quarta-feira, 10 de julho de 2019

Aos 77 anos, morre o jornalista Paulo Henrique Amorim

Jornalista foi vítima de infarto Carlos Macedo/Agencia RBS

Publicado originlamente no site gauchazh.clicrbs, em 10/07/2019

Aos 77 anos, morre o jornalista Paulo Henrique Amorim

Apresentador passou pelas principais emissoras de TV do país

GaúchaZH

O jornalista Paulo Henrique Amorim morreu na madrugada desta quarta-feira (10), aos 77 anos, no Rio de Janeiro. Ele foi vítima de um infarto fulminante. O anúncio da morte foi feito pelo programa SP no Ar, da TV Record, emissora onde o jornalista atuava desde 2003.

Amorim estreou aos 19 anos no jornal A Noite, do Rio de Janeiro, em 1961. Foi correspondente internacional em Nova York da revista Realidade e também da Veja. Ainda nos Estados Unidos, trabalhou para a extinta TV Manchete e, posteriormente, para a Globo.

A experiência na TV fez com que circulasse pelas emissoras mais importantes do país.

Na Band, apresentou o Jornal da Band e o programa Fogo Cruzado, entre 1996 e 1998.

Em seguida, foi para a TV Cultura, onde comandou o talk show Conversa Afiada, que posteriormente também viraria o nome do blog que manteve até o último dia de vida.

De temperamento forte e opiniões contundentes, Amorim chegou a ser condenando por injúria e difamação por algumas figuras públicas, como os jornalistas Merval Pereira e Ali Kamel e o ministro Gilmar Mendes. Nos livros O Quarto Poder - Uma Outra História (2015) e Manual Inútil da Televisão e Outros Bichos Curiosos (2016) conta histórias dos bastidores das principais redações do Brasil e a influência desses veículos nos processos políticos, além das próprias experiências como jornalista.

Seu último trabalho formal na televisão foi apresentando o Domingo Espetacular, na Record, onde esteve por 16 anos ininterruptos — até ser afastado da emissora em junho. De acordo com a coluna do jornalista Daniel Castro no Uol, o afastamento de Amorim teria ocorrido em razão de suas críticas ao governo de Jair Bolsonaro no Conversa Afiada. Os últimos textos, publicados nos dias 9 e 10 de julho, são sobre a liberação de emendas parlamentares de cerca de R$ 2,6 bilhões por parte do governo federal e o primeiro áudio divulgado pelo site The Intercept em que aparece a voz do procurador da Lava-Jato Deltan Dallagnol. A Record negou que o afastamento do jornalista tivesse motivos políticos. Seu contrato com a emissora se encerraria apenas em 2021.

Colunista do jornal O Globo, Bernardo Mello Franco fez uma homenagem a Amorim no Twitter lembrado de um momento do jornalista à frente da TV. "Brasil, 1990. Na cobertura ao vivo do Plano Collor, Joelmir Beting pergunta se o salário de quem ganhava mais de 50 mil cruzados novos estava bloqueado. Paulo Henrique Amorim confirma, pega na mão do comentarista e brinca: 'Acho que te dei uma má notícia'", recordou Franco, publicando o trecho do vídeo citado.

Brasil, 1990. Na cobertura ao vivo do Plano Collor, Joelmir Beting pergunta se o salário de quem ganhava mais de 50 mil cruzados novos estava bloqueado. Paulo Henrique Amorim confirma, pega na mão do comentarista e brinca: “Acho que te dei uma má notícia”

Autor da biografia Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (2012), o jornalista Mário Magalhães, que passou pelas redações de jornais como O Globo e Folha de S.Paulo, destacou o comportamento audacioso de Amorim na profissão. "Foi, sobretudo, um jornalista corajoso. Na hora em que ele parte, num momento tão dramático para o Brasil e o jornalismo brasileiro, reverencio sua memória com um vídeo dele, de dezembro de 2017, em defesa da liberdade de expressão", escreveu Magalhães.

