terça-feira, 2 de outubro de 2018

Jornalista sergipanos se unem em defesa de Cristian Góes

Foto: Divulgação

Publicado originalmente no site Expressão Sergipana, em 18 de setembro de 2018

JORNALISTAS DE SERGIPE SE UNEM EM DEFESA DE CRISTIAN GÓES

Coletivo Carolina Maria de Jesus de Pesquisa em Jornalismo e Cultura arrecada doações para pagar a multa sentenciada pelo Judiciário de Sergipe

De Redação 

Num ato em defesa da liberdade de expressão e do fortalecimento da democracia, o Coletivo Carolina Maria de Jesus de Pesquisa em Jornalismo e Cultura, formado por jornalistas de Sergipe, lançou nesta semana uma campanha de apoio e solidariedade ao jornalista Cristian Góes, acusado pelo desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe (TJSE), Edson Ulisses, e condenado em 2013, pelo mesmo tribunal, por conta da publicação do texto fictício “Eu, o coronel em mim”.

Agora, após cumprir pena criminal por 8 meses, prestando serviços num posto de saúde da capital sergipana, o jornalista está sendo obrigado a pagar indenização de R$ 54.221,97 ao desembargador. Serão acrescidos ainda a esse valor os honorários advocatícios, fazendo com que a conta chegue à casa dos R$ 66.000,00.

O coletivo está arrecadando contribuições pela internet e divulgando um texto explicativo sobre o que aconteceu. “Todas e todos sabemos que esse é um valor altíssimo para a grande maioria das trabalhadoras e trabalhadores. Por isso, decidimos somar esforços para coletivamente colaborar com a arrecadação, que pode ser de qualquer valor. Entendemos também que se engajar nessa causa, contribuindo financeiramente e divulgando o caso, para além de apoiar o jornalista, é acima de tudo um ato em defesa da liberdade de expressão e do fortalecimento da democracia”.

ACESSE O LINK E COLABORE COM ESTA LUTA
HTTPS://WWW.KICKANTE.COM.BR/CAMPANHAS/ESCREVER-NAO-CRIME

DETALHES SOBRE O CASO

Em 29 de maio de 2012, o jornalista Cristian Góes publicou em um portal de notícias de Sergipe o texto ficcional intitulado “Eu, o coronel em mim”, uma crônica sobre o exercício de poder que poderia se adequar a qualquer contexto, época, local e personagens.

Entretanto, sob a interpretação dúbia e fundada de subjetividade, o Desembargador e atual Vice-Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Edson Ulisses, e o Ministério Público Estadual de Sergipe (MPE) moveram dois processos – um criminal e outro cível – contra o jornalista, alegando que o personagem “jagunço das leis” se traduziria na figura do Desembargador.

Em julho de 2013, em um julgamento extremamente ágil, o Judiciário sergipano já condenava o jornalista a mais de sete meses de prisão.

A partir da defesa integral da liberdade de expressão, o caso começou a ganhar uma repercussão nacional e internacional, inclusive com uma denúncia formalizada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), em outubro de 2013.

No entanto, mesmo com toda pressão exercida em torno do caso, em mais uma posição refratária do Poder Judiciário brasileiro, o recurso impetrado no Supremo Tribunal Federal com o pedido de revisão da condenação em solo sergipano foi negado, no dia 15 de agosto, sem sequer ter o seu mérito julgado.

Texto e imagem reproduzidos do site: expressaosergipana.com.br

40, ou 41 anos, com Thais Bezerra

Foto: (Reprodução/SOMESE)

Publicado originalmente no site Alô News, em 01 de outubro de 2018

40, ou 41 anos, com Thais Bezerra

Por Ivan Valença

Como o faz anualmente nos últimos quarenta anos, Thais Bezerra, a nossa mais notável colunista social, fez circular o seu caderno especial, recheado com informações preciosas do “high so” sergipano, chistes e comentários muito bem colocados. Não à toa, Thais é uma das rainhas do jornalismo local, sem ninguém a ameaçar-lhe o trono. É bom destacar que os 40 anos que ela comemora agora não são os de jornalismo dela, mas de sua passagem pelo “Jornal da Cidade”, casa que a abriga desde 1978 quando se transferiu de mala e cuia para o jornal então dirigido pelo saudoso Antônio Carlos Franco.         

De fato, Thais Bezerra começou um pouco antes, talvez em 1977, na extinta “Gazeta de Sergipe”, o oráculo de Orlando Dantas de cuja equipe fiz parte a partir de 1958, com quatorze anos de idade. Naquela época eu dirigia a redação  e havia lançado um produto novo com vistas a alcançar uma faixa de leitores mais jovem, pois a “Gazeta” estava envelhecendo a olhos vistos. A “Gazetinha” iniciou a busca por uma colunista social que se dispusesse a falar da juventude da cidade.

Fui então fazer uma reportagem (o repórter designado, Nilson Socorro, não pode ir) sobre o lançamento de uma prancha em fibra de vidro, no Iate Clube de Aracaju. Quatro belas jovens estavam por lá para testar o novo modelo. Entre elas, uma me chamou a atenção não só pela beleza como pela desenvoltura.  De mim para mim mesmo, cheguei a conclusão imediata que ela era a garota ideal para o que eu precisava. Chamava-se Thais Bezerra, era filha de seu Álvaro Bezerra, do Banco do Brasil, e d. Juju. Como não pude falar com ela naquele dia, tão logo cheguei em casa liguei para Jorge Lins, também colaborador da “Gazeta”, para que providenciasse3 um encontro meu com ela. O que foi concretizado dois dias depois. Feito o convite, Thais Bezerra estreou no  domingo seguinte, com a “Gazetinha” acrescentando um “Gente Jovem” à sua denominação.

Já na primeira coluna, todos nós da “Gazeta” sentíamos que ali estava uma colunista social perfeita. E não deu outra: foi um sucesso imediato. Mas, que durou pouco, menos de um ano: Antônio Carlos Franco  tirou-a da gente, oferecendo-lhe uma enormidade de vantagens. Incluindo um caderno, aos moldes da “Gazetinha” com o seu nome. Lá se vão quarenta anos dessa história que só me traz orgulho. Afinal não é todo dia que se descobre uma Thais Bezerra para a vida profissional do jornalismo.

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Entrevista com o escritor e jornalista Sérgio Augusto


Publicado originalmente no site SESC S. Paulo, em 01/12/2012

Sérgio Augusto

Com profícua carreira no jornalismo, Sérgio Augusto fez parte das redações mais importantes do país. O início se deu em 1960, quando foi crítico de cinema do jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. Atuou nas diferentes frentes do jornalismo, sendo repórter, redator e editor no Correio da Manhã, O Pasquim, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, além de ter sido colaborador das revistas Veja, Isto É e Bravo!.

Também atua na vertente literária como escritor e organizador de livros. Publicou um ensaio histórico sobre a chanchada (Este Mundo é um Pandeiro. Companhia das Letras, 1989), uma biografia musical de Tom Jobim (Cancioneiro Jobim. Casa da Palavra, 2000), uma história do Botafogo (Entre o Céu e o Inferno. Ediouro, 2004), duas coletâneas de ensaios (Lado B. Record, 2001, e Penas do Ofício. Agir, 2007), organizou e traduziu uma série de cartuns da revista The New Yorker (Desiderata, 2009), e um guia de viagem pela Paris da Geração Perdida (E foram Todos para Paris. Casa da Palavra, 2011).

Atualmente é colunista do jornal O Estado de S. Paulo, nos cadernos Sabático e Aliás. Nesta entrevista para a Revista E, Sérgio Augusto analisa, entre outros assuntos, a posição do jornalismo cultural na imprensa. “Podemos dizer que o jornalismo está curvado à indústria cultural”, diz. “Sem considerar a internet e as inovações tecnológicas, porque antes disso já estava sentindo esse direcionamento do jornalismo cultural para um jornalismo de serviço. Mas só isso é muito pouco, é uma coisa danosa.” Acompanhe os principais trechos.

Tendo em vista a sua experiência como jornalista, o que você acha das mudanças que ocorreram na imprensa do Pasquim, para o qual você colaborou, até os dias atuais?

Podemos dizer que o jornalismo está curvado à indústria cultural. Sem considerar a internet e as inovações tecnológicas, porque antes disso já estava sentindo esse direcionamento do jornalismo cultural para um jornalismo de serviço. Mas só isso é muito pouco, é uma coisa danosa. Esse era um assunto que eu abordava com frequência quando era colunista da revista Bravo!.

O jornalismo cultural calcado no serviço está ultrapassado?

Sim, o caminho é o jornalismo analítico que esteja disponível online também. Se eu, escrevendo um artigo sobre os filmes do Eduardo Coutinho, posso fazer referências a outros filmes por meio de links, clicar e me informar sobre eles, essa é uma possibilidade extraordinária da internet que antes não existia.

A que se deve essa submissão à indústria cultural?

À força da indústria e à preguiça de alguns jornalistas. Falta preparo e discernimento em algumas redações. Por exemplo, quando morre um escritor ou um diretor de cinema. Um caso recente foi quando morreu Gore Vidal [escritor norte-americano, 1925-2012], a chamada de um portal de notícias era: Morreu Gore Vidal, roteirista do filme Calígula. Reduzir o Gore Vidal ao roteiro de um filme, que, aliás, ele repudiava, é falta de informação. Falhas desse tipo acontecem com frequência.

Que fatores conduziram a essa situação?

