segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"O jornalismo está embriagado com a tecnologia"

Foto: José Carmo/Global Imagens

Publicado originalmente no site do Jornal de Notícias, em 21/Junho/2018

"O jornalismo está embriagado com a tecnologia"

Dominique Wolton defende que é preciso "reinventar a liberdade da informação"

Por Sérgio Almeida

Crítico severo do jornalismo atual, o investigador francês Dominique Wolton advoga que é preciso "reinventar a liberdade da informação". Para isso, garante, é preciso libertar-se da "tirania do capital e da tecnologia".

O conformismo e a indiferença não têm lugar no discurso sempre afiado do sociólogo francês Dominique Wolton. Aos 71 anos, o diretor de investigação do mítico Centre National de la Recherche Scientifique mantém uma posição profundamente crítica em relação aos ditames do jornalismo atual, que diz estar aprisionado pela tirania do dinheiro e da tecnologia, pelo que é preciso "reinventar a liberdade da informação".

Intitulou a sua conferência em Serralves de "Utopia da informação". A missão de informar com qualidade tornou-se hoje quase uma impossibilidade?
É um facto. Nunca tivemos acesso a tanta informação nem tantos meios tecnológicos ao nosso dispor, mas também nunca houve tantos erros, tantas "fake news" e tanta falta de confiança nos jornalistas. São muitas contradições. A proximidade dos jornalistas do poder político levou a uma perda de confiança por parte do público. Um terceiro fator é o da inteligência crítica dos recetores. Hoje, como todos os cidadãos têm acesso a uma panóplia de informações, o seu sentido crítico tornou-se mais agudo e permitiu-lhes ver que a estandardização da informação é uma realidade. O Mundo inteiro trata a informação da mesma maneira.

O cidadão médio estará hoje mais informado do que há 20 anos?
Tenho dúvidas. O volume da informação não significa qualidade da informação. Nem tão-pouco de variedade da informação. O modelo vigente em todo o Mundo é o ocidental, mais concretamente o europeu. Embora a verdade e a liberdade sejam conceitos universais, a sua aplicação deve variar de acordo com a cultura em causa. Não se pode aplicar o mesmo modelo indiscriminadamente em toda a parte. Esse foi um dos grandes erros cometidos: ignorar as especificidades culturais e religiosas. A verdade é que nos confrontamos com duas tiranias. A primeira é a crença de que a tecnologia liberta. Não é verdade. O jornalismo está embriagado com o progresso tecnológico. A segunda é o dinheiro, que condiciona tudo. O jornalismo está aprisionado por essas duas tiranias.

Acredita nos "cidadãos jornalistas"?
Isso é uma estupidez. Claro que todos podemos e devemos contribuir neste processo, mas sem jamais nos substituirmos aos profissionais desta matéria. Ninguém pede a uma pessoa sem formação que seja professora, por exemplo. Todas as ideias da transparência da informação, da interatividade, do jornalismo do cidadão são uma treta. Os jornalistas venderam a sua alma.

Os jornalistas ainda não assimilaram a ideia de que já não possuem o monopólio da informação?
A tragédia vem da subordinação dos jornalistas à técnica. Passa-se o mesmo com os professores: é uma classe conservadora e corporativa que tarda em reagir às mudanças do mundo. Mas podemos dizer o mesmo dos médicos ou dos políticos...

Os estudantes de jornalismo continuam a reproduzir os antigos dogmas?
Deviam ser muito mais críticos. Eles vão ser esmagados pela nova realidade.

O que deviam aprender nas escolas?
Muita História, análise comparativa dos media, crítica da evolução técnica, valorização do trabalho humano, luta contra o capitalismo, evitar a concentração.

Sente que a qualidade dos estudantes tem decrescido?
Não! É um paradoxo, mas são muito mais educados do que noutros tempos. E muito mais bem formados. A qualidade dos estudantes é boa, mas o conteúdo crítico dos cursos não o é. Continuam a incutir a mesma estupidez aos jornalistas, dizendo-lhes que podem fazer ao mesmo tempo televisão, rádios, jornais e Internet. É um erro. Não se pode pedir ao mesmo jornalista que filme, trate do som, coloque as perguntas e edite o artigo.

É, por isso, um erro falar-se em jornalismo digital.
Claro! O futuro não é o jornalismo digital. Existe apenas o jornalismo.

Há 20 anos, dizia que o impacto da Internet no jornalismo seria inferior ao da rádio e da televisão muitas décadas antes. Acha que tinha razão?
Sim. Todas representam avanços tecnológicos mas a rádio e a TV estavam associadas a uma ideia de democratização das massas. A Internet é um avanço tecnológico superior, mas faz da segmentação a sua principal força. Aposta sobretudo na liberdade individual, ao dar a cada um aquilo que ele quer consumir. Em termos de progresso da sociedade, a Internet contribui para a segmentação social, não para a coesão.

Até que ponto é legítimo acharmos que a sociedade da informação favorece os populismos?
Para já, o próprio termo "sociedade da informação" é um disparate. Não existe nem existirá. A informação é do poder, não é da democracia. É preciso reinventar a liberdade da informação, adaptando-a a novos contextos. Como estudioso desta área há mais de 30 anos, entendo que o papel dos jornalistas como contrapoder continua a ser indispensável. Por isso, é preciso que reflitam primeiro sobre o seu papel, o que não fazem. É uma classe muito corporativa. Faz crítica a toda a gente, mas recusa-se a fazer autocrítica.

Se há ideia que percorre os seus livros é a de que informação e comunicação são distintas. Apesar dos alertas, esses conceitos ainda são confundidos?
A grande loucura cometida nestas últimas décadas foi a desvalorização do conceito de comunicação e a valorização da informação. A comunicação humana passou para segundo plano, em contraste com a comunicação técnica.

Para termos melhor jornalismo não precisamos, em última instância, de melhores cidadãos?
Não. Se o público valoriza os tabloides, a responsabilidade é sua, mas a principal dose de culpas é da oferta. Se o a oferta cultural disponível - de cinema, televisão, rádio ou jornais - for feita unicamente em função da oferta, é claro que teremos a supremacia do tabloide. Estamos ao nível do pão e circo. É responsabilidade dos jornalistas alargar a oferta. É preciso acabar com esta tirania.

Texto e imagem reproduzidos do site: jn.pt

Morre o jornalista Victor Amaral

Foto: Arquivo Pessoal

Publicado originalmente no site A8SE, em 20/08/2018

Morre o jornalista Victor Amaral

Redação Portal A8

O jornalista Victor Amaral morreu nas primeiras horas desta segunda-feira (20). Ele estava internado desde o último dia 31 de julho em um hospital na cidade de Manaus, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Na última semana, o estado de saúde do jornalista piorou e ele acabou falecendo, a informação foi confirmada por amigos e familiares.

Victor Amaral era natural de São Paulo, mas morou durante muitos anos em Sergipe. Ele trabalhou em diversos veículos de comunicação no estado, incluindo a TV Atalaia, onde trabalhou entre os anos de 2000 e 2005 como apresentador. Até o momento não foi informado pelos familiares o local e o dia do sepultamento.

Texto e imagem reproduzidos do site: a8se.com

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os jornais eram o que importavam

Foto: Pixabay

Publicado originalmente no site Alô News, em 13/08/2018

Os jornais eram o que importavam

Por Ivan Valença

Falei quase tudo que me veio a mente sobre a feira daqueles tempos que não tive tempo de revelar porque eu gostava tanto da barraquinha que vendia sabão. Fazia questão de ficar por lá, sem acompanhar minha mãe às compras. É que lá, dona Marocas guardava um monte de jornais  - não os do dia, claro -, alguns até bem antigos, que lhe servia para embrulhar o sabão de quem comprava seus produtos.

Eu passava as horas, entretendo-me no folhear daquelas preciosidades. Foi assim que eu tomei conhecimento com dezenas e dezenas de jornais aracajuanos – e também do interior do Estado – geralmente cheios de “fofocas” da política local. Talvez tenha sido neste aprendizado  às avessas que aprendi a ler jornais muito rapidamente. Tinha poucos momentos com eles, logo era preciso ler o máximo que pudesse.

