditava o que podia ser publicado, agindo através do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), que fiscalizava editoriais e notícias dos jornais.

Em primeiro de abril de 1964 temos o segundo momento de poda à Imprensa, pois o Brasil assistiu a mais um golpe de Estado e à mais uma censura. O golpe se instaurou com a alegação de querer salvar a nação do “perigo comunista”, modificando todos os âmbitos da sociedade. “A grande imprensa louva a queda do presidente João Goulart” (BAHIA, 1990: 321), mas nem desconfia o quão prejudicial seria esse período para a liberdade midiática brasileira.

Após um período de liberdade de imprensa, que vai do final de 1945 ao início de 1964, a censura volta a imperar sobre a mídia tendo como ápice da repressão o período de instauração do AI-5 (13 de dezembro de 1968). Esse Ato Institucional “impõe total controle dos meios de comunicação de massa, sujeitando jornais, revistas [...] à censura prévia” (idem, 1990: 313). Todos os meios de comunicação e formas de expressão, incluindo música e teatro, estavam sujeitos ao crivo da censura.

Os periódicos são os primeiros a serem censurados, por possuírem um maior alcance social. A repressão se deu em todo o território nacional e em Sergipe não foi diferente. Segundo Ibarê Dantas, quando se deu o golpe circulavam em Sergipe “quatro emissoras de rádio [...] um jornal diário (Gazeta de Sergipe), um jornal semanal (Folha Popular), um periódico da UDN, e o Diário Oficial”. Em 1964 o Exército controlou as rádios, invadiu os jornais e decidiu que a GS continuaria circulando, mas ficaria submetida à censura prévia.

A Gazeta de Sergipe (GS) foi fundada por Orlando Dantas, industriário sergipano que se dizia socialista, iniciando suas atividades em 1958. Enquadrado como um jornal partidário do socialismo, era de supor que esse periódico tivesse sido extinto com o golpe de 1964. No entanto, ele foi um dos poucos jornais que continuaram a circular em Sergipe no período da repressão, pois era o jornal de maior alcance no estado.

A escolha da GS para análise deu-se justamente por essa dicotomia apresentada pelo periódico. Era um jornal que se dizia favorável às causas trabalhistas tendo como proprietário um grande industriário. Um "jornal socialista" que continuou circulando num regime ditatorial, que visava abolir os regimes comunistas e socialistas. Quanto à sua estrutura, era um jornal diário de diagramação simples e linguagem direta, com aproximadamente oito páginas.

Em uma pesquisa historiográfica se faz essencial à delimitação do espaço temporal. O espaço é o estado de Sergipe, pois no ano de 1964 tínhamos um governador, o senhor Seixas Dória, partidário das causas nacionalistas e que foi preso pelos militares. A sociedade sergipana sofreu, portanto, uma repressão expressiva por ter lideranças políticas fortes. De janeiro a dezembro de 1964 é o período trabalhado por apresentar dois extremos. Nos primeiros meses temos editoriais com forte posição política, de maio a dezembro temos uma coluna (que cumpre o papel do editorial) versando sobre comportamento, moda, beleza e concurso de miss em Sergipe. A necessidade de acompanhar o primeiro ano da repressão militar em Sergipe em um meio de comunicação justifica a delimitação do espaço e do tempo do estudo.

Para entender quais os motivos que levaram o exército a permitir a circulação de um "jornal socialista" mesmo durante os anos de chumbo é que esse estudo vem sendo desenvolvido. Sentimos a necessidade de questionar a sua mudança político-ideológica durante o primeiro ano do regime. Para isso foi feito um comparativo entre os editoriais que antecedem o golpe e os posteriores. Objetivando, da mesma forma, analisar os editoriais do ano de 1964; para compreender a relação história e imprensa através da mudança político-ideológica da Gazeta de Sergipe.