Acho que é um problema de formação do jornalista e das escolas de má qualidade, tanto nos anos iniciais quanto no [nível] superior. Quando comecei minha carreira, com 18 anos, no jornal Correio da Manhã, na sala ao lado eu encontrava Carlos Heitor Cony [escritor e colunista], Otto Maria Carpeaux [ensaísta e crítico literário, 1900-1978], uma fauna poderosa, e com eles aprendi muito. Sinto falta desse convívio, dessa troca de aprendizado, na imprensa de hoje.

É comum que os jornais e revistas chamem os mesmos artistas para opinar sobre diferentes assuntos. O que acha dessa postura da imprensa?

Acho irresponsável. Nesse caso o Caetano Veloso sempre é citado. Os jornalistas pedem opinião sobre qualquer assunto e ele mesmo brinca com isso, mas não resiste em comentar. Felizmente ele é um cara inteligente e sensível, por isso é tão solicitado.

A situação acontece mais pela vontade do editor ou do próprio artista?

O editor tem culpa, pois as pautas giram em torno desse universo, das mesmas fontes. Antes existia o papel do divulgador, que ficava ali roendo as unhas para que o jornal publicasse uma matéria favorável a um filme, por exemplo. Hoje o jogo se inverteu. Não que fosse maravilhoso quando o jornalista ficava nessa tensão, mas eu não quero ser o dono da verdade quando escrevo um texto crítico, pois o leitor tem que assistir ao filme para construir sua própria opinião.

Qual a importância do Cinema Novo na cinematografia brasileira?

Muitos criticam o Cinema Novo, mas existia uma cumplicidade enorme, conhecíamos os cineastas, havia um projeto de cinema brasileiro. Não que fôssemos condescendentes, mas víamos com certa simpatia, até reconheço que elogiei demais cineastas que não deveria, mas acho que esses problemas pioraram, pois houve o aumento da produção de filmes. Vivenciei uma época em que tínhamos aquela desculpa da falta de infraestrutura, que já não pode ser usada, porque a TV Globo conseguiu criar uma indústria junto com um mercado de atores e técnicos que puderam continuar trabalhando no país.

Passados vários anos da morte de Glauber Rocha [1939-1981], ele ainda divide opiniões. Alguns o endeusam, outros o acham um baita chato. Qual a relevância da obra produzida por ele?

O Glauber era um grande agitador cultural, um cineasta muito criativo, mas houve uma época complicada. Diziam que ele era muito avançado e que não conseguíamos acompanhar o raciocínio dele, o que pode ser visto com certo exagero. Deus e o Diabo na Terra do Sol tinha uma grandeza, momentos de grandes sacadas, embora seja um filme de quem ainda não sabia filmar direito. Isso me lembra Jean-Luc Godard [cineasta e principal nome da Nouvelle Vague, movimento artístico do cinema francês] do início de carreira, transformando os chamados erros gramaticais em coisas criativas. Ficava um caos visual, uma sensação de alucinação fantástica. Gosto muito de Terra em Transe; é um filme caótico que dribla a censura e aborda o problema da ditadura no Brasil, é muito bem realizado. Gostei muito da fotografia e do aspecto visual de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Glauber estava sempre atrás de projetos irrealistas, o que acabou refletindo em seus filmes. No final da carreira, o cinema dele foi se fechando em vez de se abrir.

Acredita que haja uma condescendência por parte da crítica ao avaliar filmes brasileiros? Não há uma simpatia mais do que explícita no momento da avaliação?

Sim, existe. Também acho que há festivais de cinema demais no país. O insuspeito Bruno Barreto afirma que há diretores demais no Brasil. Estão todos dirigindo, é como escrever livros, todos agora são memorialistas. Quanto mais festival de cinema tem, mais você circula com os cineastas, e a troca de experiências que podia ser ótima, com pessoas pensando e fazendo cinema brasileiro, o que de alguma forma existiu no Cinema Novo, acabou, pois não temos espaço para isso. Há algumas revistas de cinema, mas os jornais não oferecem mais espaço para essa discussão.

Nem no destaque dado às estreias do cinema nos jornais? O que diminuiu foi a qualidade dos textos ou a criticidade?

Não adianta dar espaço se não tem um pensamento crítico que embase o que está escrito, uma reflexão que seja feita sem sombra de corporativismo ou coleguismo. Eu já fiz criticas negativas para filmes do Paulo César Saraceni, Ruy Guerra, Walter Hugo Khouri e eles me trataram normalmente; não porque esperavam que eu elogiasse o próximo, mas porque eram pessoas elegantes, que entendiam que não era nada pessoal. Já outros não, grandes amigos cineastas ficaram bravos comigo devido a críticas que escrevi.

Ainda há espaço para criticar uma obra? Não se caminha para uma grande contemporização?

O problema é quem exerça essa função com qualidade e tenha coragem para dizer que o filme é ruim. Os últimos comentários que li sobre o cinema brasileiro foram de pessoas que não trabalham com crítica de arte, não exercem a crítica militante. Por exemplo, Jean-Claude Bernardet [teórico, crítico e autor de livros sobre cinema], que é uma pessoa amiga do cinema nacional, mencionou em um artigo que o cinema argentino quando acerta é melhor do que brasileiro. Uma afirmação verdadeira para mim também.

E como os argentinos alcançaram essa comentada qualidade cinematográfica?

A cinematografia argentina e a brasileira caminham juntas e têm histórias parecidas. Mesmo sem a ajuda de organizações como a Globo Filmes, por exemplo, conseguiram ter um aparato técnico de alto nível e aliam isso a histórias bem contadas.

A qualidade do trabalho dos roteiristas brasileiros é reconhecida e os mais renomados são disputados no mercado.

Há um problema nessa questão dos roteiros, pois, se por um lado temos roteiros bem elaborados, por outro vemos um mercado que exige repetição de fórmulas. Olhe as produções da Globo Filmes, que são feitas à base de fórmulas, ou seja, basta um filme fazer sucesso para ocorrerem as continuações. O cinema brasileiro está muito parecido com o que já existe na televisão, usando os mesmos atores e reaproveitando as histórias.

Há alguma produção recente que mereça destaque?

Fora os documentários do João Moreira Salles, que são excelentes, gostei dos filmes do Beto Brant, do Cao Hamburger, em especial Quando meus Pais Saíram de Férias. Um que me instigou pela narração foi O Céu de Suely, de Karim Aïnouz. Mas fora os documentários do Eduardo Coutinho e do João Moreira Salles não há nada que tenha me impactado recentemente.

Qual o motivo de os documentaristas brasileiros merecerem toda essa atenção?

Sobretudo o talento, a maneira de narrar a realidade. O Eduardo Coutinho, que, aliás, era um grande crítico de cinema, teve a história do primeiro Cabra Marcado para Morrer, na qual deu a volta por cima. O filme ganhou uma transcendência a partir da proibição, da truculência da ditadura militar. É uma característica da imaginação fértil e da inteligência superior do Coutinho. Ele escolhe um tema e nós pensamos que não poderia ser feito de outra forma, só da maneira que ele fez. Isso caracteriza um grande diretor.

Com a internet, como ficou o seu universo de trabalho, de pesquisa?

Antes eu frequentava bancas de jornal e parecia que estava em uma catedral, olhava e admirava. Hoje eu passo em banca e nem olho, não compro quase mais nada impresso, a não ser as publicações de que eu tenho assinatura, como a New Yorker. A tecnologia facilitou até a vida do meu computador, porque antes eu procurava o arquivo que me interessava, abria uma pastinha, colocava os artigos, transformava em Word. Isso com o tempo vai consumindo o HD, hoje vai tudo para as nuvens, para os bancos de dados.

Há fundamento em afirmar que o jornalismo cultural ficou chato?

Chato, sobretudo porque sem muita imaginação, atrelado demais ao que estão lançando no mercado e à pressão ou à lábia dos divulgadores. Já foi diferente. Houve um tempo em que as capas dos cadernos de cultura ou de variedades guardavam uma diferença entre si, concorriam de forma diferente, não destacavam os mesmos shows, os mesmos filmes, os mesmos livros, como hoje, tediosamente, acontece, como se todos fossem pautados por uma mesma pessoa. Em 1964, quando eu era editor do Segundo Caderno do Correio da Manhã, tendo à minha disposição uma primeira página limpinha, sem publicidade, não pensei duas vezes entre ocupá-la com umas fotos maravilhosas de leões africanos, que acabara de receber, creio que da Magnum, e dar força a um show musical sem pedigree que estava estreando na zona sul do Rio. Distribuí as fotos na página, escrevi um texto sobre a magnificência dos felinos e sua importância na cultura ocidental, e, à guisa de título, declinei a palavra leão em latim (Leo, leonis...) e estampei-a na vertical, no canto da página. Hoje, se eu fizesse isso, seria demitido – ou, no mínimo, tachado de louco pelo editor chefe. A capa com os leões, diga-se, fez o maior sucesso.

O jornalismo feito no Brasil ainda continua com a síndrome do cachorro vira-lata? Tudo que é feito fora do país tem mais destaque do que a produção nacional?

Acho que sim, embora tenha menos do que antigamente. Não tivemos complexo de vira-lata com música brasileira, muito pelo contrário. No caso do cinema, prefiro destacar um bom filme brasileiro do que colocar o filme do Batman na capa, mas quem vai conseguir tirar o Batman da capa do caderno de cultura?

