segunda-feira, 18 de junho de 2018

A enciclopédia do futebol

Imagem reproduzida do site a8se.com/tv-atalaia e  postada 
pelo blog "Meio Impresso", para ilustrar o presente artigo. 

Texto publicado originalmente no site Alô News, em 15/06/2018

A enciclopédia do futebol

Por Ivan Valença *

Nestes dias de Copa do Mundo sempre me vem a lembrança daquele que foi pra mim o símbolo do futebol, como esporte muito querido no Brasil e no resto do mundo. Não deixa de vir a minha lembrança um professor, jornalista, arquivista de primeira linha. Refiro-me a Francisco Viana Filho, mas todos o tratavam por Tito. Ex-professor na Escola Industrial quando está ainda funcionava no centro da cidade.

Mas o que ele gostava de ser mesmo era jornalista e o arquivista que esclarecia todas as dúvidas de torcedores que o procuravam para tirar suas dúvidas. Tito parecia ser uma máquina ambulante. Tinha as respostas na ponta da língua, não importando que a pergunta fosse de “cabo de esquadra”, ou seja, bem difícil mesmo. Nunca o vi pedindo um tempo para pesquisar para oferecer a resposta certa.  Vi, por uma ou duas vezes somente, ele dizer que não tinha a resposta naquele momento. No outro dia voltava com a resposta fundamentada através de dados até do século passado.

Ele morava na Rua de Capela, entre a Rua Laranjeiras e a Rua de Propriá. A casa ainda existe, só não sei onde foi parar o monumental arquivo de Tito, composto de jornais, livros, revistas e gravações de gols importantes de muitos clubes sergipanos, alguns do Nordeste, mas principalmente, da Seleção brasileira.

Um belo dia ele organizou um torneio de jogos de botão. Na mesa que foi preparada por ele, haviam doze concorrentes que não pagavam nada para entrar na casa dele ou participar do campeonato. Em compensação, também não havia premiação ao final do campeonato. Meu dileto amigo, Simões Filho, que morava quase vizinho a mim na Rua de Laranjeiras, foi quem me levou a conhecer Tito. Ele por seu turno me incentivou a criar o arquivo de cinema que ainda disponho e organizo. Tito era de um bom humor incalculável. De tudo extraia uma historinha curiosa, engraçada, arrancando risadas de quem estava prestes a ouvi-lo.

Quando chegava a redação da “Gazeta de Sergipe” era obrigado a desfiar muitas piadas para acalmar os queridos coleguinhas. Em épocas de Copa do Mundo a casa de Tito virava um verdadeiro estádio de futebol, inclusive com muitas torcidas.
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* Colunista do Portal Alô News - Ponto de Vista

Texto reproduzido do site: alonews.com.br

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Carta aberta do diretor do EL PAÍS à Redação do jornal

Antonio Caño, na redação do EL PAÍS. Ricardo Gutiérrez 

Publicado originalmente no site El País Brasil, em 3 de março de 2016  

Carta aberta do diretor do EL PAÍS à Redação do jornal

Antonio Caño fez uma reunião com a equipe para explicar a iminente transformação do jornal em um veículo essencialmente digital

Por Antonio Caño 

Conversamos nesta manhã sobre a dura realidade enfrentada pela nossa profissão e pelos jornais em todo o mundo. No EL PAÍS, estamos fazendo ajustes há algum tempo e conseguimos realizar a transformação digital paliando, na medida do possível, os danos que está provocando no nosso setor. Felizmente, e apesar das dificuldades, continuamos sendo o jornal impresso mais vendido na Espanha, com bastante distância sobre nossos concorrentes, e nossas edições digitais alcançaram, nos últimos dezoito meses, crescimentos espetaculares que transformaram o EL PAÍS no meio de comunicação em espanhol mais acessado e lido no mundo.

Graças ao sacrifício e à colaboração de vocês estamos em uma posição competitiva e em condições de prolongar a liderança do EL PAÍS. Mas isso não significa que a batalha esteja ganha ou que nossa sobrevivência esteja garantida. A revolução que afeta os meios de comunicação ainda não foi concluída, o panorama ainda é muito confuso. A crise, provavelmente, ainda não chegou ao fundo do poço. A transferência de leitores do papel para o digital é constante. Podemos encarar como fato consumado que o hábito de comprar o jornal em banca reduziu-se a uma minoria. A maioria das pessoas, principalmente os mais jovens, busca a informação em outros suportes e a consome de forma diferente.

A situação ainda continua incerta também no mundo digital. A transferência maciça de leitores da Web para os telefones celulares, bem como o surgimento de novos dispositivos móveis e de ameaças recentes como os bloqueadores de publicidade, juntamente com outras mais conhecidas como a instalação da cultura da gratuidade, tornou muito complexo também o horizonte no campo das novas mídias. Estou começando a ter a impressão de que a passagem do papel para o digital é apenas um e não o maior dos muitos passos que os jornais terão de dar até alcançar o nosso verdadeiro espaço futuro.

A passagem do papel para o digital é apenas um dos muitos passos que teremos de dar até alcançar o nosso verdadeiro espaço futuro

Essas mudanças, como todas as mudanças, têm grandes vantagens. A primeira e mais importante é que milhões de pessoas em todo o mundo hoje mostram interesse e têm capacidade para acessar os nossos produtos. Mas, sem dúvida — e isso é o que mais nos angustia hoje —, este novo tempo é também um grande desafio para todos nós. E uma grave ameaça para aqueles que duvidam ou resistam ao avanço incontido da transformação do nosso trabalho e do negócio que o mantém.

No EL PAÍS nós decidimos não apenas não ter medo da mudança, mas antecipar-nos na medida do possível para estar na vanguarda dessa mudança, assim como estivemos na vanguarda do nascimento da imprensa independente na Espanha e na da informação de qualidade e competitiva em espanhol.

Nossos valores

É bom olhar por um momento para trás e lembrar como tudo começou e que é a razão primeira pela qual estamos aqui. No dia 4 de maio comemoraremos nosso 40º aniversário. Naquele primeiro número, Juan Luis Cebrián afirmou que este jornal tinha sempre sonhado consigo mesmo como um jornal independente, capaz de rejeitar as pressões que o poder político e o poder do dinheiro exercem continuamente sobre o mundo da informação.

Vamos mudar, sim, mas não vamos renunciar aos valores de liberdade e independência que nos trouxeram até aqui. Incorporaremos novas dinâmicas de trabalho que sejam capazes de aumentar a qualidade e a quantidade dos conteúdos e dos produtos que o EL PAÍS oferece e que hoje podem ser lidos em papel, por meio de aplicativos móveis, televisões inteligentes ou redes sociais. Mas estaremos vigilantes para que em todas essas plataformas a marca do EL PAÍS esteja presente.

Não vamos renunciar aos valores de liberdade e independência que nos trouxeram até aqui

Depois de mais de um ano e meio de trabalho e discussões, estamos nos aproximando de um momento-chave na história do EL PAÍS. Nos próximos dias estará concluída a primeira fase do trabalho que habilitará a nova redação, e com isso chegará o momento da conversão do EL PAÍS em um jornal essencialmente digital; em uma grande plataforma geradora de conteúdos que serão distribuídos, entre outros suportes, no melhor jornal impresso da Espanha. Assumimos o compromisso de continuar publicando uma edição impressa do EL PAÍS da mais alta qualidade durante o maior tempo possível. Mas entramos ao mesmo tempo na construção de um grande meio de comunicação digital de alcance global que possa atender às demandas dos novos e futuros leitores. O eixo desse meio será a informação. Suas ferramentas serão todas aquelas que a tecnologia puser à nossa disposição. No momento, como já estão vendo, apostamos na imagem e no vídeo como um grande instrumento de comunicação de massa. Esse meio é e será cada vez mais americano, pois é na América onde o nosso crescimento é maior e nossa expansão mais promissora.

Para tudo isso, como já dissemos, estamos fazendo obras que facilitem a transição do trabalho de ontem ao de amanhã. Vamos passar daquilo que o setor chamou de “integração de redações” para um novo sistema de sincronização de equipes e canais. Vamos implementar modernas ferramentas de comunicação para atender com rapidez e qualidade as demandas de informação transparente de uma sociedade cada vez mais exigente com a tarefa que nos confiou.

Será uma redação sem escritórios, aberta à colaboração e à troca de ideias, na qual as equipes se misturarão para construir novas histórias. A partir de agora, no coração da planta principal será instalado um moderno espaço aberto dedicado à criação e à coordenação de informações e sua distribuição nos diferentes canais. O centro dessa redação contará com uma moderna ponte de comando, na qual haverá perfis jornalísticos, de desenvolvimento tecnológico, de edição gráfica e de vídeo, de design, de produção, de medição de audiência, de redes sociais, de SEO [otimização de sites] e de controle de qualidade. A partir dali serão criadas novas narrativas e novas formas de comunicação que continuarão a manter este jornal na vanguarda do jornalismo global.

Nossos leitores

Toda essa mudança tem um objetivo principal: manter-nos conectados com cada um dos nossos leitores. O EL PAÍS sempre foi uma organização jornalística focalizada em seus sempre atentos e informados leitores. Hoje ele deve sê-lo ainda mais: temos de continuar a ser um jornal que atende as necessidades e demandas daqueles que nos consultam, que nos leem, que confiam em nós. Não trabalhamos para ninguém mais importante do que o leitor, mas sabemos que os leitores de hoje se tornaram usuários que estão em lugares muito diferentes e vêm até nós não só comprando um exemplar a cada dia, mas também por meio do nosso site, por meio do telefone celular ou de seus perfis nas redes sociais.

Este novo espaço pretende continuar sendo o melhor lugar para publicar os mais importantes jornalistas, escritores, ilustradores, fotógrafos, designers e outros criadores de informação e cultura em língua espanhola, mas hoje o conteúdo é tão importante quanto a forma de fazê-lo chegar ao nosso público. Portanto, além das assinaturas, estamos nos dotando de novos sistemas de trabalho e ampliando nossos planos de formação para poder moldar os conteúdos jornalísticos de modo que sejam fáceis de encontrar, de ler e de ver, porque os leitores consomem com cada vez mais avidez os conteúdos multimídia. Nessa linha, o lançamento do EL PAÍS Vídeo foi um dos mais recentes sucessos. Experiências com as quais aprendemos muitas coisas.