Tomando o jornal como objeto da pesquisa histórica, o material utilizado como fonte são os editoriais da Gazeta de Sergipe, do período de janeiro a dezembro de 1964. A seleção dos editoriais foi realizada na Biblioteca Pública Epifânio Dória (BPED).

Ao iniciarmos uma pesquisa devemos delimitar a maneira com a qual ela será conduzida. Para Itamar Freitas (2009), o historiador de ofício age com método, pois busca chegar a algum lugar. Agir sem métodos seria então, sair em busca do nada. De acordo com Itamar Freitas, o método histórico tende a adaptações, no entanto, seu cerne será o mesmo. Para Jorge Grespan (2005), não é designar os métodos como uma receita que não deve ser alterada, muito menos limitar-lhe como uma simples forma de indagar a autenticidade, mas, reconhecê-los como peças-chaves dos estudos desenvolvidos, os quais buscarão aperfeiçoamentos e diálogos com outras ciências. Por essas razões decidimos tratar o objeto com a metodologia explicitada a baixo.

Foram pesquisadas edições de 1º de janeiro de 1964 a 31 de dezembro de 1964, contabilizando um total de doze meses, aproximadamente 364 exemplares. Destas edições foram selecionados 108 editoriais que versavam sobre política em Sergipe, no Brasil e no mundo, e quando da ausência dos editoriais políticos analisamos uma coluna que, de certo modo, substitui o editorial versando sobre comportamento para fazermos um comparativo.

Para que pudéssemos desempenhar melhor a pesquisa os editoriais foram digitalizados, resumidos e separados cronologicamente. Após essa “catalogação” foram analisados, juntamente com leituras de obras historiográficas sobre o período e notícias dispostas no decorrer do jornal, para que pudéssemos observar a linguagem e o público alvo do jornal, já que os editoriais são a essência do jornal mostrando a sua posição frente aos acontecimentos do país.

1964: A POLÍTICA VISTA ATRAVÉS DOS EDITORIAIS DA GAZETA DE SERGIPE.

O editorial é a parte “introdutória” de um jornal, possui algumas características únicas, diz ser imparcial e expressar a posição social-ideológica de um jornal, além de, não ser assinado, pois ele representa a “voz” do jornal como um todo e não apenas de um jornalista, ou do diretor do jornal. Na GS, o editorial localizava-se na 2ª página.

A Gazeta de Sergipe era conhecida por ser um jornal defensor das causas trabalhistas e defensor de causas sociais como a Reforma Agrária e a alfabetização pelo método Paulo Feire. A partir daí alguns questionamentos são levantados. Será que através da leitura dos editoriais podemos definir o posicionamento político desse periódico? E sendo partidário do socialismo seus editoriais foram modificados durante os primeiros meses do Golpe Militar, para que pudesse continuar circulando? Para responder esses questionamentos, analisamos os editoriais que possuíam caráter político, cruzamos com matérias alocadas no jornal que versavam sobre o mesmo tema e observamos o nível de abrangência das notícias.

De janeiro a março: Formação política e ideológica da Gazeta de Sergipe.

O editorial de primeiro de janeiro era homônimo ao ano: "1964". Um dos editoriais mais intrigantes analisados, pois nas suas linhas pareciam ser desenhados os prenúncios do golpe. Dando boas vindas à esse ano considerado pelos jornalistas como marcante à história do povo brasileiro, o jornal tece comentários positivos ao governo de João Goulart, que para o jornal, havia permitido a organização das classes trabalhadoras, bem como o beneficio de exercer os direitos políticos, até então desconhecidos. Como que prevendo o que aconteceria três meses depois pede para que o povo brasileiro se una em “defesa da legalidade democrática” (Gazeta de Sergipe, 1º de janeiro de 1964).

Durante todo o mês de janeiro de 1964 os editoriais que eram voltados para a política versavam sobre o mesmo tema: as possíveis conspirações dos políticos conservadores, que queria retomar o poder. Outro tema recorrente era a receptividade com a qual o governo de Seixas Dória era tratado pela população sergipana, segundo o jornal era um momento jamais presenciado por Sergipe, pois o governo de Dória era “agressivamente honesto” diferente de seus antecessores.