Você passou por momentos capitais no jornalismo. Como foram essas épocas diferentes, com modos diferentes de fazer jornalismo?

Eu era um garoto quando comecei na redação do Correio da Manhã. Era um espaço maravilhoso, tinha circulação nacional, tive a sorte de estar lá. Já O Pasquim, era um prêmio fazê-lo, uma liberdade total. Depois eu o acumulei com o Opinião, que era uma coisa mais séria, diferente, mas enriquecedora. Estava num tripé: a Veja, na qual eu trabalhava com cinema e literatura, o Opinião e O Pasquim, coisas diferentes e que se complementavam. Havia momentos em que eu olhava para o Millôr [Fernandes, jornalista, escritor e cartunista, 1923-2012] e brincava dizendo: “Eu sou mais censurado que você”. Trabalhei muito, mas foi uma coisa tão rica e maravilhosa que repetiria.

Você costuma ler jornal impresso ou na internet? Acompanha as colunas de quais jornalistas?

Impresso, pouca coisa. Costumo ler jornal na internet. Acompanho o Luís Fernando Veríssimo, a Lúcia Guimarães, Milton Hatoum, Humberto Werneck. O engraçado é que eu leio muito mais economia e política do que cultura nas publicações nacionais.

Na sua opinião, quem se destaca na literatura contemporânea brasileira?

Há escritores interessantes, como o Michel Laub. Meus autores brasileiros preferidos são Milton Hatoum e Cristóvão Tezza.

Texto e imagem reproduzidos do site: sescsp.org.br

Sérgio Augusto e o jornalismo cultural


Publicado originalmente no site do  Observatório de Imprensa     

Sérgio Augusto e o jornalismo cultural

"Precisamos democratizar o elitismo"

Por Fabrício Marques *

O jornalista Sérgio Augusto nasceu em 25 de janeiro de 1942, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Publicou sua primeira crítica de cinema, profissionalmente, na Tribuna da Imprensa, em novembro de 1960. Com mais de meio século de atividade como crítico, repórter, redator e editor, participou, não por acaso, dos momentos mais importantes das mais importantes publicações do país, como os jornais Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo,nas revistas O Cruzeiro e Veja e nos semanários alternativosPasquim e Opinião. Não se pode esquecer, ainda, suas colaborações para a Senhor (a revista das revistas),Diner’s e Leia Livros. Desde 1996 escreve para o Estado de S. Paulo.

Em todas essas publicações o jornalista deixou a marca de uma inteligência sofisticada, entendendo a cultura de um modo ampliado, sem que nenhuma fronteira o impeça de falar de livros, filmes, discos, acontecimentos, enfim, tudo aquilo que levou certa vez o poeta Fernando Pessoa a afirmar a necessidade da arte em um mundo civilizado, pois “só a vida não basta”.

Dá prova desse interesse expandido o amplo arco de assuntos que perpassam esta entrevista, feita pore-mail. A maioria das perguntas é motivada pelos ensaios de jornalismo cultural reunidos em Lado B(Record, 2001) e As penas do ofício (Agir, 2006). No primeiro, Sérgio Augusto escolheu textos lançados anteriormente, entre 1997 e 2001, em duas publicações, a — em suas próprias palavras — “séria, chique à beça, mensal e paulista” Bravo!, e a “anárquica, escrachada, semanal e carioca” Bundas. O segundo livro reserva espaço apenas para textos da revista de São Paulo, de 2001 a 2005.

Com exceção de Botafogo – entre o céu e o inferno (Ediouro, 2004), seus outros livros também são voltados para momentos luminosos do universo cultural: Este mundo é um pandeiro (Cia das Letras, 1989),Cancioneiro Jobim (Casa da Palavra, 2000), Cancioneiro Vinicius de Moraes/Orfeu (Jobim Music, 2003) e O Melhor do Pasquim (Desiderata (2006-2009). O mais recente é E foram todos para Paris (Casa da Palavra, 2011).

No final do ano passado você lançou E foram todos para Paris(Casa da Palavra), em torno dos pontos turísticos da capital francesa relacionados à cena artística e cultural. A França exerceu uma influência marcante sobre a cultura brasileira (especialmente a literatura) nas primeiras décadas do século passado. A partir de determinado momento, contudo, a cultura americana se impôs, com sua rica diversidade (negros, judeus, latinos, árabes e orientais), o que prevalece até hoje. Para você, como essas influências afetaram o jornalismo cultural praticado no país?

Sérgio Augusto– No mundo inteiro essas prevalências ocorreram. Na Belle Époque, a cultura francesa ditava as modas, impunha gostos, com mais intensidade em países periféricos como o Brasil. O colonialismo cultural então falava francês. O Rio de Janeiro modernizou-se seguindo paradigmas parisienses. O prefeito Pereira Passos foi o Barão Haussmann carioca. Ele não apenas limpou e saneou a cidade como fez dela uma Paris-sur-Mer, uma miragem de progresso e civilidade. Nossas elites imitavam os franceses—e também os ingleses—em quase tudo: nas escolas, nos clubes fechados, no interesse por corridas de cavalo, as crianças aprendiam francês, às vezes antes mesmo do português, liam livros impressos em Paris, tinham lições de boas maneiras ministradas por governantas inglesas, nossos escritores devoraram a literatura francesa e as publicações culturais e mundanas impressas em Paris.

Nossa ligação com a França e sua cultura vem desde meados do século 16 e atingiu seu ápice com a Inconfidência Mineira, alimentada pelos ideais libertários dos Enciclopedistas franceses, com o Romantismo, o Positivismo, o Modernismo, o Existencialismo, e estendeu-se até a Nouvelle Vague, inspiradora do Cinema Novo. Houve um tempo em que as livrarias, as confeitarias, as casas noturnas e as salas de cinema tinham nomes franceses. Uma de nossas primeiras revistas de cultura, Nytheroy, lançada em 1836, era editada em Paris pelo poeta carioca Gonçalves de Magalhães, Visconde do Araguaia.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a cultura americana, com toda sua modernidade, sua diversidade, seu charme, mais a força econômica do dólar e o status de lingua franca que o inglês adquiriu, ocupou o que lhe parecia de direito após a derrota do nazismo. Os soviéticos também foram fundamentais para a destruição do 3º Reich, mas nunca conseguiram impor sua cultura em escala mundial porque não tinham as mesmas armas de sedução dos americanos. Os russos não tiveram Hollywood, não usufruiram de um melting pot cultural com negros e judeus, não produziram um Cole Porter, um Hemingway, um Armstrong, um Sinatra, uma Marilyn, um Elvis Presley, nem revistas como Time, Esquire e New Yorker, e foi com esses trunfos que os americanos varreram os franceses de nosso horizonte cultural.

O sociólogo Zygmunt Bauman definiu nosso tempo como “inóspito à educação”. Em 2001, ao definir o Brasil como “uma nação de videotas”, você prescreve que, para para compensar essa lavagem cerebral e espiritual imposta pela TV há um caminho: “Educar, inocular ou pelo menos atenuar os efeitos do soma [isto é, o soro da alegria de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley], popularizar outras formas de entretenimento e fontes alternativas de prazer e oxigenação cerebral, e estimular o seu consumo, para que a fleixibilidade mental não seja um privilégio de poucos”. Você arremata com essa frase definitiva: “Precisamos democratizar o elitismo”. Mas, de modo prático, como se pode fazer isso? Já se percebe um movimento das TVs pagas de privilegiar filmes dublados em detrimento do legendado, por exemplo.

S. A. – Na verdade, a única coisa que se democratizou por aqui desde a implantação do Plano Real, e com maior ímpeto a partir do governo Lula, foi o acesso das classes C e D aos bens de consumo cultural. Isso é bom do ponto de vista social e econômico, mas configura uma evolução meramente quantitativa, boa para as vendas e índices de audiência, mas nociva para uma efetiva evolução mental e espíritual da população, na medida em que, para usar uma metáfora gastronômica, a presuntada se impõe ao patê cultural. Chamei atenção para esse pacto faustiano com o mefistófeles do consumismo 15 anos atrás, quando, em plena era FHC, a cultura, já órfã de gênios, emasculada pela supremacia mercadológica e desassistida por uma mídia submissa aos mais rasteiros interesses da indústria cultural, começou a ser amplamente dominada pelo pagode, pela vulgaridade, pela cretinice satisfeita, tendo como paradigmas a Carla Perez e o Tiririca. Só os paradigmas mudaram, substituídos por avatares de igual perfil populista. A TV Globo virou uma Record com mais recursos e mais telespectadores cativos. A ordem, lá e por toda parte, é baixar o nível. A televisão a cabo é uma vergonha, da programação aos pacotes fechados impostos aos clientes, dos intervalos entupidos de comerciais aos filmes dublados, que, em certos dias, tomam conta dos canais. O filme dublado é o suprassumo do nivelamento por baixo, da subserviência ao analfabetismo, do desrespeito à criação alheia—e também, não nos esqueçamos, aos deficientes auditivos.

Muito embora os jornalistas tenham hoje à disposição todo o acervo acumulado em séculos, assistimos a um rebaixamento do nível de conhecimento. Há uma perda de parâmetros, de referências. Quando morreu o diretor John Hughes, um repórter da Folhaclassificou seu filme “Curtindo a vida adoidado” de obra-prima, por exemplo. Como você avalia essa situação? Você mesmo escreveu: “Sou de um tempo em que nenhum repórter, por mais jovem e tímido que fosse, deixaria passar em brancas nuvens tolices ditas hoje impunemente até mesmo de reconhecido valor”. Para exemplificar, você fala do caso de Carlinhos Brown, que numa entrevista recusou-se a reconhecer Mozart como um clássico pelo simples fato de conhecer apenas uma parte de sua obra.