Consumia o “Correio de Aracaju” – o “pasquim” que era mantido pela UDN de Leandro Maciel – assim como o “Diário de Sergipe”, o “pasquim” do outro lado, mantido pelo político que mais lhe fazia oposição, o prefeito (mas acho  que ele ainda não era o dr. Alcaide de Aracaju) José Conrado de Araújo. Tinha também “O Nordeste”, mantido pelo deputado do PTB Francisco de Araújo Macedo e sua mulher, Núbia Macedo. O Partido Comunista do Brasil marcava ponto com uma “Folha Popular”, dirigido por Robério Garcia (aliás, irmão do governador do Estado, Luiz Garcia) que eu conhecia mais como dirigente esportivo que o era. Alguns outros jornais menos conhecidos, pelo menos para mim, eram a “Gazeta Socialista” e “A Cruzada”, este o “jornal dos padres”, porque propagava a religião católica.

Eram todos jornais pequenos: geralmente, quatro páginas, em tamanho standard, isto é, do tamanho do “Jornal da Cidade” e “Correio de Sergipe”, que circulam hoje em dia. O que me interessava neles? Além das manchetes as fofocas políticas que mais se acentuavam em época de eleições, como agora.

Destino único daquelas edições que me chegavam as mãos: ser pacotes de barras e barras de sabão...

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Editora Abril fecha revistas e demite jornalistas

Crédito: Reprodução internet

Publicado originalmente no site do Portal Imprensa, em 06/08/2018

Editora Abril fecha revistas e demite jornalistas

Redação Portal Imprensa 

A editora Abril anunciou, nesta segunda-feira (6), o fechamento das revistas Arquitetura e Construção, Boa Forma, Casa Claudia, Cosmopolitan, Elle e Minha Casa e a demissão de jornalistas. A informação foi confirmada pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP).

Segundo o sindicato, mais de 50 jornalistas foram demitidos. Há informações (ainda não confirmadas) sobre a desligamento, também, de outras centenas de trabalhadores e trabalhadoras administrativos e gráficos.

A direção do sindicato foi à editora no período da manhã e disse que não houve diálogo com representantes do Grupo Abril.

A entidade repudiou as demissões e disse, em nota, que a necessidade de “’ajustes’ propagada pelos novos diretores da Abril não justifica gerar desemprego, demitindo centenas de profissionais e comprometendo a qualidade do jornalismo em nome da lucratividade.” 

Em nota, a editora Abril informou que “está reformulando o portfólio de marcas da editora com o objetivo de garantir sua saúde operacional em um ambiente de profundas transformações tecnológicas, cujo impacto vem sendo sentido por todo o setor de mídia”.

De acordo com o comunicado, “o processo tornou-se obrigatório dentro das circunstâncias impostas por uma economia e um mercado substancialmente menores do que os que trouxeram a Abril até aqui”.

Com isso, “a empresa passará a concentrar seus recursos humanos e técnicos em suas marcas líderes: Veja, Veja São Paulo, Exame, Quatro Rodas, Claudia, Saúde, Superinteressante, Viagem e Turismo, Você S/A, Você RH, Guia do Estudante, Capricho, MDE Mulher, VIP e Placar. Marcas que somam audiência qualificada de 125 milhões de visitantes únicos por mês e 5,2 milhões de circulação nas versões impressa e digital por mês, além de centenas de eventos.”

Ao final da nota, a empresa agradeceu os profissionais. “Aos profissionais que atuaram nos títulos que estão sendo descontinuados, nosso agradecimento pela dedicação e pelo profissionalismo.”

Demissões começaram em 2017

O sindicato lembrou, também, que a editora é alvo de ação do Ministério Público do Trabalho (MPT) por causa da dispensa em massa em dezembro de 2017.

“Além da dispensa em massa sem efetivamente realizar negociação prévia com o Sindicato, o MPT apurou que as demissões foram discriminatórias, pois afetaram principalmente os profissionais mais velhos (média de 40 anos, 10 meses e 9 dias) e com maior tempo na empresa (média de 11 anos, 6 meses e 14 dias).

Nesta ação, o MPT reivindica que a Editora Abril se abstenha de fazer mais demissões sem prévia negociação com os sindicatos profissionais, assim como novas dispensas discriminatórias fundadas em qualquer motivo tais como idade, sexo, origem, raça, estado civil, situação familiar, deficiência ou reabilitação profissional.

No último dia 8 de março, antes de mover a ação civil pública, o MPT propôs à editora um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) contra as demissões, mas a direção da Abril não aceitou assinar o documento.

O TAC resultou de um procedimento aberto pelo MPT para apurar uma denúncia anônima contra a empresa por conta das demissões ocorridas em dezembro de 2017.

Texto e imagem reproduzidos do site: portalimprensa.com.br

sábado, 4 de agosto de 2018

A Curta história de um publicitário e jornalista.

Foto reproduzida Facebook/Déborah Pimentel e postada no blog, 
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Blog Luiz Eduardo Costa, em 28/07/2018

A Curta história de um publicitário e jornalista.

Por Luiz Eduardo Costa

                 Era, se não falha a memória, o ano de 1966. Por volta das oito horas, a redação do Diário de Aracaju apenas começava a funcionar. O jornal era, em Sergipe, um marco da modernização na forma de fazer o texto jornalístico e no aspecto gráfico. Pertencia à portentosa cadeia dos Diários Associados, a Globo da época.

                    Na redação, ainda tranquila, entra um jovem com modos educados e vai perguntando: “O que é aquilo?” Ele apontava para umas berinjelas que estavam sobre a mesa.  Respondida a pergunta, ele recebe de volta: “E quem é o senhor?”. O curioso aproxima-se, alarga o sorriso e apresenta-se: “Sou Nazário Ramos Pimentel”. E vai contando a sua vida. Paraibano, era um pequeno industrial, tinha uma fábrica descaroçadora e produtora de óleo de arroz em Pão de Açúcar. Faliu. Viera morar em Aracaju, depois de pagar aos credores, e aqui residia com a mulher e suas duas filhinhas pequenas. Helena, a esposa, enfermeira, trabalhava num setor federal que cuidava, e bem, da saúde pública.

                   Em pouco tempo estava empregado, após uma conversa com o diretor comercial Raimundo Luiz da Silva. No outro dia, o paraibano curioso chega com uma pasta e vai começar o trabalho de vendedor, de publicitário.

            Aproximava-se o 31 de março, segundo aniversário da “Revolução Democrática que Salvou o Brasil do Comunismo” e era preciso comemorá-la condignamente, ou seja, faturando. Os Diários Associados, criação de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, um genial sujeito, misto de escroque, de visionário, de inovador e, também, um generoso filantropo e mecenas.

                    Pimentel foi ao comandante do 28º BC, mostrou-lhe os seus “propósitos patrióticos” de exaltar a “revolução salvadora” e dele ganhou um infalível bilhete de apresentação. Aí, ele começou a levar o bilhete a empresários, prefeitos, chefes de repartições. Nunca se fez, nem se fará jamais em Sergipe, um Suplemento Comemorativo tão volumoso. Enquanto Pimentel corria a praça, um jornalista esgotava adjetivos para exaltar a “gloriosa”, embora isso lhe causasse discretos engulhos. Sobreviver é preciso.

                O jornal teve de ser rodado em Salvador, a sede regional dos Diários Associados.  O jornalista Odorico Tavares, o chefe, um intelectual afável, amigo e protetor de poetas e pintores desvalidos, chamou o seu diretor comercial e lhe passou uma reprimenda, dizendo que mirasse no exemplo dos sergipanos.

                  Garantiu-se a folha do Diário por alguns meses.  Pimentel e o jornalista que redigiu as arengas, com as comissões recebidas, compraram, cada, um carro quase novo.