Este jornal precisa de todos aqueles que tragam criatividade e bom trabalho

Para facilitar a implementação de tudo isso, reforçamos nossa equipe de direção com novos perfis, mais adaptados às necessidades atuais. Embora eu não tenha dúvida da sua capacidade e esforço, nem eles nem qualquer um de nós conseguirá o difícil objetivo almejado se vocês não nos acompanharem, se não nos ajudarem com suas sugestões, com suas críticas, com seu trabalho em busca da excelência. Acredito que temos a visão, as capacidades e o conhecimento necessários, mas queremos ouvir com humildade suas ideias e as demandas dos nossos leitores e de toda a comunidade que fez deste jornal a referência que nos deixa orgulhosos. Em Únete a la Conversación resumimos isso na nossa comunicação aos leitores. Este jornal precisa de todos aqueles que tragam criatividade e bom trabalho. Devemos fazer um esforço coletivo para mudar permanecendo fieis a nós mesmos e para torná-lo ainda melhor, e espero que seja desfrutando e sendo felizes enquanto realizamos essa viagem emocionante.

O EL PAÍS segue seu caminho para comemorar seus próximos 40 anos mais vivo do que nunca. Você está convidado a participar dessa linda aventura de inventar o futuro desta casa que você construiu e que é o nosso jornal.

Muito obrigado pela sua confiança e esforço.

Um abraço

Antonio Caño

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

O EL PAÍS é um jornal de esquerda?


Redação do EL PAÍS na Espanha.

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 22 FEV 2017 

O EL PAÍS é um jornal de esquerda?

“O EL PAÍS queria, quer ser e é um jornal que conta as coisas que interessam aos leitores e não se cala sobre as coisas que incomodam o poder”, afirma o fundador do EL PAÍS

Por Juan Arias 

Há leitores da edição brasileira do EL PAÍS que estranham, e às vezes até mesmo se irritam, quando aparecem informações ou análises que possam parecer críticas à esquerda. E se perguntam se o jornal “será como os outros”. Isso talvez se deva ao fato de que alguns leitores brasileiros que desembarcaram tarde neste jornal desconheçam a sua história.

O EL PAÍS nasceu há 40 anos como o jornal da nova Espanha democrática, após a terrível guerra “incivil” e décadas de ditadura franquista com desprezo aos direitos humanos. Mas não foi à época, nem é agora, um jornal ideológico de esquerda ou de direita. Segundo Juan Luis Cebrián, hoje presidente do Grupo Prisa, que edita o jornal, além de ter sido seu criador e primeiro diretor, recrutador da primeira redação com diversidade e que decidiu a sua linha editorial, o EL PAÍS deveria ser, acima de tudo, um jornal plural. Aos 31 anos, Cebrián queria um diário de referência sobretudo para os jovens, naquele momento crítico em que começava a nascer uma geração com fome de democracia.

Cebrián acaba de recordar isso em sua autobiografia, Primera Página (sem tradução no Brasil), quando escreve: “Queria fazer um jornal de perfil equilibrado e sucinto, um jornal sóbrio, bem escrito, documentado em suas análises e plural em suas opiniões.” E acrescenta que sua ideia foi fazer um periódico “lido e respeitado, tanto pela elite como pelas pessoas comuns, que desempenhasse um papel essencial na formação da opinião pública”.

Um jornal de esquerda? Cebrián respondeu a essa pergunta em 11 de dezembro de 2016 no programa de Jordi Evole, que faz muito sucesso na rede de TV espanhola La Sexta: “O EL PAÍS queria, quer ser e é um jornal que conta as coisas que interessam aos leitores e não se cala sobre as coisas que incomodam o poder”. E explica: “Quando começamos, a esquerda não tinha voz e tomamos a decisão de lhe dar, mas acredito que nunca foi nem deva ser um jornal de esquerda. Alinhou-se com as posições liberais progressistas e defendeu a democracia quando esta não existia.”

Para conseguir que o EL PAÍS fosse um jornal de referência internacional, Cebrián quis colocá-lo na linha das grandes publicações da Europa da época. Assim, foi o primeiro jornal da Espanha a contar com a figura do ombudsman e com um Manual de Estilo, espécie de Constituição interna para os jornalistas que foi adotada por muitos outros jornais de língua espanhola. Seu fundador também desejava que fosse o primeiro jornal da Espanha, e talvez do mundo, cujas primeiras páginas se dedicassem à seção Internacional. Isso porque, como explicou numa conferência em Roma, a Espanha havia vivido 40 anos com as janelas e portas fechadas ao mundo, olhando para o próprio umbigo. Os espanhóis precisavam, antes de mais nada, conhecer o que acontecia em outros rincões. Ainda hoje, o EL PAÍS, com um importante grupo de correspondentes internacionais, valoriza como poucos as informações mundiais.

Uma das figuras de maior prestígio na equipe, a jornalista Soledad Gallego-Díaz, recebeu de Cebrián a oferta de dirigir o jornal quando ele deixou o cargo. Mas acabou recusando. Ela abordou o tema da ideologia numa entrevista à revista Jot Down, em 23 de março de 2012: “O EL PAÍS não é um jornal de esquerda. Nunca foi, ainda que as pessoas tenham pensado nisso em certo momento. É um jornal progressista no âmbito social, mas não um jornal de esquerda. Além disso, nunca pretendeu ser.” Antonio Caño, outra figura histórica do jornal, atual diretor do EL PAÍS global, enfocou o tema em outra entrevista a Jot Down, em 23 de junho de 2014, pouco depois de assumir. “A única coisa que desejo é tirar o jornalismo do debate esquerda-direita. O jornal não pode ser medido por esses parâmetros porque são muito pobres para um meio de comunicação”, disse. E completou: “O EL PAÍS não é um jornal de esquerda. Nem pretendeu ser. É um jornal liberal, progressista, que se conecta com as tendências de modernizar e de conseguir o progresso da sociedade à qual se dirige. Somos socialmente responsáveis e avançados. E gostamos das mudanças... Jornalismo é jornalismo, contar as coisas sem armadilhas.”

Pessoalmente, faz 40 anos que trabalho exclusivamente para este jornal, quase desde a sua fundação. E, durante todo esse tempo, pude comprovar em primeira mão que o EL PAÍS nunca se vinculou com nenhuma ideologia. Sempre foi, e continua sendo, um jornal comprometido com a democracia e a defesa das minorias marginalizadas. Um jornal laico, que sempre defendeu a separação entre a Igreja e o Estado. Liberal na economia, progressista no campo social, crítico em relação aos poderes civis e religiosos, fiel na defesa dos direitos humanos. E, sobretudo, plural em suas ideias. Algo que sempre esteve claro para todos nós, que trabalhamos nele, é que o EL PAÍS é dos leitores. De todos. São eles os seus verdadeiros proprietários. Os jornalistas são apenas os mediadores da notícia.

Em suas memórias, Cebrián também conta como o partido socialista espanhol, PSOE, pretendeu se apoderar do jornal, já que seus eleitores o liam intensamente. “Ficamos quase dois anos sem dirigir a palavra um ao outro”, escreve, referindo-se ao presidente do Governo socialista e seu amigo pessoal, Felipe González. O falecido Jesús de Polanco, primeiro presidente do Grupo Prisa, me contou que, quando o conservador Partido Popular (PP) venceu as eleições na Espanha, em 1996, o novo presidente do Governo, José María Aznar, convidou-o para um almoço no Palácio da Moncloa. No meio da refeição, Polanco perguntou o que o presidente queria dele. Aznar respondeu: “O EL PAÍS.” E Polanco, que tinha um arguto senso de humor, então lhe disse: “Pena que me pede algo que não é meu, pois o jornal é dos leitores.”

Esse foi e continua sendo o maior orgulho, a única ideologia de um jornal que nutriu três gerações e que hoje é lido também por milhões de brasileiros em sua própria, bela e doce língua.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Audálio Dantas (1929 - 2018)


Audálio Dantas nasceu em Tanque D’Arca (AL), em 8 de julho de 1929.

Começou como repórter da Folha da Manhã (antiga Folha de S.Paulo), em 1954, escrevendo textos sobre temas cotidianos, sem usar expressões que a publicação considerava elegantes na época. Em 1955, quando perceberam na redação o seu interesse por assuntos culturais, foi guindado à Secretaria do Suplemento Dominical, dirigido pela escritora Maria de Lurdes Teixeira – que viria a ganhar dois Prêmios Jabuti.

Embora o que mais gostasse na época fosse acompanhar a paginação do caderno na oficina, foi trabalhando nele que conquistou seu primeiro prêmio de reportagem: uma entrevista “não dada” por Guimarães Rosa, que lançava Grande Sertão: Veredas na capital paulista. O repórter conta que chegou à livraria onde ocorria o lançamento e, após ter seu pedido de entrevista negado pelo grande escritor e diplomata, ficou por perto e anotou as respostas dadas aos leitores e algumas dedicatórias assinadas pelo mestre. Esse material lhe possibilitou escrever a matéria.

Em 1956, o diretor de Redação da Folha da Manhã Mazzei Guimarães despachou-o para a cidade de Paulo Afonso (BA), onde a Hidrelétrica do São Francisco começava a mandar energia para os estados do Nordeste. Além de descobrir como a eletricidade começava a influir na economia da região, aproveitou para trazer várias matérias sobre outros assuntos, todas com fotos.

Além da fama de bom repórter, foi conquistando a de que tinha um bom texto. E continuava fazendo algumas reportagens de sucesso. Costuma apontar como a mais importante de sua carreira a que produziu com o diário de uma moradora da favela do Canindé, em São Paulo (SP). A ideia inicial era observar o local por uma semana para uma reportagem, mas, no segundo dia, ouviu Carolina de Jesus gritar para quem quisesse ouvir que denunciaria todas as mazelas dos favelados num livro que estava escrevendo.

O livro realmente existia – na realidade, uma série de cadernos manuscritos – e precisou apenas de uma abertura e uma seleção do repórter para virar matéria jornalística de primeira. A Folha da Noite a publicou e obteve grande repercussão. Em 1959, logo após ser convidado para trabalhar na revista O Cruzeiro (RJ), fez outra matéria com Carolina, e desta vez a repercussão foi internacional. O diário foi novamente compilado e resultou no livro Quarto de despejo: diário de uma favelada (Ática, 1960), de Carolina Maria de Jesus, que foi traduzido para 13 idiomas.

Em O Cruzeiro, Audálio foi redator e chefe de Reportagem. Lá permaneceu até 1966, quando passou para a Quatro Rodas (SP), da Editora Abril, onde começou como editor de Turismo. O cargo lhe dava oportunidade de fazer muitas viagens. No roteiro que fez do Brasil ao México, por terra, deparou-se com a chamada Guerra do Futebol (conflito entre Guatemala e Honduras, ocorrido entre 14 e 18 de julho de 1969) e, assim, de repente, virou correspondente de guerra da revista Veja (SP).

