sábado, 19 de agosto de 2017

Vencedores do Nordeste do Prêmio MPT de Jornalismo 2017


O aluno Douglan Monteiro e a professora Juliana Almeida, do curso de Jornalismo, foram vencedores do Nordeste do Prêmio MPT de Jornalismo 2017 e foram à Brasília receber seus prêmios!!

- Douglan venceu na categoria Universitário, com o trabalho: 'Discriminação de cor: entender para combater', veiculado no Notícias em 10, projeto de extensão do curso de jornalismo, orientado pela professora Juliana.

- Juliana venceu na categoria Radiojornalismo, com o trabalho: 'Mercado de trabalho para a mulher trans: luta por igualdade e respeito', pela Rádio UFS.

Lembrando que foram mais de 400 inscritos de todo o país, que abordaram o tema direito trabalhista.
Parabéns, Douglan e Parabéns, Juliana!!

Texto e imagem reproduzido do Facebook/COMUNICAÇÃO SOCIAL - UNIT.

Sobre a Crise do Jornalismo

Foto: Orlando Kissner.

Publicado originalmente no site da revista CartaCapital, em 04/07/2017. 

Sobre a Crise do Jornalismo.
Por Jorge Alberto Benitz.

Existe um hiato entre o fim de um modelo de jornalismo e o não advento de outro que o substitua e transcenda suas bases.

No artigo de Rosane Borges intitulado “Que Crise? Que Jornalismo?", publicado no Blog da Editora Boitempo ela começa comentando o dito de Mario Vargas Llosa “ler um bom jornal é a melhor maneira de começar o dia” e o abalo que ele sentiu ao tentar “entender exatamente o que havia acontecido na Síria de Bashar Al-Assad, em virtude da divulgação, pela imprensa, do uso de armas químicas contra cidadãos inofensivos. Segundo ele, consultou jornais em inglês, italiano e francês sem conseguir obter informações claras e abalizadas. Diante a incapacidade de os jornais noticiarem com precisão e sem prismas ideológicos, desabafa Vargas Llosa:

“Ler vários jornais é a única maneira de saber o quão pouco sérias às vezes são as informações, condicionadas como estão pela ideologia, os medos e preconceitos dos proprietários dos veículos, dos jornalistas e correspondentes. Todo mundo reconhece a importância central que a imprensa tem em uma sociedade democrática, mas provavelmente poucas pessoas alertam que a objetividade informativa existe apenas em raras ocasiões e que, na maior parte das vezes, a informação tem lastro no subjetivismo, pois as convicções políticas, religiosas, culturais, étnicas etc., dos informadores frequentemente deformam sutilmente os fatos que descrevem até mergulhar o leitor em uma grande confusão, ao extremo de às vezes parecer que os noticiários e jornais passaram a ser, também, romances e contos, expressões de ficção. Aqui o escritor ao reclamar de uma questão geopolítica especifica, estende sua reflexão para o papel da  imprensa mundial como um todo. Reflexão de ótima qualidade que desvela um problema que parece se agudizou justamente com o advento do neoliberalismo.

Meu foco, no entanto, é outro e diz respeito à primeira fala dele reclamando da perda de um jeito de começar o dia que era comum a toda uma geração pré-internet. Senti esse mesmo abalo ao cancelar minha assinatura do maior jornal da aldeia, que prefiro não revelar seu nome. Abalo que as novas gerações não têm. Mesmo os que leem jornais, além de o lerem no suporte digital, eles não tem o hábito de ler “de cabo a rabo” como frequentemente era comum em nossa geração. Voltando, ler no suporte digital não é a mesma coisa. Aos poucos vou me adaptando a este novo jeito de ler sem, no entanto, deixar de ter saudade daquele “modo de começar o dia”.    

O cancelamento de minha assinatura do jornal tem tudo a ver com o que diz Mario Vargas Llosa acerca da perda quase total do sentido maior do jornalismo que é a objetividade dos fatos devido a subjetivismos de toda a ordem, como os por ele relacionados. No entanto, no meu caso, e o de muitos que conheço, a razão tem tudo a ver com a perda desta objetividade, isenção e imparcialidade em função da hegemonia de um paradigma que assumiu uma amplitude que praticamente eclipsou o resto. Estou me referindo aquilo que Ignacio Ramonet, denominou de pensamento único, isto é, a narrativa jornalística capturada pelos (des) valores do Mercado. Não se espere do liberal Mario Vargas Llosa concordância com este entendimento, por razões obvias. Porém, ele, ao descrever o porquê de sua crítica ao jornalismo hoje praticado, acertou no que viu e também no que não viu. Igual ao velho clichê “Mirou no padre. Acertou na igreja”.

Outro famoso foi, no meu entender, mais econômico e certeiro ao analisar a imprensa de seu país. O ator americano Denzel Washington, perplexo e preocupado como todo cidadão americano democrata, ao se deparar na era Trump com o uso e abuso dos chamados “Fake News”, disse “Se você não lê é desinformado; se lê é mal informado” vide link.

No penúltimo parágrafo do artigo citado no início, Rosane Borges arremata que "Donde podemos concluir que a crise é desse modelo de negócio que estruturou a imprensa monopolista e não do jornalismo. Faz-se urgente o exercício do jornalismo para além das fronteiras de um negócio que, para manter-se a todo o custo, atenta contra os princípios da própria imprensa.”

Digo eu, existe um hiato entre o fim de um modelo de jornalismo, pelas razões acima comentadas, e o não advento de outro que o substitua e transcenda suas bases. Até o momento, acredito que a internet não se constituiu como este novo paradigma jornalístico ainda que tenha potencialidade para tal.  Enquanto isso, prefiro ficar na condição de desinformado do que mal informado.

Vou me abastecendo através de revistas como CartaCapital, ainda comprometidas caninamente com a verdade dos fatos, como diz Mino  Carta,  e por via digital do jeito que dá e não do jeito que deveria ser o jornalismo nesta quadra do século XXI. Ciente e solidário com quem “está pagando o pato” por esta crise, em especial, a classe dos jornalistas e, na sequência, todos nós, leitores do tempo pré-internet, saudosos do tempo em que se começava o dia lendo jornal, e os leitores em potencial que são os jovens que ficam a deriva por falta de informação objetiva dos fatos.

Texto e imagem reproduzido do site: cartacapital.com.br

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Entrevista com Ricardo Kotscho

 Foto: Martin Carone dos Santos.

 Foto: Martin Carone dos Santos.

Redação do jornal O Estado de São Paulo (1973).

Ricardo Kotscho

“É preciso voltar a fazer o jornalismo de reportagem, contar histórias verdadeiras que acontecem no País, de bom e de ruim.”

Neste ano, um dos mais importantes e queridos jornalistas do País faz 50 anos de carreira. Aqui, ele conta um pouco dessa história.

Entrevista concedida a Francisco Ucha
Publicada originalmente no Jornal da ABI 401, de maio de 2014

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Jornal da ABI – Você começou muito cedo. Em 1964, tinha quantos anos?
Ricardo Kotscho – Dezesseis anos. Na época, não precisava de diploma. E não é porque eu era precoce, pois muitos começaram cedo. A nossa escola era a própria Redação! Era comum isso. Muitos fotógrafos começaram no Laboratório…

Jornal da ABI – E morava em Santo Amaro, não?
Ricardo Kotscho – Sim. Trabalhei na Folha Santoamarense e na Gazeta de Santo Amaro. Mudei de um para o outro no mesmo ano. A Folha Santoamarense era um jornal novo quando fui trabalhar lá e não agüentou, e antes de acabar fui para a Gazeta.

Jornal da ABI – Nessa época havia muito mais jornais de bairro do que hoje…
Ricardo Kotscho – Muito mais. Não só jornais de bairro, como grandes jornais diários, matutinos, vespertinos, tinha muito mais títulos do que hoje. A gente começava em jornal de bairro. Era como começar num time de várzea e, se acertasse, ir subindo até chegar num time grande.

Jornal da ABI – O que você fazia nesses jornais?
Ricardo Kotscho – Nos dois, eu era repórter, que era o que eu queria ser, e vendia anúncios, o que também era comum. No período da manhã, ou da tarde, vendia anúncios, no outro era repórter e, à noite, estudava.

Jornal da ABI – E como conciliava essas duas atividades, de repórter e de contato publicitário?
Ricardo Kotscho – No jornal de bairro não tem quase nada de política, o noticiário é composto mais por problemas urbanos, trânsito, vestibular, comércio. A minha área era a de anúncios de emprego, pois existiam grandes indústrias em Santo Amaro, e ainda existem. Isso não interferia nas matérias. Se fosse um jornal grande, seria um repórter local, de buraco de rua. Naquela época, nos grandes jornais, a parte comercial, da publicidade, era totalmente separada da Redação. Eram a Igreja e o Estado; não podia confundir. Isso hoje está caindo, cada vez mais o departamento comercial interfere nas Redações, em ações conjuntas.

Jornal da ABI – Mas os jornalistas não gostam muito dessa aproximação.
Ricardo Kotscho – Eu também não gostava, mas era o jeito de ganhar alguma coisa, porque a ajuda de custo como repórter era muito baixa, e vendendo anúncio dava mais.

Jornal da ABI – Três anos depois você já estava trabalhando num grande jornal, O Estado de S.Paulo.
Ricardo Kotscho – Entrei em 1967, saí em 1977 e fui para a Alemanha como correspondente do JB.