 No vídeo, Amorim recorda seu passado humilde e seu início no jornalismo para fazer uma defesa da liberdade de expressão no Brasil.

— Num país de tantos corruptos, posso explicar cada centavo da minha renda. Nas redes sociais, num blog, no YouTube, comecei uma renovada etapa da minha carreira profissional. É como eu se estivesse no início, de novo. E por causa dela, sou vítima de dezenas de processos judiciais por supostos delitos de opinião. A Constituição Brasileira não protege jornalistas independentes como eu e dezenas de outros. Na teoria, a Constituição Brasileira protege a liberdade de expressão, mas na prática, há uma falha sistêmica — disse.

Paulo Henrique Amorim foi, sobretudo, um jornalista corajoso. Na hora em que ele parte, num momento tão dramático para o Brasil e o jornalismo brasileiro, reverencio sua memória com um vídeo dele, de dezembro de 2017, em defesa da liberdade de expressão.

Paulo Henrique Amorim deixa filha e mulher, a jornalista Geórgia Pinheiro. Ainda não há informações sobre o velório.

Texto e imagem reproduzidos do site: gauchazh.clicrbs.com.br 

Morre Paulo Henrique Amorim aos 77 anos

Amorim sofreu infarto e morreu aos 77 anos de idade
Greg Salibian/Folhapress 

Publicado originalmente no site do Portal R7, em 10/07/2019 

Morre Paulo Henrique Amorim aos 77 anos

Jornalista sofreu infarto fulminante na madrugada desta quarta-feira, depois de sair para jantar com amigos na noite de terça-feira

Do R7

Amorim sofreu infarto e morreu aos 77 anos de idade

O jornalista Paulo Henrique Amorim morreu, na madrugada desta quarta-feira (10), aos 77 anos. O jornalista deixou o legado para a comunicação brasileira.

Amorim estava em casa, no Rio de Janeiro, quando sofreu um infarto fulminante — informação confirmada pela mulher dele.

Na noite da terça-feira (9), o jornalista havia saído para jantar com amigos.

Paulo Henrique Amorim estava na Record TV desde 2003. Antes, passou por diversos jornais, revistas e emissoras de televisão do país.

Nascido em 22 de fevereiro de 1942, Paulo Henrique estreou no jornal A Noite, em 1961. Depois foi trabalhar em Nova York, como correspondente internacional da revista Realidade e, posteriormente, da revista Veja.

Na televisão, passou pela extinta TV Manchete e pela TV Globo, também como correspondente internacional em Nova York.

Em 1996, deixou a TV Globo e foi para a TV Bandeirantes, onde apresentou o Jornal da Band e o programa Fogo Cruzado. Depois, foi para a TV Cultura.

Em 2003, foi contratado pela Record TV, onde apresentou o Jornal da Record segunda edição. No ano seguinte, ajudou a criar a revista eletrônica Tudo a Ver na emissora. Em 2006, assumiu a apresentação do Domingo Espetacular, onde ficou até junho deste ano.

Amorim deixa uma filha e a mulher, a jornalista Geórgia Pinheiro.

Texto e imagem reproduzidos do site: noticias.r7.com

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Morre João Oliva, o mais antigo jornalista do Estado

 Foto: César de Oliveira

Foto: Ana Lícia Menezes/PMA

Publicado originalmente no site do Jornal do Dia, em 03/07/2019 

Morre João Oliva, o mais antigo jornalista do Estado
Por Milton Alves Júnior

Vítima de insuficiência respiratória, foi sepultado na tarde de ontem o corpo do jornalista e escritor sergipano João Oliva Alves. Aos 96 anos de idade, o comunicador que ocupava a cadeira de número 24 na Academia Sergipana de Letras (ASL), reclamou de fortes dores na noite da última terça-feira (2), quando foi encaminhado às pressas para uma unidade hospitalar. No início da manhã, por volta das 5h o quadro clínico se agravou e a equipe mesédica oficializou o óbito. O corpo inicialmente foi velado na sede da ASL, e, no final da tarde, encaminhado em cortejo fúnebre para a cidade de Riachão do Dantas, interior sergipano, cidade onde nasceu em 1922.