                   Depois, a história de Pimentel é bem conhecida. Criador de jornais, em Aracaju e Maceió, de uma emissora de rádio, também na capital alagoana. Montou, em sociedade com dois outros, então jovens empresários e visionários, e já ricos, Murilo Dantas e Lauro Menezes, a primeira agência de turismo em Sergipe e, também, a PPP, uma das primeiras empresas de publicidade em Aracaju.

                 Pimentel se tornaria hoteleiro. Foi quando a EMSETUR, antevendo o futuro em Canindé com o início das obras da hidrelétrica, projetou um hotel no ponto mais aprazível da região. O projeto foi da arquiteta Lúcia Leão, o Estado entraria com algo em torno de 40 por cento do investimento.

                  Um alagoano, Omena, hoteleiro em Aracaju e Maceió, topou a empreitada, iniciou o hotel e desistiu, pois já havia dúvidas sobre a continuação das obras da hidrelétrica. Foi aí que Pimentel, numa noite no Parque dos Coqueiros, tomando o bom uísque do empresário Frederico Meinberg e com o jornalista, dono das berinjelas do seu primeiro dia na redação do Diário de Aracaju, então na EMSETUR, topou assumir o hotel. No dia seguinte teve de ser relembrado do compromisso, mas foi levado ao governador Valadares e logo viajou a Canindé. Está lá até hoje, no moderno Xingó Parque Hotel, um pioneirismo que deu certo.

              Nesse dia 28 de julho, data em que morreu Lampião, nascia em Campina Grande o menino Nazário Ramos Pimentel, que, em consequência disso, hoje completa oitenta anos.

Texto reproduzido do site: blogluizeduardocosta.com.br

terça-feira, 31 de julho de 2018

Os 80 anos de Nazário Pimentel

Foto: Reprodução - Facebook/Deborah Pimentel

Publicado originalmente no site Alô News, em 30/07/2018 

Os 80 anos de Nazário Pimentel

Ponto de Vista por Ivan Valença

A informação está na página do jornalista Luis Eduardo Costa neste final de semana, publicada pelo “Jornal do Dia”: o jornalista e publicitário Nazário Ramos Pimentel estaria completando oitenta anos de vida. Profissional de mão cheia, o célebre PPP (a sigla de “Pimentel Promoções e Publicidade”, a denominação oficial de sua agência de publicidade) passou por várias etapas em sua vida antes de aportar em Aracaju e dedicar-se ao ramo publicitário. Vinha da cidade alagoana de Pão de Açúcar, onde investiu, sem muito êxito, na área rural. Natural de João Pessoa, na Paraíba, Pimentel exerceu o jornalismo em Recife e Maceió.

Mal aportou em Aracaju, na segunda metade dos anos 60, procurou um emprego no “Diário de Aracaju”, o veículo do grupo “Associados” de Assis Chateaubriand e foi recebido pelo diretor de então do veículo, jornalista e bancário Raymundo Luiz da Silva. O “Dr. Patrão” deu-lhe uma incumbência inglória, um cargo que ninguém queria: o de agente publicitário. Pimentel não se fez de rogado: topou a missão e foi prá rua, recolher publicidade. Deu tão certo que menos de um mês depois estava editando um caderno especial sobre a revolução de abril de 1964. Ninguém nunca antes tinha editado um caderno especial recheado com tantos anúncios.

Daí em diante, Pimentel não parou mais: fundou a sua agência de publicidade e até uma agência de viagens, já que seu grande sonho era mesmo trabalhar numa companhia aérea.  Em 1971, associado a este escriba, fundou o “Jornal da Cidade”, primeiro como semanário, depois introduzindo a tecnologia do “off-set” em circulação diária.  Topou, porém, novos desafios: foi ser diretor da TV Atalaia. Recuperou financeiramente a emissora e partiu para outra área de negócios, o de realização de exposições. Mas voltou logo ao ramo de jornais impressos, fundando o “Jornal de Sergipe”, por onde passaram tantos profissionais de renome.

Um vencedor em tudo que se propôs a fazer, inclusive na área de hotelaria. É de sua propriedade, por exemplo, o Hotel Xingó, em Canindé do São Francisco. Por fim, abandonou tudo, aposentou-se e foi morar, com a mulher – as duas filhas do casal, uma delas a médica Débora Pimentel, já estavam bem encaminhadas na vida – justamente no Hotel Xingó, nas lonjuras de Canindé.

E aí, Pimentel, como se sente hoje, chegando aos oitenta anos de uma vida bem vivida?

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A enciclopédia do futebol

Imagem reproduzida do site a8se.com/tv-atalaia e  postada 
pelo blog "Meio Impresso", para ilustrar o presente artigo. 

Texto publicado originalmente no site Alô News, em 15/06/2018

A enciclopédia do futebol

Por Ivan Valença *

Nestes dias de Copa do Mundo sempre me vem a lembrança daquele que foi pra mim o símbolo do futebol, como esporte muito querido no Brasil e no resto do mundo. Não deixa de vir a minha lembrança um professor, jornalista, arquivista de primeira linha. Refiro-me a Francisco Viana Filho, mas todos o tratavam por Tito. Ex-professor na Escola Industrial quando está ainda funcionava no centro da cidade.

Mas o que ele gostava de ser mesmo era jornalista e o arquivista que esclarecia todas as dúvidas de torcedores que o procuravam para tirar suas dúvidas. Tito parecia ser uma máquina ambulante. Tinha as respostas na ponta da língua, não importando que a pergunta fosse de “cabo de esquadra”, ou seja, bem difícil mesmo. Nunca o vi pedindo um tempo para pesquisar para oferecer a resposta certa.  Vi, por uma ou duas vezes somente, ele dizer que não tinha a resposta naquele momento. No outro dia voltava com a resposta fundamentada através de dados até do século passado.

Ele morava na Rua de Capela, entre a Rua Laranjeiras e a Rua de Propriá. A casa ainda existe, só não sei onde foi parar o monumental arquivo de Tito, composto de jornais, livros, revistas e gravações de gols importantes de muitos clubes sergipanos, alguns do Nordeste, mas principalmente, da Seleção brasileira.

Um belo dia ele organizou um torneio de jogos de botão. Na mesa que foi preparada por ele, haviam doze concorrentes que não pagavam nada para entrar na casa dele ou participar do campeonato. Em compensação, também não havia premiação ao final do campeonato. Meu dileto amigo, Simões Filho, que morava quase vizinho a mim na Rua de Laranjeiras, foi quem me levou a conhecer Tito. Ele por seu turno me incentivou a criar o arquivo de cinema que ainda disponho e organizo. Tito era de um bom humor incalculável. De tudo extraia uma historinha curiosa, engraçada, arrancando risadas de quem estava prestes a ouvi-lo.

Quando chegava a redação da “Gazeta de Sergipe” era obrigado a desfiar muitas piadas para acalmar os queridos coleguinhas. Em épocas de Copa do Mundo a casa de Tito virava um verdadeiro estádio de futebol, inclusive com muitas torcidas.
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* Colunista do Portal Alô News - Ponto de Vista

Texto reproduzido do site: alonews.com.br

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Carta aberta do diretor do EL PAÍS à Redação do jornal

Antonio Caño, na redação do EL PAÍS. Ricardo Gutiérrez 

Publicado originalmente no site El País Brasil, em 3 de março de 2016  

Carta aberta do diretor do EL PAÍS à Redação do jornal

Antonio Caño fez uma reunião com a equipe para explicar a iminente transformação do jornal em um veículo essencialmente digital

Por Antonio Caño 

Conversamos nesta manhã sobre a dura realidade enfrentada pela nossa profissão e pelos jornais em todo o mundo. No EL PAÍS, estamos fazendo ajustes há algum tempo e conseguimos realizar a transformação digital paliando, na medida do possível, os danos que está provocando no nosso setor. Felizmente, e apesar das dificuldades, continuamos sendo o jornal impresso mais vendido na Espanha, com bastante distância sobre nossos concorrentes, e nossas edições digitais alcançaram, nos últimos dezoito meses, crescimentos espetaculares que transformaram o EL PAÍS no meio de comunicação em espanhol mais acessado e lido no mundo.