Com o destaque obtido na editoria, foi promovido a redator-chefe. Fez outras matérias de repercussão: entre outras, denunciou o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, que abrigava dez mil pacientes a mais que sua capacidade, e fez uma série sobre Canudos (BA), que estava condenada a desaparecer com o represamento do rio Vaza-Barris.

Denunciou, em outra reportagem, a maratona de quatro dias de dança de carnaval promovida pela TV Record (SP). Apesar de pagar prêmios aos vencedores, Audálio a via como um verdadeiro massacre. Após o envio da matéria para a redação do Rio de Janeiro, recebeu um telex assinado por Odylo Costa, Filho, que disse ter terminado de ler a matéria chorando. Foi de grande importância, já que, além de diretor da revista, Odylo era um reconhecido intelectual da época.

Na revista Realidade (SP), Audálio foi também redator e editor de muitas matérias importantes. Produziu, com Múcio Borges da Fonseca, uma edição especial sobre o Nordeste brasileiro que recebeu o Prêmio Sudene de Jornalismo de 1972. Depois de Realidade, foi chefe de Redação da revista Manchete (RJ) e editor de Nova (SP).


Em 1975, assumiu a Presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. No dia 29 de outubro daquele ano, em pleno período ditatorial, o órgão denunciou as omissões do caso da morte do jornalista Vladimir Herzog, quatro dias antes, sem temer as repercussões. Foi um marco importante no processo de redemocratização do País.

Deixou a presidência do sindicato em 1978, eleito deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Considera ter dedicado 90% do seu mandato à luta pelas liberdades em geral e, especificamente, pela Liberdade de Imprensa. Nunca deixou de lutar pelo Jornalismo.

Em 1981 recebeu o Prêmio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU, por sua atuação em prol da defesa dos direitos humanos.

Foi o primeiro presidente eleito por voto direto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em 1983. Em junho de 2005 foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). No cargo, organizou em 2007 o Salão do Jornalista Escritor, que reuniu personalidades do Jornalismo Literário. Mas ao perceber que seus esforços não eram reconhecidos, deixou a entidade em 2008.

Foi diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação (SP), da Editora Segmento MC, de junho de 2008 a dezembro de 2014, quando passou a dedicar-se exclusivamente à produção de eventos culturais..

Muitas reportagens de Audálio foram transformadas em livros, como O circo de cesespero (Símbolo, 1976), Tempo de luta – Reportagem de uma atuação parlamentar (Independente, 1981) e O chão de Graciliano (Tempo d’Imagem, 2007), este com fotos de Tiago Santana. Lançou, no final de novembro de 2009, o livro O Menino Lula pela Editora Ediouro, reunindo histórias contadas pelo próprio protagonista, sobre a infância de Luiz Inácio Lula da Silva, as lutas sindicais até a conquista da Presidência, com fotos do acervo pessoal da família. Em julho de 2012 fez uma compilação de 13 de seus melhores textos para a obra Tempo de reportagem (Editora LeYa), em que conta os bastidores da produção de cada matéria escolhida. Também lançou o livro As duas guerras de Vlado Herzog (Civilização Brasileira), contando como o jornalista foi vítima dos nazistas na Iugoslávia, nos anos 1940, e das forças de repressão da ditadura militar brasileira, que o mataram em 1975.

Em junho de 2012 Audálio foi designado Jornalista do Ano pela Anatec – Associação Nacional Editores Publicações Técnicas Dirigidas Especializadas.No mês seguinte J&Cia publicou edição especial que celebrou seus 80 anos com um resumo da trajetória de Audálio; depoimentos de amigos e admiradores, entre os quais Helena Chagas, Juca Kfouri, Washington Olivetto e Carlos Chaparro; e uma entrevista dele tendo por base o livro Tempo de reportagem, lançado no mesmo ano.
Em solenidade realizada em janeiro de 2013, durante o Seminário Internacional Direitos Humanos e Jornalismo, foi instalada a Comissão Nacional da Memória, Justiça e Verdade dos Jornalistas Brasileiros, que anunciou Audálio Dantas como seu presidente. A condução dele ao cargo foi um reconhecimento pela atuação como presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo num dos momentos mais dramáticos da vida brasileira diante do regime de exceção, que culminou com a morte do jornalista Vladimir Herzog. No foco de trabalho do presidente Audálio estavam os casos de violações dos direitos humanos cometidos contra jornalistas brasileiros no período de 1964 a 1988. Na solenidade, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lembrou que “o outro nome da democracia é direitos humanos”.

Com curadoria de Audálio Dantas e a presença de mais de 30 consagrados autores, foi aberto em agosto de 2013 o II Salão Nacional do Jornalista Escritor no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Ainda em agosto, indicado por 50 associados da União Brasileira de Escritores, o livro dele As duas guerras de Vlado Herzog foi indicado candidato único ao Troféu Juca Pato, o que lhe valeu o Prêmio Intelectual do Ano da UBE e foi entregue em novembro daquele ano.

O mesmo livro venceu em novembro de 2013 os prêmios Jabuti de Reportagem e de Livro do Ano – Não ficção, concedidos pela CBL – Câmara Brasileira do Livro.

Com fotografias de Tiago Santana, Dantas lançou em abril de 2014 o livro Céu de Luiz – 100 anos de Luiz Gonzaga, pela editora Tempo D'Imagem. A obra é uma homenagem ao centenário do Rei do Baião, e, mais do que uma biografia, trata da região de Pernambuco em que ele nasceu e do Cariri cearense. Este é o segundo trabalho ao lado de Tiago, com quem lanço O chão de Graciliano (Ed. Tempo d'Imagem, 2006).

Após sete anos de dedicação Audálio Dantas deixou a Negócios da Comunicação em dezembro de 2014 para se dedicar a projetos culturais. É parceiro de J&Cia nessa área desde abril de 2015.

Em outubro de 2015 Audálio Dantas assumiu a curadoria do Encontro de Tiradentes, (MG). O evento, apoiado por este Portal dos Jornalistas, tem de e apoio da Prefeitura de Tiradentes e conta com a presenças confirmadas de Míriam Leitão, José Paulo Kupfer e Richard Rytenband, além de Eduardo Ribeiro. Na mesa sobre ética estarão Domingos Meirelles, Vera Guimarães e Juca Kfouri. A mesa será moderada por João Rodarte.

Foi eleito em 2015 entre os ‘TOP 50’ dos +Admirados Jornalistas Brasileiros. A votação é realizada por Jornalistas&Cia em parceria com a Maxpress. 

Texto e imagem reproduzidos do site: portaldosjornalistas.com.br

Jornalista Audálio Dantas morre aos 88 anos

Crédito:Jonathan Lins/G1

Publicado originalmente no site da revista Imprensa, em 30/05/2018 

Jornalista Audálio Dantas morre aos 88 anos

Redação Portal IMPRENSA 

O jornalista e escritor Audálio Dantas, 88 anos, morreu nesta quarta-feira (30), no Hospital Premiê, em São Paulo, após uma dura batalha de quase três anos contra o câncer. As informações são dos principais sites de notícias do país.

Dantas estava internado desde abril para tratar um câncer que começara no intestino e acabara por atingir o fígado e os pulmões.

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo entre 1975 e 1978, ele foi um dos responsáveis por denunciar que o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto no DOI-CODI --o que contrariava a versão oficial do governo, de suicídio.

Natural de Tanque D’Arca (AL), Audálio iniciou no jornalismo em 1954, como repórter do jornal “Folha da Manhã” (atual “Folha de S.Paulo”). Cinco anos depois, mudou-se para a revista “O Cruzeiro”, onde foi redator e chefe de reportagem.

Ao longo de sua carreira, Dantas trabalhou em diversas publicações da Editora Abril, entre elas “Quatro Rodas”, “Veja” e a prestigiada “Realidade”. Foi chefe de redação da revista “Manchete” e editor da “Nova”. Filiado ao antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), foi eleito deputado federal pelo partido, em 1978.
  
Em 1981 recebeu o Prêmio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU por sua atuação em prol da defesa dos direitos humanos. Em 1983, foi presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Entre outras atividades, ele também foi diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação, da Editora Segmento MC, de junho de 2008 a dezembro de 2014, quando passou a dedicar-se à produção de eventos culturais.

Lançou diversos livros, entre eles "As duas guerras de Vlado Herzog", em que conta como o jornalista foi vítima dos nazistas na Iugoslávia, nos anos 1940, e das forças de repressão da ditadura militar brasileira.

Em seu blog Balaio do Kotscho, o jornalista Ricardo Kotscho lamentou a morte do amigo:

30 de Maio de 2018 

Morreu o grande jornalista Audálio Dantas, um digno cidadão brasileiro. 

Por Ricardo Kotscho

Fiquei sabendo agora pela Thaís, neta dele, que trabalha com minha filha Mariana, uma notícia muito triste para todos os jornalistas e cidadãos brasileiros: morreu meu amigo Audálio Dantas, um cara que batalhou pela vida até o seu último suspiro.

Estive com ele poucos dias atrás num almoço com velhos amigos no Hospital Premier, onde ele viveu seus últimos dias, com a mesma dignidade de toda uma longa jornada de lutas, nem sei de quantos anos, porque até hoje há controvérsias, mas foram muitos, alguma coisa entre 80 e 90.

Trabalhou até onde deu, vivia com muito aperto apenas dos seus escritos, que lhe garantiam a sua sobrevivência e a da brava e unida família Dantas, comandada pela guerreira Vanira.

Audálio há tempos sofria de muitos achaques da saúde, um após outro, mas tenho certeza de que morreu foi mesmo de tristeza, ao ver o que fizeram do seu país, pelo qual sempre foi muito apaixonado.

Nas nossas últimas conversas, ele já estava desesperançado de que a nossa geração ainda conseguisse ver o Brasil com que sonhamos a vida toda, mais justo, mais humano, mais decente.

Sertanejo valente das Alagoas, este brasileiro de muito talento e firmeza foi um dos protagonistas da passagem da ditadura para a democracia, quando falar a verdade sobre o assassinato do jornalista Vlado Herzog nos porões da ditadura era correr risco de vida.

Para quem quiser saber mais sobre a sua história, é só entrar no Google, porque agora vou ao velório para ver se é verdade que ele morreu mesmo.

Homens como Audálio Dantas nunca deveriam morrer. Continuarão vivos na nossa lembrança como exemplo dos brasileiros que não se vergaram nunca.

Vida que segue para quem fica.

Texto e imagem reproduzidos do site: portalimprensa.com.br

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Adeus à ‘Interview’, a revista com que Andy Warhol sonhou...