S. A. – É constrangedor. Qualquer filme com mais de 20 anos agora é tachado de “clássico” ou “obra-prima”. Quando, faz tempo, o filme Desirée, o Amor de Napoleão passou pela primeira vez na televisão, o “Caderno B” do Jornal do Brasil referiu-se ao abacaxi como “uma obra-prima com Marlon Brando”. Putz! Nem a mãe de Henry Koster, diretor do filme, o tinha em tão alta conta. Volta e meia, quando morre um figurão do cinema, seus obituários nos agridem com distorcidas observações do gênero, supervalorizando o que nunca teve mérito. Não sei o que é pior, se a reverência descabida, ditada pela ignorância e a insegurança, ou a detonação gratuita, falsamente iconoclasta, de filmes antigos só por serem antigos, também típica das novas gerações. A culpa maior é dos editores que aceitam trabalhar com mão de obra pouco qualificada. O cinema sofre mais por ser a casa-da-mãe-joana das artes ou do entretenimento. Como todo mundo vê filmes desde criancinha, acredita-se que qualquer um esteja apto a criticar um filme. Com a ópera, a música erudita e o balé, o buraco é mais embaixo, os amadores, os curiosos e os aficionados tout court não têm vez.

Carlinhos Brown, numa entrevista à Playboy, disse que se recusava a reconhecer Mozart como um clássico por ter ouvido apenas uma parte de sua obra. Mesmo que só tivesse ouvido duas peças de Mozart na vida, o percussionista baiano não tinha por que submeter um conceito universalmente aceito—Mozart é um clássico—ao arbítrio de sua insuficiente cultura musical.

O advento de sites como o Youtube, que fornece uma infinidade de informação visual disponível a qualquer um que tenha acesso à internet, cria uma nova relação com a memória. Posso ler uma crítica sobre um CD e imediatamente acompanhar essas músicas, saber mais sobre quem a compôs. Hoje é possível acessar o passado de uma maneira sem precedentes. Antes, o passado estava em lugares específicos – bibliotecas, coleções de revistas antigas, microfilme, as informações eram mais difíceis de se conseguir, tal como observa o crítico britânico Simon Reynolds Retromania (faber & faber). Para você, quais as implicações desse acesso facilitado ao passado?

S. A. – Entre outras coisas, a obsolescência de elefantes como eu, que agora também posso me dar ao luxo de não me lembrar de nada que não esteja ao alcance de qualquer um na internet. Passamos a exercitar menos a memória, o que é cômodo mas não é saudável; ganhamos espaço em nossos arquivos “analógicos”, jogando fora recortes e outros papéis que agora são armazenados de maneira mais econômica, e até nas nuvens. Mas a informação pura e simples pouco ou nada vale se você não sabe como utilizá-la, vale dizer, relacioná-la com outras de forma eficaz, inteligente, produtiva. É preciso saber transformar a informação em conhecimento, em saber. O Google, a Wikipédia e o IMDB facilitaram nossa vida, agilizaram nosso trabalho, transformaram qualquer um de nós em sabichão, em polímata, aliviaram a barra dos estudantes (que agora dispõem de cola digital, online), mas, a exemplo da substituição da pena pela máquina de escrever, não melhoraram a qualidade da nossa produção intelectual.

Quando o Chico Buarque lançou seu disco mais recente, falou: “Eu achava que era amado, porque as pessoas iam ao show, me aplaudiam e, na rua, me cumprimentavam. Descobri, na internet, que sou odiado. Agora entendi as regras do jogo”. Quais são as regras do jogo agora, na sua opinião?

S. A. – A internet é um território sem lei, logo sem regras, onde as vaias, os insultos e as bravatas podem se proteger no anonimato, se esconder atrás de pseudônimos. Chico, como todo artista de sucesso, sempre despertou inveja e ressentimentos, só que os invejosos e ressentidos não tinham coragem de extravasar seus baixos sentimentos às escâncaras. Quando passaram a dispor de um dispositivo como a internet, abriu-se a caixa de pandora.

Você trabalhou no Correio da Manhã. Era chegar à redação e deparar-se, em pessoa ou em textos, com Otto Maria Carpeaux, Carlos Heitor Cony, Carlos Drummond de Andrade... Dessa geração, quem você considera importante para sua formação? Vale dizer que você escreveu sobre o Carpeaux chamando-o de nosso “último renascentista”. O poeta Affonso Ávila disse que o Brasil deve ser considerado Antes e Depois de Carpeaux.

S. A. – Faltou acrescentar à lista Antonio Callado, José Lino Grünewald e Antonio Houaiss. Trabalhavam todos numa sala chamada de Petit Trianon, que ficava a uns 3 metros da minha mesa, à direita de quem entrava na redação. Eu não saía de lá. Era um noviço com 19 para 20 anos de idade, imagine o que aquela convivência significou para mim. Meus três ou quatro anos de Correio da Manhã valeram por um curso universitário. Se juntarmos todas as redações de jornal ou revista de hoje ainda ficaremos a anos-luz daquela. A figura mais importante para minha formação, embora não citado por você, foi o crítico de cinema Antonio Moniz Vianna, meu guru desde os 15 anos, quando o li, por acaso, pela primeira vez. Mesmo sem entender a maior parte do que li, dada a minha falta de repertório, fiquei fascinado, e disse para mim mesmo: é isso que eu quero ser na vida. Herdei a coluna do mestre quando ele assumiu a chefia de redação do Correio, e me senti como se sentiria um pároco de aldeia subitamente convidado pelo papa para tomar seu lugar na Santa Sé.

Carpeaux foi a pessoa mais culta que eu conheci e que mais coisas me ensinou. Só não entendia de futebol e música popular. Fazíamos testes de brincadeira, para avaliar sua erudição, e ele passava em todos. Ainda trabalhei com ele, Callado e Houaiss nas enclopédias Barsa e Mirador. Foi uma figura fundamental para o nosso processo civilizatório.

Você foi preso pela ditadura uma vez, em 29 de fevereiro de 1972 (ano bissexto como este agora). Sete anos depois, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por conta de “Mar de lama”, reportagem sobre casos de corrupção no governo Geisel. Você depois descobriu que os órgãos de segurança mantinham um dossiê a seu respeito desde novembro de 1965, quando trabalhava no Jornal do Brasil. Você pode falar um pouco dessa experiência? De que modo ela te afetou (ou não)?

S. A. – Foi chato, mas não tirou sangue. A turma do Pasquim vivia debaixo de censura e sob constante ameaça de uma temporada nos porões da ditadura, e vários de sua equipe original passaram dois meses na cadeia, na Vila Militar, sem uma acusação formal, sem processo. Minha prisão, em fevereiro de 1972, justo no aniversário do Jaguar, resultou de um acúmulo de equívocos e coincidências. Preparávamos uma edição especial sobre Ipanema, Miguel Paiva fora escalado para entrevistar Ricardo Amaral em seu bunkerna Lagoa Rodrigo de Freitas, e Bruno Barreto faria as fotos. Bruno, estagiando como fotógrafo do jornal, tinha só 17 anos. Como fazia um dia lindíssimo e eu, cuidando da edição do número, não tinha nada para fazer naquele início de tarde, resolvi acompanhá-los. Fomos no Opala branco que o Paulo Francis vendera ao jornal antes de se mudar para Nova York, no ano anterior. Miguel Paiva ao volante. Quase no estacionamento da Lagoa, fomos parados por uma blitz. A polícia buscava um Opala branco envolvido num assalto a banco pela manhã, no centro da cidade. Assalto por militantes da luta armada. Talvez nos tivéssemos livrado da blitz se os documentos do carro estivessem no porta-luvas e Miguel não trouxesse em sua bolsa uma carteira falsa de estudante, que usava para pagar meia entrada nos cinemas. Resultado: fomos levados para a 14ª Delegacia, no Leblon, e depois para o DOPS, onde ficamos presos até o fim da noite. Havia no DOPS um dossiê a meu respeito, por ter assinado um manifesto contra a prisão dos “18 do Glória”, em 1965, mediado um debate sobre o filme Terra em Transe, no Museu da Imagem e do Som, em 1967, e constar da caderneta de endereços do Fernando Gabeira, que havia sido meu colega no Jornal do Brasil, participara do tal debate sobre o filme do Glauber, e, last but not least, ajudara a raptar o embaixador americano. Por uns tempos precisei da autorização da Polícia Federal para viajar ao exterior. O enquadramento na Lei de Segurança Nacional me levou a um tribunal militar, mas afinal não deu em nada. O veredito demorou tanto a sair que acabei beneficiado pela Lei da Anistia. Resumindo: sofri apenas apreensão e constrangimentos durante a ditadura. Ali por volta de 1974 era censurado previamente nos três veículos para os quais escrevia: Pasquim, Veja e Opinião. Cheguei a brincar com o Millôr, que escrevia nos dois primeiros, mas não no Opinião: “Sou eu, não você, o jornalista mais censurado do país”.

Em um de seus textos você lembra o coronal Darci Lázaro, que ameaçou: “Se essa história de cultura vai-nos atrapalhar a endireitar o Brasil, vamos acabar com a cultura durante trinta anos”. Qual o tamanho do estrago que o regime militar provocou na cultura brasileira?