Graças ao sacrifício e à colaboração de vocês estamos em uma posição competitiva e em condições de prolongar a liderança do EL PAÍS. Mas isso não significa que a batalha esteja ganha ou que nossa sobrevivência esteja garantida. A revolução que afeta os meios de comunicação ainda não foi concluída, o panorama ainda é muito confuso. A crise, provavelmente, ainda não chegou ao fundo do poço. A transferência de leitores do papel para o digital é constante. Podemos encarar como fato consumado que o hábito de comprar o jornal em banca reduziu-se a uma minoria. A maioria das pessoas, principalmente os mais jovens, busca a informação em outros suportes e a consome de forma diferente.

A situação ainda continua incerta também no mundo digital. A transferência maciça de leitores da Web para os telefones celulares, bem como o surgimento de novos dispositivos móveis e de ameaças recentes como os bloqueadores de publicidade, juntamente com outras mais conhecidas como a instalação da cultura da gratuidade, tornou muito complexo também o horizonte no campo das novas mídias. Estou começando a ter a impressão de que a passagem do papel para o digital é apenas um e não o maior dos muitos passos que os jornais terão de dar até alcançar o nosso verdadeiro espaço futuro.

A passagem do papel para o digital é apenas um dos muitos passos que teremos de dar até alcançar o nosso verdadeiro espaço futuro

Essas mudanças, como todas as mudanças, têm grandes vantagens. A primeira e mais importante é que milhões de pessoas em todo o mundo hoje mostram interesse e têm capacidade para acessar os nossos produtos. Mas, sem dúvida — e isso é o que mais nos angustia hoje —, este novo tempo é também um grande desafio para todos nós. E uma grave ameaça para aqueles que duvidam ou resistam ao avanço incontido da transformação do nosso trabalho e do negócio que o mantém.

No EL PAÍS nós decidimos não apenas não ter medo da mudança, mas antecipar-nos na medida do possível para estar na vanguarda dessa mudança, assim como estivemos na vanguarda do nascimento da imprensa independente na Espanha e na da informação de qualidade e competitiva em espanhol.

Nossos valores

É bom olhar por um momento para trás e lembrar como tudo começou e que é a razão primeira pela qual estamos aqui. No dia 4 de maio comemoraremos nosso 40º aniversário. Naquele primeiro número, Juan Luis Cebrián afirmou que este jornal tinha sempre sonhado consigo mesmo como um jornal independente, capaz de rejeitar as pressões que o poder político e o poder do dinheiro exercem continuamente sobre o mundo da informação.

Vamos mudar, sim, mas não vamos renunciar aos valores de liberdade e independência que nos trouxeram até aqui. Incorporaremos novas dinâmicas de trabalho que sejam capazes de aumentar a qualidade e a quantidade dos conteúdos e dos produtos que o EL PAÍS oferece e que hoje podem ser lidos em papel, por meio de aplicativos móveis, televisões inteligentes ou redes sociais. Mas estaremos vigilantes para que em todas essas plataformas a marca do EL PAÍS esteja presente.

Não vamos renunciar aos valores de liberdade e independência que nos trouxeram até aqui

Depois de mais de um ano e meio de trabalho e discussões, estamos nos aproximando de um momento-chave na história do EL PAÍS. Nos próximos dias estará concluída a primeira fase do trabalho que habilitará a nova redação, e com isso chegará o momento da conversão do EL PAÍS em um jornal essencialmente digital; em uma grande plataforma geradora de conteúdos que serão distribuídos, entre outros suportes, no melhor jornal impresso da Espanha. Assumimos o compromisso de continuar publicando uma edição impressa do EL PAÍS da mais alta qualidade durante o maior tempo possível. Mas entramos ao mesmo tempo na construção de um grande meio de comunicação digital de alcance global que possa atender às demandas dos novos e futuros leitores. O eixo desse meio será a informação. Suas ferramentas serão todas aquelas que a tecnologia puser à nossa disposição. No momento, como já estão vendo, apostamos na imagem e no vídeo como um grande instrumento de comunicação de massa. Esse meio é e será cada vez mais americano, pois é na América onde o nosso crescimento é maior e nossa expansão mais promissora.

Para tudo isso, como já dissemos, estamos fazendo obras que facilitem a transição do trabalho de ontem ao de amanhã. Vamos passar daquilo que o setor chamou de “integração de redações” para um novo sistema de sincronização de equipes e canais. Vamos implementar modernas ferramentas de comunicação para atender com rapidez e qualidade as demandas de informação transparente de uma sociedade cada vez mais exigente com a tarefa que nos confiou.

Será uma redação sem escritórios, aberta à colaboração e à troca de ideias, na qual as equipes se misturarão para construir novas histórias. A partir de agora, no coração da planta principal será instalado um moderno espaço aberto dedicado à criação e à coordenação de informações e sua distribuição nos diferentes canais. O centro dessa redação contará com uma moderna ponte de comando, na qual haverá perfis jornalísticos, de desenvolvimento tecnológico, de edição gráfica e de vídeo, de design, de produção, de medição de audiência, de redes sociais, de SEO [otimização de sites] e de controle de qualidade. A partir dali serão criadas novas narrativas e novas formas de comunicação que continuarão a manter este jornal na vanguarda do jornalismo global.

Nossos leitores

Toda essa mudança tem um objetivo principal: manter-nos conectados com cada um dos nossos leitores. O EL PAÍS sempre foi uma organização jornalística focalizada em seus sempre atentos e informados leitores. Hoje ele deve sê-lo ainda mais: temos de continuar a ser um jornal que atende as necessidades e demandas daqueles que nos consultam, que nos leem, que confiam em nós. Não trabalhamos para ninguém mais importante do que o leitor, mas sabemos que os leitores de hoje se tornaram usuários que estão em lugares muito diferentes e vêm até nós não só comprando um exemplar a cada dia, mas também por meio do nosso site, por meio do telefone celular ou de seus perfis nas redes sociais.

Este novo espaço pretende continuar sendo o melhor lugar para publicar os mais importantes jornalistas, escritores, ilustradores, fotógrafos, designers e outros criadores de informação e cultura em língua espanhola, mas hoje o conteúdo é tão importante quanto a forma de fazê-lo chegar ao nosso público. Portanto, além das assinaturas, estamos nos dotando de novos sistemas de trabalho e ampliando nossos planos de formação para poder moldar os conteúdos jornalísticos de modo que sejam fáceis de encontrar, de ler e de ver, porque os leitores consomem com cada vez mais avidez os conteúdos multimídia. Nessa linha, o lançamento do EL PAÍS Vídeo foi um dos mais recentes sucessos. Experiências com as quais aprendemos muitas coisas.

Este jornal precisa de todos aqueles que tragam criatividade e bom trabalho

Para facilitar a implementação de tudo isso, reforçamos nossa equipe de direção com novos perfis, mais adaptados às necessidades atuais. Embora eu não tenha dúvida da sua capacidade e esforço, nem eles nem qualquer um de nós conseguirá o difícil objetivo almejado se vocês não nos acompanharem, se não nos ajudarem com suas sugestões, com suas críticas, com seu trabalho em busca da excelência. Acredito que temos a visão, as capacidades e o conhecimento necessários, mas queremos ouvir com humildade suas ideias e as demandas dos nossos leitores e de toda a comunidade que fez deste jornal a referência que nos deixa orgulhosos. Em Únete a la Conversación resumimos isso na nossa comunicação aos leitores. Este jornal precisa de todos aqueles que tragam criatividade e bom trabalho. Devemos fazer um esforço coletivo para mudar permanecendo fieis a nós mesmos e para torná-lo ainda melhor, e espero que seja desfrutando e sendo felizes enquanto realizamos essa viagem emocionante.

O EL PAÍS segue seu caminho para comemorar seus próximos 40 anos mais vivo do que nunca. Você está convidado a participar dessa linda aventura de inventar o futuro desta casa que você construiu e que é o nosso jornal.