Ao longo das suas décadas de dedicação à leitura e escrita, Oliva ocupou o cargo de repórter, redator-chefe e editorialista nos impressos Gazeta de Sergipe, A Cruzada e Diário de Aracaju, além de ter produzido e escrito crônicas para programas da Rádio Cultura de Sergipe. Foi ainda secretário de imprensa do Governo do Estado na gestão do ex-governador Seixas Dória, bem como assessor de comunicação da Associação Comercial e da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Como assessor de Relações Públicas da instituição federal de ensino foi um dos criadores do Festival de Artes de São Cristóvão.

Apresentado pela Associação Sergipana de Imprensa como o jornalista mais idoso no estado, João Oliva deixa 11 filhos, 15 netos e 9 bisnetos. Antes de optar por morar em Aracaju, o jornalista se dividia entre encaminhar artigos para os jornais impressos rodados na capital sergipana, e o cargo de agente de Estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nas cidades de Riachão e Estância. Luiz Eduardo Oliva, filho do jornalista com a também riachãoense, Maria Oliva, se pronunciou sobre a perda do pai e destacou que ele tratava-se de um homem puro, sempre entusiasmado em viver de forma intensa e reunir a família.

"Triste dia em que nos despedimos sobretudo de um jornalista, um escritor. Um membro da Academia Sergipana de Letras que inúmeras vezes escreveu crônicas de Sergipe e do Brasil. Amou as pessoas, a vida, a democracia. Era um homem de fé... Partiu dessa vida que tanto amou. Foi-se o mais velho jornalista vivo de Sergipe encontrar a sua amada Maria". Na manhã de ontem, assim que familiares confirmaram a notícia, a Assembleia Legislativa de Sergipe, em nome do presidente deputado Luciano Bispo e de todos os parlamentares, lamentou o falecimento do jornalista e escritor.

A Prefeitura de Aracaju decretou três dias de luto. O prefeito Edvaldo Nogueira enalteceu que: "diante do legado de contribuições para Aracaju e para Sergipe, na sua atuação brilhante como escritor e como jornalista, é muito justo decretarmos luto oficial como sinal de pesar e em reconhecimento à importância do trabalho que João Oliva desenvolveu em sua trajetória neste mundo. A todos os familiares, amigos e admiradores, presto a minha solidariedade".

 Texto e imagens reproduzidos do site: jornaldodiase.com.br

sábado, 15 de junho de 2019

Morre Clóvis Rossi, o mestre de várias gerações...

Clóvis Rossi, jornalista da 'Folha de S. Paulo'. Sergio Pedreira EFE

Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em 14 de junho de 2019 

Morre Clóvis Rossi, o mestre de várias gerações de jornalistas brasileiros

Colunista da 'Folha de S. Paulo' morreu nesta sexta ao 76 anos. Destacou-se por seu trabalho como repórter de Política, enviado especial e correspondente. E também por sua generosidade

Por Felipe Betim e Flávia Marreiro 

Clóvis Rossi tinha 76 anos e uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, mas nunca deixou de ser repórter. "Reportagem é a melhor versão da verdade", disse recentemente o veterano jornalista que não queria ser chefe. Na profissão desde 1963, Rossi morreu na madrugada desta sexta-feira em sua casa. Estava se recuperando de um ataque cardíaco que teve uma semana antes, como ele mesmo revelou na quarta-feira em uma coluna intitulada Boletim Médico. Contou a seus fiéis leitores o motivo de sua ausência e detalhava como tinham sido as operações. Garantia que não era grave e que pretendia voltar à rotina de trabalho na semana que vem. "Agradecimento também aos companheiros da Folha que me ampararam e até mentiram dizendo que estavam sentindo minha falta”, concluía, com o humor de sempre, o artigo. Ninguém imaginava que seria seu último.

