quinta-feira, 24 de maio de 2018

Alberto Dines - Maestro das redações


HOMENAGEM A ALBERTO DINES > A CONSCIÊNCIA DA FUNÇÃO DO JORNALISMO

Maestro das redações

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 23/05/2018 na edição 988

Não haveria Observatório da Imprensa se não fosse Alberto Dines. O reconhecimento desse fato é uma unanimidade entre os colaboradores desta edição especial em homenagem ao grande mestre do jornalismo brasileiro, que nos deixou no último dia 22 de maio. Pessoas que tiveram o privilégio de desfrutar de sua convivência e amizade e testemunham sua dedicação à criação de um projeto pioneiro de crítica de mídia no Brasil. “O Observatório da Imprensa tem uma alma e essa alma tem um nome: Alberto Dines”, escreve Caio Túlio Costa no texto “Entre o cosmo sangrento e a alma pura”, republicado nesta edição.

O Observatório da Imprensa é, assim, caso único de um espaço de reflexão que, embora tenha nascido numa universidade, não é acadêmico. O então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, lembra em seu artigo “Ao Dines, com Carinho” as circunstâncias que deram origem ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Observatório da Imprensa durante um encontro entre ele, Dines e Norma Couri em Portugal, no início dos anos 1990.

O jornalista e professor Carlos Eduardo Lins da Silva discute em seu texto “Cadernos de Jornalismo e Comunicação do Jornal do Brasil” a carência de espaços para pensar o fazer jornalístico fora da academia e a importância de Alberto Dines como propulsor da crítica de mídia no país desde os anos 1960, quando trabalhava no Jornal do Brasil. “O que Alberto Dines fez durante boa parte de seus 60 anos nesta profissão foi criar, só ele e Deus sabem a que custo, condições e oportunidades para se fazer jornalismo com método e para se refletir o jornalismo com método”, uma tentativa de ‘somar experiências com reflexão resistindo à tentação de fazer ciência’.”

A experiência impactou a academia, como lembra o professor da Universidade Federal de Santa Catarina Rogério Chistofolletti, no seu “Tributo a Alberto Dines.” “Os maiores projetos acadêmicos que me dediquei nas últimas duas décadas têm claras inspirações no trabalho de Alberto Dines.”

O projeto de criação do Observatório da Imprensa foi sendo construído durante a trajetória de Alberto Dines como jornalista nos principais veículos brasileiros. Eugênio Bucci, no artigo “Aos 80 anos de um mestre”, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 2012, enaltece o trabalho incessante do jornalista. “Dines é a prova de que a experiência não concorre necessariamente para diluir os princípios e de que o caráter não esmorece. No caso do jornalista, o caráter alimenta-se da independência intelectual e material, assim como se alicerça no cultivo da liberdade e do espírito crítico – portanto, ganha vigor com o passar do tempo”.

A constituição de uma voz social única de crítica de mídia no Brasil, a partir de Alberto Dines, pode ser observada na seleção de trechos de sua autoria que fazem parte do ebook “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de mídia no Brasil de 1996 à 2018”. Pode-se ver ali o exercício da parresía, o dizer verdadeiro na tradição do pensamento grego, tão raro diante dos interesses em jogo em torno do jornalismo.

Este é um dos principais legados de Dines: conseguir sustentar um projeto autônomo para se contrapor à tradição de uma mídia que não se critica. “As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público”, anotou o mestre no início deste século.

Alberto Dines no programa Observatório da Imprensa em dezembro de 2012. (Foto: Ana Paula Oliveira Migliari/TV Brasil/EBC)

Dines sempre fez de sua experiência um espaço de resistência a todo tipo de censura. Luiz Eypto, editor do Observatório da Imprensa entre 1998 e 2015, reconstitui, no texto “A inspiração e a alma”, um conhecido episódio envolvendo o jornalista nos anos 1970. A censura brasileira queria impedir a publicação de notícias com fotografias e manchetes sobre o golpe militar chileno que depôs Salvador Allende. “Dines perpetrou, no sufoco, uma histórica capa sem foto e sem manchete, em quatro colunas de texto puro, de um impacto inolvidável para quem teve a ventura de ver o JB exposto numa banca de jornal naquela manhã distante. A edição virou item de colecionador.”

Um homem à frente do tempo que intuiu, como observa Carlos Castilho, no texto “Um visionário por convicção e necessidade”, que “a observação crítica da imprensa viria a se transformar numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news”.

A jornalista Norma Couri, no artigo “Ai, que terra boa pra se farrear”, observa a relevância de um espaço como o portal do Observatório da Imprensa no contexto do excesso de informação da sociedade contemporânea. “O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar na mídia”.

Num depoimento recente a Norma Couri, também publicado nesta edição, Dines explica que a escolha do nome do Observatório da Imprensa teve como inspiração o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), criador da mecânica quântica. “Ele dizia que, ao observar um fenômeno, você interfere no fenômeno. Ao observar a imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar”. E completa: “Preocupa perceber que a crítica da mídia desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico.”

Como disse Luiz Egypto, entre os semeadores e os coveiros, Dines alista-se no primeiro grupo. Foi um maestro das redações que nos ensinou a fugir dos saberes estabilizados e da auto-complacência. Por essas e outras, Dines é uma voz que fará muita falta ao jornalismo e à sociedade brasileira. E sua trajetória é um convite a prosseguirmos

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Um visionário por convicção e necessidade

Por Carlos Castilho em 23/05/2018 na edição 988


“Volta ao trabalho e não esquenta a cabeça”. Foi com esta ordem que Alberto Dines, em agosto de 1970, me recebeu na sua sala de editor-chefe do Jornal do Brasil, depois que passei quase três meses desaparecido dentro de uma cela do DOI-CODI, no quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro.

Foi meu primeiro contato direto com um profissional que mais tarde veio a se transformar num conselheiro e referência pessoal no jornalismo, mesmo tendo ele me demitido do JB, onde eu era, até 1972, o responsável pelo noticiário latino-americano na editoria internacional.

Dines tolerou o fato de eu ter sumido sem dar notícias e sem que os militares explicassem o meu desaparecimento, mas foi inflexível ao não admitir minha rebeldia contra um plantão de feriado, dois dias depois de ter regressado do Chile, onde a crise no governo Allende me forçou a trabalhar sete meses sem folga, como correspondente do JB.

Tolerância nas relações humanas e rigidez absoluta nas relações profissionais. Foram estas as características que me levaram a transformá-lo num ícone na profissão que escolhemos. Foram estas mesmas virtudes de Dines que nos aproximaram anos depois, em 1997, quando, voltando de um longo período no exterior, me ofereci para colaborar com o Observatório da Imprensa e fui aceito carinhosamente por ele.

Nossa convivência no Observatório foi difícil, mas ao mesmo tempo prazerosa. Difícil porque coincidiu com o início da era digital e nem sempre concordamos sobre como a internet influiria no exercício do jornalismo. Dura porque a sobrevivência do projeto dependia de financiadores e patrocinadores, cujo relacionamento com o OI variava conforme os humores da política nacional ou de estratégias internacionais.

Dines teve a intuição genial de publicar o OI na web em 1996, quase três anos antes dos grandes jornais entenderem que a internet era muito mais do que um novo sistema de comunicação. A digitalização baixou os custos, viabilizou a manutenção do site e permitiu que o projeto se transformasse num ponto de encontro de jornalistas de diferentes idades, experiências e posições ideológicas. Alguns desiludidos com a profissão, calejados por sucessivas frustrações, e outros entrando no jornalismo, cheios de gás, expectativas e ilusões.

Era uma tribo, meio anárquica e muito diferenciada, mas que reverenciava unanimemente o seu cacique, cuja liderança levou o público do Observatório a transferir a confiança e o respeito à pessoa de Alberto Dines para a proposta de jornalismo crítico indispensável ao equilíbrio informativo na era digital.

O empenho em promover a crítica da mídia foi, paradoxalmente, tanto um fator determinante no crescimento da audiência do OI, como o responsável pelo agravamento da crise de sustentabilidade do projeto. Os jornalões do Rio e São Paulo, bem como a Rede Globo e o sistema estatal de comunicação pública sempre mantiveram uma relação de amor e desconfiança em relação ao Observatório.

As aflições pelo aumento das dívidas, cortes de pessoal e pela incerteza sobre o futuro financeiro do projeto foram minando aos poucos a inesgotável resistência física de Dines, mas ele continuava inspirando uma confiança total em seus parceiros e subordinados. Sabíamos que divergências, às vezes duras, nunca seriam motivo para represálias, porque ele seguia um código de ética onde o profissionalismo sempre falou mais alto.

Fui um dos que o contrariou, algumas vezes, ao defender um aprofundamento da opção digital, não apenas na produção, edição e publicação de textos, mas também na adoção de novos paradigmas de relacionamento com os leitores do Observatório, e no desenvolvimento de um novo modelo de sustentabilidade do projeto, baseado na diversificação das receitas.

Dines deixa um legado único na história do jornalismo brasileiro. Além de ser um profissional e intelectual ao mesmo tempo inovador e conservador, teve a rara perspicácia de perceber que a observação crítica da imprensa viria a se transformar numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news.

Carlos Castilho é jornalista.

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Observatório da Imprensa: Sempre vai valer a pena

Por Alberto Dines em 22/05/2018 na edição 988

  
Texto publicado originalmente no ebook “Observatório da Imprensa: uma antologia da crítica de mídia no Brasil” de 1996 a 2018”, publicado em abril de 2018.

Por Alberto Dines, em depoimento a Norma Couri

Quando me preparava para começar a escrever minha coluna “Jornal dos Jornais” na Folha de S.Paulo, que estreou em 6 de julho de 1975, o velho Octavio Frias de Oliveira pôs a mão no meu ombro e disse: “Você vai arranjar muitos inimigos”. Dito e feito: eu os arranjei, e dentro da própria Folha. A coluna foi a matriz do ombudsman, tanto que, mais adiante, quando a Folha foi obrigada pelos militares a dar um recuo em sua ousadia editorial, em 1977, a minha coluna desapareceu. Por quê? Ela dava estímulo a certa rebeldia dentro do jornal.