Muito obrigado pela sua confiança e esforço.

Um abraço

Antonio Caño

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

O EL PAÍS é um jornal de esquerda?


Redação do EL PAÍS na Espanha.

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 22 FEV 2017 

O EL PAÍS é um jornal de esquerda?

“O EL PAÍS queria, quer ser e é um jornal que conta as coisas que interessam aos leitores e não se cala sobre as coisas que incomodam o poder”, afirma o fundador do EL PAÍS

Por Juan Arias 

Há leitores da edição brasileira do EL PAÍS que estranham, e às vezes até mesmo se irritam, quando aparecem informações ou análises que possam parecer críticas à esquerda. E se perguntam se o jornal “será como os outros”. Isso talvez se deva ao fato de que alguns leitores brasileiros que desembarcaram tarde neste jornal desconheçam a sua história.

O EL PAÍS nasceu há 40 anos como o jornal da nova Espanha democrática, após a terrível guerra “incivil” e décadas de ditadura franquista com desprezo aos direitos humanos. Mas não foi à época, nem é agora, um jornal ideológico de esquerda ou de direita. Segundo Juan Luis Cebrián, hoje presidente do Grupo Prisa, que edita o jornal, além de ter sido seu criador e primeiro diretor, recrutador da primeira redação com diversidade e que decidiu a sua linha editorial, o EL PAÍS deveria ser, acima de tudo, um jornal plural. Aos 31 anos, Cebrián queria um diário de referência sobretudo para os jovens, naquele momento crítico em que começava a nascer uma geração com fome de democracia.

Cebrián acaba de recordar isso em sua autobiografia, Primera Página (sem tradução no Brasil), quando escreve: “Queria fazer um jornal de perfil equilibrado e sucinto, um jornal sóbrio, bem escrito, documentado em suas análises e plural em suas opiniões.” E acrescenta que sua ideia foi fazer um periódico “lido e respeitado, tanto pela elite como pelas pessoas comuns, que desempenhasse um papel essencial na formação da opinião pública”.

Um jornal de esquerda? Cebrián respondeu a essa pergunta em 11 de dezembro de 2016 no programa de Jordi Evole, que faz muito sucesso na rede de TV espanhola La Sexta: “O EL PAÍS queria, quer ser e é um jornal que conta as coisas que interessam aos leitores e não se cala sobre as coisas que incomodam o poder”. E explica: “Quando começamos, a esquerda não tinha voz e tomamos a decisão de lhe dar, mas acredito que nunca foi nem deva ser um jornal de esquerda. Alinhou-se com as posições liberais progressistas e defendeu a democracia quando esta não existia.”

Para conseguir que o EL PAÍS fosse um jornal de referência internacional, Cebrián quis colocá-lo na linha das grandes publicações da Europa da época. Assim, foi o primeiro jornal da Espanha a contar com a figura do ombudsman e com um Manual de Estilo, espécie de Constituição interna para os jornalistas que foi adotada por muitos outros jornais de língua espanhola. Seu fundador também desejava que fosse o primeiro jornal da Espanha, e talvez do mundo, cujas primeiras páginas se dedicassem à seção Internacional. Isso porque, como explicou numa conferência em Roma, a Espanha havia vivido 40 anos com as janelas e portas fechadas ao mundo, olhando para o próprio umbigo. Os espanhóis precisavam, antes de mais nada, conhecer o que acontecia em outros rincões. Ainda hoje, o EL PAÍS, com um importante grupo de correspondentes internacionais, valoriza como poucos as informações mundiais.

Uma das figuras de maior prestígio na equipe, a jornalista Soledad Gallego-Díaz, recebeu de Cebrián a oferta de dirigir o jornal quando ele deixou o cargo. Mas acabou recusando. Ela abordou o tema da ideologia numa entrevista à revista Jot Down, em 23 de março de 2012: “O EL PAÍS não é um jornal de esquerda. Nunca foi, ainda que as pessoas tenham pensado nisso em certo momento. É um jornal progressista no âmbito social, mas não um jornal de esquerda. Além disso, nunca pretendeu ser.” Antonio Caño, outra figura histórica do jornal, atual diretor do EL PAÍS global, enfocou o tema em outra entrevista a Jot Down, em 23 de junho de 2014, pouco depois de assumir. “A única coisa que desejo é tirar o jornalismo do debate esquerda-direita. O jornal não pode ser medido por esses parâmetros porque são muito pobres para um meio de comunicação”, disse. E completou: “O EL PAÍS não é um jornal de esquerda. Nem pretendeu ser. É um jornal liberal, progressista, que se conecta com as tendências de modernizar e de conseguir o progresso da sociedade à qual se dirige. Somos socialmente responsáveis e avançados. E gostamos das mudanças... Jornalismo é jornalismo, contar as coisas sem armadilhas.”

Pessoalmente, faz 40 anos que trabalho exclusivamente para este jornal, quase desde a sua fundação. E, durante todo esse tempo, pude comprovar em primeira mão que o EL PAÍS nunca se vinculou com nenhuma ideologia. Sempre foi, e continua sendo, um jornal comprometido com a democracia e a defesa das minorias marginalizadas. Um jornal laico, que sempre defendeu a separação entre a Igreja e o Estado. Liberal na economia, progressista no campo social, crítico em relação aos poderes civis e religiosos, fiel na defesa dos direitos humanos. E, sobretudo, plural em suas ideias. Algo que sempre esteve claro para todos nós, que trabalhamos nele, é que o EL PAÍS é dos leitores. De todos. São eles os seus verdadeiros proprietários. Os jornalistas são apenas os mediadores da notícia.

Em suas memórias, Cebrián também conta como o partido socialista espanhol, PSOE, pretendeu se apoderar do jornal, já que seus eleitores o liam intensamente. “Ficamos quase dois anos sem dirigir a palavra um ao outro”, escreve, referindo-se ao presidente do Governo socialista e seu amigo pessoal, Felipe González. O falecido Jesús de Polanco, primeiro presidente do Grupo Prisa, me contou que, quando o conservador Partido Popular (PP) venceu as eleições na Espanha, em 1996, o novo presidente do Governo, José María Aznar, convidou-o para um almoço no Palácio da Moncloa. No meio da refeição, Polanco perguntou o que o presidente queria dele. Aznar respondeu: “O EL PAÍS.” E Polanco, que tinha um arguto senso de humor, então lhe disse: “Pena que me pede algo que não é meu, pois o jornal é dos leitores.”

Esse foi e continua sendo o maior orgulho, a única ideologia de um jornal que nutriu três gerações e que hoje é lido também por milhões de brasileiros em sua própria, bela e doce língua.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Audálio Dantas (1929 - 2018)


Audálio Dantas nasceu em Tanque D’Arca (AL), em 8 de julho de 1929.

Começou como repórter da Folha da Manhã (antiga Folha de S.Paulo), em 1954, escrevendo textos sobre temas cotidianos, sem usar expressões que a publicação considerava elegantes na época. Em 1955, quando perceberam na redação o seu interesse por assuntos culturais, foi guindado à Secretaria do Suplemento Dominical, dirigido pela escritora Maria de Lurdes Teixeira – que viria a ganhar dois Prêmios Jabuti.

Embora o que mais gostasse na época fosse acompanhar a paginação do caderno na oficina, foi trabalhando nele que conquistou seu primeiro prêmio de reportagem: uma entrevista “não dada” por Guimarães Rosa, que lançava Grande Sertão: Veredas na capital paulista. O repórter conta que chegou à livraria onde ocorria o lançamento e, após ter seu pedido de entrevista negado pelo grande escritor e diplomata, ficou por perto e anotou as respostas dadas aos leitores e algumas dedicatórias assinadas pelo mestre. Esse material lhe possibilitou escrever a matéria.

Em 1956, o diretor de Redação da Folha da Manhã Mazzei Guimarães despachou-o para a cidade de Paulo Afonso (BA), onde a Hidrelétrica do São Francisco começava a mandar energia para os estados do Nordeste. Além de descobrir como a eletricidade começava a influir na economia da região, aproveitou para trazer várias matérias sobre outros assuntos, todas com fotos.