“Sempre fiz isso; era o que eu chamava de matéria humana, não ficava só no oficial. Nunca gostei de press release, da nota oficial; eu gostava de contar histórias.”

Jornal da ABI – O jornalista Audálio Dantas não se cansa de dizer que você foi um dos repórteres que fizeram a diferença no caso Herzog.
Ricardo Kotscho – Na época ainda havia censura, repressão, e o Audálio era o Presidente do Sindicato dos Jornalistas. Ele conta que os repórteres dos outros jornais passavam lá no Sindicato para pegar a “Nota do Sindicato”, que a Diretoria do Sindicato soltava todo dia, com as investigações, o que eles iam fazer… E eu ia lá fazer matéria, entrevistava todo mundo. Queria mais detalhes sobre o que estava acontecendo com a família, os amigos. Sempre fiz isso; era o que eu chamava de matéria humana, não ficava só no oficial. Nunca gostei de press release, da nota oficial; eu gostava de contar histórias. Ia lá fazer matéria como se fosse ao Sindicato dos Químicos, dos Metalúrgicos, dos Professores. Fazia matéria todo dia no jornal. Muitas vezes cortavam, porque tinha censura, mas eu fazia a matéria. E a ordem no Estadão era essa: ‘Vamos trabalhar como se não existisse censura. Vamos fazer nosso trabalho, quem faz a censura é o censor; a gente escreve, ele corta’.

Jornal da ABI – Teve muita matéria cortada?
Ricardo Kotscho – Muita. Um monte.

Jornal da ABI – Na íntegra?
Ricardo Kotscho – Às vezes na íntegra, às vezes um pedaço. Por exemplo, sabe aquele negócio da pirâmide invertida, que tem que abrir com o fato principal e depois vai entrando nos detalhes? Eu fazia o contrário. Começava com o clima, o ambiente, a sala, o barulho, alguma coisa assim, e as informações mais importantes eu deixava para o final, porque eu achava que o censor ia começar a ler, cansava e deixava passar alguma coisa.

Jornal da ABI – Isso era combinado com o editor?
Ricardo Kotscho – Sim, o editor sabia. Não era só eu que fazia isso. Dentro do jornal, todo mundo sabia que esse era um jeito de passar pela censura. Eu fazia por iniciativa minha, mas mais gente deve ter feito também. Eu não sei fazer matéria por telefone. Tenho pavor disso. Você não vê as pessoas, onde moram, onde trabalham, como é que é. Meu jeito de escrever matéria nunca foi o de seguir o manual, sempre fiz daquele jeito. Eu já fazia assim no Estadão, num estilo mais parecido com o do Jornal da Tarde, da Realidade. Eram os modelos da época, nos anos 1960. Surgiram na mesma época e foram, para mim, as grandes publicações de reportagem, que sempre foi a minha área. Hoje, trabalho também na revista Brasileiros, que está longe de ser uma Realidade – que era uma revista rica, da Editora Abril – mas a idéia é a mesma: fazer matérias sobre temas e personalidades que não estão na grande mídia.

Jornal da ABI – É difícil trabalhar na Brasileiros?
Ricardo Kotscho – É fácil, mas não tem recursos, e reportagem precisa de recursos. Um jeito que eu encontrei para fazer certas reportagens foi aproveitar as viagens que eu faço para dar palestras e fazer reportagens também. Porque quando se vai fazer palestras, pagam passagem e hotel. Então, isso é custo zero para a revista. A Brasileiros tem seis anos e já fiz um monte de matérias desse jeito, porque pra todo lugar que se vai no Brasil tem assunto. E eu falava, no final da palestra: “agora vocês me ajudem a achar um assunto para fazer a matéria, para justificar os dias que eu não estou trabalhando”. E sempre deu certo. Uma vez, fui para Roraima, bem quando estourou aquela briga dos plantadores de arroz e os índios. Aí, aproveitei e fiz uma matéria sobre isso. A revista nunca iria mandar um repórter para Roraima, porque é muito caro. Então, aproveitei a palestra e fiz a matéria. E aconteceu outras vezes.

Jornal da ABI – E as fotos, nesse caso?
Ricardo Kotscho – Para as fotos eu pegava alguém do lugar, freela, sempre tem. Às vezes do próprio evento que eu estava participando.

Jornal da ABI – De 1967, quando você entrou num grande jornal, até a data marcante do Herzog, foram nove anos escrevendo matérias em meio a uma enorme ditadura e repressão…
Ricardo Kotscho – Só um pequeno parêntesis: a repressão da ditadura só pesou mesmo a partir de 1968, do AI-5, que foi o golpe dentro do golpe. De 1964 a 1968 foi uma época rica do jornalismo em geral – por incrível que pareça –, do teatro, do cinema, da música. Mesmo com a ditadura, tinha uma efervescência cultural fantástica. Surgiram nessa época a Veja, a Realidade e o Jornal da Tarde…

Jornal da ABI – Marco Antônio Vila afirma que não houve ditadura entre 1964 e 1968…
Ricardo Kotscho – Houve, claro que houve. Muita gente foi presa, teve gente que morreu. O Marco Antônio Vila… (risos) Olha, outro dia fui convidado de um Roda Viva com Almino Afonso como entrevistado. O Vila, que também estava lá, começou a contar essas histórias, de que não houve ditadura, começou a falar um monte de coisas do João Goulart, do golpe. Aí o Almino disse: ‘Olha, você como historiador é muito criativo, você é mais um ficcionista, porque eu estava lá, nesse dia, nesse lugar, e não aconteceu nada disso’. Algumas pessoas, como o Vila, estão querendo reescrever a História… Ditadura branda, essas coisas. Havia a ditadura, mas a gente continuava trabalhando.

Jornal da ABI – No dia do golpe e nos dias subseqüentes, o que se viu nas ruas era a população apoiando os militares.
Ricardo Kotscho – Não, não. Antes do golpe, ocorreram as Marchas da Família. E depois, no Rio, teve a Marcha da Vitória. Mas o povão, mesmo, não tomou conhecimento. Mais ou menos como aconteceu na Independência e na Proclamação da República. Tem até uma expressão, que não é minha e não me lembro de quem é, de que o povo assistiu a tudo bestificado. Porque as marchas foram promovidas pela igreja Católica e pelas elites e a classe média de São Paulo e Rio de Janeiro; não foi uma coisa do povo. E poucos dias depois, acabou. Não houve resistência nenhuma. O Laurentino Gomes, que é um grande jornalista e historiador, tem três livros fantásticos – 1808, 1822 e 1889. Neste último, ele fala da proclamação da República e faz um paralelo com a campanha das Diretas em 1984. Ele diz que a verdadeira República no Brasil começou na campanha das “Diretas já”, que foi a primeira participação popular na política e na História do País.

Jornal da ABI – Que você cobriu de ponta a ponta…
Ricardo Kotscho – Eu cobri de ponta a ponta na Folha. Acho que eu fui o único repórter que pegou, do começo ao fim, a campanha das Diretas no Brasil inteiro.

Jornal da ABI – Teve alguma restrição para cobrir as “diretas”?
Ricardo Kotscho – Não, ao contrário. Havia um movimento social popular, forte em São Paulo, e eu cobria mais a área da luta social, sindicatos, movimento contra a carestia, pela anistia, havia vários movimentos simultâneos nessa época. E começaram a falar nesse negócio de diretas, daqui e dali. Aí teve um primeiro comício em frente ao Pacaembu, no final de 1983, na Praça Charles Miller, que juntou de tudo, teve até um ato de solidariedade à Nicarágua, e esse foi o primeiro comício maior das Diretas. Era uma festa; tinha um monte de coisas. Mas foi ali que começou. Então, escrevi para o Frias (Octavio Frias), que era o dono do jornal, uma sugestão de pauta dizendo que aquilo que estava acontecendo nas ruas era muito importante e que o jornal deveria se empenhar, não só cobrir, mas apoiar mesmo a campanha, e ele topou na hora e deu uma ordem para o jornal fazer isso – sucursais, correspondentes, todo mundo. E, realmente, a Folha se engajou na campanha das diretas abertamente, até o fim. E não havia, ao contrário do que normalmente acontecia, nenhuma restrição de gastos. Eu podia gastar o quanto, onde e com o que quisesse, e tudo o que eu escrevia era editado.

Jornal da ABI – O Frias não era jornalista, mas tinha uma intuição…
Ricardo Kotscho – O próprio Frias dizia que não era jornalista: “Eu sou empresário e vocês são jornalistas”. Só que ele tinha um faro muito aguçado, que muitos bons repórteres têm, e ele percebeu que ali era um bom negócio para o jornal, que a Folha vinha crescendo, vendendo mais, mais influente, mas faltava uma bandeira, uma coisa que se destacasse, e ele viu na campanha das Diretas essa oportunidade de dar um salto, e foi o que aconteceu. A partir daí, no final da campanha, a Folha passou a ser o maior jornal do País e o de maior circulação, e é até hoje. Desde 1984, é a Folha. Claro que ele tinha um interesse empresarial, mas foi o momento de identificação da Redação com a direção, que é raro. Havia o mesmo objetivo, de redemocratização do País.