Vários jornalistas de diferentes veículos e gerações relataram nas primeiras horas desta sexta-feira quão importante Rossi tinha sido em sua vida profissional. "Sensação de orfandade, como se tivesse morrido o adulto da sala, ou cara que foi modelo para a minha geração", escreveu o repórter do Nexo João Paulo Charleaux. Há algo em que todos concordam: a generosidade. Não era só um jornalista admirável, que escrevia rapidíssimo textos muito compreensíveis sobre temas densos, sem ser simplista, mas também uma pessoa maravilhosa que sempre dava uma mão aos colegas. Incluindo os mais jovens, aos quais gostava de ensinar. "Devo tanto a ele. Me mandou esta mensagem na quarta: 'Pata, foram quatro [stents], um coração novo, mas o mesmo amor por você'. Difícil parar de chorar", contou a ex-correspondente e colunista da Folha Patricia Campos Mello no Twitter.

Rossi começou sua carreira em 1963, um ano antes do golpe militar no Brasil, e trabalhou em jornais como O Estado de São Paulo, Correio da Manhã e Jornal do Brasil. Escrevia na Folha desde 1980 e era membro de seu conselho editorial. Tornou-se uma referência da casa e da renovação jornalística que na época empreendia, destacando-se pelo trabalho como repórter de Política, enviado especial a todas as partes do mundo e correspondente na Argentina e na Espanha. A Folha recordou em seu obituário que, para ele, a melhor reportagem seria a seguinte. Mas tinha um orgulho especial pela cobertura que fez da transição espanhola —também é mítica sua cobertura em 2004 do ataque terrorista em Madri. Sempre manteve uma relação próxima com a Espanha: seus times de futebol eram o Palmeiras e o Barcelona; seus jornais favoritos, a Folha e o EL PAÍS, que devorava todos os dias e citava com frequência em sua coluna. Chegou a escrever no blog Algo Mais que Samba, deste jornal. Quando em 2013 foi criado o EL PAÍS Brasil, nossa edição brasileira, foi convidado para ser colunista, mas teve de rejeitar por conta do contrato de exclusividade que mantinha com a Folha. "Sinto como se estivesse dizendo não ao Barcelona", lamentou na época.

Rossi também cobriu a Revolução dos Cravos, em Portugal, e fez história como correspondente na Argentina ainda durante a última ditadura militar. Viveu e relatou tantos golpes e transições democráticas, incluindo a do Brasil, que há um elemento essencial presente em todos os seus textos: o apreço pela democracia.

Seu período na Argentina também serviu para ampliar o olhar para os vizinhos latino-americanos e estabelecer o país como o pilar de qualquer cobertura internacional dos jornais brasileiros. A estreita relação com a América Latina –não só entre Brasil e Argentina– resultou nos prêmios Maria Moors Cabor, da Universidade Colúmbia, e o da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, da Fundação Gabriel García Márquez. No entanto, sua longa jornada deu a ele uma visão cética e desapaixonada dos fatos. Mesmo nos períodos de maior otimismo na região, como durante a onda de esquerda na primeira década dos anos 2000.

Era amado pelos focas, com quem sempre foi generoso. Assim como foi aberto com os colegas mais novos e mais velhos durante toda a carreira. A sorte do dia de um trainee da Folha era calhar em uma pauta com ele. A sorte dos já profissionais, especialmente dos correspondentes e enviados especiais, também. O orgulho de estar sob a sombra de seus quase dois metros de altura estalava quando um diplomata ou grande nome dos governos brasileiros e estrangeiros, especialmente na América Latina, faziam questão de parar para falar com ele nas coberturas e halls de hotéis, numa inversão de papéis. Raramente anotava, escrevia rápido como ninguém, diante dos olhares admirados. Era uma performance tão desconcertante que restava aos assistentes repetir a si mesmo: "Não tentem repetir isso em casa, crianças".