Mais tarde, a Folha criou a coluna do ombudsman e o fez na mesma página 6 da minha coluna, aos domingos. E todos os ombudsmen tiveram boa relação comigo, muitos viraram amigos; mas eles hoje têm uma proteção que eu não tinha.

O jornalista brasileiro não está preparado para ser criticado. Nos Anos de Chumbo, a Veja não publicou a notícia da morte da Zuzu Angel e as ameaças ao Vladimir Herzog; os dois estavam sendo ameaçados e recorreram a mim. Antecipei na minha coluna as ameaças. Muitos jornalistas se chatearam comigo e uma colega me disse: “Você critica a censura, mas está sendo um censor também”. Eu respondi: “Não, estou sendo um sensor”. Não há censura; ao criticar você não está censurando ninguém.

Uma das razões por termos escolhido o termo Observatório da Imprensa foi a inspiração do pensamento de um importante físico alemão, Werner Heisenberg (1901-1976), o criador da mecânica quântica. Ele dizia que, ao observar um fenômeno, você interfere no fenômeno. Ao observar a imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar.

Preocupa perceber que a crítica da mídia desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico. A nossa crítica no Observatório é não ideológica. É a crítica do comportamento da imprensa do ponto de vista puramente técnico-ético. Os colaboradores assumem o que escrevem. O grande perigo da observação da mídia hoje é confundir o viés.

O Observatório tem grande preocupação com a concentração da mídia; tínhamos uma pobreza enorme de mídia regional, de mídia comunitária — a concentração em cima empurrando a concentração para baixo. E a imprensa comunitária morrendo aos poucos, principalmente quando a TV Globo entrava e ninguém podia competir com ela. Nossa briga ganhou pontos, deu frutos. Ainda há muito campo para brigar.

O Observatório da Imprensa nasceu na internet, mas não nos ajoelhamos diante dela. Subordinamos a tecnologia ao texto, e não o contrário. É ferramenta, não deusa. O jornalismo existe há tanto tempo, desde a criação da imprensa por Gutenberg, em mil e quatrocentos e lá vai pedrada, porque ele é periódico, tem seu ritmo. Depois que acabou uma edição, começa outra. A internet não conseguiu até hoje se periodizar, com algumas exceções. Enquanto isso, nasceram experiências jornalísticas discretas e de alto nível, como a piauí e a Serrote. As empresas jornalísticas poderiam estar produzindo muita coisa desse nível. Há espaço para esse tipo de publicação.

No Observatório decidimos publicar tudo o que achamos importante sobre mídia, pode ser da Folha, do Estado, do Globo, de onde for, e se estiver em língua estrangeira, traduzimos. Já ouvi de muito leitor que nunca mais leu jornal do mesmo jeito. Discutir a mídia é uma coisa que uma pessoa simples pode fazer, para o bem e para o mal. O que nós criamos aqui foi uma agenda de debates. Na América, pelo menos, fomos os mais avançados de todos.

Há um caminho que é o de oferecer alternativas de pensamento e marcar presença, fazer história. Pensar grande. Ou fazer pensar. Se conseguimos isso até aqui, nessas duas décadas de Observatório, valeu a pena. Sempre vai valer a pena.

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Um tributo a Alberto Dines

Por Rogério Christofoletti em 23/05/2018 na edição 988

Texto publicado originalmente pelo objETHOS.

Existem muitas razões para homenagear o jornalista Alberto Dines, que morreu na manhã desta terça, 22. Ele ajudou a modernizar o jornalismo brasileiro no século 20, insistiu em rigorosos padrões de qualidade para as redações e foi, sem dúvida, o pai da crítica de mídia por aqui. Esses três predicados já o colocariam em qualquer panteão dos maiores jornalistas do nosso tempo, mas Dines não se orientava por esse tipo de vaidade e nunca parava de trabalhar. O resultado foi uma vida plena, intensa e uma obra respeitável, materializada em livros, ações e iniciativas para aperfeiçoar o jornalismo.

Antes mesmo de ser o homem à frente do Observatório da Imprensa, que criou em meados da década de 1990, Dines já era uma lenda viva, tendo passado por algumas das principais redações do país e participado da modernização de outras. Poderia ter se acomodado na condição de honorável profissional e evitado um conjunto enorme de brigas e dissabores com colegas e com a indústria, mas Dines era um inquieto. Quando voltou de uma temporada em Portugal, trouxe na mente e na bagagem o projeto que se converteria no mais duradouro empreendimento de crítica de mídia da América Latina. O Observatório da Imprensa não se desdobrou apenas em site, uma curta experiência de fascículos impressos, e programas de rádio e televisão: tornou-se ao mesmo tempo uma arena de debates sobre a mídia e a sociedade, e uma bússola para gerações de repórteres, editores, pesquisadores e interessados no assunto.

Os maiores projetos acadêmicos a que me dediquei nas últimas duas décadas têm claras inspirações no trabalho de Alberto Dines. Em 2001, engatinhando na docência, criei o Monitor de Mídia na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), um observatório regional que não escondia as suas raízes: lançava um olhar crítico sobre o jornalismo local intencionando colaborar com seu desenvolvimento. Dines e seu melhor editor, Luiz Egypto, abriram generosos espaços no site do OI para que aquela modesta iniciativa fora do eixo pudesse prosperar. Oito anos depois, junto com outro mestre, Francisco José Castilhos Karam, criamos na Universidade Federal de Santa Catarina o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), espaço semelhante e que ainda se orienta por uma ideia martelada por Dines: é preciso exercer a crítica para que o jornalismo melhore.

Devo, portanto, muito à coragem, à inteligência, à honestidade e ao rigor de Alberto Dines. Sua presença e ação foram determinantes em outros momentos para a recente crítica de mídia no Brasil. Em 2004, a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) surgiu a partir de um chamado do professor Victor Gentilli no site do OI, e Dines foi um dos primeiros encorajadores da união de laboratórios e projetos universitários que aliassem ensino de jornalismo e crítica de mídia. Em 2006, o OI reuniu observatórios de imprensa da América Latina para um evento em São Paulo, permitindo troca de experiências e fortalecimento das iniciativas. O seminário Redações de Vidro foi organizado por Carlos Castilho e sinalizou como era possível tratar de qualidade e ética nas raquíticas indústrias jornalísticas do continente. A própria insistência de Dines na manutenção do OI como um ambiente democrático e importante para a evolução do jornalismo foi um gesto de desprendimento pessoal e intenso comprometimento com a profissão que escolheu. Nos últimos tempos, a saúde já não era mais a mesma, mas Dines mantinha uma rotina de trabalho incomum para um octagenário.

O jornalismo brasileiro é resultado dos atos e das vontades de muita gente, e Alberto Dines ocupa um espaço de honra nele. A crítica de mídia – que ele praticou desde a década de 1970 – cresceu e se impôs como uma possibilidade verdadeira de contribuição para o aperfeiçoamento técnico e ético, e como enaltecedora da importância do jornalismo no plano da democracia.

Perdemos as pessoas, não as referências. Dines se foi, mas Dines fica. Hoje, o farol se apagou, mas seu facho de luz apontou os caminhos a seguir.

Rogério Christofoletti é professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

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Ai, que terra boa pra se farrear

Por Norma Couri em 22/05/2018 na edição 988

Texto publicado originalmente no ebook “Observatório da Imprensa: uma antologia da crítica de mídia no Brasil” de 1996 a 2018”, publicado em abril de 2018.

Da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, João de Barro e Alberto Ribeiro fizeram uma paródia que a pândega Carmen Miranda cantou numa marchinha de Carnaval, em 1937:

Minha terra tem lourinhas, moreninhas ‘chocolat’
Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá
Oh, que terra boa pra se farrear!

É isso o que veio à cabeça de muito jornalista quando a internet virou terra de ninguém, onde as fake news imperavam, os dados não batiam e as matérias entravavam no campo da dúvida do leitor. “Não sei se é verdade… não sei se o autor é esse mesmo… mas aí vai” — seguiam seu caminho no Facebook, no Twitter, nos e-mails e pelo WhatsApp. Se era ou não era, já tinha ido, e assim nos afogamos/vivemos num mar de incertezas. Foi o que fez o jornalista Farhad Manjoo, do New York Times, passar dois meses se informando exclusivamente por jornais e revistas de papel, com alertas de notícias desativados no celular e sem acesso a redes sociais. Para concluir que a abstinência digital lhe deu mais tempo livre para questionar seu papel de consumidor de conteúdo on-line.

O que é o Observatório da Imprensa? O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar na mídia. Um site com credibilidade. Esta era a preocupação de Alberto Dines desde o momento em que foi convocado para trabalhar no Jornal do Brasil, no início dos anos 1960, quando decidiu montar um Departamento de Pesquisa com redatores como Fernando Gabeira e Murilo Felisberto — este, que depois foi fazer o Jornal da Tarde. Era uma escola de elite, com a função de abastecer o repórter e produzir matérias de análise. Com esse recurso, o JB foi capaz de enfrentar a TV Globo, fazendo pensar.