Jornal da ABI – Mais ou menos o que aconteceu no Estadão quando se recebeu a ordem de “vamos fazer o nosso trabalho e os censores que façam o deles”?
Ricardo Kotscho – A diferença é que nessa época já não havia a censura prévia do governo, mas havia a autocensura nas empresas, jornais, televisão… Eles tinham medo dos militares. Então, o que aconteceu é que no começo era só a Folha que cobria, dava cobertura ampla e diária. O velho Frias falou isso: “Quero matéria todo dia, não só em dia de comício, todo dia tem que ter matéria”. E tinha que se virar para fazer. Os outros jornais foram entrando aos poucos, quando a campanha ganhou uma dimensão maior. À medida que os comícios foram acontecendo, aumentado a quantidade de gente nas ruas, obrigava os jornais, revistas e televisões a cobrir também. Primeiro foi a TV Manchete, depois a Bandeirantes, e por último, a Globo, que só entrou na reta final.

Jornal da ABI – A ordem do Frias e essa cobertura que a Folha fez, a partir de sua sugestão, ajudaram a mobilizar a sociedade?
Ricardo Kotscho – Seria muita pretensão minha falar isso porque fui eu que dei a idéia, que tomei a iniciativa como repórter mesmo, percebendo que aquilo rendia matéria, mas acho que teve influência sim, porque eu não só cobria a coisa, como procurava ajudar, ia às reuniões. Quando a coisa caía um pouco, procurava personagens fora dos partidos, lideranças da sociedade civil, fazia uma entrevista com alguém importante apoiando a campanha das Diretas.

Jornal da ABI – Alguma pauta foi difícil de fazer?
Ricardo Kotscho – Não, não… (pausa) Eu tive uma dificuldade, nunca vou esquecer, em São Luís do Maranhão. Porque lá, os líderes da campanha das Diretas – Ulysses Guimarães, Lula, Brizola – desceram o cacete no Sarney – você vê como é a vida, né? (risos) Ele já era, naquela época, o grande cacique do Maranhão…

Jornal da ABI – E da Arena!
Ricardo Kotscho – Sim, da Arena. E, na época, não existia celular. Então, tinha que passar a matéria ou de um orelhão, que era um negócio complicado por causa do barulho da Redação no horário de fechamento, ou de alguma Redação de jornal local…

Jornal da ABI – E os telefones não funcionavam bem!
Ricardo Kotscho – Pois é, era complicado, caía linha, era um sufoco. Então, eu procurei a Redação de um jornal local e, para o meu azar, entrei no jornal do Sarney, acho que era o Estado do Maranhão. E quando eu estava passando as informações por telefone, da Redação, as pessoas ouviram o que eu estava falando e ficaram olhando feio. “Como é que o cara vem aqui falar mal do Dr. Sarney?” (risos) Mas, terminei de passar a matéria! A dificuldade maior naquela época não era de emplacar a matéria, era transmitir, fazer a matéria chegar à Redação.

Jornal da ABI – Em algum momento, na época da ditadura, teve que driblar a direção do jornal para conseguir publicar uma matéria? Os proprietários dos jornais cerceavam algum assunto?
Ricardo Kotscho – Na Folha não, porque eu entrei lá em 1980 e já não havia censura, mas tive vários problemas no Estadão, onde peguei o período mais pesado da censura. E, além da censura do governo militar, havia interesses muito fortes da empresa. Um exemplo foi uma matéria sobre conflito de terras em Rondônia, um problema crônico. E o chefe do Incra local, que era um militar, estava indignado com o que ele viu lá e me passou os documentos, denunciou tudo. E eram famílias aqui de São Paulo, fazendeiros que estavam grilando terras.

Jornal da ABI – Um militar denunciou?
Ricardo Kotscho – Era o chefe do Incra local. Porque tinham os militares torturadores, mas também havia os militares sérios, empenhados, nacionalistas, nesses cargos. Aí eu fiz a matéria, com nomes e tudo, documentos, e deu a maior confusão no jornal. Vieram me perguntar se eu tinha provas, e eu disse que tinha tudo, um bolo de coisas. E, para azar meu, algumas daquelas famílias citadas eram ligadas à direção do jornal. Pessoas próximas. “Eu não vou mudar nada, porque é isso mesmo, tenho provas”. No dia seguinte, desmentiram a matéria. Num box, na última página do jornal, deram: “Ao contrário do que publicamos ontem, tal e tal…”

Jornal da ABI – Mas como a matéria chegou a ser publicada se havia esses “problemas”?
Ricardo Kotscho – Aí é que está. É um engano imaginar que o dono do jornal lê tudo antes de publicar. Ele lê depois. É impossível, hoje em dia, com o número de informações e de pessoas que participam do processo, que o dono do jornal acompanhe tudo. É inviável. Como é inviável, ao meu ver, o controle social da mídia. Não tem como. Acontecia muito isso, a matéria saía e dava problemas no dia seguinte.

Quando foi isso?
Ricardo Kotscho – No começo dos anos 1970. Mas sobrevivi. Arrumei brigas, mas nunca fui demitido de jornal nenhum. Eu é que “demitia” as empresas quando não estava legal e ia para outro lugar. (risos) Mas na Folha aconteceu uma coisa curiosa. Quando fui trabalhar lá, foi depois do Jornal da República que foi uma experiência do Mino Carta que não deu certo…

Jornal da ABI – Excelente jornal! Grande projeto do Mino Carta!
Ricardo Kotscho – Era muito legal! Uma puta experiência! Mas, não deu certo… Aí o Frias levou uma parte dessa equipe para lá, inclusive o Cláudio Abramo, que tinha saído da Folha e voltou, e indicou alguns nomes. Eu não conhecia o Frias, e ele me chamou para conversar: “É, seu Kotscho, tenho umas informações aí, o Cláudio me falou, que você escreve bem e quero que você venha trabalhar aqui”. Acertei lá o salário, e ele disse: “Olha, aqui não é o Estadão. Aqui não tem lista negra nem lista branca. Não tem ninguém que seja proibido de ser citado em matérias e ninguém que você é obrigado a falar. Eu só te peço uma coisa: não faça matérias sobre a Estação Rodoviária, porque é minha”.(risos) E era um rolo no centro da cidade, uma confusão de trânsito. A estação era dele e do Carlos Caldeira Filho, que era o sócio dele. Os dois eram donos da Estação Rodoviária que ficava em frente à Estação da Luz, onde tem a Sala São Paulo. Eu me identifiquei muito com o jeito do velho e até brinquei com ele: “Não, ‘seu’ Frias, não se preocupe, porque eu não ando de ônibus”. E era perto da Folha, algumas quadras. Nunca ele proibiu um assunto ou cortou uma matéria. Nunca. E sofreu pressões. Uma matéria que fiz sobre a Receita Federal, o chefe da Receita na época ligou para ele, e ele bancou até o fim. Ele só perguntava: “Tem provas? Está bem fundamentado? Então, publica”. E, muitas vezes, era ele quem mandava fazer a matéria! Muitas vezes!

Jornal da ABI – Faz falta gente na imprensa como o Frias?
Ricardo Kotscho – Ah, falta, falta! Faz uma falta enorme. Não tem mais. Não tem nem dono, que hoje é chamado de ‘publisher’, e nem diretores de Redação com peso, com força. Tive a sorte de pegar, nos anos 1960, 1970 e 1980, Cláudio Abramo, Alberto Dines, Samuel Wainer, Clóvis Rossi. Eu não posso me queixar da vida, pelo contrário. Acho que é por isso que eu consegui chegar aos 50 anos de profissão trabalhando em três empregos. Eu tenho o blog no portal R7, que hoje é um dos maiores do País, sou comentarista na Record News, no jornal do Heródoto Barbeiro, que é um jornal muito bacana – ele é uma figura fantástica. E trabalho na revista Brasileiros até hoje. Acho que devo muito disso às pessoas com quem convivi e trabalhei. Hoje é difícil repetir essa história porque não tem mais essas figuras.

Jornal da ABI – Não é por causa disso que o jornalismo impresso está perdendo a força?
Ricardo Kotscho – Eu acho que é um dos motivos, mas não é só isso. Até porque os grandes jornais são também donos dos grandes portais da internet. Acho que não é a internet que está matando a imprensa de papel. Está havendo um suicídio da imprensa de papel. Você tem que se diferenciar dentro da sua mídia, a de papel, e se diferenciar das outras mídias eletrônicas. Hoje está tudo muito parecido, muito igual. Você lê o noticiário da internet do Globo, Estado e Folha, durante o dia, e pega o jornal do dia seguinte e é a mesma coisa! E o que é pior: as notícias são as mesmas! E pior ainda: o enfoque é o mesmo!

“Há meia-dúzia de chefes, cargos de confiança, que determinam o que o jornal vai fazer e o que vai dar no dia seguinte, já bolam a manchete do jornal às nove horas da manhã e o repórter virou um caçador de aspas.”

