sexta-feira, 10 de maio de 2019

Mino Carta: Sem Gianni, tudo muda para mim


Publicado originalmente no site da revista CARTA CAPITAL, em 9 de maio de 2019  

Mino Carta: Sem Gianni, tudo muda para mim
Por Mino Carta*

Quem diz que o tempo ameniza a dor se engana. Pelo contrário, aprofunda o abismo da perda

A morte de Gianni muda a vida e o mundo, a dor é de pedra. Meu filho era desassombrado, letrado, culto bem mais que o pai. E era também um homem de bem, generoso, de cortesia refinada e sem jactância, com a contribuição de um senso de humor apurado. Sábio inclusive: aos 16 anos, depois de promover rebuliços políticos no Colégio Dante Alighieri, onde cursava o Clássico, saiu do Brasil ao vaticinar: “Isto nunca vai dar certo”. Voltava ao País para visitar a família. Fora leitor de Gilberto Freyre e Raymundo Faoro, de quem foi grande amigo, a despeito da diferença de idade. Gianni é que estava certo.

O passado roda à minha volta como um carrossel. Vejo o meninote de 3 anos que ao crescer pretendia ser “mostorista japonês” e alcanço o enviado especial a guerras, motins, levantes, revoltas, cenários tempestuosos, da Sérvia a Gaza, de Kiev a Trípoli, de La Paz a Bogotá. E o especialista na Rússia pós-URSS, e o entrevistador de personalidades e do anônimo frequentador das calçadas. Repórter completo voltado para a busca obsessiva da verdade factual, insuflada pelo scholar, um alter ego criado pelos estudos que de Los Angeles a Paris foram encerrados com Ph.D. em Ciências Políticas. Quando eu descia a campo à beira de um copo para afirmar que a política não é ciência, e sim, às vezes, excepcionalmente, arte, ele não hesitava em evocar algumas das inúmeras bobagens que pronunciei ao longo da vida. O seu primeiro livro reúne uma série de reportagens introduzidas por um substancioso ensaio sobre o “novo jornalismo” admirado nos Estados Unidos, e obviamente no colonizado Brasil, desde o momento em que Mailer, Capote, Talese, Tom Wolfe deram para tratar de assuntos jornalísticos. Neste prólogo iluminante ele demonstrava que na Europa sempre houve jornalistas habilitados a escrever com qualidade literária, e quanto a prática é estimulante para os leitores.

E de súbito Gianni aparece meninote, enverga quimono de judoca, ou o uniforme escolar a galgar impávido o palco do teatro do colégio para cantar, ele desafinado irremediável. Ou já moço em roupas imaculadas de tenista cercado de alunos adolescentes em um clube de Los Angeles, o futuro scholar a dar aulas ali ou a algum ricaço de Beverly Hills para sustentar os estudos na UCLA. O judoca não esqueceu a técnica dos golpes mais eficazes, o que o levou certa vez a enfrentar em uma briga de bar um valentão de 100 quilos: golpe perfeito, o brutamontes voou para cair sobre o próprio Gianni e quebrar-lhe o joelho esquerdo. Mas ele quebraria também o direito, na quadra.

A respeito de tênis foi seu segundo livro, uma história brasileira do esporte branco escrita em parceria com Roberto Marcher, ex-profissional que formou dupla com Thomas Koch. Assinaria mais três, entre eles um best seller, a biografia de Miguel Reali Jr., amigo querido e companheiro de belas jornadas parisienses. O mais notável, a meu ver, é aquele publicado pela Boitempo, ousado e revelador, descida com tocha e corda à procura da criação do mito garibaldino. Custou-lhe dez anos de pesquisa através do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina e diversos países europeus. Nesta edição Nirlando Beirão relê uma obra profunda e insólita, potente como seu herói. Outro é o protagonista do quinto livro, este sim digno do scholar, retrato minucioso e demolidor de Silvio Berlusconi, volumosa tese de Ph.D.

Casado duas vezes, encontrou em Valérie a outra metade da maçã de Sócrates, e ela se tornou uma filha para mim. Escreve: “Como sobreviver a esta perda? Gianni foi o amor da minha vida, um ser excepcional”. Do primeiro casamento nasceram dois filhos encantadores, Sophia e Nicolas, ambos londrinos educados na França.

Estavam em Paris quando o pai partiu para a sua viagem sem retorno. E agora estou com meu filho à beira do Danúbio. Chegamos a pé da praça central de Praga onde a música de Mozart ecoa para sempre, atravessamos a ponte que leva a Malastrana, o bairro de Franz Kafka, que o ministro da Educação de Bolsonaro confunde com um prato da cozinha árabe, estamos sentados à mesa, comemos um peixe do rio e os copos admitem conter um branco potável. A mesa sempre se ofereceu para os nossos melhores encontros, sobretudo em Roma, sua cidade preferida.

Quem diz que o tempo ameniza a dor se engana. Pelo contrário, aprofunda o abismo da perda.

* Diretor de Redação de CartaCapital

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Mino Carta: De Veja à CartaCapital...

Foto reproduzida do blogdealtaneira.com.br e postada pelo blog Meio Impresso, 
para ilustrar a presente entrevista

Publicado no site Vermelho, em 13/05/2013
  
Mino Carta: De Veja à CartaCapital, um olhar sobre comunicação

Aos 80 anos, o homem que comandou a criação da Veja e hoje dirige a CartaCapital não baixa a guarda. Ataca as novas gerações de jornalistas e diz que a grande mídia perdeu o poder de influenciar a opinião pública nacional. Leia a seguir a íntegra da entrevista do jornalista concedida ao jornal O Povo e publicada nesta segunda-feira (13).

O jornalista Mino Carta esconde, involuntariamente, as oito décadas de vida com um entusiasmo quase juvenil na defesa de suas ideias. O mesmo tom agitado que o move nos ataques ao que considera “imbecilização” brasileira contemporânea acompanha sua análise sobre a desperdiçada vocação natural do País para ser um “paraíso terrestre”. Efeito, avalia, da herança da longa escravidão que até hoje mantém vivo entre nós o clima de Casa Grande e Senzala.

O olhar dele sobre o momento nacional é duro, especialmente quando visto sob a ótica do jornalismo e da política. A justiça vai na mesma linha. A conversa é permeada por termos como “imbecil”, “idiota”, “calhorda” acompanhando suas apreciações sobre personagens, públicos ou de sua convivência pessoal, uma ênfase que muitas vezes parece desnecessária diante de um diálogo que o tempo todo flui sob a artilharia verbal de um genovês que vive no Brasil desde 1946.

Confira os trechos principais da conversa com Mino, que aconteceu na manhã do dia 17 de abril deste ano, quando de sua passagem por Fortaleza para lançar o mais novo livro “O Brasil”.

Depois de tudo que o senhor viveu, das experiências boas e ruins que vivenciou, seria jornalista se lhe fosse dada uma segunda chance?
(risos) Não sei, sinceramente, não sei. Vou lhe dizer, com toda sinceridade, que eu não queria ser jornalista, embora sendo neto e filho de jornalista.

O senhor resistiu inicialmente à ideia, então?
É que não era meu objetivo. Eu teria gostado de ser escritor ou pintor.

O senhor diz que não queria, mas acabou sendo jornalista, com sucesso, inclusive. O exemplo mostra que a profissão prescinde da vocação ou é o contrário?
Não, não prescinde, absolutamente. A vocação é absolutamente necessária e começa pelo fato de você ter de lidar com desembaraço com a escrita. Fazendo referência à minha geração de jornalista, quando tínhamos que ter, independente da formação acadêmica, um ótimo conhecimento da língua e precisávamos ter, portanto, leituras frequentes e profundas, texto impecável. Agora, só para completar aquela ideia inicial, não queria ser jornalista, mas acabei sendo jornalista, acabei até, num primeiro movimento, dirigindo uma revista especializada em carros mesmo sem entender nada de carro...