Clóvis Rossi foi acima de tudo um mestre de jornalistas, uma referência constante a quem se dedica ou quer se dedicar a esta profissão. Em seu livro O Que é Jornalismo, obrigatório nas universidades, explica que de nada serve a melhor preparação se não vier acompanhada de um valor essencial: a honestidade. Argumentava que as condições precárias a que muitos jornalistas estão submetidos não são uma desculpa para renunciar à nossa responsabilidade. Porque o jornalismo, dizia, não é um ofício técnico, mas uma função social relevante. "O dever fundamental do jornalista não é para com seu empregador, mas com a sociedade. É para ela, e não para o patrão, que o jornalista escreve”, ensinava.

Alternava períodos cobrindo política brasileira e política internacional, à qual se dedicou nos últimos anos como enviado especial em viagens presidenciais ou a cúpulas internacionais —sobretudo a de Davos— e em suas colunas. Explicava o mundo aos brasileiros e fazia isso como ninguém. Com os anos passou a trabalhar no nono andar do edifício da Folha, onde fica o setor de Opinião do jornal. Era festejado nas vezes em que descia, passeando entre as baias, discutindo a conjuntura, contando episódios. Ao contrário do que escreveu na quarta-feira, sua falta será sentida.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Aurélio Moraes ENTREVISTA Clóvis Rossi


Publicado originalmente no blog do jornalista Aurélio Bulhões P. de Moraes, em 27/05/2010

Entrevista especial - Clóvis Rossi

"Fiz esta entrevista na faculdade em 2008 e considero-a bem interessante" (Aurélio Moraes)
  
Nascido na cidade de São Paulo em 1943, Clóvis Rossi é colunista, repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo. Trabalhou no Jornal do Brasil e foi editor-chefe do Estado de S. Paulo. Teve participação em diversas coberturas internacionais de grande repercussão, tanto pelo Estadão como pela Folha, da qual foi correspondente em Buenos Aires e Madri.

Escreveu em sua carreira vários livros sobre jornalismo, entre eles “Vale a pena ser jornalista? (Ed. Moderna, 1986), no qual aborda os prós e os contras da profissão dizendo que, “o que há de bom na profissão é essa coisa de poder ser testemunha ocular da história de seu tempo. O que há de ruim é a exigência até irracional de dedicação plena”.

Outro livro que merece destaque é “Enviado Especial-25 anos ao Redor do Mundo”. O livro é uma coletânea de artigos sobre suas coberturas em países e momentos históricos-chaves, como a ditadura Argentina, a Cuba socialista, o conflito entre Israel e Palestina, entre outros.

O jornalista descreve em detalhes o cotidiano das populações destes países, como uma burocrática fila para comprar sorvete em Cuba, a compra desenfreada de máscaras anti-gás em Israel, por receio de um ataque químico vindo do Iraque e a alegria de um comício da esquerda chilena.

Clóvis Rossi considera que o jornalista que trabalha em jornal diário é um batalhador, que “precisa matar um leão por dia”. Aos 44 anos de profissão, diz que tem pela frente umas dez mil batalhas, todas interessantes, em grandes assuntos, mas também em pequenos pés-de-página.

Entrevista a Aurélio Moraes

Em 1999 você lançou o livro "Enviado Especial-25 anos ao redor do mundo". Como surgiu a ideia de criar este livro?

Clóvis Rossi – Amigos meus antigos é que insistiram que valia a pena fazer uma compilação de textos publicados ao longo do tempo.

Qual a maior dificuldade e o maior prazer de ser um correspondente internacional?

R – A maior dificuldade é ter acesso à fontes, porque, naturalmente, elas preferem atender a mídia local. O maior prazer é poder olhar o bosque inteiro, e não apenas as árvores como acontece quando você trabalha no teu próprio país, já que há sempre outro repórter do teu jornal olhando as outras árvores.

É fácil conseguir investimento das editoras neste gênero?

R – Não, é difícil. Este tipo de livro tem um público muito segmentado, portanto muitas editoras relutam em publicar este gênero.

Quais são os primeiros passos para um jornalista iniciante escrever um livro-reportagem?

 R – Primeiro, seria bom escrever reportagens até ficar bom nisso, antes de pensar em livro-reportagem.