Jornal da ABI – Isso é o pior de tudo, não?
Ricardo Kotscho – É o pensamento único, a pauta única. Antigamente, a competição, a concorrência dentro das empresas se dava no campo da reportagem, ter a história que o outro não tem, dar o furo que o outro não tem. Era muito em cima do trabalho do repórter para diferenciar um jornal do outro. Claro que cada um tinha suas posições políticas, mas havia uma diferença fundamental no noticiário e na parte da reportagem. Hoje não tem mais! É pensamento único, pauta única, se aceita o prato-feito e o repórter virou um ser subalterno nas Redações, quando antes havia uma briga por bons repórteres. O cara saía de um lugar para outro para ganhar mais. Hoje não tem mais isso. Não existe mais. Quem manda é a pauta, é o jornalismo de tese. Há meia-dúzia de chefes, cargos de confiança, que determinam o que o jornal vai fazer e o que vai dar no dia seguinte, já bolam a manchete do jornal às nove horas da manhã – a não ser que aconteça alguma tragédia – e o repórter virou um caçador de aspas para justificar aquela tese. Se ele voltar para o jornal vários dias seguidos trazendo informações que contradizem aquela tese ele está ferrado, e sabe disso. Então, não precisa ninguém chegar para ele e dizer que tem que falar disso, ou não pode falar aquilo… Não precisa, porque está implícito. O cara que hoje vai trabalhar na Veja já sabe o que pode e o que não pode fazer; como é que ele sobe lá dentro. E como não tem mais uma luta coletiva que une os profissionais – hoje é cada um por si –, o controle ficou muito maior. Antigamente, quando uma empresa fazia demissões de vários profissionais – o que era até chamado de ‘passaralho’ –, quase havia uma rebelião na Redação, tinha reunião no sindicato. Não é mais assim. Nos anos 1980, na Folha, nós criamos a Comissão de Representantes da Redação, que eram eleitos nas Redações e tinham estabilidade durante o mandato, que era de um ano. Então, qualquer coisa que acontecia na Redação, a gente ia discutir com o dono, até mesmo a linha editorial. Havia uma participação dos jornalistas no produto, que não existe mais. E não havia essa ditadura da pauta, que determina o que o jornal vai dar. O repórter é que tinha que trazer a pauta, que vinha da rua para a Redação. E o que é pior: antigamente havia duplas de repórter e fotógrafo, que saíam sempre juntos, às vezes com o mesmo motorista de reportagem, que é outra figura que desapareceu. O que acontecia? A gente ia fazer uma matéria e descobria outro assunto. Podia largar aquela que a gente tinha e fazer a outra, ou fazer as duas. Era comum isso. O exemplo é a campanha das Diretas. Ninguém chegou para mim com uma pauta, foi um negócio que eu vi na rua e trouxe para a Redação. Isso não tem mais. E o profissional não briga mais pela pauta. Antes, o repórter tinha que brigar para fazer a matéria; depois tinha que brigar pelo espaço, para publicar a matéria. E não é sacanagem, nem censura; é porque tinham cem matérias para publicar, onde cabiam trinta. Aí, se brigava por um espaço na primeira página.

Jornal da ABI – Era uma briga diária.
Ricardo Kotscho – É. Hoje não tem mais isso. O repórter nem fala com o editor. Eu sempre fazia um negócio que chamava de ‘jornal falado’, que é quando eu vinha da rua cheio de histórias e falava com o editor, ‘vendia’ minha pauta para ganhar espaço, para ganhar destaque na página. Na minha última passagem pela Folha, a terceira, foi em 2000, já tinha mudado tudo, já tinha Manual de Redação, aquela coisa toda. E eu fui falar com o editor para dizer o que eu tinha, e ele falou: “Agora estou em horário de fechamento, manda por e-mail”. Nunca fiz isso porque acho que é uma perda de tempo. Escrever um resumo da matéria para mandar por e-mail. Eu escrevia a matéria, mandava e ia embora, ia para o bar.

Jornal da ABI – E a matéria era toda publicada?
Ricardo Kotscho – Às vezes tinha problema de tamanho. Naquele caso, o editor publicou. Ele só não queria perder tempo comigo. Imagina, um editor conversar com um repórter… Para você ter uma idéia do respeito que havia, pelo menos comigo, é que eu sempre tive o defeito de escrever muito. Qualquer matéria que me davam, qualquer bobagem, eu tentava transformar numa boa história. (risos) Um dia eu exagerei, e às onze horas da noite me liga o Otávio Frias Filho, que hoje substitui o ‘Seu’ Frias, e é o Diretor de Redação: “Kotscho, tivemos um problema com a sua matéria, estourou tudo, tivemos que cortar, veja se você concorda…”, eu disse “O que você cortar está bom”. Geralmente corta-se pelo pé. Mas não era uma censura pelo que eu tinha escrito; era porque estava muito grande. Só tive problema de censura, com toda a franqueza, no Estadão. Não tive em nenhum outro lugar, nem no JB, nem na Folha, nem na IstoÉ. Trabalhei em quase todos os lugares, só não trabalhei na Veja.

Jornal da ABI – A autocensura no Estadão era persistente ou era eventual?
Ricardo Kotscho – Era desagradável, porque havia uma interferência grande dos proprietários na Redação, e que se tornou maior depois que a censura saiu. Porque enquanto havia censura, eles estavam tranqüilos, porque os caras vinham e cortavam mesmo. Quando a censura saiu, eles é que passaram a exercer o controle. Aí, deu uma crise grande lá e saiu boa parte da Redação em 1977, quando eu fui para a Alemanha.

Jornal da ABI – A ditadura fechou muitos jornais, onde havia diversidade de opinião. Será que isso não contribuiu de fato para que a mídia hoje seja tão padronizada?
Ricardo Kotscho – No começo houve uma pressão muito grande sobre alguns jornais que fecharam em função disso, como o Correio da Manhã, no Rio. Mas depois, o Jornal do Brasil fechou agora nos anos 1990, e não teve nada a ver com a ditadura, foi um problema administrativo.

Jornal da ABI – Sim, claro. Mas os jornais alternativos, como o Movimento e o Opinião, não poderiam ter crescido e se tornado grandes jornais que dariam pluralidade de opinião à atual imprensa?
Ricardo Kotscho – Participei disso também, trabalhei no Movimento e no Opinião; mas eram jornais de uma época, datados… Mas você tem razão, eles poderiam existir até hoje. Dos grandes jornais, um que fechou por ação direta da ditadura foi o Correio da Manhã.

Jornal da ABI – A TV Excelsior também…
Ricardo Kotscho – Sim, é verdade. O pessoal da Excelsior foi para Globo, que tinha vindo da Tupi, assim como uma grande parte da Redação do JB, que foi o melhor jornal do País disparado durante uns bons anos, está hoje no Globo. Temos hoje três jornais nacionais: Estado, Folha e Globo, e mais o Valor Econômico, que está crescendo. Mas são das mesmas famílias.

“Um sujeito parou em frente à casa dela, bateu palmas e jogou um saco de lixo no quintal e disse: ‘Isso aí é o que sobrou do teu marido’, e foi embora.”

Jornal da ABI – Você estava com um problema com os militares quando foi convidado para ser correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha. Conte como esse convite chegou em tão boa hora…
Ricardo Kotscho – Eu fiz duas matérias que tiveram uma repercussão muito grande.

Jornal da ABI – Com uma delas você ganhou o Prêmio Esso…
Ricardo Kotscho – Sim, das mordomias. Não fui só eu, foi uma equipe. Fui coordenador de uma série de reportagens sobre os abusos dos tecnocratas, dos militares, na ditadura, em 1975, 1976, mais ou menos na época do Vlado. Teve uma repercussão enorme e, naquela época, todos os jornais de São Paulo tinham setoristas no 2º Exército. O setorista do Estado era meu amigo. E ele vinha me falar que a barra estava pesando para o meu lado, que era melhor dar um tempo; falava para evitar de assinar as matérias. Algum tempo depois, mataram, nas mesmas circunstâncias do Vlado, um operário chamado Manoel Fiel Filho, e isso era uma denúncia muito delicada, porque na morte do Vlado o Geisel veio para São Paulo e advertiu o Ednardo d’Ávila Mello, então comandante do 2º Exército em São Paulo: “Se acontecer de novo, eu demito todo mundo”. E aconteceu. Só que esconderam o caso. E não sei como, o Clóvis Rossi, que era o chefe de reportagem, ficou sabendo, me chamou e pediu para que eu investigasse isso para confirmar. Eu tinha a informação de que mataram um operário nas mesmas circunstâncias do Vlado e só tinha o endereço da fábrica onde ele trabalhava, o nome e mais nada. Aí fui à fábrica, e todo mundo com medo de falar, mas consegui que me dissessem pelo menos onde era a casa do operário. Cheguei à casa e não tinha ninguém. Vazia. Perguntei para os vizinhos onde estava a viúva e também ninguém queria falar, porque naquela época havia o medo! O medo é que mandava em tudo, não só nas Redações, em todo lugar. E um vizinho me falou que sabia que a viúva tinha um parente que morava em tal lugar, perto de uma padaria. Era umas cinco ou seis horas da tarde e eu falei para o fotógrafo: “Vamos arriscar, vamos até a padaria e a gente toma uma cerveja lá”. E na hora em que estávamos na padaria, passa um cara na calçada com um crucifixo pequeno no peito. Quando os padres deixaram de usar batina, passaram a usar um pequeno crucifixo. Ele deve ser o padre, deve ser ligado à Igreja. Me apresentei a ele, disse que era da Comissão de Justiça e Paz, trabalhava no Estado de S.Paulo e estava procurando a tal viúva. Ele me falou: “Acabei de sair da casa em que ela está, falei com ela agora”, e me levou lá. E facilitou as coisas, porque, claro, ela tinha medo de falar, mas o padre falou que eu era de confiança, gente da igreja, e era mesmo, era amigo do D. Paulo (Evaristo Arns). Por coincidência, anos depois, D. Paulo me chamou para participar do livro Brasil Nunca Mais, que foi a grande denúncia dos crimes praticados pelos militares de torturas e mortes, até hoje é a grande obra de referência, e participei disso também. Mas, voltando ao Fiel Filho, levantei a história toda. Tem uma passagem dramática, de como a viúva ficou sabendo da morte do marido, quando um sujeito parou em frente à casa dela, bateu palmas e jogou um saco de lixo no quintal e disse: “Isso aí é o que sobrou do teu marido”, e foi embora. Eram os documentos e as roupas dele. Aí eu escrevi a matéria e a direção do jornal quis saber do Clóvis Rossi se os outros jornais também iam dar aquelas informações. E o Rossi disse: “Não, só nós temos”. “Então, é perigoso!”. A censura tinha acabado de sair do jornal, quando o jornal fez cem anos, saiu a censura prévia, mas continuavam as proibições. Aí a direção só autorizaria a publicação da matéria se o repórter assinasse e assumisse a responsabilidade. Aí o Rossi me falou essa decisão da direção do jornal… E não tinha saída. Eu queria que saísse, que fosse publicado! Mas, na hora não lembrei que minha mulher já estava grávida e havia um clima tenso nas Redações; foram presos vários amigos na época. Eu nunca fui preso. Mas falei: “tudo bem, toca pra frente!”, e a matéria saiu. E os conselhos e ‘recados’ que eu recebia, aumentaram. O Geisel veio para São Paulo e demitiu Ednardo d’Ávila Mello e a cúpula do Segundo Exército. Foi aí que começou o processo de abertura lenta e gradual, foi um divisor de águas. Consegui levantar a história e contar…