Leonardo DiCaprio fotografado por Bruce Weber 
para a capa de junho de 1994

Publicado originalmente no site Brasil El País, em 23 de maio de 2018

Adeus à ‘Interview’, a revista com que Andy Warhol sonhou (e todos nós)

Publicação acaba depois de cinquenta anos e em meio a uma complicada situação legal, mas deixa um legado incomensurável de capas históricas e entrevistas estranhas e brilhantes

Por Guillermo Alonso 

A revista Interview, fundada por Andy Warhol em 1969, deixará de ser publicada este ano, depois de quase cinquenta anos em circulação. Conhecida como “a bola de cristal do pop”, a publicação chega ao fim em meio a um complexo processo de acusações e dívidas (um de seus últimos diretores, Fabien Baron, reclama 600.000 dólares a Peter Brant, dono da revista desde 1989). Um final triste e confuso para uma revista que sempre teve como marca registrada exatamente o contrário: a alegria naif e multicolorida e uma abordagem, tanto gráfica e quanto editorial, surpreendentemente simples (que é, finalmente, o mais difícil de conseguir).

Existem duas coisas que chamam a atenção a respeito da Interview. A primeira, as capas de sua era dourada, nos anos setenta e oitenta, obra do falecido Richard Bernstein. Criador de uma espécie de proto-Photoshop, Bernstein trabalhava sobre fotografias originais das celebridades entrevistadas, destacava suas feições com lápis e pintava suas peles com cor pastel. Essas imagens – já glamorosas por si mesmas – se tornaram o cúmulo do kistch, numa espécie de aparição angelical que, uma vez na banca de jornal, não se parecia com nenhuma outra capa.

O outro elemento reconhecível da Interview eram suas entrevistas, sempre feitas por um famoso a outro, desenvolvidas (muito na linha definida pelo próprio Warhol e sua forma de entender o mundo) como uma conversa descontraída que se tentava plasmar em estado bruto na edição final. Assim, era comum que uma conversa telefônica começasse com o entrevistador perguntando ao entrevistado onde ele estava e como estava o tempo e acabasse com uma despedida cordial. Às vezes, o famoso entrevistador era o próprio Warhol, claro. Devemos-lhe aquela que é provavelmente a entrevista canônica da revista: a de Diana Ross, em 1981, na qual, durante um almoço no restaurante do hotel Carlyle, em Nova York, a conversa derivou para o cardápio e a comida.

ROSS: Por que não pedimos? O que vai comer?

WARHOL: Eu não entendo os cardápios em francês.

ROSS: Você não passa tempo na Europa, Andy?

WARHOL: Eu costumava ir à Alemanha uma vez por mês.

ROSS: Eu pensava que você fosse a Paris uma vez por mês.

WARHOL: Paramos em Paris quando vamos para a Alemanha.

ROSS: Então, como é que você não fala francês? Você deveria entender o cardápio.

WARHOL: Tenho pessoas como Bob (Colacello) para fazer isso.

Depois acabaram pedindo um hambúrguer com batatas fritas para cada um. A tendência continuou ao longo do tempo. Preste atenção ao início da conversa entre Beyoncé (entrevistadora) e sua irmã Solange (entrevistada) para a edição de janeiro de 2017.

BEYONCÉ: Você está cansada? Eu sei que você teve uma reunião de pais na escola...

SOLANGE: Sim, tive de voar para a Filadélfia porque não havia voos para Nova York. E agora estou dirigindo da Filadélfia para Nova York. Bem, eu não estou dirigindo...

BEYONCÉ: Você tem de dirigir? Da Filadélfia?

SOLANGE: Sim, não é para tanto. É uma hora e quarenta minutos.

Na última fase da revista (que Fabien Baron implantou uma apresentação gráfica muito mais sombria), as perguntas continuavam sendo espontâneas, mas já com o filtro da contemporaneidade sobre elas. A escritora, apresentador e ativista transexual Janet Mock começou assim sua conversa por telefone com Kim Kardashian West há apenas dez meses: “Eu ia começar perguntando o que você faz, mas acabo de ver no Snapchat que você está com sua filha North e que acaba de dar outro nome ao seu cachorro”.

A sensação que a Interview dava ao leitor era inaudita em qualquer outra publicação: era a da proximidade, a de sentir como um igual as estrelas de cinema, aristocratas e milionários que falavam sobre a vida cotidiana, e também a de sentir como um igual os próprios autores daquela revista, que faziam que seu trabalho (as entrevistas quase sem edição e publicadas em estado bruto, as fotos coloridas à mão, o projeto gráfico aparentemente simples e tosco) parecesse fácil. Que parecesse que nós mesmos podíamos fazer a mesma coisa. Isso, para quem quer trabalhar no jornalismo, não tem preço. E para isso, para nós que nos dedicamos a isso, a notícia do fim da revista é especialmente triste. Centenas de celebridades apareceram nas páginas da Interview, mas diante delas surgiram milhares de pessoas que sabiam que era exatamente isso o que queriam fazer. Porque parecia um trabalho digno e inspirador, mas, principalmente, parecia divertidíssimo.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

O que levou Ana Paula Padrão a assumir a Claudia

“Não há apenas um feminismo, mas diversas causas femininas” (Crédito: Arthur Nobre)

Publicado originalmente no site Meio & Mensagem, em 5 de setembro de 2017 

O que levou Ana Paula Padrão a assumir a Claudia

Oficialmente como diretora de redação, a jornalista, que estreia nova temporada do MasterChef Profissionais, fala de sua identificação com a revista da Editora Abril

Por Luiz Gustavo Pacete

Na manhã da última quarta-feira, 30 de agosto, a jornalista e apresentadora Ana Paula Padrão reuniu, em São Paulo, dezenas de executivas e profissionais de marcas e agências. Na ocasião, Ana Paula oficializou sua chegada à Claudia como diretora de redação. Entre várias novidades apresentadas por Ana estava o novo posicionamento da revista: #eutenhodireito que, segundo a própria diretora, busca dar voz e visibilidade aos direitos já conquistados pelas mulheres.

“Não há apenas um feminismo, mas diversas causas femininas. Cada mulher pode escolher a sua”, disse Ana Paula durante a apresentação. Em entrevista ao Meio & Mensagem, ela explica por que aceitou o convite de Claudia e comenta o desafio de falar a linguagem da mulher moderna que, atualmente, se vê representada por vários movimentos. Ela também comenta o que aprendeu conduzindo o MasterChef, cuja nova temporada com cozinheiros profissionais estreia nesta terça-feira, 5.

Meio & Mensagem – Para qual mulher a Claudia pretende falar?
Ana Paula Padrão – A mulher brasileira passou por algumas fases até chegar aqui. No fim dos anos 1990, foi a fase de pressão, onde a mulher vivia a dupla jornada. Vivia exausta atendendo a agenda do outro. No começo dos anos 2000, foi uma fase de revisão dos valores que combinavam com ela, uma conexão com ela mesma. Entender que ela estava exausta de rever tantos papeis diferentes em sua jornada. Em seguida, vem a fase que eu acho linda, a das escolhas. Ela passou a optar pela felicidade sem ter que abrir mão de alguma coisa. Ela não precisava desistir de algo para ter algo. Ela podia se olhar no espelho e escolher o que a deixava mais feliz. E hoje vivemos o que eu chamo de fase 4: de afirmação. Ela já fez suas escolhas, Nada a impede de ser mãe e profissional ao mesmo tempo, nada a impede de assumir sua orientação sexual, a afirmação racial, casar ou não casar. Ela não vive mais em função da expectativa do mundo em relação a ela. Você não precisa dizer para a mulher “faça o que você quiser”. Ela já faz o que ela quer. E, neste contexto, queremos ter debaixo da hashtag #eutenhodireito um guarda-chuva que represente toda essa evolução e que seja capaz de reverberar isso em várias plataformas.

“Quando você tem um grau de pulverização de movimentos femininos que existe no Brasil, hoje, as marcas se perguntam: para qual mulher eu falo?”

M&M – O que te fez aceitar o convite da revista?
Ana Paula Padrão – Sempre foi um veículo que antecipou ou corroborou determinados movimentos muito importantes para a história da mulher. O que precisamos atualmente, é reposicionar Claudia como marca. O conteúdo é muito bom e muito adequado, mas ela precisa ter a linguagem que as mulheres falam hoje. Quando falo em reposicionar é dar uma guinadinha neste ponto. E quando digo linguagem, me refiro, principalmente à questão de plataformas. Para dar a força de marca à Claudia. Quando eu fui anunciada na Claudia, disse que para mim era como estar em um lugar seguro. Estudo a história dos movimentos femininos no Brasil há mais de quinze anos. Esse assunto me apaixona. E, no contexto dessas discussões, eu enxergo Claudia como uma marca poderosa.  Nunca vivemos um movimento de tamanha pulverização de movimentos femininos e Claudia tem que dar voz a todos eles. Não é mais questão de plataforma. Ela não é mais uma revista de nicho para determinado tipo de mulher com tal idade. A gente fala com todas as mulheres, independentemente da idade ou momento na pirâmide social.

“Não há mais cluster, existem filhas, mães, negras, brancas, heterossexuais, homossexuais”

M&M – Neste contexto, qual o desafio das marcas?
Ana Paula Padrão – Quando você tem um grau de pulverização de movimentos femininos que existe no Brasil, hoje, as marcas se perguntam: para qual mulher eu falo? Para qual mulher eu dirijo meu discurso? Qual mulher eu quero atingir? Essas perguntas, no entanto, talvez não sejam as mais importantes e nem tão simples de ser respondidas porque já não existe um canal único de comunicação para falar com essa mulher. Não é uma questão de cluster, de idade, cultura, renda, é uma questão de respeitar todas as mulheres. Vivenciamos uma transformação forte na questão do consumo. O direito de usar o cabelo, a maquiagem e ser respeitada. Quando eu falo dessa questão do guarda chuva #eutenhodireito é pensando nisso, de abranger todos os movimentos e entender a mulher que fez escolhas. Não é um diálogo de Claudia para elas, mas é o inverso. O anunciante tem o desafio hoje de saber representar os anseios dessa mulher que sabe que tem direito. E isso precisa ser feito no digital, no presencial, na revista. Não há mais cluster, existem filhas, mães, negras, brancas, heterossexuais, homossexuais. E Claudia não é nicho, Claudia é maioria. Isso, naturalmente, implica vários cuidados.