O senhor não dirige, inclusive...
não, não dirijo. No entanto, acabei comandando a revista e foi um sucesso. Era, então, um jornalista a serviço de uma ideia que não era necessariamente a minha. Quando fui trabalhar no Estadão, e fui muito bem tratado, até pelo fato de o meu pai já ter trabalhado lá e ser uma pessoa muito querida. Ele, que morreu apenas dois meses depois que comecei a trabalhar no jornal, era uma pessoa muito querida e eu terminei herdando um pouco essa condição que havia deixado lá após 17 anos. Bom, fui muito bem tratado e tal, mas, evidentemente, as ideias dos senhores Mesquita não batem com as minhas, algo que não me impedia de ser leal no desempenho da minha função. O que realmente mudou a minha visão do jornalismo foi a ditadura, com a chegada da censura. Isso corresponde à minha ida para a revista Veja, que foi submetida a uma censura feroz. Foi quando me dei conta da importância do jornalismo, me dei conta da serventia dele.

Ainda é?
Sem dúvida, claro. O jornalismo é de uma enorme utilidade, no Brasil, então, nem se fala. No Brasil ainda estão de pé as casas grandes e as senzalas, então, contribuir de alguma forma para a demolição delas, algo que não enxergo como uma coisa próxima, me parece ser uma tarefa brilhante, que a mídia brasileira não cumpre.

O senhor entende, então, que o papel da mídia seria fundamental dentro do contexto. Na sua avaliação, os interesses, a carga opinativa, tudo isso está contaminando o noticiário atualmente?
Ah, sem dúvida. Primeiro, inventa-se. O caso do tomate é um exemplo clássico, já que foi uma invenção, uma coisa sem base alguma. O que é grave, pois o jornalista não tem que inventar. Pior ainda é quando você mente, ou, omite. Olha, eu fundei tudo que de mais importante aconteceu nesse Brasil em termos de imprensa nos últimos 40 anos, escrevo um livro e, em qual país do mundo um livro deste seria ignorado pela mídia? Não existe, só aqui! É o único lugar do mundo onde os jornalistas chamam o patrão de colega. Patrão é patrão, jornalista é jornalista. Quando fui trabalhar na Itália, com meus 22 anos, existia uma lei, que até hoje perdura, pela qual o dono não pode ser diretor de Redação. Diretor de Redação pelo direito divino não existe! Só no Brasil!

O que seria diferente, então, na Carta Capital, onde o senhor é dono e diretor de Redação?
(risos) É que a Carta Capital é uma tentativa literal de sobrevida, de sobrevivência. Digo-lhe mais: não tenho interferência alguma na administração da empresa, nenhuma. Faço o meu trabalho, dirijo a Redação. E, claro, ganho meu salário que, comparado ao dos rapazes que dirigem redações por ai, sequer falo do pessoal das televisões, chega a ser ridículo. Trata-se da única coisa que ganho, dividendos nunca vi.

Voltando à questão do livro que está sendo lançado, o senhor diz que há uma deliberada opção da grande mídia por ignorá-lo.

É a realidade dos fatos. Mesmo assim, o livro já chegou à terceira edição, tiragem de dez mil exemplares, passados apenas 45 dias desde o lançamento em São Paulo.

O público não percebe isso? Qual, na avaliação do senhor, é a percepção das pessoas, dos leitores sobre o papel da mídia hoje?
Quanto à chamada classe média, que não é média coisa nenhuma, claro que há influência sobre ela. Quanto ao povo, não! O povo, apesar de tudo isso (em relação ao governo), se a eleição fosse hoje a Dilma (Rousseff) ganharia. Apesar do tomate, apesar dos juros, apesar de tudo, assim como o Lula ganha, e ganhou. Essa mídia não chega ao povo brasileiro, à senzala. A senzala, eventualmente, vê o Faustão, uma coisa do tipo, mas ao “Jornal Nacional” não. Ela não lê o editorial do Estadão, não lê a revista Veja, diferente da classe A, B, que acredita naquilo, repete as mesmas frases. Além de tudo, a ofensa diária contra a língua portuguesa é inominável, as pessoas não sabem falar, orgulham-se de usar 100 palavras, os próprios jornais. É a regra dentro da Folha de S. Paulo, por exemplo: diga tudo com cem palavras. Esta é a situação!

Parece que no Brasil não há espaço para uma mídia que manifeste de maneira mais clara e aberta suas posições. Até pelo fato de, na prática, inexistir direita e esquerda na própria política...
O problema é exatamente este. Temos uma mídia que funciona de um lado só e que se destina, em última análise, a um público muito restrito. Pensemos na imprensa dos países mais democráticos, onde há jornal de direita, de esquerda, de meia-direita, de meia-esquerda, de todas as tendências possíveis representadas na mídia. Isso cria um debate natural. Aqui é tudo de um lado só. Moro num prédio em que sou olhado como um perigosíssimo subversivo!

Por que não existem órgãos com tais características, com posições claras e definidas. É o mercado publicitário que rejeita? É o leitor?
Se a The Economist escolheu a CartaCapital para ser sua parceira no Brasil, escolheu, não em nome de uma identidade, de uma afinidade ideológica, porque temos posições diferentes. A escolha foi em função da seriedade e da qualidade. Eles acham a imprensa brasileira uma tragédia e têm razão. Eles nos escolheram, mesmo que eu não tenha as mesmas posições da The Economist, nem a CartaCapital tenha essas posições. A Economist, por exemplo, pede a demissão de (Guido) Mantega porque mexe com os interesses deles, de quem cujas causas advoga. Se a The Economist fosse brasileira estaria perdida, coitada, porque na Inglaterra distribui 200 mil exemplares, menos do que distribui no Brasil a revista Isto É. Muito menos do que distribui a Época e infinitamente menos do que a Veja. Os publicitários brasileiros aplicam febrilmente, e safadamente, critérios que chamam de técnicos. Nós temos uma revista que tira 70 mil exemplares por edição e, acho, se conseguirmos aplicar um pouco em autopromoção, poderemos sim multiplicar essa tiragem. Mas, qual é o limite extremo? Dobrar a tiragem? Seria sucesso total porque praticamos um vernáculo decente, porque não é fácil ler a CartaCapital. É uma revista séria, embora às vezes se permita lances de ironia. Razão pela qual será lida sempre por um público reduzido, como na Inglaterra, que é um país onde os índices de leitura são superiores aos nossos e você vê que a The Economist distribui 200 mil exemplares.

O mensalão do PT, para o senhor, está recebendo um tratamento diferenciado, da Justiça e da imprensa?
Sejamos honestos, a Justiça foi pressionada violentamente. Não houve isenção alguma e muitas condenações foram injustas.

Quando o senhor fala que a Justiça agiu pressionada pelo noticiário expõe, de qualquer maneira, uma fragilidade que ela não deveria ter, não é?
Claro. Basta olhar para o ministro Luiz Fux para logo concluir que se trata de um imbecil. Há pessoas que trazem no rosto a consistência moral e intelectual, a mostram de uma maneira desabrida. Pensa no caso (Cesare) Battisti e como se portou esse Supremo Tribunal Federal... Coisa grotesca, mostrando uma ignorância das coisas do mundo total.

Um erro, então, que começou dentro do próprio governo Lula.

Total, começa no Tarso Genro e chega ao Lula, que cometeu um erro gravíssimo. Não tem nada a ver comparar Battisti com aqueles nossos poucos, mas certamente corajosos, guerrilheiros. Battisti queria derrubar um Estado de Direito, enquanto os nossos queriam devolver o Brasil a um Estado de Direito. Exatamente o caminho oposto.

O questionamento, me parece, foi à forma como se deu o julgamento dele na Itália.
Imagine, ele teve os melhores juristas italianos. É que os franceses tiveram um idiota que se chamava François Miterrand, inventor de uma lei pela qual quem fosse terrorista encontraria guarida na França. Uma besteira! Além de tudo, ele, Miterrand, era outro hipócrita, um socialista de fancaria, de mentira.

Voltando à questão de sua trajetória como criador de alguns dos principais veículos impressos do País, um marco, sem dúvida, foi a criação da revista Veja..
Sim, mas a minha Veja...

Hoje, o senhor lê a Veja?
Não. Às vezes me divirto olhando a capa e sempre tem quem me informa sobre um editorial, algo assim.