Dines sempre usou essa ferramenta na sua fértil profissão de 65 anos ininterruptos — e sempre pagou por isso. Desde os tempos do Diário da Noite, quando, em janeiro de 1961, um grupo de anarquistas portugueses e espanhóis sequestrou o transatlântico Santa Maria para chamar a atenção do mundo para a ditadura salazarista que então persistia. Salazar a Franco eram sobras do fascismo. Os sequestradores não eram da esquerda tradicional. Eram anarquistas. Sequestraram o navio perto da costa brasileira, a cerca de 200 km do Recife. E veio a ordem do Assis Chateaubriand para não dar uma linha nos Diários Associados. “Nunca tinha recebido uma ordem assim”, Dines comentou. “Não poder dar o fato, brigar com a notícia. Fiquei chocado.” Durante dois dias, Dines decidiu dar o assunto na capa, na página central e na última página, abrindo bem as fotos. “Demos um show, mas Chateaubriand tinha o mesmo esquema de Salazar.” No terceiro dia, foi demitido. Mas o alarde do fascismo estava dado.

Aconteceu a mesma coisa quando a censura decretou que ninguém poderia dar manchete sobre a morte de Salvador Allende, no Chile, em 1973. Dines, editor-chefe do Jornal do Brasil, não teve dúvidas e publicou uma página que fez história: uma capa de jornal sem manchete, mas com texto em corpo grande, contando a história toda do “suicídio” de Allende. Três meses depois, foi demitido. Foi este jornalista que ousou fazer no JB um “Diário das ordens da censura”, rebelde, provocador, e que nos anos 1990 decidiu retornar de Portugal, onde havia lançado meia dúzia de revistas da Editora Abril e ocupava o lugar de consultor do prestigiado jornal Expresso.

Voltou ao Brasil para fazer alguma coisa pela imprensa do país dele, onde não seria imigrante, e faria pensar. Num computador simples, numa casinha alugada na Vila Madalena, em São Paulo, que se tornou sede da empresa Jornalistas Associados, criou, em 1996, o Observatório da Imprensa on-line, a exemplo de outro Observatório que já havia criado para os portugueses. Contou com uma equipe de primeira linha, o ex-reitor da Unicamp Carlos Vogt, os jornalistas Mauro Malin e José Carlos Marão, aos quais se juntaram Luiz Egypto e, depois, a assessoria administrativa de Maria Luiza Werle. O projeto deu tão certo que, dois anos depois, Dines estava na televisão, ao vivo, como âncora de um programa semanal de boa audiência nas escolas de Jornalismo e entre o público mais qualificado. O Observatório na TV só foi retirado do ar à sua revelia, dezesseis anos depois.

O Observatório está aí, duas décadas depois. Não pode morrer.

Norma Couri é jornalista.

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O pensamento de Alberto Dines

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 22/05/2018 na edição 988

 As frases abaixo foram retiradas de alguns dos artigos escritos por Alberto Dines nos 22 anos do Observatório da Imprensa. Os textos integram o ebook “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018”, organizado pelos jornalistas Pedro Varoni e Lucy Oliveira e lançado em abril, durante evento comemorativo no Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (Labjor) na Unicamp, em Campinas. As reflexões de Dines soam atuais, principalmente porque alguns problemas crônicos do jornalismo brasileiro não só permanecem como se agravaram.

1. A supremacia do marketing hoje imperante na mídia constitui uma das grandes ameaças à própria lisura com que é praticado o jornalismo. O sensacionalismo exacerbado é uma destas ameaças, oriunda do empenho em vender mais exemplares sem atentar para a qualidade e o compromisso com a veracidade da informação. (20/12/1996)

2. Estamos assistindo a um processo de degradação jornalística sem paralelo em nossa história. Com a cumplicidade dos jornalistas-executivos, aqueles que nos seminários idolatram os leitores mas, no dia-a-dia, massacram suas necessidades informativas e culturais mais elementares. Pensam que estão apenas enterrando uma fase na vida da nossa imprensa. Estão enterrando a própria noção de imprensa quando imaginam que se pode fazer jornalismo sem jornalistas. (01/04/1996)

3. O presidente da República na comemoração dos 50 anos de publicação de “Geografia da Fome”, de Josué de Castro. Versão da Folha de S.Paulo: “Presidente diz que Estado não foi feito para atender aos pobres.” Versão do Estadão: “Presidente diz que Estado só atende aos ricos.” No primeiro caso está contida uma advertência aos pobres – o Estado não é para eles. No segundo, uma crítica aos ricos – apossaram-se do Estado. O que é que o presidente da República efetivamente disse? (20/10/1996)

4. O jornalismo pátrio hoje é basicamente reativo. Da política à cultura, passando pela economia. E o recurso mais efetivo faz-se fora do jornalismo – com pesquisas apressadas, metodologicamente levianas, concebidas e realizadas por profissionais que obedecem a uma ética diametralmente oposta à dos jornalistas. (20/11/1997)

5. A cobertura da morte do cantor country Leandro evidencia e confirma uma realidade: nossa imprensa tornou-se irremediavelmente monotemática e monocórdia. A combinação da notícia-espetáculo com a cobertura saturada e intensiva desenvolvidas num ambiente onde impera o mimetismo e se abomina a diversificação está criando uma das mais gritantes distorções do nosso processo informativo. (05/07/1998)

6. O que existe, sim, em nossa mídia, é uma confraria às avessas, processo inconsciente de imantação para ocultar as falhas, deficiências e vícios de um sistema que já foi incomparavelmente melhor e hoje está perigosamente comprometido. (05/02/1998)

7. Essa verdadeira iconofilia começou com a idéia simplória e estúpida de que uma ilustração vale mil palavras. Repetida ad nauseam pelos que não sabem escrever ou têm medo das palavras. Evidencia-se o contrário: uma palavra, desde que adequada, desmoraliza qualquer imagem manipulada. (20/01/1999)

8. As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público. As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu formidável poder de indução seja sequer argüido. As grandes empresas de mídia brasileiras estão na contramão do processo democrático baseado na equação poder-e-contrapoder. (20/09/2000)

9. Os 100 líderes comunitários das favelas cariocas assassinados nos últimos anos mereciam reportagens menos burocráticas do que as publicadas na última semana. Os favelados onde atuavam os conheciam. Mas o resto da sociedade precisa conhecer esses 100 caídos: gente simples, incapaz de teorizar, disposta a melhorar o mundo com o seu exemplo. (26/06/2002)

10. O jornalismo fiteiro consiste na transcrição pura e simples de grampos (legais ou ilegais), fitas (em áudio ou vídeo) e dossiês, entregues por ‘fontes secretas’ a um jornalista (ou intermediário) desde que haja o compromisso da imediata divulgação sem recorrer a qualquer suporte investigativo. (13/05/2008)

11. Agora é preciso convocar homens de imprensa capazes de pensar empresarialmente – já que os homens de empresa dificilmente conseguem converter-se em jornalistas. É preciso não perder de vista a história: todas as empresas jornalísticas foram criadas, operadas e ampliadas por jornalistas. Com raríssimas exceções. Está na hora de chamá-los de volta. Esta é a oportunidade criada pela crise (17/06/2003)

12. Na Alemanha, 1933, quando os nazistas tiraram os disfarces e começaram a escalada de terror, os poupados diziam “não é comigo, é com os outros”. Esta resignação e esta incapacidade de enxergar as grandes ameaças fazem parte de um fenômeno chamado “não-me-importismo”. Enquanto não são vítimas todos seguem suas vidas. Depois é tarde demais. (12/02/2003)

13. Passou o tempo do jornalismo generalista. A cobertura do Judiciário deve ser tão especializada e autônoma quanto a cobertura econômica ou internacional. Jornais responsáveis não podem contentar-se com os releases fornecidos pelas assessorias de imprensa dos diferentes tribunais. Sem o charme da cobertura política, neste momento uma judiciosa cobertura do Judiciário pode ser decisiva para o futuro do país. (29/11/2005)

14. Galvanizada pelas pesquisas, empurrada pelos debates televisivos, sedenta por novos escândalos e incapaz de situar-se na grande barafunda institucional, nossa mídia está devendo à sociedade uma cobrança rigorosa ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral sobre o destino dos votos dados aos candidatos sem ficha limpa. Se preferirem o prejulgamento, os fichas sujas. (19/10/2010)

15. Resta a imprensa. Fragilizada por uma devastadora crise de identidade, pulverizada em centenas de recantos opinativos sem qualquer expressão, visivelmente desnorteada diante de um mundo que se transforma em todas as direções, o Quarto Poder corre atrás, desorientado, de língua de fora, sem agenda e sem projetos, incapaz até de se mirar na passada importância. (19/10/2010)

16. O juízo sobre a informação tornou-se tão importante quanto a própria informação. O território da crítica expandiu-se de forma tão extraordinária que os críticos tornaram-se criticados e a matéria criticada tão importante quanto aquela tida como acrítica. A internet consagrou-se imediatamente como canal alternativo para fugir dos impasses produzidos pelos grupos de pressão na grande imprensa. (30/11/2003)

17. Quando se fala em prejulgamento da imprensa, não se deve pensar apenas na cobertura de crimes e casos passionais. A grande imprensa costuma exibir os seus preconceitos em outras questões, inclusive no debate sobre mídia. Foi o caso da criação da TV Pública. Antes mesmo de se conhecer o seu formato, os grandes grupos de mídia comercial já manifestavam desaprovação. Foi um caso de desamor à primeira vista. Como se uma TV Pública não fosse necessária ao próprio desenvolvimento da TV privada. (22/04/2008)

18. As elites endinheiradas não gostam de jornais opulentos, substanciosos, preferem a sublime dramaturgia das telenovelas, fingem que são informadas pelas mídias sociais e adoram desfolhar revistas com as irresistíveis citações proferidas por celebridades de shortinho. Já as empresas jornalísticas, incapazes de multiplicar talentos e há décadas apostando em estrelas fatigadas pela rotina da submissão, começaram a afiar bisturis e guilhotinas, ávidas para cortar custos e gorduras. (30/11/02013)

19. Com 5.570 municípios, deveríamos alcançar ao menos a média de um veículo jornalístico por município. O fenômeno da concentração da imprensa não se resume ao número reduzido de grandes empresas de comunicação e à forte tendência para a formação de oligopólios regionais. O mais grave são os vazios, os bolsões de silêncio, as manchas cinza, ocas, espalhadas entre as 727 ilhas do Arquipélago Gutenberg. (12/11/2013)

20. Todo Jornalismo é investigativo, ou não é Jornalismo. Donde se conclui que o que lemos, ouvimos e vemos todos os dias na imprensa não é Jornalismo. (27/06/2016)

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Ao Dines, com carinho

Por Carlos Vogt em 22/05/2018 na edição 988

Texto originalmente publicado na edição 971, de 18/12/2017, do Observatório da Imprensa e na Edição Brasileira da Columbia Journalism Review.