Nos editoriais posteriores encontramos uma forte influência dos "ideais socialistas", pregando a Reforma Agrária e apoiando a “reforma social” que estava sendo implantada no Brasil. Segundo os jornalistas, o Brasil e Sergipe estavam lutando contra o subdesenvolvimento, condição que podia ser alterada através de mudanças “das estruturas pela educação do povo, a industrialização das nossas matérias primas a subdivisão da propriedade improdutiva, a melhoria salarial”. (Gazeta de Sergipe, p. 2, 07 de fevereiro de 1964).

Essa renovação social chegava em Sergipe pelas mãos de Seixas Dória, que se utilizava da seguinte frase em seus comícios: “Doa em quem doer, custe o que custar, aconteça o que acontecer”, referindo-se aos esforços que ele teria que fazer para defender a educação e a participação popular nos feitos do governo. Entretanto, embora se esforçasse para garantir a assistência social às classes desprovidas o então governador passou por diversos obstáculos, pois naquele momento, de acordo com o jornal:

Falar para os quadros políticos dos partidos conservadores, ressalvadas as exceções honrosas, em reforma agrária, em desapropriação de áreas semi-abandonadas (sic), para a organização de uma nova economia agrária, sob moldes adequados à produção de bens de consumo, arrepiam as cabelas (sic), franzem as caras, gaguejam os homens de mentalidade feudal, que olham sem ver, a marcha do tempo nas suas profundas transformações sociais (Gazeta de Sergipe, 1964:2)

Percebemos, portanto, que nos primeiros meses de 1964 o jornal tinha uma posição extremamente política e formadora de opinião, demarcando bem e com clareza suas idéias. Caminhando nos meandros das notícias, percebemos que esse periódico foge do estilo sensacionalista de se fazer jornal. As oito páginas do periódico traziam notícias sobre a situação sócio-econômica do Brasil, de Sergipe e do mundo, buscando sempre incitar na população a vontade de lutar por seus direitos e pela "revolução social", que para a GS, teve início em 1963. Fugindo do modelo “se espremer sai sangue” de jornais como Notícias Populares de São Paulo, por exemplo. No entanto, esse não foi o formato que permaneceu após o golpe.

Liberdade que não se vende, mas se cala. Os Editoriais pós-golpe.

Nos dias que antecedem o golpe notamos que são duras as críticas contra os conservadores, principalmente contra aqueles que apoiaram a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, essa era tida como um artifício para o “embrutecimento humano” levando a população – classe média e burguesia – “a desconhecer a marcha de revolução democrática e social” (Gazeta de Sergipe, 1964: 2).

No dia primeiro de abril o título do editorial é Os inconversáveis. Infelizmente esse editorial está bem desgastado e quase nada pode ser lido nele. No entanto, as partes que conseguimos ler criticavam o modo com o qual se colocou o golpe, afirmando que era uma medida inconstitucional e que os militares estavam rasgando a constituição. Nesse editorial é afirmado ainda que “um jornal que mantém uma seriedade de conduta não vende sua liberdade por preço nenhum”, podemos pensar que essa frase quis dizer que eles não se entregariam aos mandos dos militares.

No entanto era inevitável que o periódico não sofresse censura. De dois a oito de abril os editoriais não estão ausentes da GS, retornando apenas em 09 de abril, mas com uma roupagem nova. As especulações políticas e a tentativa de formar opiniões ideológicas haviam cessado, ao invés disso os editoriais traçavam um panorama político econômico do mundo com títulos como: Curso de Londres conduziram realmente a paz (09 de abril), Panorama do comércio europeu ao iniciar-se em 1964 (10 de abril).