Mudou, em relação à época do senhor, inclusive quanto ao estilo?
É um delírio, um delírio absoluto. Havia um contrato com os Civita, na minha época, no qual constava que eles definiam o tipo de revista que queriam, mas depois seriam leitores da revista. A discussão seria sempre a posteriori, nunca a priori, ou seja, não poderiam influenciar a pauta e coisa e tal. O Victor Civita cumpriu essa cláusula durante todo o tempo, ele tinha sua falta de escrúpulo, eventualmente, mas, ao mesmo tempo, era um fazedor, era um homem de realizações, um empresário dedicado. Quanto aos filhos, um era bastante claro em relação às suas pretensões, mas não se metia, enquanto o outro, o Roberto, era metidíssimo e calhorda.

Com relação à Isto É, outra revista que o senhor criou, qual o sentimento que há ainda hoje?
A Isto É tenta sobreviver, mas a editora Três está carregada de dívidas, uma coisa monstruosa.

Com efeitos sobre a qualidade editorial?
Sem dúvida, sem dúvida, afeta muito. A Isto É tem uma posição ambígua, digamos, não é o delírio da Veja, não é a mesma coisa. Mais próxima da Veja tem a Época, como postura ideológica.

O senhor avalia que o Brasil vive um processo de imbecilização. No que é que consiste isso e, por outro lado, o fenômeno é nosso, nacional, ou tem âmbito mundial?
É um fenômeno mundial, acho, embora aqui seja mais acentuado porque a senzala continua de pé e os moradores da senzala apresentam uma certa diferença, em termos culturais. Nosso povo é especialmente ignorante. Não existem povos melhores ou piores e, lhe digo mais, a tragédia é que o Brasil poderia ser o paraíso terrestre. Acho, sinceramente, porque não existe no mundo um País tão favorecido pela natureza. A nossa elite é culpada, sim, muito culpada, pelo atraso que começa nesse ponto, exatamente, na permanência da Casa Grande e da Senzala, que é a herança de três séculos e meio de escravidão. Uma herança terrível, visível, tangível, você toca nisso diariamente. É doloroso porque o Brasil poderia ser o paraíso terrestre. As nossas circunstâncias históricas sempre foram ruins por causa de uma elite calhorda, prepotente, feroz, vulgar, ignorante, primária. É isso.

Produção literária

"O que realmente mudou minha visão do jornalismo foi a ditadura, com a censura"

No total, já são cinco livros de autoria do escritor Mino Carta. O primeiro deles, “Histórias da Mooca, Com as Bênçãos de San Gennaro”, é de 1982. Depois, na sequência, vieram “O Restaurante Fasano e a Cozinha de Luciano Boseggia”, de 1996,”O Castelo de Âmbar”, de 2000, “A Sombra do Silêncio “, de 2003, e, agora em 2013, “O Brasil”. Como estilo, nos romances, mistura ficção e realidade sem grande esforço para esconder a possível inspiração de muitos dos seus personagens.

Perfil

Demetrio Giuliano Gianni Carta nasceu na cidade italiana de Gênova, em 6 de setembro de 1933, filho de Gianino Carta, jornalista e professor de História da Arte, e de Clara Carta, escritora. Vestia calças curtas quando, em 1946, chegou a São Paulo com os pais. Chegou a cursar Direito da Universidade de São Paulo (USP), mas não concluiu o curso. Dirigiu as equipes de criação da Quatro Rodas (1960), Jornal da Tarde (1966), Veja (1968) e CartaCapital (1994). Foi, ainda, diretor de redação das revistas Senhor (1982), IstoÉ/Senhor (1988) e IstoÉ (1989). O único jornal que ajudou a fundar e não prosperou foi o Jornal da República (1979). É autor dos livros “O Castelo de Âmbar” (2000), “A Sombra do Silêncio” (2003), “Histórias da Mooca, Com as Bênçãos de San Gennaro” (1982), “O Restaurante Fasano e a Cozinha de Luciano Boseggia”, em parceria com Rogério Fasano (1996) e “O Brasil” (2013). Ganhou dois Prêmios Esso de Jornalismo, em 1964 e 1968. Dedica-se também à pintura, desde 1954.

Cerca de 150 pessoas foram ao lançamento do novo livro de Mino Carta em Fortaleza, em abril, no auditório do Centro Cultural Dragão do Mar.

Uma demonstração, para ele, de que o boicote da grande mídia à obra não tem sido suficiente para evitar seu sucesso. A apresentação de “O Brasil” foi feita pelo ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes.

O livro “O Brasil” é definido como uma autoficção (mistura de autobiografia com ficção). Nele, o personagem Abukir, alterego de Mino, repassa três décadas da história nacional, da morte de Getúlio Vargas ao fim da ditadura militar. Faz-se uma crítica ao País e ao jornalismo brasileiro, especialmente a partir de sua relação com o poder político.

História de um rompimento

A editora Abril tinha contraído dívidas no exterior e queria consolidá-las no Brasil através de um empréstimo de 50 milhões de dólares (junto à Caixa Econômica Federal). Eu estava muito por dentro da situação porque não somente era diretor de Redação da revista Veja, mas, também, integrava o Conselho Diretor da editora, composto pelo presidente, Victor Civita, pelos dois filhos dele, pelo sócio-minoritário, que se chamava Gordiano Rossi, e pelo genro deste, que funcionava como editor-responsável da editora. O Carlos Rischbieter (presidente da CEF na época) aprovou o pedido, mesmo porque a Abril oferecia garantias que ele considerava tecnicamente perfeitas.

O negócio marchou por várias mesas até chegar à do Armando Falcão, então ministro da Justiça. O partisse desta crise se deu em julho de 1975, quando o Falcão comunicou que o empréstimo não sairia porque a editora Abril produzia uma revista que era inimiga do regime. Tudo isso era discutido abertamente no Conselho e eu fiz a seguinte proposta: seu Victor, eu saio da direção da revista, fico nos bastidores por uns três meses para garantir uma transferência interna de poderes e, por exemplo, a editora me nomeia diretor das sucursais europeias e vou morar em Roma, que tal? Ele, ficou de pensar, conversar com os filhos etc e, uma semana depois, disse que ‘não’. Disse que tudo bem, mas enquanto estivesse lá faria a coisa funcionar da mesma maneira.

Depois, veio o imbecil do filho dele, uma das mais refinadas bestas que conheci na minha vida, o Roberto Civita, e perguntou: ‘por que você não tira férias?’ Ele sugeriu meio ano, mas recusei, lembrando que tinha férias vencidas, três meses etc e tal. Mas, perguntei: saio três meses e vocês vão fazer o quê enquanto eu estiver fora? Vão se esbaldar em porcarias? ‘Não’, disseram eles, ‘vamos assinar um procolo’. O tal protocolo estabelecia, basicamente, que os redatores-chefes, que eram dois, me substituiriam em gênero, número e grau. Outro ponto do protocolo, previa que ninguém seria demitido por razões políticas. Ninguém, nem colaboradores, nem, claro, funcionários. Muito bem, sai no dia 27 de dezembro para um período de três meses de férias, o protocolo foi assinado com validade até 1º de abril. Fui à Europa e, de volta no finzinho de janeiro, o Victor Civita me acha e pede que vá visitá-lo. Fui e ele me disse que o Roberto tinha estado no dia anterior com o Falcão e eu tinha que mandar embora o Plínio Marcos. Disse que não iria mandar embora ninguém, porque existia o protocolo. Ele disse que até o Tratado de Versailles tinha sido jogado no lixo e tal. Respondi que da minha parte não rasgaria nem o Tratado de Versailles e nem o protocolo. Ele insistiu mais e eu peguei um cinzeiro e atirei no peito dele. E fui embora.

Houve antes um encontro com o Roberto Civita que me disse que o Falcão havia pedido minha cabeça. Eu disse: pois é, eu sei, mas, e daí? O que é que você diz? Ele disse ‘não sei, o que é que eu posso dizer?’ Falei, então, estávamos conversando na minha casa, que iria contar até três e se você estiver ainda diante de mim te quebro os dentes. Ele levantou e saiu correndo para dentro do elevador.

Fui ao Falcão, que me disse: ‘Mino, você está nervoso, o que é isso? Tenho uma fazenda em Quixeramobim, com redes entre as árvores frondosas, bate uma brisa ótima, água de coco, vai lá!’ Fiquei até de ir em outra oportunidade, mas perguntei como é que tinha sido a história da Veja. Ele falou que era muito simples: Vem aqui o Roberto Civita, o Victor Civita, o diretor responsável, um tal de Edgar, e dizem que você é o culpado. O próprio diretor da Redação em Brasília, o Pompeu de Souza, diz que você é o culpado, então, o que é que me cabe fazer? Pedir sua cabeça, não é não? Então, disse que tinha entendido tudo, passar bem, maravilha, até logo... Sai dali e pedi aos redatores-chefes que entregassem minha carta de demissão.