“O MasterChef é uma experiência que vai além do conteúdo. Isso me ensinou muita coisa”

M&M – O que o MasterChef agregou a sua carreira?
Ana Paula Padrão – O Masterchef é uma experiência que vai além do conteúdo. E isso me ensinou muita coisa do ponto de vista pessoal. Outro aprendizado foi de entender como as plataformas podem trabalhar juntas para que um produto seja bem-sucedido. Já na primeira temporada entendemos que as redes sociais seriam uma alavanca muito importante para o programa. Demos as mãos e desenvolvemos maneiras de conversar com quem estava interessado. Seja a pessoa sentada na frente da TV, quem quisesse assistir no dia seguinte. Quem quisesse acompanhar tuitando. A Band foi feliz e muito rápida ao entender esse papel e sem nenhum tabu. Isso me ensinou muita coisa, hoje eu não consigo assistir ao programa sem estar na rede social. E isso eu trago para minha experiência com Claudia. Aprendi a entender o protagonismo do consumidor de conteúdo seja na TV, na internet, na revista, no digital.

Texto e imagem reproduzidos do site: meioemensagem.com.br

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Alberto Dines - Maestro das redações


HOMENAGEM A ALBERTO DINES > A CONSCIÊNCIA DA FUNÇÃO DO JORNALISMO

Maestro das redações

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 23/05/2018 na edição 988

Não haveria Observatório da Imprensa se não fosse Alberto Dines. O reconhecimento desse fato é uma unanimidade entre os colaboradores desta edição especial em homenagem ao grande mestre do jornalismo brasileiro, que nos deixou no último dia 22 de maio. Pessoas que tiveram o privilégio de desfrutar de sua convivência e amizade e testemunham sua dedicação à criação de um projeto pioneiro de crítica de mídia no Brasil. “O Observatório da Imprensa tem uma alma e essa alma tem um nome: Alberto Dines”, escreve Caio Túlio Costa no texto “Entre o cosmo sangrento e a alma pura”, republicado nesta edição.

O Observatório da Imprensa é, assim, caso único de um espaço de reflexão que, embora tenha nascido numa universidade, não é acadêmico. O então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, lembra em seu artigo “Ao Dines, com Carinho” as circunstâncias que deram origem ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Observatório da Imprensa durante um encontro entre ele, Dines e Norma Couri em Portugal, no início dos anos 1990.

O jornalista e professor Carlos Eduardo Lins da Silva discute em seu texto “Cadernos de Jornalismo e Comunicação do Jornal do Brasil” a carência de espaços para pensar o fazer jornalístico fora da academia e a importância de Alberto Dines como propulsor da crítica de mídia no país desde os anos 1960, quando trabalhava no Jornal do Brasil. “O que Alberto Dines fez durante boa parte de seus 60 anos nesta profissão foi criar, só ele e Deus sabem a que custo, condições e oportunidades para se fazer jornalismo com método e para se refletir o jornalismo com método”, uma tentativa de ‘somar experiências com reflexão resistindo à tentação de fazer ciência’.”

A experiência impactou a academia, como lembra o professor da Universidade Federal de Santa Catarina Rogério Chistofolletti, no seu “Tributo a Alberto Dines.” “Os maiores projetos acadêmicos que me dediquei nas últimas duas décadas têm claras inspirações no trabalho de Alberto Dines.”

O projeto de criação do Observatório da Imprensa foi sendo construído durante a trajetória de Alberto Dines como jornalista nos principais veículos brasileiros. Eugênio Bucci, no artigo “Aos 80 anos de um mestre”, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 2012, enaltece o trabalho incessante do jornalista. “Dines é a prova de que a experiência não concorre necessariamente para diluir os princípios e de que o caráter não esmorece. No caso do jornalista, o caráter alimenta-se da independência intelectual e material, assim como se alicerça no cultivo da liberdade e do espírito crítico – portanto, ganha vigor com o passar do tempo”.

A constituição de uma voz social única de crítica de mídia no Brasil, a partir de Alberto Dines, pode ser observada na seleção de trechos de sua autoria que fazem parte do ebook “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de mídia no Brasil de 1996 à 2018”. Pode-se ver ali o exercício da parresía, o dizer verdadeiro na tradição do pensamento grego, tão raro diante dos interesses em jogo em torno do jornalismo.

Este é um dos principais legados de Dines: conseguir sustentar um projeto autônomo para se contrapor à tradição de uma mídia que não se critica. “As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público”, anotou o mestre no início deste século.

Alberto Dines no programa Observatório da Imprensa em dezembro de 2012. (Foto: Ana Paula Oliveira Migliari/TV Brasil/EBC)

Dines sempre fez de sua experiência um espaço de resistência a todo tipo de censura. Luiz Eypto, editor do Observatório da Imprensa entre 1998 e 2015, reconstitui, no texto “A inspiração e a alma”, um conhecido episódio envolvendo o jornalista nos anos 1970. A censura brasileira queria impedir a publicação de notícias com fotografias e manchetes sobre o golpe militar chileno que depôs Salvador Allende. “Dines perpetrou, no sufoco, uma histórica capa sem foto e sem manchete, em quatro colunas de texto puro, de um impacto inolvidável para quem teve a ventura de ver o JB exposto numa banca de jornal naquela manhã distante. A edição virou item de colecionador.”

Um homem à frente do tempo que intuiu, como observa Carlos Castilho, no texto “Um visionário por convicção e necessidade”, que “a observação crítica da imprensa viria a se transformar numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news”.

A jornalista Norma Couri, no artigo “Ai, que terra boa pra se farrear”, observa a relevância de um espaço como o portal do Observatório da Imprensa no contexto do excesso de informação da sociedade contemporânea. “O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar na mídia”.

Num depoimento recente a Norma Couri, também publicado nesta edição, Dines explica que a escolha do nome do Observatório da Imprensa teve como inspiração o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), criador da mecânica quântica. “Ele dizia que, ao observar um fenômeno, você interfere no fenômeno. Ao observar a imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar”. E completa: “Preocupa perceber que a crítica da mídia desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico.”

Como disse Luiz Egypto, entre os semeadores e os coveiros, Dines alista-se no primeiro grupo. Foi um maestro das redações que nos ensinou a fugir dos saberes estabilizados e da auto-complacência. Por essas e outras, Dines é uma voz que fará muita falta ao jornalismo e à sociedade brasileira. E sua trajetória é um convite a prosseguirmos

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Um visionário por convicção e necessidade

Por Carlos Castilho em 23/05/2018 na edição 988


“Volta ao trabalho e não esquenta a cabeça”. Foi com esta ordem que Alberto Dines, em agosto de 1970, me recebeu na sua sala de editor-chefe do Jornal do Brasil, depois que passei quase três meses desaparecido dentro de uma cela do DOI-CODI, no quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro.

Foi meu primeiro contato direto com um profissional que mais tarde veio a se transformar num conselheiro e referência pessoal no jornalismo, mesmo tendo ele me demitido do JB, onde eu era, até 1972, o responsável pelo noticiário latino-americano na editoria internacional.

Dines tolerou o fato de eu ter sumido sem dar notícias e sem que os militares explicassem o meu desaparecimento, mas foi inflexível ao não admitir minha rebeldia contra um plantão de feriado, dois dias depois de ter regressado do Chile, onde a crise no governo Allende me forçou a trabalhar sete meses sem folga, como correspondente do JB.

Tolerância nas relações humanas e rigidez absoluta nas relações profissionais. Foram estas as características que me levaram a transformá-lo num ícone na profissão que escolhemos. Foram estas mesmas virtudes de Dines que nos aproximaram anos depois, em 1997, quando, voltando de um longo período no exterior, me ofereci para colaborar com o Observatório da Imprensa e fui aceito carinhosamente por ele.

Nossa convivência no Observatório foi difícil, mas ao mesmo tempo prazerosa. Difícil porque coincidiu com o início da era digital e nem sempre concordamos sobre como a internet influiria no exercício do jornalismo. Dura porque a sobrevivência do projeto dependia de financiadores e patrocinadores, cujo relacionamento com o OI variava conforme os humores da política nacional ou de estratégias internacionais.

Dines teve a intuição genial de publicar o OI na web em 1996, quase três anos antes dos grandes jornais entenderem que a internet era muito mais do que um novo sistema de comunicação. A digitalização baixou os custos, viabilizou a manutenção do site e permitiu que o projeto se transformasse num ponto de encontro de jornalistas de diferentes idades, experiências e posições ideológicas. Alguns desiludidos com a profissão, calejados por sucessivas frustrações, e outros entrando no jornalismo, cheios de gás, expectativas e ilusões.

Era uma tribo, meio anárquica e muito diferenciada, mas que reverenciava unanimemente o seu cacique, cuja liderança levou o público do Observatório a transferir a confiança e o respeito à pessoa de Alberto Dines para a proposta de jornalismo crítico indispensável ao equilíbrio informativo na era digital.

O empenho em promover a crítica da mídia foi, paradoxalmente, tanto um fator determinante no crescimento da audiência do OI, como o responsável pelo agravamento da crise de sustentabilidade do projeto. Os jornalões do Rio e São Paulo, bem como a Rede Globo e o sistema estatal de comunicação pública sempre mantiveram uma relação de amor e desconfiança em relação ao Observatório.

As aflições pelo aumento das dívidas, cortes de pessoal e pela incerteza sobre o futuro financeiro do projeto foram minando aos poucos a inesgotável resistência física de Dines, mas ele continuava inspirando uma confiança total em seus parceiros e subordinados. Sabíamos que divergências, às vezes duras, nunca seriam motivo para represálias, porque ele seguia um código de ética onde o profissionalismo sempre falou mais alto.

Fui um dos que o contrariou, algumas vezes, ao defender um aprofundamento da opção digital, não apenas na produção, edição e publicação de textos, mas também na adoção de novos paradigmas de relacionamento com os leitores do Observatório, e no desenvolvimento de um novo modelo de sustentabilidade do projeto, baseado na diversificação das receitas.

Dines deixa um legado único na história do jornalismo brasileiro. Além de ser um profissional e intelectual ao mesmo tempo inovador e conservador, teve a rara perspicácia de perceber que a observação crítica da imprensa viria a se transformar numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news.

Carlos Castilho é jornalista.

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Observatório da Imprensa: Sempre vai valer a pena

Por Alberto Dines em 22/05/2018 na edição 988

  
Texto publicado originalmente no ebook “Observatório da Imprensa: uma antologia da crítica de mídia no Brasil” de 1996 a 2018”, publicado em abril de 2018.

Por Alberto Dines, em depoimento a Norma Couri

Quando me preparava para começar a escrever minha coluna “Jornal dos Jornais” na Folha de S.Paulo, que estreou em 6 de julho de 1975, o velho Octavio Frias de Oliveira pôs a mão no meu ombro e disse: “Você vai arranjar muitos inimigos”. Dito e feito: eu os arranjei, e dentro da própria Folha. A coluna foi a matriz do ombudsman, tanto que, mais adiante, quando a Folha foi obrigada pelos militares a dar um recuo em sua ousadia editorial, em 1977, a minha coluna desapareceu. Por quê? Ela dava estímulo a certa rebeldia dentro do jornal.