No seu livro há uma coletânea de textos sobre suas coberturas no Chile, na Argentina, em Portugal e em outros países. Qual destas coberturas te marcou mais?

R – Cada uma delas em seu momento, mas eu destacaria o drama da falta de liberdade política em Cuba e a luta das mães dos presos políticos na Argentina.

Você esteve em Cuba, em 1977. Em sua opinião o regime socialista cubano ainda influencia muito a esquerda latino-americana? Você acha que Raúl Castro simboliza uma possibilidade de grandes mudanças políticas no país?

 R – Influencia cada vez menos e isso é bom. Não seria bom vermos mais “Hugos Chávez” em nosso continente. Sobre Raúl Castro, vejo como inócua a liberação da compra de eletroeletrônicos para a população. O que eles precisam é de liberdade política em primeiro lugar, e não celulares.

Vamos falar um pouco da política nacional atual. No governo Lula temos visto vários problemas de ética. É o uso de cartão corporativo, o dossiê e outros imbróglios. Você acha que a imprensa tem acompanhado bem estes casos?

 R – De modo geral, sim. Receio que deve ficar claro que cada jornal tem sua linha editorial, que pode dar em cada caso um enfoque diferente. O fato é que o governo parece uma máquina de arranjar problemas. E estes certamente viram notícias.

Na sua visão a imprensa cobre o governo Lula da mesma forma que cobria o governo FHC?

 R – Não acho que exista imprensa como um todo homogêneo. A Folha é diferente da Rede Globo, que é diferente do Estadão e por aí vai. Logo não dá para responder de forma generalizada. Não faz sentido por exemplo o PT se sentir “perseguido” pela imprensa. Na época do FHC tudo era noticiado também.

Em sua coluna do dia 21 você fala sobre o espetáculo no qual se tornou o caso Isabella Nardoni. Você acha que a culpa disto são os próprios jornais ou a própria demanda do público-leitor, que se fascina com o caso?

 R – A culpa maior, como escrevi, é da polícia que vaza informações antes de investigar. Esta execração pública beira a barbárie que podemos atribuir às informações vazadas de forma imprudente.

Na sua coluna do dia 31 de outubro de 2007 você comentou a escolha do Brasil como país-sede da Copa de 2014. Acha que o país tem preparo para sediar uma Copa? Quando a escolha foi anunciada, poucas vozes ecoaram na imprensa mencionando as possíveis dificuldades da realização de uma copa no Brasil. Ao que você atribui todo este oba-oba que foi feito pela imprensa?

 R – Vimos em alguns veículos um clima de festa generalizada, mas ainda bem que o vírus da euforia não contaminou a todos. Eu, que cobri a escolha, não fiz um “oba-oba”. Nem o conjunto de textos da Folha.

Como você acha que está o mercado jornalístico atualmente, para quem sai da faculdade?

 R – O estudante de jornalismo deve sair um pouco da “glamourização da profissão”. Nem sempre o primeiro emprego é aquele que a gente mais cobiça. No início da carreira vale até trabalhar em um pequeno jornal de bairro, principalmente para adquirir experiência.

Nos cursos de jornalismo ainda se debate muito a questão do jornalismo ser um 4º "poder". Você acha que é?

 R – Não é nem nunca foi. O jornalismo pode influenciar os desdobramentos da sociedade, mas está longe de ser um “poder”.

Texto e imagem reproduzidos do blog: aureliojornalismo.blogspot.com

Clóvis Rossi divide sua experiência de correspondente...

Foto de Claudia Rossi, reproduzida do site caaalvarenga.wordpress.com, 
postada pelo blog “Meio Impresso”,  para ilustrar o presente artigo

Texto reproduzido do site da Faculdade Cásper Líbero.

Clóvis Rossi divide sua experiência de correspondente internacional com os alunos

Por: Deborah Rezaghi

Jornalista aponta o que é preciso para trabalhar como repórter no exterior

“Jornalismo não se ensina. Jornalismo se faz com quatro verbos: ver, ler, ouvir e contar.” Essa foi a receita que o jornalista Clóvis Rossi passou para os estudantes da Cásper Líbero durante a palestra “Correspondente internacional – atuação e carreira”, que aconteceu no dia 19 de junho.