Fonte: O Povo

Texto reproduzido do site: vermelho.org.br

Memória: meus dias privilegiados ao lado de Gianni Carta

Gianni Carta (Foto Divulgação) 

Publicado originalmente no site da revista CartaCapital, em 5 de maio de 2019

Memória: meus dias privilegiados ao lado de Gianni Carta

Por Matheus Pichonelli  

Ele se tornou, para todos os que trabalharam com ele, uma referência, um amigo

Eu queria saber me despedir dos meus amigos sem precisar falar de mim e de tudo o que aprendi com eles, mas no caso do Gianni, que morreu neste domingo, por volta das 7h, em Paris, em decorrência de complicações de um câncer nas vias biliares, isso é quase impossível.

Em 2011, eu trabalhava como editor interino do site de CartaCapital enquanto esperava a chegada do novo chefe, que em breve assumiria o posto. O chefe seria o Gianni Carta, de quem até então só conhecia como leitor.

Os momentos que antecediam sua chegada ao Brasil, vindo da Europa, tinham a marca daquela tensão das novidades: o novo chefe, afinal, traria na bagagem uma larga experiência como correspondente, livros publicados, dezenas de entrevistas com figuras históricas. Como me comportar sem que parecesse, perto dele, um foca, como chamamos os jornalistas em começo de carreira?

“Fica tranquilo, ele é gente finíssima”, diziam todos os que o conheciam. Todos mesmo.

Mal sabia que estava prestes a ganhar muito mais do que um chefe – e não só porque se tratava de um chefe que delegava e perguntava nossa opinião antes de tomar qualquer decisão, coisa rara em qualquer profissão.

Durante meses sentamos um de frente para o outro e pude atualizar o conceito de privilégio. De onde estava, ficava admirado com a facilidade com que ele falava com meio mundo por telefone (em francês, inglês, italiano, espanhol; só dependia de quem estava do outro lado da linha).
Não tinha dia que ele não chegava com o jornal rabiscado, mostrando empolgado os assuntos do dia, mostrando qual tema poderíamos abraçar e contar do nosso jeito – no caso, nós, os “meninos do site”, um grupo que, como todos naquele início dos anos 2010, ainda não sabia exatamente para onde nos levava a tal da internet.

Um dia, vendo minha decepção ao ler os comentários de leitores a referendar as ideias (já então em voga) obscurantistas de um vereador que queria instituir em São Paulo um certo “Dia do Orgulho Hétero”, ele me perguntou: “por que você não escreve uma pensata sobre isso?”
Era uma sugestão pouco comum para quem, caxias como eu era, ainda andava abraçado aos manuais da impessoalidade jornalística debaixo do braço.

“Como assim pensata, Gianni? Não posso dar minha opinião. Isso me compromete”.

Foi então que ele me ensinou que o problema não era ter opinião sobre fatos, mas como as opiniões interferem nos fatos. Que podemos ser justos e honestos com o leitor quando expomos nossas convicções e deixamos claro o que pensamos e o quanto estamos abertos a novas ideias – inclusive para mudar de opinião.

Se não fosse essa conversa eu jamais teria feito qualquer texto opinativo no meio do noticiário – e é o que tenho feito, desde então, há mais de oito anos.

No breve período em que ele ficou no comando do site, fiz amigos para a vida inteira, muitos apresentados por ele. Tão Gomes Pinto, Edgard Catoira, José Antonio Lima, Fernando Vives, Maria Clara Parada, Clara Roman, Lino Bocchini, Gabriel Bonis e tantos outros que fizeram daquele site um espaço de debate dos mais aguerridos.

Tudo isso só aconteceu porque tínhamos o apoio, as orientações, a confiança do Gianni. Não é pouco.

Em pouco tempo, ele se tornou, para todos os que trabalharam com ele, uma referência, um amigo e um parceiro de viagens, como a que fizemos até Valinhos, onde fomos recepcionados como reis em um churrasco oferecido pelo Dó, velho amigo da família.

Quando ele decidiu voltar a Paris, fizemos uma grande despedida no bar onde rabiscávamos nossas ideias.


Foi a última reunião daquela turma que ele ajudou a formar. Mal sabia que, naquela noite, nos despedíamos também de uma época – uma época em que ainda era possível pensar em um país mais generoso, mais humano, mais elegante – como ele era.

De longe, seguíamos em contato. Foi do Gianni, de Paris, um dos primeiros telefonemas que recebi quando meu filho nasceu, prematuro, precisando de forças e bons pensamentos.

No breve telefonema, deu tempo de lembra-lo de uma antiga promessa: a de que ele faria o prefácio do meu livro quando finalmente reunisse todas crônicas (“pensatas”, como ele gostava de dizer) da nossa época para publicação em papel.

Pudera: ele foi peça fundamental para que elas surgissem. E vai seguir assim para sempre, guardado nas melhores lembranças. Junto com a saudade e a gratidão.

Texto e imagens reproduzidos do site: cartacapital.com.br

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Sindijor lamenta morte do jornalista Fernando Fontes

O jornalista Fernando Fontes era assessor de comunicação da Deso (Foto: Sindijor)

Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 15 de abril de 2019 

Sindijor lamenta morte do jornalista Fernando Fontes

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Sergipe (Sindijor -SE), entidade de classe que representa os jornalistas e o jornalismo em Sergipe, lamenta o falecimento do jornalista Fernando Fontes de Azevedo, aos 69 anos, assessor de comunicação da Deso.

Fernando Fontes havia se afastado da coordenação de comunicação social da Deso por problemas de saúde. Ele estava em Fortaleza, no Ceará, há quatro meses, onde havia passado por um transplante de fígado, mas morreu em decorrência de problemas pulmonares. Ele estava na UTI, mas não resistiu as complicações e faleceu na sexta-feira. O corpo chegou no último sábado, 13, a Aracaju e foi sepultado neste domingo, 14, no Cemitério Colina da Saudade.

Profissional atencioso e bastante dedicado ao jornalismo, Fernando Fontes era querido por todos, desde seus colegas de profissão na Deso – Adel Ribeiro, Flávio Vieira e Wendel Barbosa, que assumiu a função que era ocupada por ele – até colegas da imprensa a quem Fernando atendia sempre com muito carinho e respeito. Ele era filiado ao Sindijor e em todas as eleições da entidade jornalística, fazia questão de mobilizar a categoria e participar das eleições.

O Sindijor lamenta a morte do querido jornalista e se solidariza com a família deste grande profissional da imprensa sergipana. A Diretoria do Sindijor deseja à família de Fernando Fontes muita força para superar este momento de profunda dor, em especial, a esposa dele, Dona Meire, seus seis filhos e netos.

Com informações do Sindijor

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br

domingo, 7 de abril de 2019

7 de abril - Dia do Jornalista: desafios da profissão

A jornalista Débora Matos, atua há 15 anos na profissão (Foto: Arquivo pessoal)

Publicado originalmente no site do Portal INFONET, em 7 de abril de 2019

Dia do Jornalista: desafios da profissão

Dia 07 de abril é comemorado o dia do jornalista, data que homenageia os profissionais da mídia, responsáveis por apurar os fatos e levar informações a sociedade, de forma imparcial e ética. Atualmente, com o advento das redes sociais e o fim da exigência do diploma de curso superior para exercer a profissão, os profissionais da área enfrentam muitos desafios, um deles, é a concorrência dos ‘jornalistas’ de grupos de aplicativos.

A tecnologia é uma ferramenta importante para o jornalismo, mas para a jornalista Débora Matos, que atua há 15 anos na profissão, é preciso ter muito cuidado com o que circula na internet, principalmente nas redes socais. “Hoje a informação chega muito rápido, podemos fazer pesquisas na internet, acessar várias fontes, escrever uma matéria diretamente no telefone, mas, em contrapartida, há uma disseminação muito grande de sites e portais não confiáveis. As redes sociais, por exemplo, trazem muita coisa falsa porque as pessoas não têm compromisso com o que escrevem e compartilham, então acredito que com as redes sociais a informação perdeu a qualidade”, explica.