Jornal da ABI – Você não tinha medo?
Ricardo Kotscho – Pô! Eu sempre fui cagão! Então, quando falam que o repórter tem que ser um cara atirado, que enfrenta, vai e fura tudo, eu nunca fui assim! Sempre tive medo de tudo. Sempre acho que não vai dar certo! (risos)

Jornal da ABI – Mas como você teve essa coragem sabendo que sua mulher estava grávida?
Ricardo Kotscho – Pra você ver… É que não foi bem ‘coragem’; é que eu queria que saísse a matéria, sabia que era importante ser publicada, que aquilo poderia ter um efeito bom na redemocratização do País. Mas eu posso te contar um episódio também que é ao contrário. Quando teve a missa do ato ecumênico do Vlado na Praça da Sé, a catedral estava cercada pelo Exército, polícia, aquele negócio todo… Minha mulher já estava grávida… Fiquei com medo de entrar na igreja e voltei para a Redação. Porque não faria nenhuma diferença eu estar na igreja ou não. Esse é o limite que eu acho da coragem e do medo. Se aquilo que você faz é temerário, mas pode ser uma coisa boa para a sociedade, você corre o risco. Mas, se é só para marcar presença, para dizer que esteve lá, não… Então, fui embora, não cheguei a participar do ato ecumênico.

Jornal da ABI – Durante a cobertura do assassinato do Vlado, como administrava o seu medo?
Ricardo Kotscho – Todo mundo tinha medo, não era só eu, mas era um negócio que tinha que enfrentar. O Audálio, que foi um líder naquele momento, também tinha medo. Mas você aprendia a conviver com o medo, fazia parte do dia a dia. Até fiz uma brincadeira besta com o Audálio. Começaram a prender um monte de jornalistas, antes de matarem o Vlado, aí pararam. E eu fiz um comentário uma vez, durante um jantar com os amigos, eu disse assim: “Acho que alguma coisa eu fiz de errado, porque estão prendendo todo mundo e não me pegaram…” Quer dizer… Era esse o clima. Porque se tivesse o meu nome na caderneta de endereços de alguém que fosse preso, eu ia preso também. As pessoas eram presas aleatoriamente! Na classe da minha mulher, que estudava na Usp, sumiam alunos de um dia para o outro! Desapareciam!… A gente não tem idéia, hoje, do que foram aqueles tempos!

Jornal da ABI – E como acontece o convite para ser correspondente na Alemanha?
Ricardo Kotscho – Essa história é engraçada. A maioria das coisas que aconteceram comigo ocorreu por acaso, como eu viria a ser assessor de imprensa do Lula por acaso. Essa história da Alemanha foi o seguinte: foi a época do acordo nuclear Brasil-Alemanha. O Estadão tinha mandado para lá um cara muito bom, que depois se tornou meu amigo, o William Waack, que está aí até hoje. Ele era correspondente do Estadão e dava furo nos outros jornais todo dia, porque falava alemão. A Dorrit Harazim, que é uma grande jornalista do Rio dos áureos tempos do JB, era chefe dos correspondentes internacionais do Jornal do Brasil. Ela queria um jornalista que soubesse escrever bem… Porque isso sempre ajuda (risos), e que soubesse alemão. E eu era um dos poucos que falava alemão, foi a minha primeira língua; eu só aprendi o português na escola, com seis, sete anos. Em casa só se falava alemão, eu nasci aqui, mas em casa a gente só falava alemão. E falava bem o alemão, mas era juvenil, porque depois eu não falei mais. Nunca vou esquecer, ela pediu para o José Roberto Guzzo – com quem ela tinha trabalhado na Veja e que era diretor de Redação da revista – para me convencer a aceitar o convite! (risos) E quando ela começou a falar, eu já louco para sair do Brasil – iria para qualquer lugar! –, não precisava nem ter trazido o Guzzo para me convencer; já estava aceito! (risos) E o salário era bom, as condições eram ótimas. Naquela época, o Jornal do Brasil era a Seleção Brasileira do Jornalismo. Pagavam aluguel, passagem livre, cartão, enfim, era igual ser embaixador. Quando eu fui contratado pelo JB, teve um almoço e me falaram que ser correspondente do Jornal do Brasil era como ser um embaixador do Brasil na Alemanha. Muita responsabilidade. Eu não tinha nem trinta anos!

Jornal da ABI – Você passou pelos melhores jornais em suas melhores épocas!
Ricardo Kotscho – Tem uma frase antiga que diz que você tem que estar no lugar certo na hora certa. Mas, ao mesmo tempo, você não pode estar no lugar errado na hora errada. E nem sempre isso depende de você. Muitas vezes depende de sorte, de circunstâncias. Então, eu dei um tempo, fui para a Alemanha, fiquei uns dois anos, e voltei para trabalhar com o Mino Carta na IstoÉ, no início do crescimento do movimento sindical do ABC. Na época da anistia. Tudo estava acontecendo! E na IstoÉ tinha absoluta liberdade, porque o dono era um jornalista, o Mino Carta, que me escalou para cobrir o ABC. Eu virei correspondente no ABC. “Toda semana eu quero uma matéria”. Como depois o Frias fez, querendo todo dia matéria das Diretas, ele fez com o ABC… As greves, Lula, aquele negócio todo. A primeira entrevista com o Lula quem fez foi o Mino. Foi capa da IstoÉ. Ele dizia: “O que acontecer no Brasil daqui pra frente vai passar pelo ABC e esse tal de Lula aí vai ser importante!”. Mino tem um faro incrível. Ele é incrível! Depois fui para o Jornal da República, que foi a mesma equipe que passou para lá, e depois a Folha, que eu já falei.

Jornal da ABI – Você começou a levar sua filha Mariana para as Redações a partir de quando?
Ricardo Kotscho – Eu trabalhava no Estadão durante a semana – o Estadão não saía às segundas-feiras – quando saía um negócio chamado Edição de Esportes de O Estado de S.Paulo, um jornal semanal que circulava às segundas-feiras. Então, na verdade, eu trabalhava de domingo a domingo, até sábado no Estadão, e domingo nessa edição esportiva.

Jornal da ABI – Você cobria esportes também?
Ricardo Kotscho – Também. O pessoal que trabalhava aos domingos às vezes levava os filhos, porque era o dia de ficar com a família, e quando a minha filha cresceu um pouco, passei a fazer isso também, nos plantões de fim-de-semana, e ela começou a pegar gosto. Além disso, eu levava os amigos para casa depois do trabalho, porque a gente saía tarde e estava casado com filho, não podia mais ir para a boate, para a noite (risos). Aí, eu levava os vagabundos para casa e a gente ficava bebendo até de madrugada. E a Mariana ficava acordada, de colo em colo. Ela passou a conviver com esse mundo do jornalismo e acabou virando jornalista.

Jornal da ABI – Então, você é diretamente culpado por ela ser jornalista.
Ricardo Kotscho – Eu acho… E tenho orgulho disso porque, geralmente, o jornalista não tem. “Meus filhos não vão fazer isso, não vou deixar!” Mas para mim foi ao contrário, fiquei feliz pra caramba! Eu acho o Jornalismo uma profissão fantástica, apesar de todos os problemas que tem. Outro dia me perguntaram sobre o mercado de trabalho, se é difícil para quem começa, mas hoje é muito mais amplo. Enorme. Claro que tem uma oferta maior também de profissionais, das faculdades.

Jornal da ABI – Mas o salário não caiu muito?
Ricardo Kotscho – Não, isso é outro mito.