Mais tarde, a Folha criou a coluna do ombudsman e o fez na mesma página 6 da minha coluna, aos domingos. E todos os ombudsmen tiveram boa relação comigo, muitos viraram amigos; mas eles hoje têm uma proteção que eu não tinha.

O jornalista brasileiro não está preparado para ser criticado. Nos Anos de Chumbo, a Veja não publicou a notícia da morte da Zuzu Angel e as ameaças ao Vladimir Herzog; os dois estavam sendo ameaçados e recorreram a mim. Antecipei na minha coluna as ameaças. Muitos jornalistas se chatearam comigo e uma colega me disse: “Você critica a censura, mas está sendo um censor também”. Eu respondi: “Não, estou sendo um sensor”. Não há censura; ao criticar você não está censurando ninguém.

Uma das razões por termos escolhido o termo Observatório da Imprensa foi a inspiração do pensamento de um importante físico alemão, Werner Heisenberg (1901-1976), o criador da mecânica quântica. Ele dizia que, ao observar um fenômeno, você interfere no fenômeno. Ao observar a imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar.

Preocupa perceber que a crítica da mídia desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico. A nossa crítica no Observatório é não ideológica. É a crítica do comportamento da imprensa do ponto de vista puramente técnico-ético. Os colaboradores assumem o que escrevem. O grande perigo da observação da mídia hoje é confundir o viés.

O Observatório tem grande preocupação com a concentração da mídia; tínhamos uma pobreza enorme de mídia regional, de mídia comunitária — a concentração em cima empurrando a concentração para baixo. E a imprensa comunitária morrendo aos poucos, principalmente quando a TV Globo entrava e ninguém podia competir com ela. Nossa briga ganhou pontos, deu frutos. Ainda há muito campo para brigar.

O Observatório da Imprensa nasceu na internet, mas não nos ajoelhamos diante dela. Subordinamos a tecnologia ao texto, e não o contrário. É ferramenta, não deusa. O jornalismo existe há tanto tempo, desde a criação da imprensa por Gutenberg, em mil e quatrocentos e lá vai pedrada, porque ele é periódico, tem seu ritmo. Depois que acabou uma edição, começa outra. A internet não conseguiu até hoje se periodizar, com algumas exceções. Enquanto isso, nasceram experiências jornalísticas discretas e de alto nível, como a piauí e a Serrote. As empresas jornalísticas poderiam estar produzindo muita coisa desse nível. Há espaço para esse tipo de publicação.

No Observatório decidimos publicar tudo o que achamos importante sobre mídia, pode ser da Folha, do Estado, do Globo, de onde for, e se estiver em língua estrangeira, traduzimos. Já ouvi de muito leitor que nunca mais leu jornal do mesmo jeito. Discutir a mídia é uma coisa que uma pessoa simples pode fazer, para o bem e para o mal. O que nós criamos aqui foi uma agenda de debates. Na América, pelo menos, fomos os mais avançados de todos.

Há um caminho que é o de oferecer alternativas de pensamento e marcar presença, fazer história. Pensar grande. Ou fazer pensar. Se conseguimos isso até aqui, nessas duas décadas de Observatório, valeu a pena. Sempre vai valer a pena.

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Um tributo a Alberto Dines

Por Rogério Christofoletti em 23/05/2018 na edição 988

Texto publicado originalmente pelo objETHOS.

Existem muitas razões para homenagear o jornalista Alberto Dines, que morreu na manhã desta terça, 22. Ele ajudou a modernizar o jornalismo brasileiro no século 20, insistiu em rigorosos padrões de qualidade para as redações e foi, sem dúvida, o pai da crítica de mídia por aqui. Esses três predicados já o colocariam em qualquer panteão dos maiores jornalistas do nosso tempo, mas Dines não se orientava por esse tipo de vaidade e nunca parava de trabalhar. O resultado foi uma vida plena, intensa e uma obra respeitável, materializada em livros, ações e iniciativas para aperfeiçoar o jornalismo.

Antes mesmo de ser o homem à frente do Observatório da Imprensa, que criou em meados da década de 1990, Dines já era uma lenda viva, tendo passado por algumas das principais redações do país e participado da modernização de outras. Poderia ter se acomodado na condição de honorável profissional e evitado um conjunto enorme de brigas e dissabores com colegas e com a indústria, mas Dines era um inquieto. Quando voltou de uma temporada em Portugal, trouxe na mente e na bagagem o projeto que se converteria no mais duradouro empreendimento de crítica de mídia da América Latina. O Observatório da Imprensa não se desdobrou apenas em site, uma curta experiência de fascículos impressos, e programas de rádio e televisão: tornou-se ao mesmo tempo uma arena de debates sobre a mídia e a sociedade, e uma bússola para gerações de repórteres, editores, pesquisadores e interessados no assunto.

Os maiores projetos acadêmicos a que me dediquei nas últimas duas décadas têm claras inspirações no trabalho de Alberto Dines. Em 2001, engatinhando na docência, criei o Monitor de Mídia na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), um observatório regional que não escondia as suas raízes: lançava um olhar crítico sobre o jornalismo local intencionando colaborar com seu desenvolvimento. Dines e seu melhor editor, Luiz Egypto, abriram generosos espaços no site do OI para que aquela modesta iniciativa fora do eixo pudesse prosperar. Oito anos depois, junto com outro mestre, Francisco José Castilhos Karam, criamos na Universidade Federal de Santa Catarina o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), espaço semelhante e que ainda se orienta por uma ideia martelada por Dines: é preciso exercer a crítica para que o jornalismo melhore.

Devo, portanto, muito à coragem, à inteligência, à honestidade e ao rigor de Alberto Dines. Sua presença e ação foram determinantes em outros momentos para a recente crítica de mídia no Brasil. Em 2004, a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) surgiu a partir de um chamado do professor Victor Gentilli no site do OI, e Dines foi um dos primeiros encorajadores da união de laboratórios e projetos universitários que aliassem ensino de jornalismo e crítica de mídia. Em 2006, o OI reuniu observatórios de imprensa da América Latina para um evento em São Paulo, permitindo troca de experiências e fortalecimento das iniciativas. O seminário Redações de Vidro foi organizado por Carlos Castilho e sinalizou como era possível tratar de qualidade e ética nas raquíticas indústrias jornalísticas do continente. A própria insistência de Dines na manutenção do OI como um ambiente democrático e importante para a evolução do jornalismo foi um gesto de desprendimento pessoal e intenso comprometimento com a profissão que escolheu. Nos últimos tempos, a saúde já não era mais a mesma, mas Dines mantinha uma rotina de trabalho incomum para um octagenário.

O jornalismo brasileiro é resultado dos atos e das vontades de muita gente, e Alberto Dines ocupa um espaço de honra nele. A crítica de mídia – que ele praticou desde a década de 1970 – cresceu e se impôs como uma possibilidade verdadeira de contribuição para o aperfeiçoamento técnico e ético, e como enaltecedora da importância do jornalismo no plano da democracia.

Perdemos as pessoas, não as referências. Dines se foi, mas Dines fica. Hoje, o farol se apagou, mas seu facho de luz apontou os caminhos a seguir.

Rogério Christofoletti é professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

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Ai, que terra boa pra se farrear

Por Norma Couri em 22/05/2018 na edição 988

Texto publicado originalmente no ebook “Observatório da Imprensa: uma antologia da crítica de mídia no Brasil” de 1996 a 2018”, publicado em abril de 2018.

Da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, João de Barro e Alberto Ribeiro fizeram uma paródia que a pândega Carmen Miranda cantou numa marchinha de Carnaval, em 1937:

Minha terra tem lourinhas, moreninhas ‘chocolat’
Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá
Oh, que terra boa pra se farrear!

É isso o que veio à cabeça de muito jornalista quando a internet virou terra de ninguém, onde as fake news imperavam, os dados não batiam e as matérias entravavam no campo da dúvida do leitor. “Não sei se é verdade… não sei se o autor é esse mesmo… mas aí vai” — seguiam seu caminho no Facebook, no Twitter, nos e-mails e pelo WhatsApp. Se era ou não era, já tinha ido, e assim nos afogamos/vivemos num mar de incertezas. Foi o que fez o jornalista Farhad Manjoo, do New York Times, passar dois meses se informando exclusivamente por jornais e revistas de papel, com alertas de notícias desativados no celular e sem acesso a redes sociais. Para concluir que a abstinência digital lhe deu mais tempo livre para questionar seu papel de consumidor de conteúdo on-line.

O que é o Observatório da Imprensa? O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar na mídia. Um site com credibilidade. Esta era a preocupação de Alberto Dines desde o momento em que foi convocado para trabalhar no Jornal do Brasil, no início dos anos 1960, quando decidiu montar um Departamento de Pesquisa com redatores como Fernando Gabeira e Murilo Felisberto — este, que depois foi fazer o Jornal da Tarde. Era uma escola de elite, com a função de abastecer o repórter e produzir matérias de análise. Com esse recurso, o JB foi capaz de enfrentar a TV Globo, fazendo pensar.

Dines sempre usou essa ferramenta na sua fértil profissão de 65 anos ininterruptos — e sempre pagou por isso. Desde os tempos do Diário da Noite, quando, em janeiro de 1961, um grupo de anarquistas portugueses e espanhóis sequestrou o transatlântico Santa Maria para chamar a atenção do mundo para a ditadura salazarista que então persistia. Salazar a Franco eram sobras do fascismo. Os sequestradores não eram da esquerda tradicional. Eram anarquistas. Sequestraram o navio perto da costa brasileira, a cerca de 200 km do Recife. E veio a ordem do Assis Chateaubriand para não dar uma linha nos Diários Associados. “Nunca tinha recebido uma ordem assim”, Dines comentou. “Não poder dar o fato, brigar com a notícia. Fiquei chocado.” Durante dois dias, Dines decidiu dar o assunto na capa, na página central e na última página, abrindo bem as fotos. “Demos um show, mas Chateaubriand tinha o mesmo esquema de Salazar.” No terceiro dia, foi demitido. Mas o alarde do fascismo estava dado.

Aconteceu a mesma coisa quando a censura decretou que ninguém poderia dar manchete sobre a morte de Salvador Allende, no Chile, em 1973. Dines, editor-chefe do Jornal do Brasil, não teve dúvidas e publicou uma página que fez história: uma capa de jornal sem manchete, mas com texto em corpo grande, contando a história toda do “suicídio” de Allende. Três meses depois, foi demitido. Foi este jornalista que ousou fazer no JB um “Diário das ordens da censura”, rebelde, provocador, e que nos anos 1990 decidiu retornar de Portugal, onde havia lançado meia dúzia de revistas da Editora Abril e ocupava o lugar de consultor do prestigiado jornal Expresso.