Em uma tarde de 1993, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), recebi, por intermédio de Luiz Schwarcz, a notícia – depois confirmada por José Marques de Melo – de que Alberto Dines queria falar comigo sobre um projeto de criação de um programa de jornalismo na Unicamp, universidade de que eu era reitor, na ocasião.

Dines estava em Portugal e tinha vindo ao Brasil, um pouco antes, no ano anterior, para um tratamento de saúde, tudo isso envolvendo, além de outras atividades, sua pesquisa e a produção de seu trabalho fundamental sobre Antônio José da Silva, publicado em livro com o nome de Vínculos e Fogo (Companhia das Letras, 1992).

Dines, como ele próprio relata, passava as manhãs de Lisboa prisioneiro de seu projeto na Torre do Tombo, à tarde, ia para a Editora Abril e, à noite, lia e escrevia, trabalhando o material que sua pesquisa ia organizando.

A bolsa da Fundação Vitae estava prestes a terminar, e o trabalho na Abril permitia-lhe esticar a estada e dava-lhe, então, condições para seguir adiante com os estudos e as investigações para a obra sobre o autor brasileiro do teatro português no século 18, morto ainda jovem, queimado, num auto da fé da Inquisição, com apenas 34 anos, em 1739.

Interesses comuns

Fizemos o contato, Dines me escreveu e eu, que tinha uma viagem programada para Paris, combinei com ele de passar por Lisboa, na volta, para conversarmos e, eventualmente, avançarmos com a ideia da criação de um programa e mesmo de um centro de estudos em jornalismo.

Anos antes, quando Paulo Renato Costa e Souza era reitor da Unicamp e eu seu vice-reitor, chegamos a tratar, na universidade, com Claudio Abramo, então editor da Folha de S.Paulo, de um projeto de curso de pós-graduação em jornalismo, que acabou não se concretizando.

Havia, pois, uma disposição da universidade para um empreendimento dessa natureza que vinha, enfim, encontrar-se com Dines e com a ideia inovadora e precursora que ele alimentava, preparando também, no fundo, a sua volta ao Brasil, no
período pós-Fernando Collor e no cenário dos tempos melhores que o governo de Itamar Franco e, depois, de Fernando Henrique anunciavam.

Cheguei a Lisboa e fui recebido pela Norma Couri e pelo Dines com uma simpatia, um carinho e uma acolhida tais que a sensação que compartilhamos era de velhos amigos com saudades de não ter se conhecido antes.

Norma, que estava em Lisboa como correspondente do JB, e Dines hospedaram-me num hotel maravilhoso na rua das Janelas Verdes, cujo nome, se bem me lembro, reportava à sua própria localização. Passeamos, comemos bem, tomamos bons vinhos, fomos a Cascais e a Sintra e paramos no Canto 3 d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, no Cabo da Roca, “aqui(…) onde a terra se acaba e o mar começa”.

Tiramos fotos e seguimos embalados, pelo fim de semana de azul e luz, nas conversas sobre os planos de criação do que viria a ser, em 1994, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, da Unicamp; depois, em 1996, também berçário do Observatório da Imprensa, cuja infância, adolescência e idade adulta sempre tiveram em Dines a referência segura, criativa e constante, na constância de sucesso de sua trajetória.

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Carlos Vogt é professor titular na área de semântica argumentativa e coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, onde foi reitor de 1990 a 1994.

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Uma vida a serviço do jornalismo

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 22/05/2018 na edição 988

Alberto Dines foi uma das vozes mais expressivas do jornalismo impresso brasileiro, desde meados do século passado, sendo capaz de se reinventar nas mídias eletrônicas contemporâneas.

Nascido em 19 de fevereiro de 1932 no Rio de Janeiro, Dines iniciou sua carreira aos 20 anos como crítico de cinema na revista A Cena Muda. Em mais de 60 anos de jornalismo, passou pelos principais veículos impressos do país: da Última Hora ao Pasquim, além das revistas Manchete e Visão, cobrindo da cultura à política.

Trabalhou ainda como editor-chefe do Jornal do Brasil, na Folha de S.Paulo durante doze anos e foi diretor da sucursal do jornal paulista no Rio de Janeiro, além de ter dirigido o Grupo Abril em Portugal, onde lançou a revista Exame. Lecionou jornalismo na PUC do Rio de Janeiro nos anos 1960 e foi professor visitante da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York, em 1974.

Escreveu mais de 15 livros, entre eles “Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig” (1981), que foi adaptado para o cinema em 2002 por Sylvio Back. Também escreveu “Vínculos do fogo” (1992) e livros ligados ao jornalismo, como “O papel do jornal” (1974).

Em 1996 criou e coordenou o site Observatório da Imprensa. Pensado como um espaço de crítica de mídia, o Observatório passou a ter uma edição na TV Educativa do Rio de Janeiro em maio de 1998. Esse projeto proporcionou uma nova visão sobre o funcionamento do jornalismo brasileiro através de matérias com um conteúdo aprofundado e questionador, trazendo entrevistas com grandes nomes e também explorando temas de importância social. O Observatório se tornou referência em crítica de mídia no Brasil.

Alberto Dines recebeu diversos prêmios em sua carreira, como o Maria Moors Cabot em 1970, o Jabuti em 1993, o Austrian Holocaust Memorial Award em 2007, Austrian Golden Decoration for Science and Art em 2009, e o Ordem do Mérito das Comunicações em 2010.

Foi também um dos fundadores e pesquisador sênior do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.

O jornalista foi casado, pela primeira vez, com Ester Rosali Dines, sobrinha de Adolfo Bloch, com quem teve quatro filhos, e pela segunda vez com a jornalista Norma Couri, jornalista cultural que sempre teve também um papel atuante no Observatório da Imprensa.

Dines morreu no dia 22 de maio de 2018 em São Paulo por complicações de uma pneumonia.


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Aos 80 anos de um mestre

Por Eugênio Bucci em 22/05/2018 na edição 988

Texto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 23/02/2012 por ocasião dos 80 anos de Alberto Dines.

“Dizer que jornal é trabalho de equipe é dizer muito pouco. Jornal bem-sucedido é trabalho de uma orquestra de personalidades e ideias diferentes ou mesmo antagônicas, porém complementares, harmonizadas e equilibradas por normas ou metas comuns”

Alberto Dines, em ‘O Papel do Jornal’

Na profissão de jornalista, em que os princípios pessoais parecem não resistir aos dez primeiros anos de carreira, o nome de Alberto Dines reluz como um patrimônio inspirador. No dia 19 de fevereiro, domingo passado, ele completou 80 anos de idade. Também neste ano de 2012 ele comemora seis décadas de profissão: uma trajetória brilhante, acidentada, por certo, e modelar. Olhando para ele, hoje, a gente compreende o que significa ser jornalista — e gosta do que compreende.

Como todos nós, Dines cometeu erros. Ele mesmo reconhece. Durante o almoço, volta os olhos para cima, a cabeça indo de um lado para outro, num balanço leve, e conta dos tropeços, das vezes em que deu vazão à aresta mais cruel das palavras com o propósito de ferir, mais do que de informar. Acontece. Deixemos isso de lado. No legado que de fato importa, sua biografia é fonte de ensinamento: uma lição de trabalho intenso e extenso, com produção incessante, diária, e uma obra que vai da crítica cinematográfica a livros de pesquisa histórica, passando pela reportagem cotidiana, pela crítica de imprensa e pelos artigos de opinião. Dines é a prova de que a experiência não concorre necessariamente para diluir os princípios e de que o caráter não esmorece. No caso do jornalista, o caráter alimenta-se da independência intelectual e material, assim como se alicerça no cultivo da liberdade e do espírito crítico — portanto, ganha vigor com o passar do tempo.

Assim como os escritores realmente grandes são aqueles que ensinam a seus pares a arte da narrativa, o jornalista maior tem a capacidade de despertar vocações nos mais jovens. Dines também desperta vocações. Embora seja difícil afirmar que esta ou aquela vocação tenha nascido por influência deste ou daquele profissional, há pelo menos uma, nem que seja uma só, que deve ser creditada a ele. A coluna Jornal dos jornais, que Dines assinou na Folha de S.Paulo entre 1975 e 1977, motivou um adolescente, então estudante numa cidade da região da Alta Mogiana, no interior paulista, a firmar a decisão de trabalhar na imprensa e, pelo menos até o instante em que assinou este artigo — este aqui, que você lê agora —, aquele adolescente dos anos 70 não se tinha arrependido da escolha que fez.

Na velha coluna de Alberto Dines, que ajudou a firmar a crítica de mídia no Brasil, o adolescente da Alta Mogiana começou a se dar conta de que escrever na imprensa também era uma forma de pensar sobre a imprensa, e ele começou a achar aquele negócio interessante.

As mais belas reportagens renovam o lugar do discurso jornalístico dentro da cultura. É verdade que podemos dizer algo parecido sobre quase tudo, sobre a poesia, a arquitetura, o cinema e também sobre a medicina e até mesmo a engenharia: o engenho humano, onde quer que ele se manifeste, na arte ou na ciência, na técnica, na política ou na religião, tende a redefinir a si mesmo — o que, no fim das contas, é uma constatação um tanto óbvia, quase banal. Não teria por que ser diferente com o jornalismo — e, no entanto, é diferente. Sutilmente, mas é.