Jornal da ABI – Mesmo nos portais da internet?
Ricardo Kotscho – Os salários na internet hoje são iguais ou maiores que nas Redações dos grandes jornais. Não todos… Tem o piso, mas o piso do jornalista é maior que o de muitas profissões. Uma vez fizeram uma comparação no jornal do Sindicato dos Jornalistas – não sei os números de hoje –, mas o salário inicial de jornalista era maior que o de engenheiro, de advogado, de médico. O mercado de trabalho se ampliou enormemente, inclusive com a internet, assessorias de imprensa – hoje tem mais gente nas assessorias de imprensa do que nas Redações. E, para mim, é uma função jornalística, sim. Quando trabalhei como assessor de imprensa com o Lula, nas campanhas, trabalhei como jornalista. Ele até brincava comigo: “Você não é assessor de imprensa, é assessor da imprensa”. (risos)

Jornal da ABI – Você se decepcionou com o Lula?
Ricardo Kotscho – De jeito nenhum. Não me decepcionei nem com o Lula nem com o governo, muito pelo contrário. Foi um governo importantíssimo para o Brasil, a vitória do Lula foi a vitória da minha geração – nós temos quase a mesma idade – e melhorou a vida da maioria do povo. Qual é o objetivo de qualquer governo? Melhorar a vida da maioria das pessoas. E nunca houve uma melhoria tão ampla, que incorporou tanta gente no mercado de trabalho e no mercado de consumo como aconteceu nos dez anos de governo do PT. Isso não quer dizer que eu concorde com tudo, pelo contrário! Já naquela época eu discordava e brigava bastante, mas acho que a função do assessor é essa, como eu brigava com o meu chefe de Reportagem, e com meu editor.

Jornal da ABI – E como o Lula recebia as suas críticas?
Ricardo Kotscho – Ele não gostava não. Mas ele me respeitava. Então, era de igual para igual. É claro que eu não discutia com ele na frente dos outros. Mas quando estávamos só os dois discutindo algum assunto, eu tinha toda a liberdade de falar. Eu era autorizado a entrar no gabinete dele a hora que eu quisesse, não precisava pedir licença. Isso facilitou muito o meu trabalho. Se fizer um balanço dos prós e contras, acho que foi amplamente favorável, tanto o governo do Lula como a continuidade. Luis Fernando Veríssimo tem uma frase que eu acho fantástica. Ele escreveu: “Realmente, o governo tem muitos problemas, muita coisa errada, que eu não concordo. Mas quando eu olho para o lado e vejo quem são os outros…” (risos). Não é? Porque uma eleição é uma opção, e um governo é uma opção. Para quem vai governar? O Brasil era governado para 30 milhões de pessoas. Hoje é para muito mais gente, pra mais de 100, 120 milhões, a grande maioria. E essa foi a grande mudança, a distribuição de renda. É uma revolução sem armas, sem tiros, silenciosa, mas que vai ficar marcada na História do Brasil, não tenho dúvida disso.

Jornal da ABI – É possível definir o que é jornalismo?
Ricardo Kotscho – Jornalismo é muito chato definir, mas para mim é contar o que está acontecendo com a maior honestidade possível. Esse negócio que falam de neutralidade e isenção, isso não existe. O ser humano tem suas preferências. Agora, não dá para brigar com os fatos. Todo mundo sabe que eu sou ligado ao PT desde as origens, desde antes do PT, lá nos sindicatos, sou amigo do Lula, mas eu sou, antes de tudo, jornalista. O que eu conto tem que ter credibilidade. Caso contrário, não sirvo para nada. Eu falava isso quando estava no governo. Se eu mentir, se eu der uma informação errada, eu não sirvo nem para a imprensa e nem para o governo. E isso vale para uma Redação e para qualquer lugar em que se trabalhe. Tem que ser honesto. Não existe a verdade absoluta, não existe uma só verdade. Mas não se pode brigar com os fatos. A partir dos fatos, cada um de nós depois vai contar da sua maneira, mas não pode mentir. Esse é o limite.

“O governo não deve ser ombudsman da imprensa. Ao mesmo tempo, não pode a imprensa ser o principal instrumento de oposição no País. É uma deformação da democracia, dos dois lados.”

Jornal da ABI – Como a imprensa recebeu a notícia quando o Lula o escolheu como assessor?
Ricardo Kotscho – Eu me dava muito bem com todo mundo. Eu não tenho inimigos, tenho uma boa relação e acho que a função do Secretário de Imprensa é manter uma boa relação com a imprensa. Essa foi uma das minhas divergências. Eu sempre fui mais da conversa, da conciliação, do que partir para o enfrentamento, como aconteceu depois e acontece até hoje. É uma guerra inglória essa, porque a última palavra é sempre da imprensa. O governo passa, mas as famílias ficam. São as mesmas desde 1964, ou desde muito antes. Então, o governo precisa conviver com a imprensa, como precisa conviver com o Congresso Nacional. É claro que você nunca vai ter um Congresso que concorda com tudo o que o governo faz, mas precisa conviver com a oposição, com quem pensa diferente. O que acontece no Brasil é que a própria imprensa assumiu o papel de oposição. A Judith Brito, ex-Presidente da ANJ, falou isso com todas as letras. Com uma oposição partidária muito fraca e frágil, os meios de comunicação foram obrigados a fazer oposição, e fazem. Eu acho que está errado. O governo não deve ser ombudsman da imprensa. São campos diferentes, naturezas diferentes. Ao mesmo tempo, não pode a imprensa ser o principal instrumento de oposição no País. É uma deformação da democracia, dos dois lados.

Jornal da ABI – Foi uma tacada de mestre o Lula ter te chamado?
Ricardo Kotscho – Não, nesse caso não. Ele teve várias, mas não nesse caso. (risos) Algumas delas: o Henrique Meirelles, o Palocci, na área econômica. No meu caso, foi uma conseqüência natural. Por ser amigo, ele me chamou para a primeira campanha, chamou para a segunda, chamou para a campanha de 2002 e, naturalmente, acabei nesse lugar. Mas tem uma coisa curiosa: eu fiquei sabendo que seria Secretário de Imprensa com uma bronca… Lula já eleito, e eu estava no comitê de eleição uns quinze dias depois dos resultados, quando ele me perguntou: “O que você está fazendo aqui ainda?”. Eu continuava trabalhando como assessor. “Mas, você tem que estar em Brasília. Você não leu no jornal que começou a transição?”. Fernando Henrique e Lula montaram uma equipe de transição. E eu respondi: “Mas ninguém me avisou”. “Então, trate de ir para Brasília! Vá lá e procure a Ana Tavares…” – que era a Secretária de Imprensa do Fernando Henrique – “…converse com ela, se informe como é que funciona aquele negócio e vá cuidar da transição na sua área”. Não foi um convite. Foi uma seqüência do trabalho que eu tinha feito nas campanhas.

Jornal da ABI - Nas manifestações de 2013, muitas pessoas começaram a filmar e publicar coisas ao vivo na internet e se autodenominarem ‘repórteres’. O que você achou disso?
Ricardo Kotscho – Olha… Vou ser bem franco. Eu acho que tem lugar e espaço para todo mundo. Hoje, com as novas tecnologias, novas mídias, todos nós somos, ao mesmo tempo, emissores e receptores de informações. Emissores podem ser institucionais, na grande imprensa, nas Redações, e os informais, que são esses que você falou, que estão lá com suas câmeras e microfones fazendo o trabalho deles. Mas, por mais que existam os informais, uma sociedade democrática, civilizada, nunca poderá abrir mão do jornalista profissional. Até porque, como hoje a gama de informações é imensa, é preciso alguém para organizar isso, com honestidade, conhecimento e capacidade profissional. Na internet tem de tudo, coisas boas e ruins, ofensas, calúnias. Hoje, se quiser destruir alguém, uma empresa, um governo, mete na internet. Mas, já estão começando a punir, saiu há pouco tempo uma regulamentação. Mas, os jornalistas podem ficar tranqüilos; eu acho que isso não vai tirar o emprego deles, dos bons jornalistas. Vai haver uma seleção natural, os jornais vão sobreviver a meu ver, os grandes pelo menos, mas serão menores, de circulação menor, com equipes menores, não vão mais existir Redações de 200, 300 pessoas. Mas os bons jornalistas vão continuar na chamada grande mídia, ou irão criar seus próprios canais, como muitos já estão fazendo, com blogs, portais, sites, ou trabalhar em assessoria de imprensa. Não vai faltar mercado para o jornalista. E esse negócio da mídia ninja, da mídia informal, é um fenômeno mundial e a sociedade brasileira tem que aprender a conviver com isso. E a imprensa também. Como eu falei antes, não é a internet que está acabando com a mídia tradicional ou familiar. É preciso voltar a fazer o jornalismo de reportagem, contar histórias verdadeiras que acontecem no País, de bom e de ruim. Porque não é possível que num país como o nosso, com 200 milhões de habitantes, oito milhões e meio de quilômetros quadrados, não aconteça nada de bom de um dia para o outro. Tem que mostrar a realidade como ela é. E o que acontece no Brasil hoje não é isso. Lendo os jornais, você pensa que o País está se acabando. Você pega qualquer jornal ou telejornal e tem vontade de dar um tiro na cabeça. É por aí.