Além da fama de bom repórter, foi conquistando a de que tinha um bom texto. E continuava fazendo algumas reportagens de sucesso. Costuma apontar como a mais importante de sua carreira a que produziu com o diário de uma moradora da favela do Canindé, em São Paulo (SP). A ideia inicial era observar o local por uma semana para uma reportagem, mas, no segundo dia, ouviu Carolina de Jesus gritar para quem quisesse ouvir que denunciaria todas as mazelas dos favelados num livro que estava escrevendo.

O livro realmente existia – na realidade, uma série de cadernos manuscritos – e precisou apenas de uma abertura e uma seleção do repórter para virar matéria jornalística de primeira. A Folha da Noite a publicou e obteve grande repercussão. Em 1959, logo após ser convidado para trabalhar na revista O Cruzeiro (RJ), fez outra matéria com Carolina, e desta vez a repercussão foi internacional. O diário foi novamente compilado e resultou no livro Quarto de despejo: diário de uma favelada (Ática, 1960), de Carolina Maria de Jesus, que foi traduzido para 13 idiomas.

Em O Cruzeiro, Audálio foi redator e chefe de Reportagem. Lá permaneceu até 1966, quando passou para a Quatro Rodas (SP), da Editora Abril, onde começou como editor de Turismo. O cargo lhe dava oportunidade de fazer muitas viagens. No roteiro que fez do Brasil ao México, por terra, deparou-se com a chamada Guerra do Futebol (conflito entre Guatemala e Honduras, ocorrido entre 14 e 18 de julho de 1969) e, assim, de repente, virou correspondente de guerra da revista Veja (SP).

Com o destaque obtido na editoria, foi promovido a redator-chefe. Fez outras matérias de repercussão: entre outras, denunciou o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, que abrigava dez mil pacientes a mais que sua capacidade, e fez uma série sobre Canudos (BA), que estava condenada a desaparecer com o represamento do rio Vaza-Barris.

Denunciou, em outra reportagem, a maratona de quatro dias de dança de carnaval promovida pela TV Record (SP). Apesar de pagar prêmios aos vencedores, Audálio a via como um verdadeiro massacre. Após o envio da matéria para a redação do Rio de Janeiro, recebeu um telex assinado por Odylo Costa, Filho, que disse ter terminado de ler a matéria chorando. Foi de grande importância, já que, além de diretor da revista, Odylo era um reconhecido intelectual da época.

Na revista Realidade (SP), Audálio foi também redator e editor de muitas matérias importantes. Produziu, com Múcio Borges da Fonseca, uma edição especial sobre o Nordeste brasileiro que recebeu o Prêmio Sudene de Jornalismo de 1972. Depois de Realidade, foi chefe de Redação da revista Manchete (RJ) e editor de Nova (SP).


Em 1975, assumiu a Presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. No dia 29 de outubro daquele ano, em pleno período ditatorial, o órgão denunciou as omissões do caso da morte do jornalista Vladimir Herzog, quatro dias antes, sem temer as repercussões. Foi um marco importante no processo de redemocratização do País.

Deixou a presidência do sindicato em 1978, eleito deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Considera ter dedicado 90% do seu mandato à luta pelas liberdades em geral e, especificamente, pela Liberdade de Imprensa. Nunca deixou de lutar pelo Jornalismo.

Em 1981 recebeu o Prêmio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU, por sua atuação em prol da defesa dos direitos humanos.

Foi o primeiro presidente eleito por voto direto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 1983. Em junho de 2005 foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). No cargo, organizou em 2007 o Salão do Jornalista Escritor, que reuniu personalidades do Jornalismo Literário. Mas ao perceber que seus esforços não eram reconhecidos, deixou a entidade em 2008.

Foi diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação (SP), da Editora Segmento MC, de junho de 2008 a dezembro de 2014, quando passou a dedicar-se exclusivamente à produção de eventos culturais..

Muitas reportagens de Audálio foram transformadas em livros, como O circo de cesespero (Símbolo, 1976), Tempo de luta – Reportagem de uma atuação parlamentar (Independente, 1981) e O chão de Graciliano (Tempo d’Imagem, 2007), este com fotos de Tiago Santana. Lançou, no final de novembro de 2009, o livro O Menino Lula pela Editora Ediouro, reunindo histórias contadas pelo próprio protagonista, sobre a infância de Luiz Inácio Lula da Silva, as lutas sindicais até a conquista da Presidência, com fotos do acervo pessoal da família. Em julho de 2012 fez uma compilação de 13 de seus melhores textos para a obra Tempo de reportagem (Editora LeYa), em que conta os bastidores da produção de cada matéria escolhida. Também lançou o livro As duas guerras de Vlado Herzog (Civilização Brasileira), contando como o jornalista foi vítima dos nazistas na Iugoslávia, nos anos 1940, e das forças de repressão da ditadura militar brasileira, que o mataram em 1975.

Em junho de 2012 Audálio foi designado Jornalista do Ano pela Anatec – Associação Nacional Editores Publicações Técnicas Dirigidas Especializadas.No mês seguinte J&Cia publicou edição especial que celebrou seus 80 anos com um resumo da trajetória de Audálio; depoimentos de amigos e admiradores, entre os quais Helena Chagas, Juca Kfouri, Washington Olivetto e Carlos Chaparro; e uma entrevista dele tendo por base o livro Tempo de reportagem, lançado no mesmo ano.
Em solenidade realizada em janeiro de 2013, durante o Seminário Internacional Direitos Humanos e Jornalismo, foi instalada a Comissão Nacional da Memória, Justiça e Verdade dos Jornalistas Brasileiros, que anunciou Audálio Dantas como seu presidente. A condução dele ao cargo foi um reconhecimento pela atuação como presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo num dos momentos mais dramáticos da vida brasileira diante do regime de exceção, que culminou com a morte do jornalista Vladimir Herzog. No foco de trabalho do presidente Audálio estavam os casos de violações dos direitos humanos cometidos contra jornalistas brasileiros no período de 1964 a 1988. Na solenidade, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lembrou que “o outro nome da democracia é direitos humanos”.

Com curadoria de Audálio Dantas e a presença de mais de 30 consagrados autores, foi aberto em agosto de 2013 o II Salão Nacional do Jornalista Escritor no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Ainda em agosto, indicado por 50 associados da União Brasileira de Escritores, o livro dele As duas guerras de Vlado Herzog foi indicado candidato único ao Troféu Juca Pato, o que lhe valeu o Prêmio Intelectual do Ano da UBE e foi entregue em novembro daquele ano.

O mesmo livro venceu em novembro de 2013 os prêmios Jabuti de Reportagem e de Livro do Ano – Não ficção, concedidos pela CBL – Câmara Brasileira do Livro.

Com fotografias de Tiago Santana, Dantas lançou em abril de 2014 o livro Céu de Luiz – 100 anos de Luiz Gonzaga, pela editora Tempo D'Imagem. A obra é uma homenagem ao centenário do Rei do Baião, e, mais do que uma biografia, trata da região de Pernambuco em que ele nasceu e do Cariri cearense. Este é o segundo trabalho ao lado de Tiago, com quem lanço O chão de Graciliano (Ed. Tempo d'Imagem, 2006).

Após sete anos de dedicação Audálio Dantas deixou a Negócios da Comunicação em dezembro de 2014 para se dedicar a projetos culturais. É parceiro de J&Cia nessa área desde abril de 2015.

Em outubro de 2015 Audálio Dantas assumiu a curadoria do Encontro de Tiradentes, (MG). O evento, apoiado por este Portal dos Jornalistas, tem de e apoio da Prefeitura de Tiradentes e conta com a presenças confirmadas de Míriam Leitão, José Paulo Kupfer e Richard Rytenband, além de Eduardo Ribeiro. Na mesa sobre ética estarão Domingos Meirelles, Vera Guimarães e Juca Kfouri. A mesa será moderada por João Rodarte.