Na nossa profissão, que navega nas franjas do que é notícia, daquilo que é verdade hoje, mas não era verdade até ontem, os imperativos da velocidade, da aceleração e da mudança pesam muito mais. Mais que outras atividades, o jornalismo depende de saber se redefinir a cada dia. Ao registrar a História no calor da hora, a sangue-frio, o jornalista é agente da História, um catalisador do fato histórico em alta velocidade, o que faz dele um profissional das ideologias, mesmo quando guarda em si a convicção ideológica de que nada tem de ideológico. Se ele não desenvolve consciência sobre o que faz, corre o risco nada desprezível de estar a serviço de ideologias que não vê enquanto empina o nariz imaginando desconstruir as que vê. Se não acumula reflexão, dificilmente fará algo de útil ou de valioso.

Comparemos o jornalista com o cirurgião. Este, o cirurgião, pode muito bem se revelar um gênio do bisturi sem nunca ter dedicado um segundo sequer ao exame intelectual das relações entre seus atos e o sentido geral da civilização, ou sobre o emaranhado de sentidos que tece a fronteira instável entre saúde e doença. Para o jornalista, o mesmo grau de alienação constituiria falta grave. Se obstinadamente técnico, perde de vista o que há de controverso na cena humana, da qual lhe cabe fazer a crônica.

A imprensa ocupa-se mais das incertezas que das certezas. Sem método, sem critérios e sem pensamento (epistemológico) ela se perderia. A sua dupla condição — ter de fazer e ter de refletir — não é dúplice nem ambígua, mas íntegra. Aí se inscreve o significado mais fecundo da longa trajetória de Alberto Dines. Como professor universitário – que não tem diploma de nenhuma faculdade -, ele ajudou a lançar no Brasil, quando começou a dar aulas na PUC-Rio, ainda nos anos 60, as bases da disciplina Jornalismo Comparado. Como jornalista, no comando do Jornal do Brasil, ou na direção de revistas da Editora Abril em Portugal, ou ainda como fundador do Observatório da Imprensa, um marco pioneiro do jornalismo online no Brasil, criado há 15 anos, ensinou a credibilidade da imprensa laica, apartidária e plural.

Onde o mundo é uma gritaria, uma babel caótica, o grande editor identifica a orquestra passível de afinação. Também por isso a imprensa encarna com tanta intensidade o sonho democrático. Movido por esse sonho, o jornalista faz, pensa e depura o caráter. Não pode haver profissão melhor.

Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e ESPM.

Texto e imagens reproduzidos do site: observatoriodaimprensa.com.br

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Dines, mestre do jornalismo, nossa maior referência

Foto: Agência Brasil - Dines foi responsável pela consolidação do JORNAL DO BRASIL 
como o mais importante veículo de comunicação da América Latina

Publicado originalmente no site do Jornal do Brasil, em 23 de maio de 2018

Dines, mestre do jornalismo, nossa maior referência

Jornal do Brasil

Jornalista inovador e obstinado, crítico da imprensa, escritor, professor e rebelde, morreu ontem em São Paulo, aos 86 anos, Alberto Dines, em decorrência de uma pneumonia. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein, no Morumbi, na Zona Sul da capital paulista. Deixa viúva, a jornalista Norma Couri, e quatro filhos. O sepultamento de seu corpo está marcado para as 13h30 de amanhã, no cemitério de Embu das Artes.

Dines foi responsável pela consolidação do JORNAL DO BRASIL, onde trabalhou de 1962 a 1973, como o mais importante veículo de comunicação da América Latina, valendo-se de criativas estratégias para driblar o regime militar e denunciar a censura imposta à imprensa.

Também foi crítico e analista da imprensa por décadas, lançando o “Observatório da Imprensa” e inspirando gerações de jornalistas e cidadãos na defesa da liberdade de expressão e da democracia. Pensava que “o leitor não é consumidor, mas cidadão. O jornalismo é serviço público, não espetáculo.”

Como na promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em 1968, quando coordenou a edição da primeira página do JORNAL DO BRASIL, valendo-se de termos da meteorologia para denunciar a mão forte da censura que chegava: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos...”.

Ou quando, mediante a proibição de noticiar no alto da capa do jornal a morte do presidente chileno Salvador, em 11 de setembro de 1973, decidiu eliminar a manchete e publicar o texto inteiro na capa.

Um jornalismo inovador e livre

Dines nasceu em 19 de fevereiro de 1932, no hospital da Beneficência Portuguesa, no bairro da Glória, filho de imigrantes vindos da Rússia. O pai chegou ao país como cidadão polonês e era ativista da comunidade judaica, desde a Polônia, onde atuava com organizações de refugiados e de apoio social.

Iniciou a carreira jornalística ainda na adolescência, no Ginásio Hebreu Brasileiro, antiga escola judaica com professores de esquerda. Motivados com a mobilização do Brasil contra o nazifascismo a partir de 1942, Dines e colegas criaram uma pequena publicação. O veículo já apresentava marcas características de sua carreira: a liberdade de pensamento e a contestação. “O jornalzinho era muito livre, os professores não interferiam. Até gozávamos de alguns deles”, recordou-se, em depoimento ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, em 2008.

A trajetória profissional começou em 1952, na revista “A Cena Muda”, como crítico de cinema. Este passo foi dado um pouco por acaso, aos 18 anos. “Meu sonho era estudar cinema em Paris. Não consegui: naquela época, para ter bolsa de estudo você tinha que ter pistolão, e eu não tinha. Mas me dediquei ao negócio do cinema com muito afinco, estudava, ia a cineclubes. Aí um dia me convidaram para ser crítico de cinema da ‘A cena muda’, um veículo importante”.

O passo seguinte foi a recém-criada revista “Visão”, cobrindo teatro e cinema. Pouco depois, passou a fazer reportagens políticas. Em 1957, seguiu para a extinta revista “Manchete”, onde tem a oportunidade de desenvolver textos maiores e mais autorais. Em razão de uma doença de chefe, Nahum Sirotsky, assume um cargo de chefia e edição pela primeira vez, aos 26 anos. Também encontraria um problema recorrente de sua trajetória: tensões com os superiores hierárquicos. Segundo Dines, Adolpho Bloch, proprietário da revista, “não era um jornalista, ele queria era publicar foto bonita”. Embora entendesse que a parte gráfica das matérias era indispensável – um conhecimento que atribuía ao antigo interesse por cinema – Dines desejava priorizar os fatos históricos da época. Um exemplo da conturbada relação entre os dois é uma briga envolvendo a primeira ida do homem ao espaço, dos astronautas russos do Sputnik. O jornalista queria noticiar o acontecimento com destaque, o que Bloch não admitia, em razão da baixa qualidade da foto disponível. Da experiência na revista, Dines lembraria que a “contribuição de Bloch [ao jornalismo] foi puramente gráfica”

A convite de Samuel Wainer, seguiu em 1959 para “Última Hora”, para editar o caderno cultural. Do autor de “Minha razão de viver”, lembrava-se como de alguém “muito coerente, que nunca teve uma vacilação”. Isso não impedia, entretanto, a existência de conflitos com a direção do jornal: Dines representava um novo jornalismo, ágil e não ideológico, enquanto Wainer alinhava-se ao getulismo, mesmo anos após a morte de Vargas. O resto da redação fazia piadas relacionadas a sua ascendência judaica, que o incomodavam. Da “UH” foi para o “Diário da Noite”, vespertino especializado na cobertura de polícia. No final da vida, diferenciou os crimes passionais e acidentes de trânsito que costumava cobrir na década de 1950 dos padrões contemporâneos de violência. “A favela virou ao que é hoje nos anos 80. Não estou romantizando o passado, mas o que havia então era a violência normal de uma grande cidade”. Passou ainda por “A Tribuna da Imprensa”, antes de assumir como editor-chefe no JORNAL DO BRASIL em janeiro de 1962.

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WILSON FIGUEIREDO

TRABALHOU COM DINES NO JB DE 1963 A 1973

Um organizador

Wilson Figueiredo, que completa 96 anos, em 29 de junho, acompanhou, como repórter, colunista político, editorialista e Diretor de Redação todas as fases da modernização do JORNAL DO BRASIL do final dos anos 1950 até a saída das bancas em 2010. Para ele, “Alberto Dines não inventou nada. Mas revolucionou o JB e a imprensa que estava exaurida no ?m dos anos 50”. O jornalismo estava no fim de uma era. “Os jornais eram empreendimentos familiares, como foi o caso de Nélson Rodrigues e família, e os jornalistas eram recrutados por prestígio político ou para complementar o salário de uma repartição pública, da qual funcionavam como contínuos de luxo”, recorda Figueiredo.

Na sua avaliação, “Alberto Dines deu sequência à reforma gráfica do JB imprimindo organização à imprensa brasileira. E, mais do que isso, deu forma à reforma gráfica ao limpar as páginas do jornal e valorizar os tipos impressos no fundo branco das páginas, além das fotos, que passou a valorizar; e teve grande importância no JORNAL DO BRASIL nos movimentos contra a censura e a repressão no regime militar”.

Figueiredo recorda que, antes de Alberto Dines impor sua marca nas páginas do JB, o jornalismo era “meio ingênuo”, “sem profissionalismo”. Ele lembra que Dines fez escola no próprio jornal ao criar , em 1967, o Curso de Jornalismo do JORNAL DO BRASIL, aberto a estudantes de Comunicação, que se submetiam ao teste de seleção. As turmas de 30 alunos foram conduzidas por Fernando Gabeira até 1970, quando caiu na clandestinidade ao participar do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick. Gabeira foi substituído na Editoria de Pesquisa e no Curso por Roberto Quintaes.