De 11 a 12 de abril há novamente uma suspensão editorial, retornando em 14 de abril com o editorial intitulado Liberdade democrática, analisando o modo com o qual se deu o processo democrático no Brasil e fazendo uma leitura do que agora eles chamam de Movimento de 31 de março, alegando ser “a continuidade do processo sócio-econômico”, iniciado por João Goulart. Embora censurado, não deixa de tecer elogios quanto à conduta de Seixas Dória enquanto governador.

Da segunda quinzena de abril até meados de junho os editoriais não parecem nenhum pouco com aqueles politizados do início de 1964, passam a descrever muito mais sobre comportamento e o jornal, como um todo, passa a tratar de política como um tema rasteiro. Em julho, o caráter ideológico socialista volta a ser impresso no jornal e, coincidência ou não, desaparecem mais uma vez do retornando apenas em outubro.

Embora com um teor bem menos defensor das classes trabalhistas vez ou outra, encontramos uma nota (dentro dos editoriais) “alfinetando” o comando “revolucionário” de 01 de abril. A exemplo temos, no editorial de 31 de outubro a seguinte citação:

O Comando do 28º BC deveria mandar uma pessoa de suas fileiras, experiente e sagaz, dar um passeio pelos Municípios do Estado, [...], para verificar a procedência de tantos boatos, corrente de corrupção, desonestidade, pouco recomendáveis à revolução (Gazeta de Sergipe, 1964: 2)

Por mais que não confrontassem de maneira direta os militares, vez ou outra, percebemos fagulhas dirigidas da Gazeta de Sergipe para os mélicos, numa maneira de mostrar que mesmo censurada a imprensa não estava muda.

CONCLUSÃO

Concluímos, portanto, que depois de lidos e analisados os editoriais, nos apresentam o caráter político-ideológico do jornal que, sem dúvida, era partidário do socialismo democrático, talvez por influência do proprietário Orlando Dantas – filiado ao Partido Socialista Brasileiro. Inicialmente o jornal tinha um caráter totalmente voltado para a política, fazendo críticas e elogios, quando necessário, sendo quase que imparcial. Solicitava – indiretamente-, o apoio das classes trabalhadoras aos partidos de esquerda em prol da causa revolucionária social.

O periódico, como um todo, fora modificado após o golpe. Se antes contava com oito páginas, após o 1º de abril passa a circular com seis. Colunas como Coluna Sindical e O Dia no Olímpio Campos, desaparecem, alguns jornalistas como Ivan Valença, ficam ausentes retornando depois de algum tempo. Deixando claro que o livro negro da censura passara também em Sergipe, intimidando e suprimindo a liberdade de imprensa, mas não a silenciando.

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GUARANÁ, Manoel Armindo Cordeiro. O primeiro Jornal de Sergipe de 1932: Antonio Fernando da Silveira, Monsenhor. Aracaju: Revista do Instituto Histórico de Sergipe, nº 11, 1913. Estado de Sergipe: jornais, revistas e outras publicações de 1932 a 1908. Aracaju: Revista do Instituto Histórico de Sergipe, nº 2, 1908.

LUCA, Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: Fontes Históricas. (Org. Carla Pinsky). São Paulo: Contexto, 2006. 111-153 p.

MARQUES DE MELO, José. História social da imprensa: fatores socioculturais que retardaram a implantação da imprensa no Brasil. Porto Alegre: Edipucrs, 2003. 186 p.

NEVES, Lucia Maria Bastos P. MOREL, Marco & FERREIRA, Tânia M. Bessonte da C. (org.) História e Imprensa: representações culturais e praticas de poder. Rio de Janeiro: DP&A: Faperj, 2006

RÉMOND, René (org.). Por uma história política. Trad. de Dora Rocha. RJ, Ed. UFRJ- Ed. FGV, 1996.

Roger CHARTIER, A História Cultural. Entre Práticas e Representações, Lisboa, Editorial Presença, 1988.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4. Ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

Fontes Primárias
Jornal Gazeta de Sergipe (Janeiro a Dezembro de 1964). Hemeroteca da Biblioteca Pública Epifânio Dória – Aracaju/SE.