Voltou ao Brasil para fazer alguma coisa pela imprensa do país dele, onde não seria imigrante, e faria pensar. Num computador simples, numa casinha alugada na Vila Madalena, em São Paulo, que se tornou sede da empresa Jornalistas Associados, criou, em 1996, o Observatório da Imprensa on-line, a exemplo de outro Observatório que já havia criado para os portugueses. Contou com uma equipe de primeira linha, o ex-reitor da Unicamp Carlos Vogt, os jornalistas Mauro Malin e José Carlos Marão, aos quais se juntaram Luiz Egypto e, depois, a assessoria administrativa de Maria Luiza Werle. O projeto deu tão certo que, dois anos depois, Dines estava na televisão, ao vivo, como âncora de um programa semanal de boa audiência nas escolas de Jornalismo e entre o público mais qualificado. O Observatório na TV só foi retirado do ar à sua revelia, dezesseis anos depois.

O Observatório está aí, duas décadas depois. Não pode morrer.

Norma Couri é jornalista.

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O pensamento de Alberto Dines

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 22/05/2018 na edição 988

 As frases abaixo foram retiradas de alguns dos artigos escritos por Alberto Dines nos 22 anos do Observatório da Imprensa. Os textos integram o ebook “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018”, organizado pelos jornalistas Pedro Varoni e Lucy Oliveira e lançado em abril, durante evento comemorativo no Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (Labjor) na Unicamp, em Campinas. As reflexões de Dines soam atuais, principalmente porque alguns problemas crônicos do jornalismo brasileiro não só permanecem como se agravaram.

1. A supremacia do marketing hoje imperante na mídia constitui uma das grandes ameaças à própria lisura com que é praticado o jornalismo. O sensacionalismo exacerbado é uma destas ameaças, oriunda do empenho em vender mais exemplares sem atentar para a qualidade e o compromisso com a veracidade da informação. (20/12/1996)

2. Estamos assistindo a um processo de degradação jornalística sem paralelo em nossa história. Com a cumplicidade dos jornalistas-executivos, aqueles que nos seminários idolatram os leitores mas, no dia-a-dia, massacram suas necessidades informativas e culturais mais elementares. Pensam que estão apenas enterrando uma fase na vida da nossa imprensa. Estão enterrando a própria noção de imprensa quando imaginam que se pode fazer jornalismo sem jornalistas. (01/04/1996)

3. O presidente da República na comemoração dos 50 anos de publicação de “Geografia da Fome”, de Josué de Castro. Versão da Folha de S.Paulo: “Presidente diz que Estado não foi feito para atender aos pobres.” Versão do Estadão: “Presidente diz que Estado só atende aos ricos.” No primeiro caso está contida uma advertência aos pobres – o Estado não é para eles. No segundo, uma crítica aos ricos – apossaram-se do Estado. O que é que o presidente da República efetivamente disse? (20/10/1996)

4. O jornalismo pátrio hoje é basicamente reativo. Da política à cultura, passando pela economia. E o recurso mais efetivo faz-se fora do jornalismo – com pesquisas apressadas, metodologicamente levianas, concebidas e realizadas por profissionais que obedecem a uma ética diametralmente oposta à dos jornalistas. (20/11/1997)

5. A cobertura da morte do cantor country Leandro evidencia e confirma uma realidade: nossa imprensa tornou-se irremediavelmente monotemática e monocórdia. A combinação da notícia-espetáculo com a cobertura saturada e intensiva desenvolvidas num ambiente onde impera o mimetismo e se abomina a diversificação está criando uma das mais gritantes distorções do nosso processo informativo. (05/07/1998)

6. O que existe, sim, em nossa mídia, é uma confraria às avessas, processo inconsciente de imantação para ocultar as falhas, deficiências e vícios de um sistema que já foi incomparavelmente melhor e hoje está perigosamente comprometido. (05/02/1998)

7. Essa verdadeira iconofilia começou com a idéia simplória e estúpida de que uma ilustração vale mil palavras. Repetida ad nauseam pelos que não sabem escrever ou têm medo das palavras. Evidencia-se o contrário: uma palavra, desde que adequada, desmoraliza qualquer imagem manipulada. (20/01/1999)

8. As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público. As grandes empresas de mídia brasileiras não querem que o seu formidável poder de indução seja sequer argüido. As grandes empresas de mídia brasileiras estão na contramão do processo democrático baseado na equação poder-e-contrapoder. (20/09/2000)

9. Os 100 líderes comunitários das favelas cariocas assassinados nos últimos anos mereciam reportagens menos burocráticas do que as publicadas na última semana. Os favelados onde atuavam os conheciam. Mas o resto da sociedade precisa conhecer esses 100 caídos: gente simples, incapaz de teorizar, disposta a melhorar o mundo com o seu exemplo. (26/06/2002)

10. O jornalismo fiteiro consiste na transcrição pura e simples de grampos (legais ou ilegais), fitas (em áudio ou vídeo) e dossiês, entregues por ‘fontes secretas’ a um jornalista (ou intermediário) desde que haja o compromisso da imediata divulgação sem recorrer a qualquer suporte investigativo. (13/05/2008)

11. Agora é preciso convocar homens de imprensa capazes de pensar empresarialmente – já que os homens de empresa dificilmente conseguem converter-se em jornalistas. É preciso não perder de vista a história: todas as empresas jornalísticas foram criadas, operadas e ampliadas por jornalistas. Com raríssimas exceções. Está na hora de chamá-los de volta. Esta é a oportunidade criada pela crise (17/06/2003)

12. Na Alemanha, 1933, quando os nazistas tiraram os disfarces e começaram a escalada de terror, os poupados diziam “não é comigo, é com os outros”. Esta resignação e esta incapacidade de enxergar as grandes ameaças fazem parte de um fenômeno chamado “não-me-importismo”. Enquanto não são vítimas todos seguem suas vidas. Depois é tarde demais. (12/02/2003)

13. Passou o tempo do jornalismo generalista. A cobertura do Judiciário deve ser tão especializada e autônoma quanto a cobertura econômica ou internacional. Jornais responsáveis não podem contentar-se com os releases fornecidos pelas assessorias de imprensa dos diferentes tribunais. Sem o charme da cobertura política, neste momento uma judiciosa cobertura do Judiciário pode ser decisiva para o futuro do país. (29/11/2005)

14. Galvanizada pelas pesquisas, empurrada pelos debates televisivos, sedenta por novos escândalos e incapaz de situar-se na grande barafunda institucional, nossa mídia está devendo à sociedade uma cobrança rigorosa ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral sobre o destino dos votos dados aos candidatos sem ficha limpa. Se preferirem o prejulgamento, os fichas sujas. (19/10/2010)

15. Resta a imprensa. Fragilizada por uma devastadora crise de identidade, pulverizada em centenas de recantos opinativos sem qualquer expressão, visivelmente desnorteada diante de um mundo que se transforma em todas as direções, o Quarto Poder corre atrás, desorientado, de língua de fora, sem agenda e sem projetos, incapaz até de se mirar na passada importância. (19/10/2010)

16. O juízo sobre a informação tornou-se tão importante quanto a própria informação. O território da crítica expandiu-se de forma tão extraordinária que os críticos tornaram-se criticados e a matéria criticada tão importante quanto aquela tida como acrítica. A internet consagrou-se imediatamente como canal alternativo para fugir dos impasses produzidos pelos grupos de pressão na grande imprensa. (30/11/2003)

17. Quando se fala em prejulgamento da imprensa, não se deve pensar apenas na cobertura de crimes e casos passionais. A grande imprensa costuma exibir os seus preconceitos em outras questões, inclusive no debate sobre mídia. Foi o caso da criação da TV Pública. Antes mesmo de se conhecer o seu formato, os grandes grupos de mídia comercial já manifestavam desaprovação. Foi um caso de desamor à primeira vista. Como se uma TV Pública não fosse necessária ao próprio desenvolvimento da TV privada. (22/04/2008)

18. As elites endinheiradas não gostam de jornais opulentos, substanciosos, preferem a sublime dramaturgia das telenovelas, fingem que são informadas pelas mídias sociais e adoram desfolhar revistas com as irresistíveis citações proferidas por celebridades de shortinho. Já as empresas jornalísticas, incapazes de multiplicar talentos e há décadas apostando em estrelas fatigadas pela rotina da submissão, começaram a afiar bisturis e guilhotinas, ávidas para cortar custos e gorduras. (30/11/02013)

19. Com 5.570 municípios, deveríamos alcançar ao menos a média de um veículo jornalístico por município. O fenômeno da concentração da imprensa não se resume ao número reduzido de grandes empresas de comunicação e à forte tendência para a formação de oligopólios regionais. O mais grave são os vazios, os bolsões de silêncio, as manchas cinza, ocas, espalhadas entre as 727 ilhas do Arquipélago Gutenberg. (12/11/2013)

20. Todo Jornalismo é investigativo, ou não é Jornalismo. Donde se conclui que o que lemos, ouvimos e vemos todos os dias na imprensa não é Jornalismo. (27/06/2016)

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Ao Dines, com carinho

Por Carlos Vogt em 22/05/2018 na edição 988

Texto originalmente publicado na edição 971, de 18/12/2017, do Observatório da Imprensa e na Edição Brasileira da Columbia Journalism Review.

Em uma tarde de 1993, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), recebi, por intermédio de Luiz Schwarcz, a notícia – depois confirmada por José Marques de Melo – de que Alberto Dines queria falar comigo sobre um projeto de criação de um programa de jornalismo na Unicamp, universidade de que eu era reitor, na ocasião.

Dines estava em Portugal e tinha vindo ao Brasil, um pouco antes, no ano anterior, para um tratamento de saúde, tudo isso envolvendo, além de outras atividades, sua pesquisa e a produção de seu trabalho fundamental sobre Antônio José da Silva, publicado em livro com o nome de Vínculos e Fogo (Companhia das Letras, 1992).

Dines, como ele próprio relata, passava as manhãs de Lisboa prisioneiro de seu projeto na Torre do Tombo, à tarde, ia para a Editora Abril e, à noite, lia e escrevia, trabalhando o material que sua pesquisa ia organizando.

A bolsa da Fundação Vitae estava prestes a terminar, e o trabalho na Abril permitia-lhe esticar a estada e dava-lhe, então, condições para seguir adiante com os estudos e as investigações para a obra sobre o autor brasileiro do teatro português no século 18, morto ainda jovem, queimado, num auto da fé da Inquisição, com apenas 34 anos, em 1739.