Eron Ribeiro diz que é preocupante a proliferação de sites de notícias
Foto: Portal Infonet

O jornalista e radialista, Eron Ribeiro, aponta outra situação preocupante para o jornalismo com o advento na tecnologia: A proliferação dos sites de notícias. “Hoje qualquer um pode ter um site de notícias, basta ter alguém com DRT para “responder” pelo site e pronto. E o que é publicado? O trabalho de profissionais sérios que atuam em outros veículos e que não recebem nada por isso? Além do site não contratar jornalistas, utiliza as matérias de terceiros sem a menor cerimônia”, aponta.

Abraão Crispim reclama da desvalorização da profissão (Foto: Portal Infonet)

A desvalorização da profissão e a baixa remuneração são outros pontos negativos apontados pelos jornalistas sergipanos. “Temos o menor piso salarial do país. Em Alagoas, nosso vizinho, o piso é o dobro do que se paga em Sergipe. Além de ganhar pouco, ainda temos a concorrência desleal de ter inúmeras pessoas que acham que são jornalistas, já que hoje não se exige mais diploma para exercer a profissão. Infelizmente é uma profissão desvalorizada”, afirma o jornalista Abraão Crispim.

Para Cássia, foi através do jornalismo que ela teve a oportunidade 
de se descobrir cidadã (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Cássia Santana, jornalista há mais de 30 anos, apesar da desvalorização, o jornalismo é essencial para a democracia. “Nós tivemos muitos momentos áureos, muitas conquistas, mas infelizmente o jornalismo hoje é desvalorizado e agredido em sua essência, mas foi através dessa profissão que tive a oportunidade de me descobrir cidadã como porta-voz de uma sociedade que necessita ser ouvida”, finaliza.

Por Karla Pinheiro

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

sábado, 16 de março de 2019

Jornal do Brasil deixa de circular mais uma vez

Primeira edição do JB por Catito Peres

Jornal do Brasil deixa de circular mais uma vez

Por Marcio Ehrlich   

Depois de pouco mais de um ano de circulação, o Jornal do Brasil está deixando as bancas novamente.

A publicação havia sido relançada por Omar “Catito” Peres, em 25 de fevereiro de 2018. E o mesmo Catito fez a comunicação esta quarta-feira, 13/03, aos funcionários reunidos na sede do jornal.

Uma das possibilidades aventadas por Catito para a equipe é que o jornal fique apenas no digital durante a semana e saia uma edição semanal aos domingos.

Não é de hoje que o JB passa por dificuldades. Nos últimos três meses os salários estavam atrasados e, recentemente, a equipe chegou a fazer uma paralisação como protesto.

As expectativas sobre o JB chegaram a ser tamanhas no mercado carioca que no último Prêmio Colunistas os jurados chegaram a dar um Destaque do Ano ao empresário Omar Peres.

Omar "Catito" Peres recebe seu diploma de Destaque do Ano das mãos da jornalista Renata Suter.

Na redação, a despeito da tristeza pela notícia, a equipe chegou a editar esta imagem abaixo, não apenas bem-humorada como demonstrando esperança de que o jornal ainda volte ao Rio de Janeiro.



Colaborou Renata Suter

Texto e imagens reproduzidos do site: janela.com.br

REGISTRO - Livro resgata a memória da imprensa escrita...


Publicado originalmente no site da revista Imprensa, em 11/03/2019 

Livro resgata a memória da imprensa escrita no país

Por Marta Teixeira 

Ao longo de quase 50 anos como jornalista, Aziz Ahmed conviveu com muita gente que ajudou a construir a imprensa brasileira. Nos bate-papos com amigos soube de histórias que nunca chegaram às páginas dos jornais e quase ninguém tem conhecimento, ou melhor, não tinha.
Crédito:Reprodução

Nesta segunda-feira (11), Ahmed lança, no Rio de Janeiro, o livro "Memórias da Imprensa Escrita", com relatos saborosos de uma das épocas mais românticas do jornalismo. O livro, que também está disponibilizado na versão e-book, tem ainda um recurso interessante e útil. Cada capítulo possui um QR code que permite ao leitor acessar o vídeo com o depoimento do entrevistado.

Entre os depoimentos está a última longa entrevista concedida por Ricardo Boechat antes de sua morte, no dia 11 de fevereiro, em acidente de helicóptero. Ele e Aziz conversaram durante mais de três horas, resultando em um relato que ocupa cerca de 30 das 316 páginas do livro.

Em meio a suas recordações, Boechat falou sobre a vida difícil da família nos tempos da ditadura. Para ajudar na renda, a mãe, dona Mercedes, vendia enciclopédia e foi considerada provável contato do grupo Tupamaros, que combatia a ditadura no Uruguai, com terroristas brasileiro apenas por viajar com frequência a Montevidéu, onde tinha uma filha com doença terminal.

"Ele fala que a casa deles era um verdadeiro drive thru da repressão no início dos  70. Foram várias batidas de agentes do Exército", relata Ahmed ao Portal IMPRENSA. "Décadas depois, Boechat leu um relatório da inteligência interna que apresentava a casa dele como esconderijo de armas e sua mãe como provável contato entre o grupo Tupamaros e terroristas brasileiros." 

O próprio Boechat foi vendedor de livros e chegou a fazer teste para vender sepulturas, diz Ahmed. A mudança de vida começou quando tentou fazer uma venda para um diretor do jornal Diário de Notícias. O executivo acabou lhe dando uma indicação. "Ele foi trabalhar na coluna de Ibrahim Sued, ficou 12 anos, saiu e fez a carreira que todos conhecemos."

Histórias não faltam para cativar o leitor. No total, 26 renomados jornalistas compartilham suas narrativas nas páginas do livro. Algumas delas poderiam ter mudado o rumo da história do Brasil. Luiz Edgar de Andrade, por exemplo, revela que antes de ser político e encantado com o sucesso da radionovela O Direito de Nascer, o então jornalista Carlos Lacerda queria ser autor de novela. "Como ele diz, se Lacerda tivesse sido o Agnaldo Silva da época, Getúlio (Vargas) não teria se suicidado, Jânio (Quadros) não teria renunciado, João Goulart não teria sido cassado e não teria havido a ditadura porque Lacerda foi o grande mentor civil, o grande articulador, de todos esses personagens", brinca o autor.

Ahmed compara seu livro como um colunão de jornal reunindo muita informação, curiosidades e revelações. "Esse livro pega dos anos 50 até o início do século e fala muito da transformação que o jornalismo teve daquele período romântico até hoje. É uma aula de jornalismo para quem quiser conhecer os jargões e os sufocos que a gente passa. Não acho que falte literatura sobre jornalismo. A proposta desse livro é contar o lado pitoresco dos bastidores desse período", explica.

Os entrevistados são: Aluizio Maranhão, Anna Ramalho, Aristóteles Drummond, Arnaldo Niskier, Bruno Thys, Cícero Sandroni, Fernando Carlos de Andrade, Fuad Atala, Gilson Campos, Henrique Caban, Jarbas Domingos, J.B. Serra e Gurgel, Jomar Pereira da Silva, José Silveira, Luiz Edgar de Andrade, Milton Coelho da Graça, Miranda Jordão, Nelson Lemos, Nilo Dante, Nilson Lage, Paulo Jerônimo, Pery Cotta, Pinheiro Junior, Ricardo Boechat, Telmo Wamber e Walter Fontoura. "O mérito do livro, eu divido com eles, eu só ouvi suas histórias", diz Ahmed modestamente.

Apesar de ter escrito o livro em aproximadamente seis meses, o projeto todo demorou cerca de dois anos para ser concluído. Um motivo foi a parte burocrática, a publicação do Ateliê de Cultura tem patrocínio da Delphos e da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, via Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei do ISS). Outra razão foi o minucioso trabalho de checagem do autor.