O jornalista foi enviado especial durante muito tempo e teve a oportunidade de conhecer os cinco continentes realizando coberturas. Além disso, participou de momentos históricos, como a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o Golpe Militar no Chile, em 1973. “Correspondente é a melhor função que se pode exercer no jornalismo. Você pode olhar o bosque inteiro, e não apenas as árvores.” Ele aponta que quando os repórteres atuam no Brasil, acabam focando em apenas uma editoria, mas quando se trabalho no exterior é preciso entender um pouco de tudo, de política, economia e cultura.

E qual a diferença entre o trabalho de um correspondente e o de um enviado especial? “O correspondente já está no país há mais tempo, e consegue acrescentar algo mais à matéria, além de ter mais facilidade de construir fontes, pois fica permanentemente no local. Já o enviado especial chega ao país de repente e fica pouco tempo, e tem menos tempo de se aprofundar”. Clóvis Rossi afirma que para ser um correspondente internacional é preciso se preparar muito e uma das maneiras é ler diariamente a mídia internacional. “O essencial é se informar muito antes de ir para um país – até mesmo para evitar cair em alguma armadilha.”

Ultimamente as empresas de comunicação têm obtido informações do exterior através das agências de notícias, como a mais famosa delas, a Reuters. Mas qual a grande vantagem de ter um correspondente do veículo em determinado país? “O jornalista vai dar um olhar brasileiro para a matéria, diferente das matérias das agências que são uniformes e distribuídas para todos os lugares do mundo”. Recentes demissões coletivas em veículos de comunicação como os jornais Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo e Valor Econômico, o Grupo Abril, as TVs Record e RedeTV! e portais online como o Terra, preocupam profissionais já formados e ainda mais os estudante de que logo entrarão no mercado. Assim, qual será o futuro do correspondente internacional? “Uma coisa interessante de se notar é que as últimas demissões da Folha e do Estadão não cortaram correspondentes”, aponta Rossi. Pelo fato de a televisão depender muito da imagem e de ser importante para a emissora que apareça o logo no país em que o repórter esteja, o jornalista acredita que ainda há um futuro promissor para correspondentes na televisão, mais do que no impresso.

Apesar de ter trabalhado na Argentina durante a ditadura militar e ter coberto guerras como a das Malvinas, em 1982, e a do Golfo, em 1991, Clóvis Rossi diz que a cobertura mais difícil que realizou foi aqui mesmo, no Brasil, durante a morte de Tancredo Neves. “Eu não gosto de trabalhar com coisas que eu não posso ver, pois deixo de exercitar um dos verbos. Assim, foi uma cobertura muito difícil, pois não se tinha certeza de nada o que acontecia e eu precisava voltar com as informações para o jornal ser fechado”.

Para trabalhar como repórter fora do país, é importante ter o domínio da língua local. “Saber falar inglês e espanhol é fundamental. Mas é um grande diferencial saber falar a língua do país em que se está trabalhando.” Ele conta que durante uma matéria que fez no Japão precisou que uma tradutora lhe dissesse o que entrevistado falava. E a experiência não foi muito boa: “A tradutora não falava tudo o que o entrevistado dizia e, por conta disso, não apontava as aspas que eu queria focar”.

Por conta da fluência na língua espanhola, o jornalista conta que vários veículos de países latino-americanos, principalmente algumas rádios da Argentina, têm o procurado para comentar a respeito das manifestações que têm ocorrido no Brasil. E o que os nossos vizinhos acham que está acontecendo por aqui? “Eles estão perplexos, pois a coisa que mais estava presente é a de que o Brasil tinha uma história de sucesso nos últimos anos. Assim, porque está tendo tantas manifestações?” Ele afirma que eles ainda não entendem como que no país do futebol haja protestos contra a Copa do Mundo: “Não é contra a Copa que protestamos, e sim contra os gastos na Copa”. De acordo com Clóvis Rossi, a imagem do Brasil está mudando lá fora nos últimos anos. “Eles não entendem o que está acontecendo agora por aqui. Mas nem nós estamos conseguindo entender direito. Só o tempo vai nos dizer.”