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JANIO DE FREITAS

ANTECEDEU DINES NO JB, DE 1959 A 1962

Outra dimensão

Antecessor de Alberto Dines, Janio de Freitas, 85 anos, colunista da Folha de S. Paulo, não chegou a trabalhar com Alberto Dines, mas considera que o jornalista teve uma “importância enorme para o JORNAL DO BRASIL”. Janio, que tinha formação de gráfico e de diagramador, foi editor do JB de 1959 a 1962. Lembra que enquanto Amílcar de Castro fazia uma revolução estética no então Suplemento Feminino, que em 1960 Janio batiza de Caderno B, ele já havia retirado a profusão de fios na primeira página do JB, então, basicamente um jornal de classificados. Janio deixou o jornal em 1962, indicando para seu lugar José Ramos Tinhorão, que “se desentendeu com o vice-presidente executivo M. F. do Nascimento Brito, genro da Condessa Pereira Carneiro, e deu Lugar a Omer Monte Alegre. Omer ficou pouco tempo e foi substítuído pelo Alberto Dines”.

“Com a experiência da revista ‘Visão’; ‘Última Hora’, de Samuel Wainer; ‘Manchete’; ‘O Jornal’ e o ‘Diário da Noite’, dos Associados, Dines ampliou a redação, organizou as editorias e deu outra dimensão política ao JORNAL DO BRASIL”, disse, por telefone ao JB.

Janio de Freitas destaca o sentido cosmopolita e moderno de Alberto Dines. Ao acompanhar as novidades dos jornais americanos e ingleses, inclusive tabloides, com a liberdade gráfica e o texto organizado, a partir do lead e sublead, deu aspecto organizado à primeira página e às diversas editorias e colunas com assuntos temáticos. Ele transformou o JB numa escola de jornalismo muito avançado e elegante para a época.

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Vanguardista incansável

No JORNAL DO BRASIL, Dines encontrou um ambiente receptivo a suas ideias vanguardistas de jornalismo. Em 1956, sob o comando de Amílcar de Castro, o jornal introduzira uma reforma gráfica que o próprio Dines definiu como “revolucionária”, eliminando os fios entre as matérias e valorizando os espaços brancos. O então proprietário do jornal, Nascimento Brito, pensava em desfazer a reforma e voltar ao modelo anterior, mas Dines o convenceu do contrário.

“A não ser na parte política, eu tinha liberdade pra tudo. Nós demos passos importantíssimos que ficaram até hoje na imprensa”, recordava-se em 2008. Entre as novidades estavam a introdução de reuniões de pauta, a mudança do horário do expediente para mais cedo (que permitia um maior planejamento) e a consolidação de editorias, com as criações inéditas no Brasil de uma editoria de fotografia e de um departamento de pesquisa.

Dines ficou exatos 11 anos e 11 meses no JB. À frente de uma equipe que incluía, entre outros, Fernando Gabeira, Armando Nogueira, José Ramos Tinhorão e Wilson Figueiredo, suas inovações tornaram o jornal um modelo para o país inteiro. “O próprio nome JORNAL DO BRASIL ajudou muito nesse sentido. E o Rio de Janeiro, como capital que havia sido, era uma cidade com vocação nacional. O caráter do carioca transbordava para o Brasil”, afirmou.

O jornalista diferenciava a repressão à liberdade de imprensa antes e depois de 1968. Segundo dizia, “o golpe militar de 64 não provocou grandes alterações no fazer jornal. Cobria-se e publicava-se tudo. Em certo momento, o jornal até se opôs à candidatura do general Costa e Silva”.

Foto: CPDoc JB - Alberto Dines ao lado do amigo Carlos Lemos, 
na redação do JORNAL DO BRASIL, nos anos de 1960

Isso mudou com o AI-5, o que motivou a histórica edição anunciando nuvens carregadas no país. “Assim que escutei o anúncio do AI-5 liguei pro Brito, subi pro gabinete dele e falei: ‘Vai começar a censura, e nós temos que avisar o leitor. Porque, a partir de agora, ele não pode acreditar inteiramente no que vamos dizer’. Ele falou: ‘Dines, você pode comandar isso, mas não quero bagunça nem indisciplina na redação’. E assim foi feito. Eu desci e avisei: ‘Gente, nós vamos fazer uma edição rebelde’. Depois, o Carlos Lemos, que era o meu segundo, grande amigo e companheiro, falou: ‘Olha, acho que fizemos uma edição histórica. Porque o JB tomou uma posição, fez uma coisa que vai entrar para a história’. E efetivamente entrou.”

Sobre a edição sem manchete, anunciando o golpe de Pinochet, igualmente histórica, a decisão ocorreu tarde da noite, quando chegou uma proibição da polícia de que o assunto fosse dado com destaque. Dines resolveu “seguir estritamente” a ordem, imprimindo o texto sem cabeça na maior fonte possível, o que chamou muito mais a atenção do que se tivesse seguido os padrões.

Embora inesquecível, a capa não o impediria de ser demitido três meses depois por indisciplina. Dines atribuiria a demissão à insubordinação: “Estava me insurgindo. A capa do Allende foi uma rebeldia minha. Ele [Brito] estava preocupado que se fizesse alguma maluquice, como de fato fiz. Mas não era uma indisciplina, era bom jornalismo”.

Dines também foi professor de jornalismo desde 1963, na PUC-Rio. Convidado para ser paraninfo de uma turma, logo após a edição do AI-5, discursou criticando a censura. Em consequência, foi preso e submetido a inquérito. Segundo dizia, sua prisão não foi noticiada por nenhum jornal brasileiro. O “New York Times”, todavia, fez editorial sobre o episódio, o que causou grande repercussão.

Em 1974, depois do JB, viajou para os EUA, onde foi professor visitante na Universidade Columbia. Retornou em julho de 1975 e assumiu a chefia da sucursal carioca da “Folha de S.Paulo”, a convite do diretor Cláudio Abramo. Em 1980, deixou o jornal, demitido por Boris Casoy, após escrever artigo denunciando a repressão do então governador de São Paulo Paulo Maluf à greve do ABC.

Em 1994, criou o “Observatório da Imprensa”, jornal de crítica e debate sobre o jornalismo contemporâneo, que ganhou versão digital em 1996 e um programa de TV em 1998 (mantido no ar até março de 2016, quando se afastou por razões de saúde).

Em um de seus últimos textos no “Observatório”, de 2017, fez uma lista de desejos: “Que a imprensa de papel sobreviva junto com a virtual, assim como o papel e a caneta Bic. Que o essencial seja o conteúdo e não o suporte. Que o pensamento mágico não se destrua por falta de alimento da mídia”.

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"A imprensa está a reboque dos eventos, sem fôlego para produzir balanços; e assim ficará enquanto os paradigmas forem ditados pelas redes sociais"

"Que as redes sociais não confundam, chutem ou enrolem tanto. Que a imprensa brasileira seja bem escrita e ilustrada e dê prazer em ler e ver"

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ALBERTO DINES

PUBLICADO NO RELANÇAMENTO EM 2018

Sempre JB

Café, jornal, cigarro. Cigarro, não mais, mas jornal sempre foi fundamental. O Jornal do Brasil ia além, era vício. Bibliotecas eram paraísos para Jorge Luís Borges; o JB era alimento para os cariocas e leitores de outros estados que corriam de banca em banca atrás de um exemplar.

Correio da Manhã, revistas Senhor e Realidade, O Pasquim e tantos tabloides de literatura atormentaram os nostálgicos, mas não voltaram.

O JB voltou. Para fazer barulho bom e peso na leveza das redes. Pedra firme em água fluida. Um adversário temido volta às bancas.

Caixa de ressonância, guia seguro, imprensa séria, comprometida, consistente, inovadora, tudo combina com o JB. Repórter bom que briga com a matéria e com o editor. O redator que acredita: a matéria mais importante do jornal é a dele, ou a dela – como uma vez eu disse para a então estreante colunista Clarice Lispector.

Os livros não interessavam aos tablets, e os apressados preconizavam: vão acabar. Não acabaram. As vendas de livros até aumentaram 6% no ano passado, no Brasil. E se as vendas dos jornais caem, há sempre um Warren Buffett que acredita e compra, compra, compra jornais.

O jornalismo está impregnado do espírito sequencial, de passagem, de prolongamento e continuidade. Nosso ofício, que começa e se esgota a cada fluxo, a cada novo dia, é o exercício da permanência, da duração. Por melhor ou pior que tenha sido a edição anterior, o que vale é a seguinte. E depois dela, a outra. É um nunca acabar, ou eterno renascer.

Um grande jornal faz-se com a consciência do tempo e a capacidade de atrair o leitor, todos os dias, para a maravilhosa aventura de saber um pouco mais.

Há um caminho aí que é o de fazer pensar. Oferecer alternativas de pensamento e marcar presença, fazer história. Pensar grande.

Mario Sergio Conti, em coluna recente, lembrou de “Memórias de um Antissemita”, o romance de Gregor von Rezzori: “O sangue jorra como antes. A única dignidade que se pode manter no nosso tempo é a dignidade de estar entre as vítimas”.

No caso do JB, é brigar pelas vítimas.

Não é fácil, mas é possível. Agora mais do que nunca.