A carreira jornalística de Ahmed começou em 1961, no Correio da Manhã. Ex-chefe de reportagem dos jornais O Globo e Última hora e com passagens em outras grandes redações, o ex-professor universitário do curso de jornalismo fala com propriedade das transformações do setor nos últimos anos. "O jornalismo hoje está completamente diferente do que era antes. Não sou especialista nisso, mas acho que falta uma visão estratégica para ver como os jornais devem ser produzidos em função das redes sociais. O que me atrai é a leitura de profissionais que têm certa bagagem. A primeira coisa para a juventude que chega à redação precisa é saber que ele está ali para informar. Deixe o leitor chegar às conclusões dele."
  
Para os cursos de jornalismo o lançamento também vem acompanhado de uma boa notícia. Ahmed planeja fazer palestras pelo país, levando seus amigos para compartilharem essas e muitas outras histórias com as futuras gerações de comunicadores brasileiros. Segundo ele, muitas instituições já demonstraram interesse pelo projeto.

Serviço
O que: lançamento do livro "Memórias da Imprensa Escrita", de Aziz Ahmed
Quando: 11/3, a partir das 17h
Onde: Auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Texto e imagem reproduzidos do site: portalimprensa.com.br

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Ricardo Boechat, jornalista, morre aos 66 anos...

Ricardo Boechat, em foto de março de 2006 
 Foto: José Patrício/Estadão Conteúdo/Arquivo

Publicado originalmente no site G1 SP, em 11/02/2019

Ricardo Boechat, jornalista, morre aos 66 anos em queda de helicóptero em SP

Jornalista era apresentador do Jornal da Band e da rádio BandNews FM. Aeronave bateu na parte dianteira de um caminhão que transitava pela Rodovia Anhanguera.

Por G1 SP

O jornalista, apresentador e radialista Ricardo Eugênio Boechat morreu no início da tarde desta segunda-feira (11), aos 66 anos, em São Paulo.

O jornalista estava em um helicóptero que caiu na Rodovia Anhanguera, em São Paulo, e bateu na parte dianteira de um caminhão que transitava pela via. O piloto Ronaldo Quattrucci também morreu no acidente.

Boechat era apresentador do Jornal da Band e da rádio BandNews FM e colunista da revista "IstoÉ". Ele trabalhou nos jornais “O Globo”, “O Dia”, “O Estado de S. Paulo” e “Jornal do Brasil”.

Na década de 1990, teve uma coluna diária no "Bom Dia Brasil", na TV Globo, e trabalhou no "Jornal da Globo". Foi ainda diretor de jornalismo da Band e teve passagem pelo SBT.

Ele ganhou três vezes o Prêmio Esso, um dos principais do jornalismo brasileiro.

A morte do jornalista causou comoção entre políticos, personalidades e jornalistas.

Perfil

Filho de diplomata, Ricardo Eugênio Boechat nasceu em 13 de julho de 1952, em Buenos Aires. O pai estava a serviço do Ministério das Relações Exteriores na Argentina.

Boechat era recordista de vitórias no Prêmio Comunique-se – e o único a ganhar em três categorias diferentes (Âncora de Rádio, Colunista de Notícia e Âncora de TV).

Em pesquisa do site Jornalistas & Cia em 2014, que listou cem profissionais do setor, Boechat foi eleito o jornalista mais admirado. Ele lançou em 1998 o livro “Copacabana Palace – Um hotel e sua história” (DBA).

O jornalista deixa a mulher, Veruska, e seis filhos.

Conheça a trajetória profissional do jornalista Ricardo Boechat

Começo da carreira

Boechat começou a trabalhar assim que deixou a escola, na virada de 1969 para 1970, após um período de militância em que fez parte do quadro de base do Partido Comunista em Niterói (RJ).

O pai de uma amiga, diretor comercial do "Diário de Notícias", foi quem o convidou.

"Note que eu mal batia à máquina, não tinha noção de rigorosamente nada. Tinha morado a vida inteira em Niterói. O Rio de Janeiro para mim era o exterior", comentou ao site Memória Globo (leia o depoimento completo).

Um de seus primeiros textos foi uma nota exclusiva sobre Pelé, que lhe garantiu mais espaço no jornal.

Depois, Boechat passou a escrever na coluna de Ibrahim Sued (1924-1995), no mesmo "Diário de Notícias". Ele considerava o período de 14 anos em que trabalhou com Sued como decisivo para sua "formação como repórter".

"Eu pude ter uma escola na qual a doutrina era procurar informações, e por trás de mim o primeiro e maior dos pitbulls que eu já conheci, que era ele, rosnando no meu ouvido 24 horas por dia."

Boechat saiu em 1983, quando a coluna já era publicada em "O Globo", após uma briga com o titular. Mudou-se, então, para o "Jornal do Brasil", a convite do concorrente Zózimo Barroso do Amaral, tendo retornado a "O Globo" pouco depois, na coluna "Swann".

Em uma segunda passagem pelo jornal, que durou até 2001, foi titular de uma coluna que levava o seu nome.

Boechat deu uma palestra a representantes da indústria farmacêutica em Campinas, no interior do estado, na manhã desta segunda e retornava a São Paulo por volta das 12h. Ele deveria pousar no heliponto da Band, no Morumbi, Zona Sul da capital paulista.

Anúncio na Band

José Luiz Datena, apresentador da TV Band, anunciou a morte do colega às 13h51 durante programação da emissora.

"Com profundo pesar, desses quase 50 anos de jornalismo, cabe a mim informar a vocês que o jornalista, amigo, pai de família, companheiro, que na última quarta, que eu vim aqui apresentar o jornal, me deu um beijo no rosto, fingido que ia cochichar alguma coisa, e, no fim, brincalhão como ele era, falou: 'É, bocão, eu só queria te dar um beijo'. Queria informar aos senhores que o maior âncora da televisão brasileira, o Ricardo Boechat, morreu hoje num acidente de helicóptero, no Rodoanel, aqui em São Paulo".

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/sp

Luiz Eduardo foi ali e não volta mais, por Ivan Valença


Publicado originalmente no site ALÔ NEWS, em 11/02/2019

Luiz Eduardo foi ali e não volta mais
Por Ivan Valença (da coluna Ponto de Vista/Alô News)

Você que é leitor do “Jornal do Dia”, principalmente as edições de domingo, e estava acostumado a acompanhar os escritos do jornalista Luiz Eduardo Costa, deve estar, sem dúvida, sentindo falta da sua colaboração de duas páginas, sempre rica em informações e um texto corretíssimo, o melhor da Imprensa de Sergipe. Ele nem sequer se despediu dos leitores, mas, há exatamente quatro semanas ele suspendeu sua participação no “Jornal do Dia” e, agora, dedica-se exclusivamente ao seu blog, “luizeduardocosta.com.br”, assim mesmo tudo junto. O blog é atualizado diariamente, o que quer dizer que todos os dias sempre há um novo comentário do jornalista a respeito dos mais variados assuntos, tanto da política local, como da política nacional e, as vezes, também internacional.

Filho do jornalista e promotor público Paulo Costa, Luiz Eduardo começou a rabiscar colunas no jornal do seu pai, o “Sergipe Jornal”, cujas oficinas – eram apenas uma impressora e uma linotipo – ficavam na rua Florentino Menezes, nas proximidades do mercado de Aracaju. Era uma equipe de apenas três ou quatro pessoas, das quais faziam parte os jornalistas Benvindo Sales de Campos Neto e Simões Filho, mas este deixou de escrever quando foi nomeado para o Banco do Brasil, em Itabaiana, já que passara em concurso daquele estabelecimento. Também marcava presença nas páginas do “Sergipe Jornal” outra pena de ouro, o irremediável Clarêncio Fontes que era um leitor voraz de jornais do Sul do País.

Luiz Eduardo Costa aparecia pouco na redação do “Sergipe Jornal” mas o pai soube incutar-lhe nas veias o gosto pelo jornalismo. Tanto assim é que, nos anos 60, já vamos encontrá-lo  na equipe do “Diário de Aracaju”, o órgão dos Diários Associados – a cadeia de jornais de Assis Chateaubriand – na posição de Editor Chefe. Luiz Eduardo Costa passou por vários outros veículos, exercendo sempre papel de destaque nas redações de todos esses veículos. Depois de escrever para o “Jornal da Cidade”, Luiz Eduardo mudou-se de armas e bagagens para o “Jornal do Dia”, tão logo este foi inaugurado há doze anos atrás. Agora o próprio Luiz Eduardo confessa que cansou-se de “escrever tanto sem ganhar um centavo”. Eram duas páginas aos domingos cujos textos tinham que ser entregues sempre às quintas-feiras para que pudessem ser editadas para a edição dominical do jornal.