Jornal da ABI – Você está entusiasmado com o seu blog, não é?
Ricardo Kotscho – Estou gostando muito. É uma segunda vida profissional. Te confesso que eu não tenho mais paciência nem saúde para trabalhar numa grande Redação, nem para fazer campanha ou trabalhar no governo. Detesto velho que quer parecer jovem, moderninho. Mas acho que é preciso se adaptar a cada tempo… E o tempo hoje é esse, não tem escolha. É como quando os computadores entraram nas Redações, não tem escolha. Colocaram a máquina na sua mesa e você tem que usar, pô. Tem gente que até hoje escreve na máquina de escrever. O Mino Carta, por exemplo. A secretária dele tem que passar tudo a limpo. Mas vou dizer uma coisa: o computador ajuda muito. Você escreve mais rápido e pensa mais rápido. No tempo do jornal de papel, eu gostava de entregar a lauda limpa, não gostava de entregar lauda rabiscada e corrigida. Então, cada vez que eu errava, começava tudo de novo. Demorava muito. Agora não, vou escrevendo, corrigindo e mudando ao mesmo tempo. Nunca mais escrevi à máquina. Nem à mão eu consigo escrever mais. Uma brincadeira que faço com o Clóvis Rossi – ele é um excelente datilógrafo, acima de tudo – é que ele escreve mais rápido do que pensa. Ele é famoso por isso. É o teclado mais rápido da imprensa brasileira.

Texto e imagens reproduzidos do blog: doispontosblog.wordpress.com

domingo, 13 de agosto de 2017

Entrevista com Mino Carta, sobre o "Jornal da República"




Publicado originalmente no blog Jornal do Mino, em 26/11/2008.

Entrevista com Mino Carta para o Jornal da República na FACHA

Segue entrevista concedida por Mino, pelo telefone. Espero que gostem.

Nathalia Martins – Como foi a criação do Jornal da República?
Mino Carta – [risos] Eu sempre tive idéia de que seria possível em São Paulo um jornal diferente dos outros, ou seja, um jornal empenhado nos interesse da maioria em lugar de estar ligado naqueles da minoria. Eu sempre curti essa idéia, e enfim, então em abril de 1979 quando a “Isto É” instintivamente começou a ser um sucesso empresarial, embora fosse uma revista muito comedida nos seus gastos, feitos com terríveis economias, começou a dar lucro. Há algum tempo ela já dava lucro. Então eu cheguei no Domingo Alzugaray, que era o homem que cuidava dos negócios enquanto eu cuidava da redação da “Isto É” e propus à ele a idéia do jornal. Jantamos juntos numa noite de abril de 1979. E chegamos à conclusão Eu e ele, que era o homem dos negócios, e que portanto, tinha a chave do cofre, por menor que fosse o cofre. E ele me disse “Não, tá bom, eu acho bom”. Domingo foi um empresário bem sucedido e sobretudo foi também o diretor comercial da Abril e tinha sido em outros tempos diretor comercial da “Editora Abril”. Administrado sagaz... Mas aplicou o conceito jornal diário nos parâmetros que ele costumava aplicar à publicação de revista. Lançamos o jornal. O jornal fez uma boa campanha, teve um lançamento feliz, com uma fluência de anúncios respeitabilíssima, mas logo mostrou que jornal não se confunde com revista. Sem contar, a oposição dos demais jornais paulistanos que naturalmente tentavam semear a cizânia. É isso. Então nós lançamos o jornal no fim de agosto de 79 e o jornal foi enterrado sem solenidade no fim de janeiro de 1980.

NM – Mas, você considera que ele foi um fracasso?
MC – Não, não considero um fracasso, por que acho que no fundo, no fundo era melhor do que os outros.

NM – Mas porque você acha que não deu certo?
MC – Não deu certo por uma série de razões. Primeiro porque do ponto de vista empresarial, ele foi mal concebido, ou seja, não era possível aplicar, não estou jogando a culpa nas costas do Domingo Alzugaray, Deus me livre, até porque não acho que seria justo, na verdade nós temos que compartilhar a responsabilidade da culpa completamente. Eu de alguma maneira tenho mais responsabilidade no fracasso, porque eu insistia muito para fazer o jornal, e depois eu quis resistir enquanto ele quinze dias depois disse “Vamos fechar essa bodega.”. Eu não, insisti e prossegui na empreitada, embora estivesse claro que seu desfecho estaria longe de ser favorável. Então eu tenho muito mais responsabilidade que o Domingos, mas, de qualquer maneira eu acho que o fracasso se deveu primeiro à questão realmente empresarial. Questão essa que desaguou nas dificuldades de impressão e de distribuição do jornal, porque o jornal era impresso nas oficinas dos então “Diários Associados” tínhamos de fechar o jornal às oito da noite. A primeira página do jornal fechava às oito horas da noite e a distribuição era muito mal feita. A distribuição que pegava SP capital e alcançava os municípios mais próximos. Um reparte mínimo chegava tardiamente a Santos. Então havia dificuldades muito grandes de distribuição. Além disso, realmente, havia uma campanha venenosa conduzida pelos, digamos assim, aqueles que não chegavam a ser concorrentes porque eram muito maiores e muito mais fortes do que nós. Tudo isso contribuiu evidentemente para que o jornal entrasse em pane. Nós tínhamos pouquíssima publicidade, insuficiente para sustentar o jornal, e acabou como acabou. Essa escassa publicidade, eu não sei, não posso excluir que alguns anunciantes achassem o jornal francamente subversivo, lembremos que ainda era tempo de ditadura, mas eu acho que se nós tivéssemos tido recursos fortes, consistentes, se tivesse havido uma compreensão por parte de empresários dispostos efetivamente a se interessar pelos destinos de um país disposto a distribuir rendas, e coisas que tais, eu acho que nós teríamos sobrevivido, mas precisaríamos ter exatamente essa retaguarda financeira contígua.

NM – Você teria alguma pretensão de lançar algum projeto parecido com o Jornal da República?
MC – Não, não, absolutamente. Eu te confesso que os meus projetos no momento são muito comedidos. Eu me contento bastante com a “Carta Capital” porque acho que é uma publicação milagrosa, nesse nosso país, se você me permite. Agora, ela me satisfaz. A pequena empresa que a edita que se chama “Editora Confiança” está partindo para várias iniciativas importantes. Talvez eles incluam nos expedientes o meu nome, mas na verdade eu não tenho nada haver com essas novas publicações embora eu ache que elas são muito bem direcionadas, por exemplo, a “Carta na escola”. Agora saiu outra para o ensino fundamental. Vai sair uma sobre sustentabilidade, que são publicações muito interessantes, muito bem feitas, muito sérias, muito responsáveis e muito interessadas no país. Isso é indiscutível. Agora eu no fundo, não tenho nada haver com elas. Me basta a “Carta Capital”.

NM – Quando você criou o Jornal da República, você buscou um nome histórico para ele. Porque você escolheu esse nome para o jornal?
MC – Por vários motivos. Primeiro porque eu acho que o espírito republicano é central. Laico e republicano. Eu acho que isso é central para se criar um país digno da contemporaneidade do mundo. Além disso, eu tinha estado em Roma em 76 quando foi lançado o “Republique” italiano esse sim com um grande respaldo financeiro, mas com posições muito próximas àquelas que o jornal da república queria depois ter. O “La Repubblica” na Itália e o “Jornal da República” aqui. Eles tinham recursos financeiros extraordinários, tinha atrás do jornal um grupo de empresários dispostos realmente a apostar em alguma coisa mais substanciosa e certamente de esquerda. E o jornal da republica hoje é, juntamente com o “Corriere della Serra” o maior jornal italiano. Tem uma tiragem diária de um milhão de exemplares. E o “La Repubblica”, ou seja, “A República”, não o “Jornal da República” também me influenciou um pouco na escolha do nome.

NM – Você acredita que essa questão do nome que tem algum tipo de busca histórica, de algum estudo por trás não seja mais tão importante? Porque hoje em dia temos jornais como “Extra”, “Meia Hora”, “Expresso”, que não têm uma base histórica, uma pesquisa para ser criado esse nome. Então você acredita que não seja mais tão importante assim?
MC – Não. O nome estava no meu coração e no coração de quem me acompanhou na aventura. Havia gente notabilíssima, desde Cláudio Abramo, que era um irmão mais velho meu, um jornalista excepcional, até o Raimundo Faoro, que é um dos poucos grandes pensadores brasileiros. Então, imagine, tinha gente que me ajudava muito, até na escolha do nome.

NM – Durante as aulas nós fizemos algumas pesquisas na internet, e lemos que o nome “Jornal da República” foi vendido para o Moreira Salles. Como nem tudo o que está na rede é verdade, gostaríamos de saber se essa informação é verdadeira.
MC – É verdadeira sim. Nós fizemos, digo nós, a equipe, teve a sorte, a certa altura, por causa provavelmente de uma decisão estelar digna de um filme do, por exemplo, Frank Capra (cineasta). Deus se encontrou com São Pedro e decidiu resolver o nosso problema, porque subitamente apareceu em cena o filho do Walter Moreira Salles, o Fernando Moreira Salles, que tinha habilidades jornalísticas, tinha vontade de avançar nesse terreno e decidiu comprar a revista “Isto É”, tapando o buraco do “Jornal da República”. Essa no fundo foi a operação. Se eu fosse o Fernando Moreira Salles eu teria comprado o “Jornal da República” para continuar a sustentá-lo, por que ali havia realmente recursos para tanto. Mas ele não via serventia alguma no jornal e tinha interesse na “Isto É”, que quatro anos depois ele entregou de mãos beijadas para a “Gazeta Mercantil” e em 1988 a “Isto É” foi recomprada pelo Domingo Alzugaray. No fundo essa foi a operação. Ele tapou o buraco do “Jornal da Republica”, que era um buraco ponderável, grande, grande mesmo e com isso ficou dono da “Isto É”.