S. A. – O estrago foi enorme, como é sabido e está exaustivamente documentado em livros, como também é fato que quando chegamos a 1994 pudemos olhar para trás e dizer: “Já se passaram os 30 anos dados pelo coronel Darcy Lázaro e sua ameaça não se cumpriu”. O único Darcy daquele tempo que entrou, gloriosamente, para a história do Brasil foi o Darcy Ribeiro, odiado por seu xará fardado, que hoje é apenas um estande de tiro em Brasília, preito irrelevante de que só tomei conhecimento consultando o Google.

Escrevendo sobre Art Spiegelman, você lembra que ele levou ao editor da New Yorker, David Remnick, uma série de quadrinhos sobre a experiência de se viver numa cidade ameaçada simultaneamente por Bush e Osama bin Laden (no Brasil, saiu com o título À sombra das torres ausentes, pela Companhia das Letras). Na sequência, Art pediu demissão e publicou a série em outro jornal. A partir desse episódio, pergunto: qual o papel e a importância de um editor quanto aos critérios e valores que norteiam uma publicação? Lembro ainda aquela história do Paulo Francis, que publicou um texto criticando atuação da atriz Tônia Carrero. Depois, afirmou que, se o editor tivesse conversado com ele, talvez não publicasse a crítica.

S. A. – O editor é ou deveria ser o superego de qualquer publicação, seja ele o dono do negócio ou apenas seu mais graduado intermediário. O ideal é que seja o mais capacitado, experiente e sensato da redação ou ao menos dê essa impressão. Afinal, são desses atributos que deriva sua ascendência. David Remnick é um excelente editor mas é difícil julgar se exagerou na dose de cautela ao vetar os quadrinhos do Spiegelman. Todo editor tem seu dia de censor; faz parte da função. No Brasil houve e continua havendo editores que, se trocados pelo contínuo, ninguém notaria a diferença.

O capitalismo global cometeu um erro fatal: modelar as diversas economias mundiais por um único padrão, sem levar em conta suas diferenças econômicas e culturais. Essa é uma avaliação de John Gray, no livro Falso Amanhecer(Ed. Record, no original, “False Dawn”), sobre o qual você escreveu. De que maneira essa estandardização se faz presente no jornalismo cultural praticado no Brasil hoje?

S. A. – Nosso jornalismo cultural já foi um dos melhores da imprensa mundial. Nos anos 80, Matinas Suzuki Jr., que então editava a “Ilustrada”, o caderno cultural e de variedades da Folha de S. Paulo, ousou proclamar essa excelência nas páginas do jornal. O “Caderno B” do Jornal do Brasil, desde que surgiu, no final dos anos 50, até os anos 80, foi um farol de inteligência e inventividade. O mesmo se diga do “Quarto Caderno” do Correio da Manhã, editado pelo Francis na segunda metade dos anos 60. Nas duas últimas décadas, todos os “segundos cadernos” ficaram parecidos, excessivamente caudatários da indústria cultural, como se pautados por uma central de divulgadores. O “Caderno 2” do Estado de S. Paulo é, hoje, uma honrosa exceção. E não sou só eu que assim pensa.

Ao mencionar o Instituto Moreira Sales, com ações no Rio, em São Paulo e em Poços de Caldas, você pergunta: “Quantos institutos e fundações culturais patrocinados por sobrenomes ilustres existem aqui?” Por que os nossos ricos não são como os ricos dos EUA, que fazem filantropia pelo menos para conquistar status?

S. A. – Faltam-lhes tradição nessa forma de acumulação do chamado capital prestígio. A formação socioeconômica do país nos condenou a ter mais empresários e argentários que preferem guardar quadros em cofres e comprar cavalos e jatinhos particulares do que obras de arte para usufruto público. Contam-se nos dedos os que nos legaram coleções, museus, bibliotecas e fundações. Nossas leis de incentivo fiscal, além de recentes em relação às de outros países, nasceram cheias de furos, permitindo que determinadas instituições criassem fundações que funcionam mais como apêndices do departamento de marketing daquelas corporações.

Não mais do que 10 ou 15 gigantes da mídia decidem o que vamos ver e ouvir. São eles que dominam a indústria do entretenimento e da informação. Como resistir à homogeneização cultural?

S. A. – Não sei. Talvez se os editores de jornais e revistas fizessem um pacto para enfrentar juntos a tirania da mesmice, repudiando a homogeneização, alguma mudança poderia ocorrer. Mas isso é umwishful thinking, uma utopia. A concorrência ficou muito acirrada, sempre uma ou mais publicações romperiam o acordo para obter algum tipo de vantagem sobre as demais, e assim iludir-se de que terão mais tempo de vida. Para enfrentar a homogeneização é preciso, antes de mais nada, ter ousadia e condições para ser heterogêneo.

George Orwell cunhou a expressão “Thought Police” (polícia do pensamento), a propósito do controle de ideias nas ditaduras comunistas. Parece que eclodiu uma nova era desse controle, através do “politicamente correto”. Para você, o politicamente correto de hoje têm o mesmo sentido das patrulhas ideológicas dos anos 70?

S. A. – O politicamente correto é o primo rico e estrangeiro da patrulha ideológica; é um fenômeno globalizado, uma pestilência mundial propagada pelos americanos, sem prazo de validade, portanto mais daninho.

Sei que você trabalhou com editor no segundo caderno do Correio da Manhã. Em outra(s) publicação(es) também exerceu esse ofício? Pode falar um pouco dessa experiência? Você se sentia melhor como repórter, ensaísta ou editor?

S. A. – Fui alçado à condição de editor quando o Correio da Manhã passou a ser estrangulado economicamente por ter-se voltado contra o regime militar depois do primeiro Ato Institucional, em 9 de abril de 1964. Só uma situação anômala como aquela pode explicar a entrega do “Segundo Caderno” a um menino de 22 anos de idade e apenas quatro de redação. Foi maravilhoso enquanto durou. Minha liberdade era total. Não havia, naquele tempo, a obrigação de cobrir todos os eventos culturais da cidade; se o show ou o filme estreante era bom, ganhava matéria e crítica; se não era, dava-se outra coisa. Não nos submetíamos à agenda da semana, nem as editoras de livros impunham as datas em que seus grandes lançamentos tinham de ser resenhados, como há tempos acontece. Não havia o servilismo de agora. Até por isso os segundos cadernos dos jornais não pareciam clones ou covers uns dos outros, como os de hoje. Uma vez gastei a primeira página com cinco fotos espetaculares sobre leões na África, sustentadas por um texto meu sobre tudo que sabia e aprendi correndo sobre o rei dos animais, sem exclusão de Androcles e o leão da Metro, claro, e, à falta de um título que me satisfizesse, declinei na vertical o substantivo leão em latim: “Leo, leonis, leoni, leonem, leo, leone”. Fez o maior sucesso, sobretudo pelo inesperado.

Em O frenesi do furo, você afirma que, por volta de 1985, “a Folhadeu ao caderno de cultura o mesmo status jornalístico da política e da economia. Foi sem dúvida um avanço, mas algumas deformações ocorreram. Nenhuma tão desatinada quanto o culto ao furo, à exclusividade” (2000). Você acha que ainda hoje essa seja a principal deformação?

S. A. – Acho. E talvez tenha até piorado. Sei de escritores que morrem de medo que algum jornalão publique uma resenha ou uma matéria, mesmo favoráveis, sobre seu livro, antes dos concorrentes, pois isso, quase certamente, é uma sentença de morte, uma condenação ao silêncio ou, na melhor hipótese, a um cantinho de página.

No Pasquimvocê tinha uma página de crítica da mídia duas vezes por semana. Há um episódio em que, nesta seção, você criticou o próprio jornal e foi demitido. Pode falar sobre isso? O que aconteceu realmente? Qual foi a sua crítica?

S. A. – A página, intitulada “É isso aí”, só saía uma vez por semana porque o Pasquim era um semanário. Tomei as dores do Mino Carta, que, por causa de uma reportagem maldosa do Wagner Carelli sobre a esquerda festiva de Ipanema, publicada na IstoÉ, dirigida pelo Mino, foi ferozmente criticado e gozado noPasquim pelo Ziraldo, pelo Ivan Lessa e não sei mais quem. Ora, se eu criticava o resto da imprensa, por que haveria de livrar a cara do Pasquim? Jaguar me demitiu. Por carta! Alegou que eu “não estava vestindo a camisa” do jornal. Ziraldo alegou que ele, Jaguar, estava de porre quando me demitiu; tentaram voltar atrás, mas não cedi e saí, no final de 1979. Depois fizemos as pazes, mas nunca aceitei voltar ao jornal.

Quando você saiu da Folha, em 1996, o Francis disse que sua saída marcava o fim de uma época do jornalismo cultural. E terminava assim: “Acabou o asfalto”, tal como registrado em entrevista para o livro Pós-tudo, 50 anos de cultura na Ilustrada(Publifolha). Curiosamente, essa sua saída coincide com a ascensão das mídias digitais, possibilitada pelo avanço da internet. Nesses quase quinze anos, quais as principais mudanças que afetaram o jornalismo cultural, em sua opinião?