Quem quiser acompanhar os textos de Luiz Eduardo Costa agora só através do seu blog, que é atualizado diariamente.

Texto e imagem reproduzidos do site: alonews.com.br

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Projeto digitalizará 100 anos de história do Diário Oficial

Coordenador técnico da hemeroteca da Segrase Wallace Douglas (crachá)
 entre alunos participantes do projeto (Foto: Unit)

Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 7 de fevereiro de 2019  

Projeto digitalizará 100 anos de história mantida pelo Diário Oficial

Graças à parceria firmada entre a Universidade Tiradentes (Unit) e a Empresa de Serviços Gráficos de Sergipe (Segrase), Estado será o primeiro no país a possuir todo seu acervo digitalizado: 100 anos de edições do Diário Oficial de Sergipe.

Trata-se do Projeto Hemeroteca, desenvolvido por alunos e professores do curso de Ciências da Computação da Unit e equipe técnica da Segrase. Iniciada em ordem inversa (dos dias atuais para os anos anteriores), a iniciativa consiste na digitalização de todo o acervo impresso produzido pelo Diário Oficial nos últimos 100 anos.

Em um ano e quatro meses de trabalho, dez anos de edições já foram digitalizadas. De acordo com o coordenador do grupo de pesquisa, professor Fábio Gomes, a estimativa é que o projeto dure três anos. “Firmamos a parceria em agosto de 2017, mas pelo volume documental, teremos de ter mais algum tempo. Nossa previsão é completar tudo em no máximo oito anos”, explica professor Fábio Gomes.

Por meio deste projeto, os alunos têm podido aliar a teoria do que aprendem em sala de aula na universidade, com a prática e vivência em uma instituição tão relevante para a história e cultura de Sergipe. “O projeto é relevante não apenas pelo fato do aprendizado técnico em si, mas pela oportunidade de contribuir com a preservação da memória. Afinal, vivemos a fase de transição do papel para o digital”, avalia o concludente em Ciências da Computação, Efraim Santana Leite Filho.

O coordenador técnico da hemeroteca da Segrase, Wallace Douglas acredita que será facilitado o acesso do público às informações disponibilizadas no Diário Oficial. “A maioria do público que busca o documento são acadêmicos ou servidores públicos. A digitalização possibilitará que as informações também cheguem até algumas pessoas que antes não tinham este acesso”, finaliza.

Projeto Hemeroteca

O projeto serve de referência para os demais órgãos públicos. “Além da digitalização, desenvolveremos o portal que o acervo será disponibilizado para acesso público e promoveremos melhoria em ferramentas”, explica professor Fábio Gomes.

A Segrase oferece três bolsas para alunos que devem ser dos cursos de Computação da Unit, possuir conhecimentos básicos e participar das pesquisas do grupo. Este ano, dois alunos se formarão e serão abertas duas novas vagas.

Atualmente, o Diário Oficial pode ser acessado pelo site da Segrase em formato PDF, mas somente as publicações a partir do ano de 2012 estão disponíveis. A expectativa é que com esta parceria, todas as edições sejam disponibilizadas à população.

Fonte: UNIT

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br

Diário Oficial está sendo digitalizado






Publicado originalmente no site SEGRASE, em 07/01/2019

Diário Oficial está sendo digitalizado

Desde iniciado o projeto, já foram digitalizados mais de 10 anos de jornais.

O processo de digitalização do Diário Oficial de Sergipe teve início em agosto de 2017. A ação propiciará para a sociedade a possibilidade de conhecer e acompanhar, por meio do mundo virtual, a história e as ações do Governo do Estado.

Os mais de cem anos de edições do Diário Oficial de Sergipe, que foi lançado em 1º de setembro de 1895, estão sendo digitalizados com o objetivo de guardar as informações para que se preserve por meio digital a memória dos atos do Governo do Estado, já que todas as ações estão nas páginas do Diário. Outro ponto a ser observado com a digitalização é a facilidade de pesquisa que terão os servidores públicos, acadêmicos, historiadores, pesquisadores e sociedade em geral.

Para o presidente da Empresa de Serviços Gráficos de Sergipe - Segrase, Ricardo Roriz, o processo cresce de forma significativa e gratificante. “O desempenho da nossa equipe de digitalização dos Diários Oficiais é muito enriquecedora. Todo o manuseio e preparo que tiveram faz com que nós consigamos, em breve, prover todo o material online para a população, facilitando assim o acesso a esses documentos.”

Com mais de um ano de projeto, a digitalização obteve avanços significativos para a conservação histórico-informativa do Estado de Sergipe. Utilizando uma scanner portátil de mão, os responsáveis pelo serviço digitalizam por dia cerca de 10 a 20 jornais, o que totaliza até dois meses de diário oficial, a depender do tamanho. São escaneadas 150 páginas diariamente, o que gera até 1800 por mês.

Desde iniciado o projeto já foram digitalizados mais de 10 anos de Diário Oficial, que conta com a colaboração de três estagiários no avanço significativamente desse trabalho. O trabalho acontece graças a uma parceria da Segrase e a Universidade Tiradentes - Unit.

O coordenador técnico da Hemeroteca, Wallace Douglas, cita a importância desse processo e as suas causas. “Além de facilitar a pesquisa e a leitura dos jornais, a digitalização acelera procedimentos que antes seriam necessários um tempo maior para serem resolvidos. Além disso, o Diário oferta não só a possibilidade de pesquisas na visibilidade e transparência do Governo, como também fonte pesquisas acadêmicas, busca de resultados em concursos públicos e para os servidores que estão solicitando a sua aposentadoria e necessitam de portarias, de atos publicados nas edições.” E destacou “todo o material estará disponível em um só lugar”.

Texto e imagens reproduzidos do site: segrase.se.gov.br

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Brasileiro quer leiloar Playboys raras e conhecer criador...

Colecionador da Playboy brasileira diz que quer leiloar as revistas mais 
raras para viajar aos EUA e conhecer o criador da publicação 
Foto: Kleber Tomaz/G1

Publicado originalmente no site do G1, em 06/07/2011

Brasileiro quer leiloar Playboys raras e conhecer criador da revista nos EUA

Cearense de 50 anos quer vender revistas antigas para visitar Hugh Hefner.

Colecionador mora em SP e diz ter todos os números das edições nacionais.

Kleber Tomaz (Do G1 SP)

 Um brasileiro de meio século que há 35 anos compra revistas masculinas quer leiloar as ‘joias raras’ de toda a sua coleção de Playboys para conseguir viajar aos Estados Unidos e assim tentar conhecer o fundador da publicação erótica mais famosa do mundo.

Estenio Guerra, o Guerrinha, afirma possuir todos os números da Playboy nacional desde agosto de 1975, quando a revista foi lançada por aqui, até a última edição, de julho. Ele se intitula o maior colecionador da marca no mundo. Ao todo são 7 mil exemplares, muitos deles, é claro, são repetidos e ficam expostos na sua banca personalizada, no Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Veja parte da coleção e quanto está avaliada cada edição atualmente na galeria de fotos ao lado.

 Ele vive da venda de ‘revista de mulher pelada’ há mais de 20 anos. Para que o estoque não encalhe ou fique empoeirado, Guerrinha sempre arranja uma maneira de comercializar o produto. Chega até mesmo a alugar as edições mais cobiçadas da Playboy, todas em perfeito estado de conservação _plastificadas por ele mesmo.

Memória

No seu primeiro número no Brasil, a revista ainda não se chamava ‘Playboy’. Havia sido batizada de ‘Com o melhor de Playboy – A Revista do Homem’ e trazia a brasileira Livia Mund na capa.

 A mudança no logotipo para ‘Playboy’ ocorreu três anos depois, em julho de 1978, quando a norte americana Debra Jo Fondren estampou a edição nacional escondendo o corpo nu com longos cabelos loiros. Até agora, essa foi a revista mais cara que Guerrinha vendeu. “Um colecionador pagou R$ 12 mil por ela”, diz.