1 Graduanda em História/UFS/Grupo de Estudos do Tempo Presente/Bolsista PIBIC/COPES/E-mail: carlareisufs@gmail.com/Orientadora: Profª Drª Célia Costa Cardoso (Professora adjunta UFS/PIBID/ Cultura, Memória e Política Contemporânea/GET).

Texto reproduzido do site: principo.org

Orlando Vieira Dantas


Nome: DANTAS, Orlando (dep.fed SE)
Nome Completo: ORLANDO VIEIRA DANTAS
Tipo: BIOGRAFICO

Texto Completo:
DANTAS, Orlando
*  dep. fed.  SE 1951-1955.

Orlando Vieira Dantas nasceu em Capela (SE) no dia 28 de setembro de 1900, filho de Manuel Correia Dantas, governador de Sergipe entre 1926 e 1930, e de Adelina Vieira Dantas.

Proprietário rural e empresário da agroindústria açucareira, formou-se em engenharia civil, no Rio de Janeiro (então Distrito Federal), em meados da década de 1920. De volta a Sergipe, em 1934 militou no Partido Social De­mocrático de Sergipe.  Em 1945, ingressou na União Democrática Nacional (UDN) e mais tarde na Esquerda Democrática, em cuja legenda ele­geu-se para a Assembleia Constituinte estadual em 1947.  Mais tarde, filiou-se ao Partido So­cialista Brasileiro (PSB), fusão da Esquerda Democrática com outras correntes políticas, do qual foi um dos fundadores em Sergipe.

Deputado federal (1951-1953)

Em outubro de 1950, elegeu-se deputado federal por Sergipe na legenda da Aliança Popular, coligação do PSB com o Par­tido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Progressista (PSP). Nesse mesma pleito, Getúlio Vargas foi eleito presidente da República. Deixando a Assembleia sergipana em janeiro de 1951, Orlando Dantas assumiu o mandato de deputado fede­ral no mês seguinte.

Em dezembro de 1951, Getúlio en­viou ao Congresso um projeto propondo a criação de uma sociedade de economia mista, a Petrobrás, para a exploração do petróleo no país. Dantas participou do debate em torno do projeto como congressista e como homem de imprensa. Em maio de 1952, antes que o projeto começasse a ser discutido em plená­rio, o governo apresentou um requerimento de emergência aprovado posteriormente, ape­sar das manifestações contrárias da minoria, para o encaminhamento dos debates, de modo a evitar que o controle da matéria lhe escapas­se. Orlando Dantas declarou ser o requerimen­to suspeito, por estar em consonância com a campanha feita pela imprensa, financiada pela Standard Oil, visando a defesa de um projeto prejudicial à economia do país.

Na sessão da Câmara de 6 de junho, a UDN encaminhou um substitutivo assinado por representantes dos principais partidos po­líticos.  Orlando Dantas o assinou pelo PSB de Sergipe. Este substitutivo apresentava como proposta a criação de uma empresa estatal (Empresa Nacional de Petróleo - Enape) e incorporava diversas sugestões feitas no me­morando enviado à Câmara, em maio de 1952, pelo Centro de Estudos e Defesa do Pe­tróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), um dos principais promotores da campanha pelo monopólio estatal do petróleo.

Depois de muita discussão, o projeto original saiu da Câmara com alterações significati­vas.  Foram aprovadas emendas que tornaram mais nítido o controle do Estado na nova em­presa.  Modificaram-se os dispositivos referen­tes à participação dos estados da Federação na distribuição da receita do Imposto Único sobre Combustíveis Líquidos e Lubrificantes.  Por outro lado, foram incluídos dispositivos relativos à participação dos estados produto­res nos resultados da atividade da empresa. A Petrobrás só viria a ser criada em 3 de outu­bro de 1953, através da Lei nº. 2.004, sancio­nada por Getúlio Vargas.