Foi eleito em 2015 entre os ‘TOP 50’ dos +Admirados Jornalistas Brasileiros. A votação é realizada por Jornalistas&Cia em parceria com a Maxpress. 

Texto e imagem reproduzidos do site: portaldosjornalistas.com.br

Jornalista Audálio Dantas morre aos 88 anos

Crédito:Jonathan Lins/G1

Publicado originalmente no site da revista Imprensa, em 30/05/2018 

Jornalista Audálio Dantas morre aos 88 anos

Redação Portal IMPRENSA 

O jornalista e escritor Audálio Dantas, 88 anos, morreu nesta quarta-feira (30), no Hospital Premiê, em São Paulo, após uma dura batalha de quase três anos contra o câncer. As informações são dos principais sites de notícias do país.

Dantas estava internado desde abril para tratar um câncer que começara no intestino e acabara por atingir o fígado e os pulmões.

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo entre 1975 e 1978, ele foi um dos responsáveis por denunciar que o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto no DOI-CODI --o que contrariava a versão oficial do governo, de suicídio.

Natural de Tanque D’Arca (AL), Audálio iniciou no jornalismo em 1954, como repórter do jornal “Folha da Manhã” (atual “Folha de S.Paulo”). Cinco anos depois, mudou-se para a revista “O Cruzeiro”, onde foi redator e chefe de reportagem.

Ao longo de sua carreira, Dantas trabalhou em diversas publicações da Editora Abril, entre elas “Quatro Rodas”, “Veja” e a prestigiada “Realidade”. Foi chefe de redação da revista “Manchete” e editor da “Nova”. Filiado ao antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), foi eleito deputado federal pelo partido, em 1978.
  
Em 1981 recebeu o Prêmio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU por sua atuação em prol da defesa dos direitos humanos. Em 1983, foi presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Entre outras atividades, ele também foi diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação, da Editora Segmento MC, de junho de 2008 a dezembro de 2014, quando passou a dedicar-se à produção de eventos culturais.

Lançou diversos livros, entre eles "As duas guerras de Vlado Herzog", em que conta como o jornalista foi vítima dos nazistas na Iugoslávia, nos anos 1940, e das forças de repressão da ditadura militar brasileira.

Em seu blog Balaio do Kotscho, o jornalista Ricardo Kotscho lamentou a morte do amigo:

30 de Maio de 2018 

Morreu o grande jornalista Audálio Dantas, um digno cidadão brasileiro. 

Por Ricardo Kotscho

Fiquei sabendo agora pela Thaís, neta dele, que trabalha com minha filha Mariana, uma notícia muito triste para todos os jornalistas e cidadãos brasileiros: morreu meu amigo Audálio Dantas, um cara que batalhou pela vida até o seu último suspiro.

Estive com ele poucos dias atrás num almoço com velhos amigos no Hospital Premier, onde ele viveu seus últimos dias, com a mesma dignidade de toda uma longa jornada de lutas, nem sei de quantos anos, porque até hoje há controvérsias, mas foram muitos, alguma coisa entre 80 e 90.

Trabalhou até onde deu, vivia com muito aperto apenas dos seus escritos, que lhe garantiam a sua sobrevivência e a da brava e unida família Dantas, comandada pela guerreira Vanira.

Audálio há tempos sofria de muitos achaques da saúde, um após outro, mas tenho certeza de que morreu foi mesmo de tristeza, ao ver o que fizeram do seu país, pelo qual sempre foi muito apaixonado.

Nas nossas últimas conversas, ele já estava desesperançado de que a nossa geração ainda conseguisse ver o Brasil com que sonhamos a vida toda, mais justo, mais humano, mais decente.

Sertanejo valente das Alagoas, este brasileiro de muito talento e firmeza foi um dos protagonistas da passagem da ditadura para a democracia, quando falar a verdade sobre o assassinato do jornalista Vlado Herzog nos porões da ditadura era correr risco de vida.

Para quem quiser saber mais sobre a sua história, é só entrar no Google, porque agora vou ao velório para ver se é verdade que ele morreu mesmo.

Homens como Audálio Dantas nunca deveriam morrer. Continuarão vivos na nossa lembrança como exemplo dos brasileiros que não se vergaram nunca.

Vida que segue para quem fica.

Texto e imagem reproduzidos do site: portalimprensa.com.br

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Adeus à ‘Interview’, a revista com que Andy Warhol sonhou...

Leonardo DiCaprio fotografado por Bruce Weber 
para a capa de junho de 1994

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 23 de maio de 2018

Adeus à ‘Interview’, a revista com que Andy Warhol sonhou (e todos nós)

Publicação acaba depois de cinquenta anos e em meio a uma complicada situação legal, mas deixa um legado incomensurável de capas históricas e entrevistas estranhas e brilhantes

Por Guillermo Alonso 

A revista Interview, fundada por Andy Warhol em 1969, deixará de ser publicada este ano, depois de quase cinquenta anos em circulação. Conhecida como “a bola de cristal do pop”, a publicação chega ao fim em meio a um complexo processo de acusações e dívidas (um de seus últimos diretores, Fabien Baron, reclama 600.000 dólares a Peter Brant, dono da revista desde 1989). Um final triste e confuso para uma revista que sempre teve como marca registrada exatamente o contrário: a alegria naif e multicolorida e uma abordagem, tanto gráfica e quanto editorial, surpreendentemente simples (que é, finalmente, o mais difícil de conseguir).

Existem duas coisas que chamam a atenção a respeito da Interview. A primeira, as capas de sua era dourada, nos anos setenta e oitenta, obra do falecido Richard Bernstein. Criador de uma espécie de proto-Photoshop, Bernstein trabalhava sobre fotografias originais das celebridades entrevistadas, destacava suas feições com lápis e pintava suas peles com cor pastel. Essas imagens – já glamorosas por si mesmas – se tornaram o cúmulo do kistch, numa espécie de aparição angelical que, uma vez na banca de jornal, não se parecia com nenhuma outra capa.

O outro elemento reconhecível da Interview eram suas entrevistas, sempre feitas por um famoso a outro, desenvolvidas (muito na linha definida pelo próprio Warhol e sua forma de entender o mundo) como uma conversa descontraída que se tentava plasmar em estado bruto na edição final. Assim, era comum que uma conversa telefônica começasse com o entrevistador perguntando ao entrevistado onde ele estava e como estava o tempo e acabasse com uma despedida cordial. Às vezes, o famoso entrevistador era o próprio Warhol, claro. Devemos-lhe aquela que é provavelmente a entrevista canônica da revista: a de Diana Ross, em 1981, na qual, durante um almoço no restaurante do hotel Carlyle, em Nova York, a conversa derivou para o cardápio e a comida.

ROSS: Por que não pedimos? O que vai comer?

WARHOL: Eu não entendo os cardápios em francês.

ROSS: Você não passa tempo na Europa, Andy?

WARHOL: Eu costumava ir à Alemanha uma vez por mês.

ROSS: Eu pensava que você fosse a Paris uma vez por mês.

WARHOL: Paramos em Paris quando vamos para a Alemanha.

ROSS: Então, como é que você não fala francês? Você deveria entender o cardápio.

WARHOL: Tenho pessoas como Bob (Colacello) para fazer isso.

Depois acabaram pedindo um hambúrguer com batatas fritas para cada um. A tendência continuou ao longo do tempo. Preste atenção ao início da conversa entre Beyoncé (entrevistadora) e sua irmã Solange (entrevistada) para a edição de janeiro de 2017.

BEYONCÉ: Você está cansada? Eu sei que você teve uma reunião de pais na escola...

SOLANGE: Sim, tive de voar para a Filadélfia porque não havia voos para Nova York. E agora estou dirigindo da Filadélfia para Nova York. Bem, eu não estou dirigindo...

BEYONCÉ: Você tem de dirigir? Da Filadélfia?

SOLANGE: Sim, não é para tanto. É uma hora e quarenta minutos.