 Ele investe pesado no marketing pessoal, tanto que já escreveu os seus slogans na banca: “Guerrinha – colecionador e vendedor de Playboy” aparece na fachada e “Guerrinha da Play boy – www.Reidaplayboy.com – o maior colecionador de revista Playboy do mundo c/ mais de 6000 exemplares” está na portinhola.

 “Ei, não! A placa tá errada. São mil exemplares a mais agora, escreva aí, por favor”, corrige Guerrinha, que diz ter sido vítima de assalto por causa de suas revistas raras. “Uma vez roubaram um carro todo customizado e adesivado com capas da revista e a minha marca: ‘o rei da Playboy’. Nele havia várias revistas.”

 Menos escandaloso, o veículo de agora é todo branco. A banca também é protegida por câmeras de monitoramento de vigilância.

Quando chegou ao Brasil em 1975, revista se 
 chamava 'Homem' (Foto: Reprodução)

Sonho

Mesmo discreto, com exceção feita ao cabelo pintado de loiro, Guerrinha quer negociar agora a venda das disputadíssimas capas brasileiras da Playboy para ir à mansão onde mora Hugh Hefner, de 85 anos. O criador da revista lançou a primeira edição na América em dezembro de 1953, com o calendário fotográfico de Marilyn Monroe.

 Mas quem estiver interessado em adquirir raridades, como as Playboys da então modelo Xuxa (1982), e das atrizes Betty Faria (1978), Lucélia Santos (1980), Vera Fisher (1982), Cláudia Raia (1984), Claudia Ohana (1985), Sônia Braga (1984 e 1986) e Terezinha Sodré (1986) terá de desembolsar muito dinheiro.

 “Essas são, sem dúvida alguma, as mais caras em qualquer mercado de revistas masculinas. São as mais procuradas. Vendidas a preço de ouro”, diz Guerrinha.

 Na da Xuxa, por exemplo, ele quer chegar a ganhar quase que inacreditáveis R$ 60 mil com o leilão. Não é exagero? “Quanto mais anos passarem, mas ela vai valer”, justifica Guerrinha. Apesar disso, a mesma revista está sendo vendida por até R$ 1 mil em sites da internet. “Com certeza a minha está mais novinha, mas aceito negociar. Quem mais chegar perto do valor que pedi, leva.”

 A da Claudia Ohana, por exemplo, custa R$ 2.500, e a de Terezinha Sodré, R$ 1.900. “Elas valem isso mesmo. A Claudia Ohana desperta a curiosidade dos homens que não gostam de mulheres muito depiladas. A Terezinha Sodré foi mulher do capitão da seleção do tricampeonato mundial de futebol”, brinca o colecionador.

 Mas a preferida mesmo de Guerrinha é uma de abril de 1983, com a atriz Sílvia Bandeira (quando ainda não assinava Sylvia). Essa não sai por menos de R$ 1.200. “Ah, essa mulher me deixa louco. É linda. A mulher perfeita. Hoje, infelizmente, é difícil encontrar uma mulher que tenha posado como ela, com tudo natural, sem silicone.”

 Em outros casos, algumas revistas, como a da ex-jogadora Hortência, são mais baratas, mas mesmo assim são consideradas raridades. "Vale R$ 120, mas é difícil achá-la em sebos."

Em 1978, logotipo mais famoso foi para o topo da
 revista no Brasil (Foto: Reprodução)

Leilão

E como funcionará o leilão? “Vou colocar na internet. Lá na minha página pessoal tem o meu telefone também. É só me procurarem. Outra possibilidade é aparecerem com as propostas aqui na banca”, sugere Guerrinha.

 Pelo visto, os fãs da revista vão precisar pechinchar muito se quiserem um desconto. Este cearense de Quixadá afirma que descobriu que também poderia locar as Playboys.

 “Isso é o meu sustento. Não é hobby não. Conquistei muita coisa por causa dessa mulherada das revistas. As mais raras eu alugo por R$ 200 cada uma durante uma semana. As demais, por R$ 150, R$ 100. Mas só entrego para quem conheço. No começo, inventei de alugar para um pessoal que devolvia com as páginas todas grudadas umas nas outras, sem qualquer cuidado.”

 “Ei, moço? Tem jornal?”, pergunta um homem, interrompendo a entrevista. “Não, não tenho, só tenho Playboys e outras revistas masculinas em menor escala”, responde Guerrinha.

 “As pessoas que vão ler essa matéria precisam entender que cada revista desta faz parte da história sexual e cultural do brasileiro. Além de colocar em evidência mulheres famosas e lançar outras ao estrelato, há entrevistas históricas, como a que Ayrton Senna deu, por exemplo, em 1990. O meu público é de colecionadores sérios”, explana Guerrinha.

Mulher ciumenta

Mas o próprio colecionador se entrega ao afirmar que o principal motivo que leva alguém a comprar uma revista dessas são as mulheres que aparecem dentro delas. “Eu mesmo já fui vítima dessa história mal inventada de dizer que comprava a revista para ler as entrevistas”, lembra Guerrinha, que quase viu seu casamento ruir por conta da coleção de Playboys.

Guerrinha já chegou a trocar a mulher pela coleção  de revistas 
Foto: Kleber Tomaz/G1

 “Quando me casei, minha mulher ficou sete anos sem saber que eu guardava as revistas. Um dia ela viu uma caixa, abriu e ops! Não teve jeito. Ela me pôs na parede e determinou: ‘Ou eu ou as revistas’. Fiquei com as revistas, mas depois de alguns meses fui atrás da minha mineirinha para voltarmos. Ela aceitou voltar e aceitou também que eu mantivesse a coleção”, diz Guerrinha, que tem três filhas. “Para você ver, de consumidor virei fornecedor.”

 Apesar de investir na publicidade da sua banca, a coleção completa da Playboy de Guerrinha ainda não tem o reconhecimento da própria revista. Nem sequer o recorde foi registrado por algum órgão especializado.

Playboy

Procurada para comentar o assunto, a redação da Playboy brasileira não havia respondido os questionamentos do G1 feitos à sua assessoria de imprensa até a publicação desta matéria. Uma das perguntas é se havia dados de outros colecionadores.

 A respeito de recordes, a edição com a personagem Feiticeira, de dezembro de 1999, foi a que mais vendeu no Brasil, segundo a Playboy. Foram 1,247 milhão de exemplares (entre assinaturas e avulsas) comercializados; em segundo lugar, aparece a revista de março de 1999, com a também personagem Tiazinha (1,2 milhão). A apresentadora Adriane Galisteu, que namorou o piloto Ayrton Senna, saiu em agosto de 1995, e teve 962 mil unidades vendidas.

 “Eu adoro a Adriane Galisteu. Merecidamente ela vai ser a capa agora da edição de aniversário de agosto deste ano da Playboy”, diz Guerrinha, exibindo uma foto que tirou com a apresentadora de TV.

Colecionador mostra em primeiro plano foto com  apresentadora 
Adriane Galisteu, capa da Playboy  que ele segura ao fundo
Foto: Kleber Tomaz/G1

RankBrasil

O site RankBrasil, que costuma homologar recordes nacionais, também informa que não sabia da coleção de Guerrinha, mas tinha interesse em catalogar e registrar suas revistas.

 “Eu quero entrar para o Guiness [World Records]. Duvido que alguém no mundo tenha mais revistas do que eu. Sou o maior colecionador de Playboys que já apareceu”, diz Guerrinha, que começou a colecionar a revista com 15 anos. “Comprava escondido dos meus pais, que são evangélicos e se decepcionaram muito quando descobriram. Mas, por favor, escreva aí que eu não vendo a revista para menores de idade aqui”. A venda só é permitida para maiores de 18 anos.

 Para finalizar a entrevista, o G1 pergunta a Guerrinha se ele tem uma foto da mulher dele ou das filhas para mostrar - como as 3x4 que as pessoas costumam guardar na carteira. O colecionador fica desconfiado e como quem quer esconder o ‘ouro’, demonstra que seu ciúme não é somente com as revistas.

 “Meu amigo, as únicas fotos de mulheres que tenho aqui são fotos de mulheres peladas que estão na banca. Não tenho fotos da minha família aqui nem vestida e nem despida”, diz Guerrinha, que apesar de admitir que não é nenhum modelo masculino de beleza, se considera vaidoso e fala que a esposa e filhas são lindas. “Você precisava vê-las, mas não vai vê-las não.”

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com