                Líder do PSB na Câmara a partir de mar­ço de 1952, tentou a reeleição em outubro de 1954, dessa vez na legenda da Aliança Social Democrática – coligação do PSB com o Parti­do Social Democrático (PSD) e o Partido Re­publicano (PR).  Obteve apenas a segunda suplência e, deixando a Câmara em janeiro de 1955, a ela não retornou na legislatura seguin­te.

No pleito de outubro de 1962, elegeu-se quarto suplente de deputado à Assembleia Le­gislativa de Sergipe, na legenda do Partido Ru­ral Trabalhista (PRT), não chegando a exercer o mandato.  Com a extinção dos partidos polí­ticos pelo Ato Institucional n.º 2 (27/10/1965) e a posterior instauração do bipartidarismo, tentou candidatar-se a senador em 1966 por Sergipe na legenda do Movimento Democráti­co Brasileiro (MDB), partido de oposição ao regime militar instalado no país em abril de 1964, mas a agremiação não acolheu sua candidatura. Em 1968 ingressou na Aliança Re­novadora Nacional (Arena), partido de sustentação ao regime militar.

Além de suas atividades no ramo açucareiro e na política, foi diretor-presidente da Gazeta de Sergipe, jornal de sua propriedade.

Faleceu em Aracaju no dia 9 de abril de 1982.

Era casado com Dulce Meneses Dantas, com quem teve quatro filhos. Um deles, Hélio Dantas, também seguiu a carreira política

Publicou O problema açucareiro em Sergi­pe (1944), Aspectos da política sergipana (1953), Análises da inflação no Brasil (2ª. ed., 1957), Movimento cultural de Sergipe, Pla­nificação econômica de Sergipe e A vida patriarcal em Sergipe (1981).

FONTES: CÂM.  DEP.  Deputados; CÂM.  DEP. Relação nominal dos senhores; CISNEIROS, A. Parlamentares, Grande encic.  Delta; NÉRI, S. 16; TRIB.  SUP.  ELEIT.  Dados (1, 2, 3 e 6).

Texto reproduzido do site: fgv.br/cpdoc/acervo

Centenário do Jornalista Orlando Dantas


Trecho de publicação postada no site Infonet, em 31/08/2000.

Centenário do Jornalista Orlando Dantas.

Se vivo estivesse, o jornalista Orlando Dantas - fundador e diretor do jornal "Gazeta de Sergipe", de 1956 a 1982, quando faleceu - estaria completando neste mês de setembro cem anos de idade. Uma personalidade polêmica, intelectual preparado embora usineiro, uma pena primorosa, Orlando Dantas foi, quando Deputado Federal, entre 1951 e 1954, um dos mais lídimos defensores do petróleo brasileiro e batalhador pela criação da Petrobrás. Foi também Deputado Estadual, quando se destacou pelos discursos fortes que pronunciou contra o atraso e o subdesenvolvimento. Foi candidato a Prefeito de Aracaju, apresentando um programa de governo, na ocasião, revolucionário o suficiente, a ponto de vários itens - como a abertura de avenidas para escoamento do tráfego de coletivos - terem sido adotados, anos depois, por vários ocupantes do Palácio Ignácio Barbosa.

Em 1944, Orlando Dantas publicou um livro sobre a economia sergipana, destacando a cana de açúcar como pilar de sustentação do Estado. Anos depois, editou um segundo livro, "A Vida Patriarcal em Sergipe". Como defensor da riqueza mineral de Sergipe, Orlando Dantas defendeu a concretização do porto de Sergipe, usando-se para tanto o estuário do Rio Sergipe. Como intelectual integrante da Academia Sergipana de Letras, editou a revista "Momento" onde dava guarida a ensaios de professores, médicos, economistas, políticos, etc. desde que eles estivessem comprometidos com o desenvolvimento do Estado. Foi, todavia, na "Gazeta de Sergipe", que escreveu os mais brilhantes editoriais da Imprensa sergipana...

Texto reproduzido do site: infonet.com.br