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GILBERTO M. CÔRTES

VICE-PRESIDENTE EDITORIAL DO JORNAL DO BRASIL

A benção, Mestre

Sem desejar ser jornalista (queria ser economista, não ligado ao mercado financeiro), a convite de amigo fiz vestibular, não unificado, em 1969. Reprovado em Economia, passei para a ECO em segundo lugar. No 3º ano de Comunicação da UFRJ, em março de 1972, estava meio sem rumo, quando li na ECO a pré-seleção para o Curso de Jornalismo do JORNAL DO BRASIL, que lia sempre pela manhã (meu pai assinava também O Globo, então vespertino, que lia à noite: que diferença!). Um com jornalismo aberto, outro com a versão oficial da Ditadura. Me inscrevi. Trabalhei três meses no Boletim Cambial, desisti e, quando ia arriscar o marketing, amigo de meu pai me indica para o Noenio Spinola, editor de Economia, na gestão Alberto Dines. Mal batia a máquina, mas organizar tabelas diárias de fundos 157 e de investimento e a página de bolsa no sábado era um bom começo. Em setembro, com dois meses de JB sai a chamada do Curso. Noenio disse que devia fazer a prova. Passei em 2º (o primeiro colocado era o RP do JB), o que prova que ler jornal sempre faz diferença. No Curso, pelo qual já passaram jornalistas consagrados como Silio Boccanera, Romildo Guerrante e Teresa Otoni, fui colega de Norma Couri. Fiz estágio no B, com Ruy Castro. Segui pela Economia e a cobertura do mercado financeiro, Dines deixou o JB em dezembro de 1973. Me convidou para o Observatório da Imprensa na TV em 2005. O reencontrava e a Norma nas celebrações do ex-JB na Fiorentina. Em 2014 recebi dedicatória no lançamento do livro sobre o Sweig.

Aos 45 anos de profissão, Omar Resende Peres me convida para ser diretor de Redação do JORNAL DO BRASIL que iria voltar às bancas. Uma missão e tanto, adiada por um ano. Desde o começo busquei o depoimento de Alberto Dines, o maior editor com quem trabalhei sobre a importância da volta do JB. Liguei para a Norma e soube da gravidade da doença de Dines. Generoso, ele veio ao telefone no hospital e disse que seria difícil. Mas ainda mandou algumas palavras encorajadoras em mensagem. Disse-lhe que mais três palavras dele seriam manchete. Com enorme emoção, dia 1º de fevereiro de manhã, vi sua mensagem (ao lado), enviada às 22hs do dia 31. Comemorava meus 68 anos e não vi. O maior presente após o do Catito. Chorei muito, e volto a chorar. A bênção, Mestre.

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"A sociedade que aceita qualquer jornalismo não merece jornalismo melhor"

"Todo jornalismo é investigativo, ou não é jornalismo"

Foto: Divulgação - Dines é condecorado, em 2009, pelo governo da Áustria 
por seu trabalho à frente da Casa Stefan Zweig, em Petrópolis

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DEPOIMENTOS

Ziraldo, caricaturista

“A gente trabalhou junto por muito tempo. Ele era editor do JORNAL DO BRASIL e eu era o chargista. Meu convívio com ele foi muito intenso e agora, ele partindo dessa maneira, a gente começa a ver que está na hora de a turma se mandar, entendeu? É uma perda pessoal muito grande, uma perda para o jornalismo brasileiro imensa. Eu vou sentir muita saudade dele. Tenho a felicidade de ter participado deste momento do jornalismo brasileiro. Antes do JB, o jornalismo brasileiro não era tão formidável e tão intenso como foi na época do Dines. E vou repetir: foi o momento fantástico da nossa vida, na minha geração e dos amigos do Dines, que estão ficando por aí”

Evandro Teixeira, fotógrafo

“Estou no lançamento de um livro sobre 1968. Falei muito de Alberto Dines, de sua coragem por enfrentar o regime militar à frente da redação do JB. Dines foi um marco do JORNAL DO BRASIL, do jornalismo brasileiro, pela coragem ao publicar capas históricas durante o período militar. Devemos isso ao Dines. Fez escola no JB e no jornalismo de todo o país.”

Jaques Wagner, ex-governador da Bahia

“Em qualquer circunstância, a morte de um mestre do jornalismo como Alberto Dines já seria suficientemente dolorida. Mas sua partida se torna ainda mais irreparável neste momento de graves ameaças à democracia, em que o obscurantismo e as fake news emergem com tanta força. Referência de jornalismo crítico e de qualidade, Dines deixa como legado a busca incansável pela verdade, o compromisso inquebrantável com a ética, a coragem para desafiar a censura, e a ousadia de ter sido um dos primeiros críticos da imprensa no país.”

Mário Magalhães, jornalista e escritor

“Alberto Dines foi um gigante do jornalismo. De sua vasta contribuição ao nosso ofício, a mais notável foi o estímulo à crítica do próprio jornalismo. Em um ambiente vocacionado para criticar os outros, porém avesso ao seu próprio escrutínio, Dines pagou caro por sua coragem.”

Jean Wyllys, professor e deputado federal

“É com muita tristeza que lamento a morte do grande e renomado jornalista Alberto Dines, fundador do Instituto Stephan Zweig e do Observatório da Imprensa. Dines, cuja trajetória profissional contribuiu bastante para a construção de um jornalismo ético no Brasil, tinha uma atuação que caminhava na contramão da defesa do status quo que é feito pela grande imprensa tradicional”

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KRISTINA MICHAHELLES

JORNALISTA, TRADUTORA E DIRETORA-EXECUTIVA DA CASA STEFAN ZWEIG

Paixão pela beleza

Irreverente e irrequieto, Alberto Dines foi multitarefa quando a palavra sequer era moda. Enquanto construía sua brilhante trajetória jornalística, empregou a escrita afiada também para críticas de cinema, livros, biografias. Dines iniciou a carreira de escritor solo em 1972 com um volume de contos, Posso? (ed. Sabiá). Um ano depois, dá os primeiros passos como biógrafo com Érico Veríssimo, publicado pela Editora Jornal do Brasil. Em 1974, sai o livro que deveria ser leitura obrigatória para todo estudante de jornalismo, O papel de jornal (Ed. Artenova), sucessivas vezes reeditado com acréscimos. Mas sua obra mais importante é o minucioso Morte no paraíso, a tragédia de Stefan Zweig, de 1981, cuja quarta edição saiu pela Rocco em 2012. Traduzida para o alemão por Marlen Eckl, é referência no mundo inteiro de estudiosos do escritor austríaco que se suicidou no Brasil em 1942. Entender Stefan Zweig, sua obra, seu tempo e seu gesto final foi uma obsessão tão grande na vida de Dines que ele só recebeu alta da psicanálise quando o livro saiu do prelo.

Durante seu tempo de correspondente em Lisboa, a inquietação intelectual de Dines o fez mergulhar na vida de outro personagem, Antônio José da Silva, o Judeu. Vínculos do fogo (Cia. Das Letras, 1992) mereceu o Jabuti de Estudos Literários em 1993. Por último, um livro menos lembrado, que traça os rumos de uma família de tesoureiros de reis desde o século XII: O baú de Abravanel: uma crônica de sete séculos até Silvio Santos. As obras coordenadas e organizadas por Dines são tão numerosas que o historiador Fábio Koifman teve dificuldade em listá-las no livro Ensaios em homenagem a Alberto Dines, que as Edições de Janeiro lançaram em 2017 por ocasião de seus 85 anos.

Sua última obra não é de papel, e sim de pedra: a Casa Stefan Zweig, pequeno museu encravado na Rua Gonçalves Dias 34, em Petrópolis, na última morada do escritor austríaco e de sua segunda mulher, Lotte, inaugurado em 2012. Convivemos ao longo dos últimos 12 anos em torno do seu alter ego. Cético com os rumos do mundo, como Stefan Zweig, Dines nos legou o mesmo humanismo, o entusiasmo pela verdade e a paixão pela beleza.


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SYLVIO BACK

DIRETOR DE “LOST ZWEIG”

Apaixonados pelo cinema

Ainda que tenha sido jornalista quando jovem (fui o primeiro copydesk da imprensa paranaense), conheci Alberto Dines antes pelo seu talento, texto e expertise como autor da histórica revolução gráfico-textual do “Jornal do Brasil”. Pessoalmente, foi às vésperas da publicação da sua bela biografia, “Morte no Paraíso”, cujos originais tive o prazer de ler em 1981 nas provas da editora. Por coincidência, estávamos apaixonados pelo mesmo personagem, Stefan Zweig (1881-1942). Não demorou e descobrimos que ambos éramos também apaixonados pelo cinema, ele que fora roteirista da produtora paulista Multifilmes, nos anos 1950. Comprados os direitos autorais para adaptar seu “Morte no Paraíso” ao cinema, parti para a escritura do roteiro, pois ali se encontrava a chave de uma originalidade inexistente nas biografias europeias e americanas sobre Zweig: a “vida brasileira” do grande escritor austríaco. Foi a partir desse mar investigativo singrado por Dines que passei a formatar o roteiro do meu longa-metragem, “Lost Zweig” que, tão logo concluído, concorrendo no Festival de Brasil, foi premiado, justamente, pelo roteiro, cuja autoria compartilho com o cineasta irlandês, Nicholas O´Neill. Como literatura é invisibilidade e cinema, visibilidade, todo o autor fica extasiado quando vê o que imaginou tornado “realidade” na telona. Assim, jamais vou esquecer que, à saída da projeção do cine Brasília, Alberto Dines, com lágrimas nos olhos, me abraçou fraternalmente, dizendo: “Muito obrigado, Back, você não traiu nosso Stefan Zweig”. Melhor memorial que este impossível.

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"Talentos não faltam, consciência e decência, idem. O que falta em nossas redações é independência"

 "O jornal é um canto de sossego. O leitor sabe onde vai encontrar as coisas, ele se sente à vontade para buscar aquilo que lhe interessa"

Foto: Fotos Laerte Gomes - Dines, Diana Aragão e Carlos Lemos, em encontro de ex-JB


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NILSON LAGE

PROFESSOR DE COMUNICAÇÃO

Meu colega Alberto Dines

Quando ouvi falar de Dines pela primeira vez, anos 1950, ele dirigia uma revista, Fatos&Fotos, da Bloch Editores, contrapartida dinâmica, menos colorida e mais jornalística de Manchete, carro-chefe da mesma empresa, então ascendendo como concorrente de O Cruzeiro, dos Diários Associados.