NM – Atualmente que jornal no Brasil ou no mundo você acha que seria parecido com o “Jornal da República”?
MC – Eu acho que o “Jornal da República” era o que podia ser. Era perfeito, eu acho. Tinha suas falhas, sem dúvida, mas era um jornal muito pobre, visivelmente pobre. Eu acho que no Brasil, a mídia em geral, não falo só dos jornais diários, mas a mídia em geral, sem exclusão da Globo, é ridícula. É absolutamente grotesca. É de péssima qualidade, muito mal escrita e sobretudo é uma mídia a serviço do poder, porque ela é um dos rostos do poder. Ela exprime as vontades, os interesses do poder, porque ela é poder, entende? “O Globo”, “Estadão”, a “Folha de São Paulo”, a revista “Veja”, a “Editora Abril”, tudo isso é poder no Brasil. Estão todos unidos contra os interesses reais do país. Então aqui não tem nada, aqui é um deserto, o “Deserto de Gobi” (localizado na Mongólia e nordeste da China), que é um desertozinho em comparação com o Saara. Não disse Saara, porque aí conferiria uma dimensão à mídia brasileira que ela não merece. Mas, digamos, há muitos jornais bons mundo afora, sobretudo na Europa. Excelentes jornais, enfim, mas jornais poderosos que tenham recursos financeiros notabilíssimos, então qualquer comparação é difícil com o “Jornal da República” que era um jornal de pobretões.

NM – graficamente você tem algum jornal preferido, algum jornal que você acha que seja mais moderno?
MC – Graficamente ou com conteúdos, no jornal em geral?
NM – Na parte gráfica mesmo.
MC – Na parte gráfica? Não sei, acho que imprensa inglesa e a imprensa italiana são nesse ponto de vista os melhores.

NM – com a evolução da tecnologia, como você vê o futuro do jornal? Você acha que algum meio de comunicação vai se extinguir?
MC – Olha, eu não vejo. Até porque eu não sei como vai ser o meu futuro. Então, se meu futuro é nebuloso, imagine o futuro do mundo e da imprensa especificamente e da mídia especificamente. Eu sempre duvido que a escrita possa morrer. Mas eu tenho certeza, ao mesmo tempo, que o mundo já está vivendo uma idade média. Então a escrita não pode morrer porque ainda sou partidário da idéia de que a escrita fica realmente. E veja, mesmo a internet recorre à escrita. Quer dizer, o problema está em como os instrumentos são usados. Eu por exemplo não me aproximo de um computador e uso até hoje a minha máquina de escrever porque o computador me assusta. Ele tem uma boca aparentemente desdentada, mas disposta a me engolir a qualquer momento. Muita gente foi engolida pelo computador e não percebe, mas foi e já está sendo digerida por ele. Agora, eu acho que tudo depende de como você usa os instrumentos. O computador é um instrumento que pode ser excepcionalmente profícuo e eficaz. E também pode ser uma bobagem. Eu percebo que muita coisa é absolutamente bobagem, embora tenha também coisas que tenham substâncias que nascem, surgem e circulam graças ao computador. Mas a escrita não morre.

NM – você tem algum projeto para o futuro?
MC – [risos] Bom, eu já lhe disse. Não sei qual vai ser o meu futuro, até porque vejo que meu futuro encolhe a cada dia.

NM – Bem alguma coisa que eu não tenha perguntado sobre o “Jornal da República” que você gostaria de falar?
MC – Não, pessoalmente vou te dizer que o “Jornal da República” foi uma experiência encantadora e eu não me arrependo de nada e, portanto o “Jornal da República” é uma bela etapa. Eu me arrependo de outras, mas não dizem respeito ao jornalismo.

NM – Mas com relação ao “Jornal da República” nada?

MC – Em geral, tudo o que fiz no jornalismo eu não tenho arrependimento algum, mas eu tenho arrependimentos de outros gêneros. E tenho muitos até, e pelo menos alguns muito profundos, mas com relação ao jornalismo nada, zero.

Texto reproduzido do blog: jornaldomino.blogspot.com.br

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

História da Revista




História da Revista
      
As primeiras revistas chegaram no Brasil em meados do século XIX, junto com a corte portuguesa. No entanto, a primeira revista brasileira chamada “As Variedades ou Ensaios de Literatura” só veio a ser lançada no ano de 1812 em Salvador e imitava os modelos das revistas estrangeiras. As suas publicações traziam novelas de gosto comum, fragmentos de história antiga e moderna e discursos sobre costumes e valores sociais, além de artigos de estudos científicos e textos de autores clássicos portugueses.

Posteriormente, com a ajuda da elite intelectual, surgem novas revistas. Algumas merecem destaque como “O Patriota” em 1813, Anais Fluminenses de Ciências, Artes e Literatura, em 1822, ambas lançadas no Rio de Janeiro. Em 1827, surge o ramo de revistas segmentadas, ou seja, que são especializadas em um gênero, com o lançamento da revista “O Propagador das Ciências Médicas” com temas voltados para medicina e “Espelho de Diamantino”, a primeira revista feminina brasileira. Esta tratava de assuntos variados como arte, política e moda, de forma simplificada.

No século XX, a revista evolui e passa a publicar fotos em suas edições, dando lugar à revistas ilustrativas. Em 1928, é lançada a revista Cruzeiro pelo jornalista Assis Chateubriand, com publicações mensais. Ela enfatizava grandes reportagens com apelo para as imagens, aproximando o fotógrafo do fato e utilizando recursos do fotojornalismo. Em suma, a revista trazia os principais fatos jornalísticas da semana, variedades e os avanços tecnológicos no mundo pós primeira guerra, unido à uma boa diagramação, edição e ilustração. Após poucos meses de seu lançamento, Cruzeiro já era um sucesso de vendas, atraindo um público variado de leitores.

Em 1940, a revista “Diretrizes” era a principal concorrente de Cruzeiro, principalmente pelos bons profissionais que compunham a redação da revista. Ela tinha como foco principal a política e se posicionava contra o regime de Vargas em pleno Estado Novo. Por esse motivo, muitas de suas matérias geravam atritos com o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda implantado por Vargas para censurar a distribuição de informações. Diretrizes contava com grandes escritores como Jorge Amado, Álvaro Moreyra, Rubem Braga e Joel Silveira.

Em 1952 é lançada, pela Editora Bloch, a revista Manchete, que priorizava a fotografia e a ilustração, seguindo uma linha diferente das outras revistas citadas. As publicações eram voltadas para o grande público urbano e trazia curiosidades da cultura brasileira, sem muitos aprofundamentos.

Revistas Diversas

Em 1966, nasce uma revista que marca a história da imprensa do Brasil, a revista Realidade, que tinham suas reportagens pautadas pela objetividade da informação. Antes da revista ser lançada, a Editora Abril S.A. fez uma pesquisa para medir os efeitos da primeira edição e definir quem seria o púbico alvo a consumir a revista. Os resultados foram as classes A e B nortearam as publicações e concretizaram o seu sucesso.

Os jornalistas de Realidade, eram em sua maioria, militantes de partidos de esquerda que expressavam na linha editorial um espírito democrático que inspiravam o debate, mas sem ser partidário. As reportagens da revista eram sempre bem apuradas e editadas, atraindo o público que buscavam um tema de interesse específico.

A revista Realidade resistiu por um tempo a competição com os noticiários de TV, que mostravam o fato com a urgência do tempo real. Entretanto, não conseguiu sobreviver à crise do mercado editorial brasileiro, somado ao Ato Institucional AI-5, que institucionalizava as restrições à liberdade de imprensa no Brasil. Em 1976, a revista Realidade fechou com a edição número 120, mas ainda permanece na memória, como um marco na história das revistas no Brasil.

Nessa mesma época, o fundador da revista Realidade, Victor Civita, havia criado a revista Veja em 1968. Mas foi só depois de dez anos de sua primeira publicação, que a revista passou a gerar lucros. Antes disso, seus custos eram bancados pela revista Realidade. Depois da Veja, criou ainda a Isto é, Isto é Senhor, Afinal e Época, marcando a entrada das Organizações na Globo no mercado das revistas semanais de informação.

Nas décadas de 50 e 60 o surgimento das fotonovelas foi um grande sucesso de vendas no segmento de revistas. Com uma linguagem de fácil assimilação, elas cativaram rapidamente o gosto popular. Nesse ramo, destaca-se o surgimento da revista Capricho em 1952, com publicações quinzenais, ela chega a vender 500 mil exemplares. Contudo, na década de 1970, a revista começa a perder espaço para as telenovelas da televisão, e por isso, modifica a sua linha editorial, que passa a ser centrada no público adolescente.

Nesse mesmo período, entre 1950 e 1960, surgem as revistas de História em Quadrinhos, com destaque para autores como Ziraldo e Maurício de Souza com histórias do Pererê e Turma da Mônica, respectivamente. Nesse tempo as revistas se afirmam, definitivamente, como bons veículos de publicidade e propaganda.

O contexto social de desenvolvimento industrial propicia o surgimento de revistas segmentadas, voltadas para atender um público específico. Assim surgem a revista Manequim em 1959 e a revista Cláudia em 1961. Ainda na década de 50, com o crescimento da indústria automobilística aparecem a revista Quatro Rodas. A partir daí, várias revistas começaram a surgir, atendendo a demanda de grupos específicos, elas passaram a ter publicações cada vez mais segmentadas.

Texto reproduzido do site: revistas.com.br