Interesses comuns

Fizemos o contato, Dines me escreveu e eu, que tinha uma viagem programada para Paris, combinei com ele de passar por Lisboa, na volta, para conversarmos e, eventualmente, avançarmos com a ideia da criação de um programa e mesmo de um centro de estudos em jornalismo.

Anos antes, quando Paulo Renato Costa e Souza era reitor da Unicamp e eu seu vice-reitor, chegamos a tratar, na universidade, com Claudio Abramo, então editor da Folha de S.Paulo, de um projeto de curso de pós-graduação em jornalismo, que acabou não se concretizando.

Havia, pois, uma disposição da universidade para um empreendimento dessa natureza que vinha, enfim, encontrar-se com Dines e com a ideia inovadora e precursora que ele alimentava, preparando também, no fundo, a sua volta ao Brasil, no
período pós-Fernando Collor e no cenário dos tempos melhores que o governo de Itamar Franco e, depois, de Fernando Henrique anunciavam.

Cheguei a Lisboa e fui recebido pela Norma Couri e pelo Dines com uma simpatia, um carinho e uma acolhida tais que a sensação que compartilhamos era de velhos amigos com saudades de não ter se conhecido antes.

Norma, que estava em Lisboa como correspondente do JB, e Dines hospedaram-me num hotel maravilhoso na rua das Janelas Verdes, cujo nome, se bem me lembro, reportava à sua própria localização. Passeamos, comemos bem, tomamos bons vinhos, fomos a Cascais e a Sintra e paramos no Canto 3 d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, no Cabo da Roca, “aqui(…) onde a terra se acaba e o mar começa”.

Tiramos fotos e seguimos embalados, pelo fim de semana de azul e luz, nas conversas sobre os planos de criação do que viria a ser, em 1994, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, da Unicamp; depois, em 1996, também berçário do Observatório da Imprensa, cuja infância, adolescência e idade adulta sempre tiveram em Dines a referência segura, criativa e constante, na constância de sucesso de sua trajetória.

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Carlos Vogt é professor titular na área de semântica argumentativa e coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, onde foi reitor de 1990 a 1994.

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Uma vida a serviço do jornalismo

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 22/05/2018 na edição 988

Alberto Dines foi uma das vozes mais expressivas do jornalismo impresso brasileiro, desde meados do século passado, sendo capaz de se reinventar nas mídias eletrônicas contemporâneas.

Nascido em 19 de fevereiro de 1932 no Rio de Janeiro, Dines iniciou sua carreira aos 20 anos como crítico de cinema na revista A Cena Muda. Em mais de 60 anos de jornalismo, passou pelos principais veículos impressos do país: da Última Hora ao Pasquim, além das revistas Manchete e Visão, cobrindo da cultura à política.

Trabalhou ainda como editor-chefe do Jornal do Brasil, na Folha de S.Paulo durante doze anos e foi diretor da sucursal do jornal paulista no Rio de Janeiro, além de ter dirigido o Grupo Abril em Portugal, onde lançou a revista Exame. Lecionou jornalismo na PUC do Rio de Janeiro nos anos 1960 e foi professor visitante da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York, em 1974.

Escreveu mais de 15 livros, entre eles “Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig” (1981), que foi adaptado para o cinema em 2002 por Sylvio Back. Também escreveu “Vínculos do fogo” (1992) e livros ligados ao jornalismo, como “O papel do jornal” (1974).

Em 1996 criou e coordenou o site Observatório da Imprensa. Pensado como um espaço de crítica de mídia, o Observatório passou a ter uma edição na TV Educativa do Rio de Janeiro em maio de 1998. Esse projeto proporcionou uma nova visão sobre o funcionamento do jornalismo brasileiro através de matérias com um conteúdo aprofundado e questionador, trazendo entrevistas com grandes nomes e também explorando temas de importância social. O Observatório se tornou referência em crítica de mídia no Brasil.

Alberto Dines recebeu diversos prêmios em sua carreira, como o Maria Moors Cabot em 1970, o Jabuti em 1993, o Austrian Holocaust Memorial Award em 2007, Austrian Golden Decoration for Science and Art em 2009, e o Ordem do Mérito das Comunicações em 2010.

Foi também um dos fundadores e pesquisador sênior do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.

O jornalista foi casado, pela primeira vez, com Ester Rosali Dines, sobrinha de Adolfo Bloch, com quem teve quatro filhos, e pela segunda vez com a jornalista Norma Couri, jornalista cultural que sempre teve também um papel atuante no Observatório da Imprensa.

Dines morreu no dia 22 de maio de 2018 em São Paulo por complicações de uma pneumonia.


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Aos 80 anos de um mestre

Por Eugênio Bucci em 22/05/2018 na edição 988

Texto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 23/02/2012 por ocasião dos 80 anos de Alberto Dines.

“Dizer que jornal é trabalho de equipe é dizer muito pouco. Jornal bem-sucedido é trabalho de uma orquestra de personalidades e ideias diferentes ou mesmo antagônicas, porém complementares, harmonizadas e equilibradas por normas ou metas comuns”

Alberto Dines, em ‘O Papel do Jornal’

Na profissão de jornalista, em que os princípios pessoais parecem não resistir aos dez primeiros anos de carreira, o nome de Alberto Dines reluz como um patrimônio inspirador. No dia 19 de fevereiro, domingo passado, ele completou 80 anos de idade. Também neste ano de 2012 ele comemora seis décadas de profissão: uma trajetória brilhante, acidentada, por certo, e modelar. Olhando para ele, hoje, a gente compreende o que significa ser jornalista — e gosta do que compreende.

Como todos nós, Dines cometeu erros. Ele mesmo reconhece. Durante o almoço, volta os olhos para cima, a cabeça indo de um lado para outro, num balanço leve, e conta dos tropeços, das vezes em que deu vazão à aresta mais cruel das palavras com o propósito de ferir, mais do que de informar. Acontece. Deixemos isso de lado. No legado que de fato importa, sua biografia é fonte de ensinamento: uma lição de trabalho intenso e extenso, com produção incessante, diária, e uma obra que vai da crítica cinematográfica a livros de pesquisa histórica, passando pela reportagem cotidiana, pela crítica de imprensa e pelos artigos de opinião. Dines é a prova de que a experiência não concorre necessariamente para diluir os princípios e de que o caráter não esmorece. No caso do jornalista, o caráter alimenta-se da independência intelectual e material, assim como se alicerça no cultivo da liberdade e do espírito crítico — portanto, ganha vigor com o passar do tempo.

Assim como os escritores realmente grandes são aqueles que ensinam a seus pares a arte da narrativa, o jornalista maior tem a capacidade de despertar vocações nos mais jovens. Dines também desperta vocações. Embora seja difícil afirmar que esta ou aquela vocação tenha nascido por influência deste ou daquele profissional, há pelo menos uma, nem que seja uma só, que deve ser creditada a ele. A coluna Jornal dos jornais, que Dines assinou na Folha de S.Paulo entre 1975 e 1977, motivou um adolescente, então estudante numa cidade da região da Alta Mogiana, no interior paulista, a firmar a decisão de trabalhar na imprensa e, pelo menos até o instante em que assinou este artigo — este aqui, que você lê agora —, aquele adolescente dos anos 70 não se tinha arrependido da escolha que fez.

Na velha coluna de Alberto Dines, que ajudou a firmar a crítica de mídia no Brasil, o adolescente da Alta Mogiana começou a se dar conta de que escrever na imprensa também era uma forma de pensar sobre a imprensa, e ele começou a achar aquele negócio interessante.

As mais belas reportagens renovam o lugar do discurso jornalístico dentro da cultura. É verdade que podemos dizer algo parecido sobre quase tudo, sobre a poesia, a arquitetura, o cinema e também sobre a medicina e até mesmo a engenharia: o engenho humano, onde quer que ele se manifeste, na arte ou na ciência, na técnica, na política ou na religião, tende a redefinir a si mesmo — o que, no fim das contas, é uma constatação um tanto óbvia, quase banal. Não teria por que ser diferente com o jornalismo — e, no entanto, é diferente. Sutilmente, mas é.

Na nossa profissão, que navega nas franjas do que é notícia, daquilo que é verdade hoje, mas não era verdade até ontem, os imperativos da velocidade, da aceleração e da mudança pesam muito mais. Mais que outras atividades, o jornalismo depende de saber se redefinir a cada dia. Ao registrar a História no calor da hora, a sangue-frio, o jornalista é agente da História, um catalisador do fato histórico em alta velocidade, o que faz dele um profissional das ideologias, mesmo quando guarda em si a convicção ideológica de que nada tem de ideológico. Se ele não desenvolve consciência sobre o que faz, corre o risco nada desprezível de estar a serviço de ideologias que não vê enquanto empina o nariz imaginando desconstruir as que vê. Se não acumula reflexão, dificilmente fará algo de útil ou de valioso.

Comparemos o jornalista com o cirurgião. Este, o cirurgião, pode muito bem se revelar um gênio do bisturi sem nunca ter dedicado um segundo sequer ao exame intelectual das relações entre seus atos e o sentido geral da civilização, ou sobre o emaranhado de sentidos que tece a fronteira instável entre saúde e doença. Para o jornalista, o mesmo grau de alienação constituiria falta grave. Se obstinadamente técnico, perde de vista o que há de controverso na cena humana, da qual lhe cabe fazer a crônica.

A imprensa ocupa-se mais das incertezas que das certezas. Sem método, sem critérios e sem pensamento (epistemológico) ela se perderia. A sua dupla condição — ter de fazer e ter de refletir — não é dúplice nem ambígua, mas íntegra. Aí se inscreve o significado mais fecundo da longa trajetória de Alberto Dines. Como professor universitário – que não tem diploma de nenhuma faculdade -, ele ajudou a lançar no Brasil, quando começou a dar aulas na PUC-Rio, ainda nos anos 60, as bases da disciplina Jornalismo Comparado. Como jornalista, no comando do Jornal do Brasil, ou na direção de revistas da Editora Abril em Portugal, ou ainda como fundador do Observatório da Imprensa, um marco pioneiro do jornalismo online no Brasil, criado há 15 anos, ensinou a credibilidade da imprensa laica, apartidária e plural.

Onde o mundo é uma gritaria, uma babel caótica, o grande editor identifica a orquestra passível de afinação. Também por isso a imprensa encarna com tanta intensidade o sonho democrático. Movido por esse sonho, o jornalista faz, pensa e depura o caráter. Não pode haver profissão melhor.

Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e ESPM.

Texto e imagens reproduzidos do site: observatoriodaimprensa.com.br