Encontrei-o em 1962 – conhecemo-nos então – quando assumiu a função de editor-chefe do JORNAL DO BRASIL, com o comando da redação e do projeto gráfico que se inovara nos anos anteriores a partir do disciplinamento original construtivista de Amílcar de Castro. Dividia o controle do jornal com outro profissional, Wilson Figueiredo, indicado por Odylo Costa, filho, da Assessoria da Light. Estava em curso o processo de cooptação da grande mídia brasileira para o golpe de Estado de 1964 e a missão de Wilson era justamente conter a suposta ameaça subversiva dos “idiotas da objetividade” do copy-desk que eu chefiava.

Coube a Dines apartar uma briga física entre mim e Wilson, na antiga redação da Avenida Rio Branco.

Quando Dines, afinal, assumiu o controle efetivo da linha editorial, nos anos difíceis que se seguiram a 1964 – outros grandes jornais, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias, estavam submetidos a garrote econômico e sofriam perseguição policial – manteve linha cautelosa mas independente, com episódios antológicos de resistência: a previsão do tempo catastrófica na edição que noticiou a assinatura do AI-5 e a primeira página só com o texto, sem título, quando a censura proibiu registrar “em manchete” o golpe e assassinato de Salvador Allende, presidente do Chile.

Foi a demissão de Alberto Dines do JB, pouco depois, que me convenceu a investir na vida acadêmica, convencido de que a imprensa inevitavelmente se tornaria o que é hoje, um sistema publicitário uníssono, sujeito a meritocracia invertida, com espaço mínimo para o testemunho da realidade.

Tivemos, daí em diante, carreiras paralelas. Ele esteve Portugal, ajudando a reformular a mídia após os anos de chumbo do salazarismo – e se houve tão bem que os jornais de lá são bem mais jornalísticos do que os de cá.

Desenvolveu trabalho importante no magistério, na crítica da mídia e escreveu dois livros que permanecerão: as biografias de Antônio José da Silva, o Judeu, dramaturgo nascido em São João de Meriti que modelou o teatro português pós Gil Vicente, tornou-se conhecido como precursor da modinha e morreu estrangulado e queimado por ordem da Inquisição, em 1739 (“Vínculos de Fogo”); e de Stefan Zweig, o incompreendido autor de “Brasil, pais do futuro” (“Morte do Paraíso”). Deve-se a ele a informação mais pungente sobra a saga dos judeus portugueses e brasileiros submetidos à impiedade cristã na Era Moderna.

Dines entendia a imparcialidade jornalística como a contraposição de fatos positivos e negativos. Se escrevesse hoje sobe a Venezuela, por exemplo, relataria a eleição de Maduro e, no mesmo texto, mostraria a difícil situação do povo sob o governo bolivariano. Penso, pelo contrário, que a verdade não depende do equilíbrio dos opostos, mas está no eixo da oposição que se impõe aos fatos. Em breve, espero, voltarei a discutir isso com ele.

Foto: Divulgação - Em Buenos Aires,com a equipe do 
Observatório da Imprensa, diante da Casa Rosada


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DEPOIMENTOS

Florestan Fernandes Junior, jornalista

“Tive a honra de ser amigo e parceiro de Dines no Observatório da Imprensa e também no projeto Histórias do Poder, uma série para a TV que virou livro e ganhou o prêmio Jabuti como melhor projeto gráfico. Perdi hoje não apenas um amigo querido, mas um mestre que muito me ensinou. Suas pautas eram verdadeiros tratados de economia, política e cultura.”

Chico Alencar, deputado federal

”Parem as máquinas – por um minuto de silêncio. Perdemos hoje o jornalista, professor e escritor Alberto Dines. Fundamental para a história do jornalismo brasileiro, Dines soube unir o estudo, a prática e a crítica jornalísticas, e foi o 1º grande ombudsman do Brasil. Fará falta.”

Ivana Bentes, professora e pesquisadora

“Adeus, Alberto Dines! Das últimas gerações dos “velhos homens de imprensa” com uma cabeça jovem, desengessada e aberta ao novo. É assim que gira a roda: Alguns são anunciadores e realizadores, inventores e outros se agarram e defendem mundos que já não fazem mais sentido. Se o jornalismo não defender a vida contra sua financeirização e monetização, se não estiver aberto ao novo, serve para quê? Manter desigualdades e privilégios.”

Alessandro Molon, deputado federal

“Hoje o Brasil perdeu um exemplo de criatividade, profissionalismo e luta contra a censura. Um grande jornalista! Que a caminhada de Alberto Dines continue a nos inspirar na busca por um país melhor.”

José Trajano, jornalista

“Tive o privilégio de, ainda menino, aos 16 anos, tê-lo como editor-chefe no velho e inesquecível Jornal do Brasil. Educado, sempre preocupado com a ética jornalística. Bem lembrado. Era tijucano e torcedor do América.”

Eliomar Coelho, deputado estadual

“Não dá pra falar no jornalismo brasileiro sem falar no Dines, que passou por diversos veículos, lecionou para estudantes e é autor de 15 livros. Foi um defensor da regulação da mídia brasileira, o que o tornou referência no debate sobre o tema, motivando a criação do Observatório — canal de resistência na luta contra o oligopólio midiático que a ausência de regulação permite que exista no Brasil, onde poucas famílias controlam todos os veículos e determinam o que devemos saber e como devemos saber.

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"Nos Estados Unidos, o jornalismo investigativo faz parte do cotidiano. Aqui, é excepcional"

"A reforma de 1956 do JB foi uma das mais importantes revoluções, não apenas gráficas, mas jornalísticas brasileiras"

Foto: Fotos Laerte Gomes - Reencontro com Sérgio Noronha, ex-secretário de Redação


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JOSÉ ROBERTO ARRUDA

JORNALISTA DE ECONOMIA, ATUOU NO JB DE 1964 A 1970

Rigor na apuração

José Roberto Arruda, 79 anos, lembra no livro “Eterna Colônia, a Política da Dominação”, que acaba de lançar pela Editora Personal, uma lição marcante que reflete o rigor e a preocupação com o jornalismo ético impostos por Alberto Dines no JORNAL DO BRASIL. Ele trabalhou na editoria de Economia de 1964 a 1970 e recorda que, “jovem repórter do jornal, estava apurando investigações feitas pelo Ministério da Fazenda sobre remessa ilegal de dólares ao exterior. Nos dias seguintes à tomada do poder pelos militares a operação foi montada como forma de repatriar os dólares enviados por brasileiros que tinham alguma poupança. Socialites, celebridades, empresários, todos iam depor perante uma Comissão Ministerial que era secreta”. Arruda tinha bons informantes e garantia furos e primeira página no jornal.

Aí vem o problema. “Um determinado dia, noticiei que o Embaixador Walter Moreira Salles iria depor na Comissão de Repatriamento de Capitais. Dines, com a minha matéria em mãos, perguntou se tinha confirmado com o diplomata e banqueiro a informação”. Disse que não e que minha fonte era segura, origem de todos os furos de reportagens anteriores e nunca tinha falhado. Dines voltou a afirmar que não publicaria a matéria porque não achava possível um Embaixador e dono de banco usando esse expediente”.

Arruda ficou frustrado e foi confirmar com a fonte. Esta disse que Dines não queria publicar porque o irmão dele estava na lista. Teimoso, foi falar com o ministro da Fazenda, Octávio Gouveia de Bulhões, que lhe deu a lista. Lá não estava o Embaixador, mas sim o irmão de Dines. O Editor do JB publicou a lista na primeiro página. Com seu irmão irmão nela.

Foto: Fotos Laerte Gomes - Com o fotógrafo Prêmio Esso Alberto Jacob


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DEPOIMENTOS

Álvaro Caldas, jornalista

Conheci Alberto Dines no Jornal do Brasil, ainda na primeira sede da Rio Branco. Entrei como “foca” em 1964, no ano do golpe, e ele era o então editor-chefe da redação. Saí em 1969 como repórter especial. Dines era um dos melhores da redação. Exercia o jornalismo com convicção. Para ele, a atividade jornalística era fundamental. Sempre transmitia a experiência dele. Deixou sua marca no melhor jornal brasileiro. Trabalhar com ele era o sonho de todo foca.”

Emília Ferraz, editora-executiva do ‘Sem Censura’

“Trabalhar e conviver com Dines durante 15 anos no “Observatório da Imprensa” foi o melhor presente que já recebi como profissional. Alberto Dines era uma referência em jornalismo, qualquer conversa eu recebia uma aula de história, ética e pacifismo. Tinha uma memória extraordinária que aprendi a não duvidar depois de perder algumas apostas com ele. Lembrava de todos que participavam do programa e até do que falavam!”

Manuela D´Ávila, jornalista e deputada

“O jornalismo , que vive uma fase tão difícil, perdeu uma de suas vozes mais cultas, talentosas e críticas. Como jornalista, me dói especialmente porque ele foi uma referência importante da minha formação.” João Barone, músico “Uma perda e tanto, Alberto Dines, um grande lutador da imprensa livre de nosso país, o grande homem foi, mas a grande obra, fica.”

Juca Kfouri, jornalista

“Sempre o chamei de Albertinho e fiz questão de não tratá-lo com a reverência que merecia dos mais jovens. Ficam a dor da perda de tão longe, o carinho e a saudade, para sempre.”

Michel Temer, presidente da República

“O jornalismo brasileiro perde um dos pilares da ética e do profissionalismo. Alberto Dines passou pelos mais importantes veículos do país e criou uma geração de jornalistas comprometidos com a correção da informação. Meus cumprimentos à família.”

Foto: Romildo Guerrante - Numa das pilastras da La Fiorentina, 
Alberto Dines confere sua assinatura para a posteridade

Texto e imagens reproduzidos do site: jb.com.br/cultura