S. A. – Exagero do Francis. Mas a frase é maravilhosa como epitáfio para o modelo de jornalismo no qual Francis e eu fomos criados. O computador foi, para mim, um bálsamo; a humanidade deveria ter saltado do cinzel direto para o computador sem passar pela máquina de escrever. A internet é um luxo, agiliza o serviço, mas a qualidade do jornalismo cultural não melhorou depois do seu advento. Como podia melhorar com tantos palpiteiros sem qualificação (e sem um superego) online? Se e quando inventarem um programa com várias opções de lead para qualquer texto, a qualidade cairá ainda mais, aí, sim, teremos sacramentado a homogeneização.

Nos jornais impressos europeus e americanos predomina a publicação de suplemento ou revista semanal de cultura. No Brasil, ganhou forma o caderno diário. Por que acha que o modelo americano não vingou aqui?

S. A. – Como gostava de dizer Antonio Houaiss, discrepo. Temos um histórico farto de cadernos culturais: o “Suplemento” do Estado de S. Paulo; o também legendário SDJB (“Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil), que apesar do nome saía aos sábados; o suplemento literário da Tribuna da Imprensa, editado por Mário Faustino; e, mais recentemente, o “Folhetim”, “Mais!”, “Leia Livros”, “Prosa e Verso”, “Sabático”.

Destaco duas observações suas. 1) “Assim como no resto do mundo, temos produzido bons e maus filmes, sendo que os maus continuam sobrepujando os bons, ainda que a nossa crítica especializada, no geral complacente e paternalista, tente nos convencer do contrário”; e 2) “O moderno cinema brasileiro não teria chegado aonde chegou senão fosse a participação ativa, entusiástica e, não raro, benevolente da imprensa, vale dizer, da crítica de 30 e tantos anos atrás [essa escrita em 1998]”. Quero contrapô-las à afirmação de Antoine de Baecque, crítico francês que chefiou os Cahiers du Cinéma: em Cinefilia, ele diz que nunca se escreveu tanto sobre filmes quanto agora, e nem tanta bobagem. Vivemos um momento difícil em relação à crítica de filmes?

S. A. – Fecho inteiramente com de Baecque. Existem hoje milhões de críticos de cinema na internet, muitos até são bons, mas cadê a Pauline Kael, o Jean Douchet da era digital?

Como você mesmo registrou, “as maiores emoções que o cinema já proporcionou ao público ocorreram em 1895 (quando chegou), em 1927 (quando falou) e em 1953 (quando agigantou-se)”. Poderíamos acrescentar aí o uso da cor, em 1935. Você incluiria o 3D como um desses marcos? No lançamento de A Invenção de Hugo Cabret, Scorsese se disse encantado com essa técnica, e criticou o clichê segundo o qual o 3D“só deve ser usado se tiver a ver com a história”. Qual sua opinião a esse respeito?

S. A. – Até prova em contrário, o 3-D é um gimmick perfeitamente dispensável, como o Cinerama. Wim Wenders usou-o inventivamente em Pina, mas gostaria de rever o filme em dimensões normais para testar sua imprescindibilidade. Se de fato veio para ficar, só daqui a alguns anos saberemos. Como o cinema hoje hegemônico é dirigido prioritariamente ao público infanto-juvenil, é provável que fique.

Em 2004, você disse que os documentários têm, “em sua dieta cinematográfica, o mesmo valor que, na alimentar, dá às saladas e legumes cozidos. Sei que fazem bem à saúde – do cinema e da gente – mas é quase por obrigação que deles me sirvo”. Contudo, de lá pra cá o país viu um certo boomdo gênero, com novos filmes de Eduardo Coutinho, o Santiago, do João Moreira Sales... Há alguma razão para que esse tipo de narrativa – que tem um parentesco com o jornalismo, de certa forma – tenha esse destaque?

S. A. – Há. É muito mais fácil rodar um documentário do que fazer um filme narrativo, de ficção. Mas criar um documentário original, com os de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, exige um talento especial, não é para qualquer bico. Ou seja, rodar um documentário ruim é bem mais fácil do que fazer um filme de ficção medíocre.

* Fabrício Marques é jornalista e diretor do SLMG

Texto reproduzido do site: jornalggn.com.br/blog/luisnassif

Entrevista | Sérgio Augusto


Entrevista | Sérgio Augusto

“Se pudesse, não escreveria mais uma linha”

O escritor e jornalista Sérgio Augusto revê sua carreira de 54 anos no jornalismo e fala sobre os temas que mais o instigam ainda hoje, como a literatura, os grandes cronistas e o declínio do jornalismo cultural brasileiro

Por Marcio Renato dos Santos e Luiz Rebinski

A história do jornalismo cultural brasileiro do século XX não pode ser contada sem que Sérgio Augusto empreste o nome a um verbete. Colaborador das principais publicações do país desde os anos 1960, quando estreou no jornalismo como crítico de cinema na Tribuna da Imprensa, aos 18 anos, Augusto representa hoje uma espécie em extinção no jornalismo cultural brasileiro: a do jornalista que consegue, sem ser cabotino, escrever com a mesma propriedade sobre temas tão variados como cinema, música, futebol, problemas sociais e política. O que lhe rendeu elogios superlativos ao longo da carreira, como o de “Montaigne brasileiro”, exaltado por Moacyr Scliar na orelha de As penas do ofício, uma reunião de artigos de Sérgio Augusto publicada na metade dos anos 2000. A literatura foi outro tema que rendeu ao jornalista muitos textos. Suas análises e memórias sobre autores importantes da nossa literatura povoam prólogos e posfácios de obras essenciais, em geral resgatadas do limbo editorial. É o caso recente de O mais estranho dos países, livro de crônicas de Paulo Mendes Campos em que Sérgio Augusto dá ao leitor a dimensão do cronista mineiro dentro do cenário literário nacional. Há poucos anos, o jornalista coordenou a reedição dos livros de Rubem Fonseca pela editora Agir, um dos temas que ele comenta nesta entrevista. O escritor também fala sobre jornalismo pós-internet, a derrocada dos cadernos de cultura tradicionais e o mercado editorial brasileiro.

Com a crise da imprensa escrita, os cadernos de cultura estão sendo escritos por gente muito jovem, que se submete aos salários baixos que os jornais oferecem hoje. Qual a sua avaliação a respeito do jornalismo cultural praticado atualmente no Brasil?

É uma cobertura utilitarista, norteada pelo mercado e pautada pelos divulgadores de editoras, artistas, produtores de filmes e peças etc, que se tornaram superegos dos editores. Se o noticiário político muito se ressente da promiscuidade que existe, sobretudo em Brasília, entre jornalistas e políticos, do jogo de favores que se estabelece entre eles, na cobertura cultural não é menor o compadrio, a complacência com os produtos lançados e a desigualdade de tratamento dispensado a quem é e não é amigo ou “funcionário da casa”. Em 54 anos de profissão nunca vi o jornalismo de patota ou dinástico praticado com tanta intensidade e desfaçatez como agora. Claro que em redações com alto índice de noviços e elevada rotatividade, onde o medo de perder o emprego só fez crescer nos últimos tempos, esse clima encontrou o ecossistema ideal para proliferar. As editoras mais poderosas praticamente editam o que sai sobre seus lançamentos e é publicado nos jornais; escolhem o dia, exigem primeira página, às vezes escolhem até qual veículo deverá ter prioridade ou mesmo exclusividade. Montaram um esquema que transformou os cadernos de cultura & amenidades em meras vitrinas, em extensões de seus press releases. E ai de quem ousar romper esse pacto sinistro.

Nos últimos anos o cerco tem se fechado para as publicações dedicadas à cultura no Brasil. As últimas baixas foram a revista Bravo! e o caderno “Sabático”, do Estadão, ambos veículos em que você era colunista. Por outro lado, a cultura se expandiu de outra maneira, com mais publicações segmentadas surgindo fora do Eixo Rio-São Paulo, sem falar na internet. Assim como acontece com a informação de um modo geral, os grandes veículos perderam a hegemonia e a relevância na área cultural?

Perderam, não sei quanto, e na certa perderão mais à medida em que a imprensa gutenberguiana apressar seu passo rumo à extinção. Há bastante jornalismo cultural de qualidade igual ou superior na internet, embora o lixo ainda predomine, quando nada porque na web o espaço é infinito e o que nela se divulga não é filtrado, editado, apenas manipulados por algoritmos desprovidos de qualquer senso crítico. Muita gente, especialmente as gerações mais novas, se informa pela internet, capta e troca opiniões pelas mídias sociais. O primado do jornalismo de serviço ao qual os segundos cadernos se escravizaram há duas ou três décadas, em detrimento de um jornalismo mais, digamos, reflexivo, crítico e impermeável à agenda de lançamentos, foi um tremendo retrocesso. Facilitou o trabalho e a ascensão de profissionais mal formados e informados, pois o jornalismo de serviço pouco exige deles, é quase um trabalho braçal, mas não atraiu novos leitores na quantidade almejada. Como o jornalismo impresso só terá futuro se tomar o caminho inverso, tornando-se reflexivo, analítico, nada de textinhos curtos e opiniosos, apanágio da internet, ainda lhe resta uma esperança. Mas o problema maior persiste: como superar a preguiça das pessoas para ler textos que excedam dois parágrafos curtos, sejam eles impressos ou pixelados numa tela? O maior paradoxo da internet foi ter inventado o hipertexto e estimulado o hipotexto.