Na última fase da revista (que Fabien Baron implantou uma apresentação gráfica muito mais sombria), as perguntas continuavam sendo espontâneas, mas já com o filtro da contemporaneidade sobre elas. A escritora, apresentador e ativista transexual Janet Mock começou assim sua conversa por telefone com Kim Kardashian West há apenas dez meses: “Eu ia começar perguntando o que você faz, mas acabo de ver no Snapchat que você está com sua filha North e que acaba de dar outro nome ao seu cachorro”.

A sensação que a Interview dava ao leitor era inaudita em qualquer outra publicação: era a da proximidade, a de sentir como um igual as estrelas de cinema, aristocratas e milionários que falavam sobre a vida cotidiana, e também a de sentir como um igual os próprios autores daquela revista, que faziam que seu trabalho (as entrevistas quase sem edição e publicadas em estado bruto, as fotos coloridas à mão, o projeto gráfico aparentemente simples e tosco) parecesse fácil. Que parecesse que nós mesmos podíamos fazer a mesma coisa. Isso, para quem quer trabalhar no jornalismo, não tem preço. E para isso, para nós que nos dedicamos a isso, a notícia do fim da revista é especialmente triste. Centenas de celebridades apareceram nas páginas da Interview, mas diante delas surgiram milhares de pessoas que sabiam que era exatamente isso o que queriam fazer. Porque parecia um trabalho digno e inspirador, mas, principalmente, parecia divertidíssimo.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

O que levou Ana Paula Padrão a assumir a Claudia

“Não há apenas um feminismo, mas diversas causas femininas” (Crédito: Arthur Nobre)

Publicado originalmente no site Meio & Mensagem, em 5 de setembro de 2017 

O que levou Ana Paula Padrão a assumir a Claudia

Oficialmente como diretora de redação, a jornalista, que estreia nova temporada do MasterChef Profissionais, fala de sua identificação com a revista da Editora Abril

Por Luiz Gustavo Pacete

Na manhã da última quarta-feira, 30 de agosto, a jornalista e apresentadora Ana Paula Padrão reuniu, em São Paulo, dezenas de executivas e profissionais de marcas e agências. Na ocasião, Ana Paula oficializou sua chegada à Claudia como diretora de redação. Entre várias novidades apresentadas por Ana estava o novo posicionamento da revista: #eutenhodireito que, segundo a própria diretora, busca dar voz e visibilidade aos direitos já conquistados pelas mulheres.

“Não há apenas um feminismo, mas diversas causas femininas. Cada mulher pode escolher a sua”, disse Ana Paula durante a apresentação. Em entrevista ao Meio & Mensagem, ela explica por que aceitou o convite de Claudia e comenta o desafio de falar a linguagem da mulher moderna que, atualmente, se vê representada por vários movimentos. Ela também comenta o que aprendeu conduzindo o MasterChef, cuja nova temporada com cozinheiros profissionais estreia nesta terça-feira, 5.

Meio & Mensagem – Para qual mulher a Claudia pretende falar?
Ana Paula Padrão – A mulher brasileira passou por algumas fases até chegar aqui. No fim dos anos 1990, foi a fase de pressão, onde a mulher vivia a dupla jornada. Vivia exausta atendendo a agenda do outro. No começo dos anos 2000, foi uma fase de revisão dos valores que combinavam com ela, uma conexão com ela mesma. Entender que ela estava exausta de rever tantos papeis diferentes em sua jornada. Em seguida, vem a fase que eu acho linda, a das escolhas. Ela passou a optar pela felicidade sem ter que abrir mão de alguma coisa. Ela não precisava desistir de algo para ter algo. Ela podia se olhar no espelho e escolher o que a deixava mais feliz. E hoje vivemos o que eu chamo de fase 4: de afirmação. Ela já fez suas escolhas, Nada a impede de ser mãe e profissional ao mesmo tempo, nada a impede de assumir sua orientação sexual, a afirmação racial, casar ou não casar. Ela não vive mais em função da expectativa do mundo em relação a ela. Você não precisa dizer para a mulher “faça o que você quiser”. Ela já faz o que ela quer. E, neste contexto, queremos ter debaixo da hashtag #eutenhodireito um guarda-chuva que represente toda essa evolução e que seja capaz de reverberar isso em várias plataformas.

“Quando você tem um grau de pulverização de movimentos femininos que existe no Brasil, hoje, as marcas se perguntam: para qual mulher eu falo?”

M&M – O que te fez aceitar o convite da revista?
Ana Paula Padrão – Sempre foi um veículo que antecipou ou corroborou determinados movimentos muito importantes para a história da mulher. O que precisamos atualmente, é reposicionar Claudia como marca. O conteúdo é muito bom e muito adequado, mas ela precisa ter a linguagem que as mulheres falam hoje. Quando falo em reposicionar é dar uma guinadinha neste ponto. E quando digo linguagem, me refiro, principalmente à questão de plataformas. Para dar a força de marca à Claudia. Quando eu fui anunciada na Claudia, disse que para mim era como estar em um lugar seguro. Estudo a história dos movimentos femininos no Brasil há mais de quinze anos. Esse assunto me apaixona. E, no contexto dessas discussões, eu enxergo Claudia como uma marca poderosa.  Nunca vivemos um movimento de tamanha pulverização de movimentos femininos e Claudia tem que dar voz a todos eles. Não é mais questão de plataforma. Ela não é mais uma revista de nicho para determinado tipo de mulher com tal idade. A gente fala com todas as mulheres, independentemente da idade ou momento na pirâmide social.

“Não há mais cluster, existem filhas, mães, negras, brancas, heterossexuais, homossexuais”

M&M – Neste contexto, qual o desafio das marcas?
Ana Paula Padrão – Quando você tem um grau de pulverização de movimentos femininos que existe no Brasil, hoje, as marcas se perguntam: para qual mulher eu falo? Para qual mulher eu dirijo meu discurso? Qual mulher eu quero atingir? Essas perguntas, no entanto, talvez não sejam as mais importantes e nem tão simples de ser respondidas porque já não existe um canal único de comunicação para falar com essa mulher. Não é uma questão de cluster, de idade, cultura, renda, é uma questão de respeitar todas as mulheres. Vivenciamos uma transformação forte na questão do consumo. O direito de usar o cabelo, a maquiagem e ser respeitada. Quando eu falo dessa questão do guarda chuva #eutenhodireito é pensando nisso, de abranger todos os movimentos e entender a mulher que fez escolhas. Não é um diálogo de Claudia para elas, mas é o inverso. O anunciante tem o desafio hoje de saber representar os anseios dessa mulher que sabe que tem direito. E isso precisa ser feito no digital, no presencial, na revista. Não há mais cluster, existem filhas, mães, negras, brancas, heterossexuais, homossexuais. E Claudia não é nicho, Claudia é maioria. Isso, naturalmente, implica vários cuidados.

“O MasterChef é uma experiência que vai além do conteúdo. Isso me ensinou muita coisa”

M&M – O que o MasterChef agregou a sua carreira?
Ana Paula Padrão – O Masterchef é uma experiência que vai além do conteúdo. E isso me ensinou muita coisa do ponto de vista pessoal. Outro aprendizado foi de entender como as plataformas podem trabalhar juntas para que um produto seja bem-sucedido. Já na primeira temporada entendemos que as redes sociais seriam uma alavanca muito importante para o programa. Demos as mãos e desenvolvemos maneiras de conversar com quem estava interessado. Seja a pessoa sentada na frente da TV, quem quisesse assistir no dia seguinte. Quem quisesse acompanhar tuitando. A Band foi feliz e muito rápida ao entender esse papel e sem nenhum tabu. Isso me ensinou muita coisa, hoje eu não consigo assistir ao programa sem estar na rede social. E isso eu trago para minha experiência com Claudia. Aprendi a entender o protagonismo do consumidor de conteúdo seja na TV, na internet, na revista, no digital.

Texto e imagem reproduzidos do site: meioemensagem.com.br