“Fazer listas, esse passatempo adolescente que a juvenilização do planeta transformou num esporte ecumênico e onipresente, vem enchendo a burra de um bocado de gente.” A frase está no texto “Para quando o mundo acabar”, publicado na revista Bundas, em 21 de novembro de 2000, e incluído no livro Lado B. O jornalismo cultural utiliza-se do expediente. O que acha das listas? Faz sentido ter listas?

Fazer listas é um folguedo infantil (ou adolescente, como queira), uma masturbação taxonômica, inócuo e inconsequente. Já brinquei muito disso, em priscas eras, mas tomei fastio, assim como me cansei de dar cotações a filmes, estrelinhas, bolas pretas e outras avaliações reducionistas, tão tolas quanto as reações do bonequinho de O Globo. Sei que fazer listas é uma das coisas que distinguem o ser humano dos animais, mas não faço a menor questão de me distinguir por essa habilidade dos bichos que tanto admiro e venero. Já os questionários, cujo modelo mais famoso é o de Proust, me agradam.

Você é um entusiasta do jornalismo praticado em revistas americanas como The New Yorker e Atlantic. Temos uma tradição rica de grandes jornalistas, mas o jornalismo americano ainda é melhor que o nosso?sergio2 Sempre foi?

Sempre foi. Tivemos e ainda temos jornalistas culturais de enorme talento — hoje em menor quantidade, certo —, mas nesse ramo os americanos e ingleses continuam imbatíveis. Mas nem nos Estados Unidos nem na Europa houve um fenômeno da magnitude de Otto Maria Carpeaux, que era austríaco mas se fez jornalista aqui no Brasil.

Recentemente a literatura nacional perdeu João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, dois escritores que, de alguma forma, pensaram o Brasil em seus romances. Um tema que parece não estar na rota dos escritores contemporâneos. O romance-painel, como Viva o povo brasileiro, já não tem mais função, nossa literatura já explorou suficientemente a formação da nação?

Desconfio que sim. Ficaria surpreso se aparecesse aí um novo épico, um novo romance-painel do fôlego de Viva o povo brasileiro. Os romances encolheram, muitos são quase novelas ou contos espichados, consoantes a preguiça cada vez maior do leitorado, viciado pela internet e certos jornais na leitura de textos curtos. O roman-fleuve secou e nem podemos culpar a degradação do meio ambiente por esse desastre intelectual.

Quando se pergunta a um escritor com mais de 60 anos o que ele anda lendo, é provável que ele responda que não tem acompanhado as novidades, que está relendo livros que foram importantes em sua trajetória, mas não suficientemente digeridos como deveriam. Como pauta suas leituras hoje? Também está na fase da releitura?

Infelizmente não. Mas não é por falta de vontade. Não tenho mais aquela sofreguidão da onisciência, típica da imaturidade, que alguns chamam de juventude. Divido minhas leituras entre o desejo e a necessidade. O desejo está ligado, de certo modo, à curiosidade. A necessidade está sempre ligada ao trabalho. Gasto horas percorrendo links atrás de links para conhecer melhor um assunto sobre o qual escreverei (ou tentarei escrever) um artigo para o jornal, em geral para o “Aliás” do Estadão, que trata de questões mais ligadas à atualidade. Às vezes me meto a tratar de temas com os quais tenho pouco intimidade, justamente para superar essa lacuna. Há pouco gramei, em versão kindle, trezentas páginas de um fascinante estudo sobre o hidronegócio global— The Price of Thirst — porque cismei de tocar no problema da falta d’água em São Paulo. Talvez jamais o lesse se não tivesse de escrever sobre a escassez e a comercialização da água no planeta. Como quase sempre eu mesmo me pauto, pode me chamar de masoquista. Ah, sim, faço com livros o que faço com filmes: se me aborrecer, largo no meio — ou mesmo no início. A vida é curta e são muitos os livros que ainda não li por falta de tempo. Com ficção costumo ser implacável. Se um romance ou uma novela não me seduz, não me intriga, começo a me cobrar por que, diabos, não estou relendo Flaubert.

E a literatura de ficção brasileira contemporânea? Procura conhecer novos nomes?

Não como deveria fazê-lo, nem que fosse por mero dever de ofício. Milton Hatoum, Cristovão Tezza, Sergio Sant’Anna e Bernardo Carvalho me interessaram desde o início; outros (não citarei nomes) nem no início; e outros abandonei à medida em que fomos envelhecendo e envilecendo. Tenho graves lacunas, nenhuma, creio, tão gritante quanto Evandro Affonso Ferreira, que não vejo a hora de degustar. Confesso, sem culpa ou vergonha, que leio mais e com maior interesse os autores de língua espanhola. Nacionalismo em arte não existe.

Há certo consenso de que o mercado editorial brasileiro se profissionalizou nas últimas duas décadas, além de ter se expandido, com mais e melhores editoras. Isso passa tanto pela parte operacional do negócio, quanto, por exemplo, pelas traduções, hoje feitas diretamente de qualquer língua. Concorda com essa visão?

Concordo plenamente. As duas coisas caminham juntas, não? Quando leio um livro estrangeiro, costumo marcar a lápis as frases e expressões capazes de derrubar um tradutor; se por acaso me cabe resenhar sua edição brasileira, já tenho meio caminho andado: se o tradutor superou aquelas armadilhas, posso confiar no restante.

Quando Rubem Fonseca saiu da Companhia das Letras e passou a ser editado pela Agir/Nova Fronteira, você foi o responsável pela coordenação da reedição da obra do autor. Nesse trabalho, foram recuperados textos de outros autores sobre Fonseca, além de posfácios inéditos assinados por você. Como foi esse trabalho de revisão da obra de um escritor tão importante? A releitura dos livros de Fonseca foi reveladora em algum sentido? Apontou novas perspectivas?

Embora amigo de Zé Rubem desde o início dos anos 1960, quando ele ainda trabalhava na Light, não soube por ele de sua saída da Cia. das Letras, mas de Paulo Roberto Pires, então diretor da parte editorial da Ediouro/Agir. A Nova Fronteira ainda não havia entrado na história. Paulo Roberto partiu logo para conquistar Zé Rubem para suas hostes e me propôs fazer a curadoria da reedição, o que, segundo ele, facilitou sua cantada no cobiçado escritor, pois, conforme já disse, somos amigos de longa data. Parêntese importante: fui responsável pela ida do Zé Rubem da Francisco Alves para a Cia. das Letras. Luiz Schwarcz me confidenciou que adoraria ter Zé Rubem em seu catálogo. A transação foi facilmente armada durante um almoço en petit comité no Copacabana Palace com a agente espanhola Carmen Barcells, a escritora chilena Isabel Allende, Luiz Schwarcz, Zé Rubem, Nélida Piñon, Affonso Romano de Sant’Anna, este que vos fala, e não me lembro mais quem, no Copacabana Palace. Zé Rubem não estava satisfeito com a Francisco Alves e fez muito bem em ir para a Cia. Fechado o parêntese. Fazer a curadoria foi uma tarefa tranquila. Zé Rubem não lê, ou pelo menos diz que não lê, o que escrevem sobre ele e seus livros, mas seu arquivo de recortes, organizado por uma amiga, é farto e organizado. Nele e nos meus guardados catei as resenhas e os ensaios que me pareceram os mais relevantes, montei um arremedo de “fortuna crítica”, reproduzimos as capas das traduções de cada livro no exterior, escrevi os posfácios, e pronto. Posfácio é um fardo: supõe-se que seja lido depois do texto principal, o que, se em parte nos libera do risco de “spoilers”, nos obriga a fugir da redundância o tempo todo. Conforme os volumes iam saindo, meu estoque de observações e achegas sobre o autor e determinados aspectos e personagens de sua obra foi-se esgotando. Quase entrei em pânico. Seu conceito como mestre em narrativas curtas permanece, a meu ver, inabalado. Zé Rubem enobreceu o gênero noir entre nós e criou uma legião de discípulos e imitadores que nunca me apeteceram, até porque nunca fui chegado à literatura policial.

“Bunda” ainda é a sua palavra preferida da língua portuguesa? Por quê?

É. Por seu poder descritivo, por sua sonoridade. Também era a palavra favorita de Drummond. Gosto muito de cafuné, dengoso (dengosa é melhor ainda), chamego, pachola. Do ponto de vista estritamente semântico, minha favorita, em qualquer língua, é alívio. É o que sentimos quando superamos nossas piores dores e aflições.

Você mesmo afirmou: a televisão emburrece, a televisão é a cocaína do povo. Tem assistido algo na televisão? Caso sim, o quê?

Raramente vejo televisão. Para quem passa o dia plugado na internet, os telejornais pouco acrescentam. De todo modo, meu canal default é, faute de mieux, a Globo News. Até a Copa acompanhava de perto o futebol, mas me desencantei tanto com o futebol aqui praticado — e mais ainda com o Botafogo — que cancelei minha assinatura do PFC (Premiere Futebol Clube), uma inutilidade se você quiser apenas assistir aos campeonatos europeus, transmitidos de graça pela ESPN e pela Fox. Sou, em parte por necessidade geográfica, digamos assim, assinante da Sky Net, que é uma porcaria. Oferece trezentos e tantos canais, se me sirvo de meia dúzia é muito. Não podemos fazer nosso próprio pacote, cancelando o que consideramos lixo, como, no meu caso, por exemplo, os canais infantis (não tenho criança em casa), os evangélicos, os de compra e venda, os de leilão de gado etc. Dia desses descobri que estava pagando cinco reais por um canal que nem de graça me interessa: o japonês NKD. Isso é um sacanagem com o consumidor. O problema é que você não tem opção. A programação de filmes é uma tristeza — e até filmes dublados já passam na TV a cabo. Salvam-se os seriados e o Netflix. Fui um fanático seguidor de Mad men, desde o início, e também de House of cards, Newsroom e Homeland.

Alguém já comentou que há pontos de contato entre o seu texto e o de Paulo Mendes Campos. Há algo em comum? O que seria?

Nunca me disseram isso. Creia- -me: você acaba de me fazer o maior dos elogios. Se temos algo em comum, só você, por enquanto, pode discorrer a respeito, e adoraria que o fizesse. Invejava a maneira como Paulinho conseguia ser, a um só tempo, erudito e claro, leve e profundo, lírico, sem pedantismo, informativo e encantador. Um jornalista cultural perfeito. Quem me dera pertencer a essa liga.

Atualmente há inúmeros textos autorais publicados na imprensa brasileira, crônica, comentário, opinião, etc. Quem são os seus cronistas, comentaristas favoritos? Quem você não deixa de ler?

A turma da New Yorker é indispensável. Idem, a maioria dos colaboradores da New York Review of Books. Assino uma porção de publicações, a maioria online, atualmente, de modo que seria fastidioso listar quem sigo, já segui e deixei de seguir. Já li com mais assiduidade Paul Krugman, mas economia não é minha praia. Da prata da casa, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Renato Janine Ribeiro, Milton Hatoum, Fernando Calazans e Lucia Guimarães são os primeiros nomes que me ocorrem, e desde já peço desculpas aos que mereciam ter sido lembrados mas não foram — vistam a carapuça da vaidade. Há muito me dispensei dos cronistas que não saem do lero-lero, ficam fazendo embaixada com as palavras e nada me ensinam. Também não tenho saco para os cronistas-vovô, que nos impingem as gracinhas de seus netinhos e netinhas. Para ganhar tempo, paro de ler de imediato qualquer texto com clichês e expressões que abomino. De imediato, mesmo, ainda que o assunto me esteja interessando. É minha forma de protestar em silêncio contra o insulto que a meu ver representam coisas do tipo “resgatar a memória”, “conquistar corações e mentes”, “ícone” disso e daquilo, “emblemático”, e por aí vai, o glossário não para de crescer. Com a internet e seu vale-tudo vernacular, sintático e estilístico, esse descalabro atingiu culminâncias inéditas. Há blogs que, só de olhar, me provocam engulhos, com seus pontos de exclamação torrenciais, suas palavras “gritadas” em caixa alta, seu gosto por hipérboles do tipo “o máximo”, “genial”, “imperdível”.

De tempos em tempos você reúne sua produção mais recente em livro, como fez ao publicar Lado B e As penas do ofício. Teremos em breve uma nova reunião de seus artigos e ensaios?

Não tenho nada desse gênero programado. Vivem me cobrando uma coletânea do que escrevi sobre cinema, mas não me animo. As editoras de ponta me parecem cada vez mais arredias a compilações e similares. Por elas, o que saiu em jornais e revistas deve lá permanecer sepultado, à espera de que o autor morra e a próxima onda de nostalgia o traga de volta, quiçá com o rótulo de “esquecido”, “maldito”.

Você tem formação em filosofia, é aficionado por cinema, militante do jornalismo e um leitor voraz. Se tivesse que escolher apenas uma dessas manifestações artísticas, com qual ficaria?

Se pudesse, ficaria lendo e ouvindo música, não escreveria mais uma linha; ao menos por obrigação, para ganhar dinheiro, não escreveria. Quem por acaso aprecia o que escrevo deve torcer para eu jamais acertar um bolão da Mega-Sena.

Você não teve filhos e, a exemplo da narrador de Machado de Assis, “não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Não ter sido pai explica o fato de você ser um sujeito acima da média em sua atividade, que conseguiu se dedicar como poucos à cultura e à escrita? Ou essa observação não tem sentido?

Não sei se faz sentido. Não ter filhos me proporcionou mais tempo para viajar, disso tenho quase certeza. Deixava os gatos com minha mãe, e pé na estrada. Viajei muito, para tudo quanto é lugar. Tirei praticamente um ano sabático em 1974, viajando pela América do Norte e Europa. Felizmente cansei de voos e aeroportos na mesma época em que o jornal cancelou os dois bilhetes aéreos internacionais que todo ano me dava de bonificação. Quanto aos filhos, às vezes me arrependo de não ter legado minha miséria a uma criatura, de preferência do sexo feminino. Como minha mulher tampouco tem filho, nem irmãos, como eu, já me vejo, bem velhinho, vivendo da caridade de estranhos, como a Blanche Dubois. Se tiver sorte, é claro.

Texto e imagem reproduzidos do site: candido.bpp.pr.gov.br

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Fotógrafo Fernando Souza e jornalista Amaral Cavalcante

Foto de arquivo: Luciano Correia
Reproduzida do Facebook/Luciano Correia

Gente que fez a "Folha da Praia"

Secretária-chefe Teresa

Rivanda Santos e Luciano, na Redação

 Altamiro Oliveira buscando na lista.
Informações de legendas: Luciano Correia
Fotos de arquivo: Luciano Correia
Reproduzidas do Facebook/Luciano Correia

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Greve dos jornalistas e radialistas de 1991 vira tema de livro


Henrique Maynart (Foto: Segrase)

Publicado originalmente no site do portal Infonet, em 11 set, 2018 17:15

Greve dos jornalistas e radialistas de 1991 vira tema de livro

‘Nem copo de cachaça, nem prato de comida – a primeira greve dos comunicadores sergipanos’, do jornalista Henrique Maynart, é a nova publicação da Editora Oficial do Estado de Sergipe – Edise.

A obra será lançada durante mais uma edição do projeto ‘Ocupe a Praça Direitos Humanos’, que acontece no dia 13 de setembro, às 17h, no Centro Cultural de Aracaju, na Praça General Valadão, Centro de Aracaju. O trabalho de conclusão do curso de Jornalismo do autor conta a história da maior greve dos jornalistas e radialistas na história da imprensa sergipana, que aconteceu entre 22 a 29 de novembro de 1991.

Após 26 anos de silêncio sobre o tema, baseados pelo medo e opressão, o autor propôs não deixar que o assunto caísse em esquecimento. Henrique se engajou na busca de informações que contam esse período através de documentos contendo atas ou reportagens, depoimentos dos comunicadores envolvidos e fotografias das mobilizações e reuniões para que, mesmo com poucos registros, as pessoas que fizeram parte desse movimento pudessem relembrar e contar suas histórias, relatando fatos que eram desconhecidos por muitos. A pesquisa foi muito difícil, conta Henrique. “Foram 25 entrevistados, as lidas no livro de atas dos sindicatos para checar todos os dados, as idas às hemerotecas do Jornal da Cidade, Jornal de Sergipe e Gazeta de Sergipe, os dados da Federação Sergipana de Futebol, até porque essa greve interrompeu a final antecipada do campeonato sergipano”, relembrou.

O autor também nos conta como escolheu esse tema, que rendeu para ele o seu primeiro livro. “Em 2013 eu encontrei o colega jornalista Cristian Góes na Praça Olympio Campos, durante nossa conversa surgiu o assunto da greve dos jornalistas em Sergipe, que havia parado até uma transmissão de um jogo realizado no Batistão. Fiquei pensando como eles conseguiram interromper toda a transmissão, porque envolve muitos profissionais – fotógrafo, repórter, quem está na redação, quem fica na cabine de transmissão, enfim, deve ter sido muito louco, porque se hoje em dia seria estranho imagine em 1991, afinal naquela época não existia a “celularização”. Acabei me interessando pelo tema e tive um grande auxílio de José Juva, meu orientador, para consolidar essa pesquisa”.

Marcos Sales, presidente em exercício da Empresa de Serviços Gráficos de Sergipe – Segrase, deixa claro sua satisfação ao publicar esta obra, pois, dentre os entrevistados que fizeram parte do movimento grevista, encontra-se o seu colega de trabalho, o jornalista e diretor Industrial da Segrase, Mílton Alves. “Sergipe tem muitas histórias para serem contadas que poucos conhecem. Esse livro nos traz a vantagem de explorar mais a memória do nosso Estado e de também conhecer um pouco da história de um grande jornalista sergipano, Mílton Alves”.

Para um dos grevistas, Mílton Alves, a paralisação foi um momento único. “Eu acho que a decisão naquele momento de reunir as duas categorias, jornalistas e radialistas, foi muito importante para que se tivesse uma macro visão do que se passava dentro das redações por esses profissionais. Para mim, àquela greve de oito dias foi algo que cravou a nossa história, o livro de Henrique resgatou isso. A greve foi maravilhosa! Quem não conhece ou conheceu, ao ler o livro vai entender isso. É um livro para ser usado e debatido em sala de aula”. E completa: “Este livro de Henrique Maynart é ouro”.

O movimento grevista iniciado pelos comunicadores não ficou apenas estagnada nos profissionais da área. O leque foi ampliado para outras categorias em busca de apoio, a exemplo de bancários, a CUT, gráficos, petroleiros e professores, que de uma forma ou de outra respaldaram aquela luta iniciada pelo grupo e entenderam a importância da paralisação. O livro é especialmente primordial para jornalistas ou estudantes e todos aqueles que se interessem pelo assunto, que é abordado na maior riqueza de detalhes.

Fonte: ascom Segrase

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br