Texto reproduzido do site: casperlibero.edu.br

Jornalista Clóvis Rossi morre em SP aos 76 anos

Jornalista Clóvis Rossi durante entrevista a Pedro Bial
Foto: Reprodução/TV Globo

Publicado originalmente no site G1, em 14/06/2019

Jornalista Clóvis Rossi morre em SP aos 76 anos

Ele esteve internado no Hospital Albert Einstein por causa de um problema no coração. Rossi mantinha coluna na 'Folha de S.Paulo' e também trabalhou no 'Estado de S.Paulo' e no 'Jornal do Brasil'.

Por G1

O jornalista Clóvis Rossi, de 76 anos, morreu na madrugada desta sexta-feira (14) em São Paulo. Ele esteve internado no Hospital Albert Einstein, na Zona Sul da capital paulista, entre sexta-feira (7) passada, por causa de um infarto, e esta quinta (13).

Rossi estava em recuperação, mas passou mal em casa nesta sexta, segundo relatou sua filha, Cláudia, ao também jornalista Juca Kfouri.

Nascido em São Paulo em 25 de janeiro de 1943, dia do aniversário da cidade de São Paulo, Rossi exercia o cargo de repórter especial e era membro do conselho editorial do jornal "Folha de S.Paulo". Estava na empresa desde 1980. Era colunista e escrevia às quintas e aos domingo.

Em sua coluna na Folha, na quarta (12), ele explicou o motivo de não postar no último domingo (9).

Leia a íntegra:

“Serve a presente coluna para explicar minha ausência desde domingo (9) nas páginas desta Folha.

É uma satisfação devida ao leitor, se é que há algum. Sofri um micro-infarto na sexta (7), fiz a angioplastia, recebi um stent e, na terça (11), outra angioplastia, com mais quatro stents.

Tudo correu perfeitamente bem, graças à extraordinária eficiência e rapidez de atendimento do hospital Albert Einstein, tanto em seu pronto-socorro no Ibirapuera como no próprio hospital, no Morumbi.

E, claro, graças ao dr. José Mariani, do setor de Hemodinâmica, que colocou os stents, ao meu médico de toda a vida, Giuseppe Dioguardi, e a meu irmão, também médico, Cláudio Rossi.

A alta está prevista para esta quinta-feira (13) e, como o músculo cardíaco não chegou a ser afetado, pretendo retornar à atividade profissional normal na próxima semana.

Agradecimento também aos companheiros da Folha que me ampararam e até mentiram dizendo que estavam sentindo minha falta”.

Trajetória

Formado na Faculdade Cásper Líbero, o jornalista tinha mais de 50 anos de carreira. Começou em 1963. Além da Folha, trabalhou também no “O Estado de S.Paulo” e no “Jornal do Brasil”. Antes teve passagens no "Correio da Manhã", revistas "Isto É" e "Autoesporte" e pelo "Jornal da República". Manteve blog em espanhol no "El País".

Rossi foi editor-chefe no “Estadão” e correspondente em Buenos Aires e Madri pela Folha.

O jornalista tem textos publicados em todos os cinco continentes e trabalhou em coberturas de transição do autoritarismo para a democracia em Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, toda a América Central, Espanha, Portugal e África do Sul.

Prêmios

Ganhou os dois mais importantes prêmios jornalísticos na América Latina: o Maria Moors Cabot, concedido pela Columbia University, e o da Fundação para um Novo Jornalismo Iberoamericano, pelo conjunto da obra, que recebeu das mãos do criador do órgão, o Nobel Gabriel Garcia Márquez.

Rossi é cavaleiro da Ordem do Rio Branco, conferida pelo governo brasileiro por decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É também cavaleiro da Ordem do Mérito, atribuída pelo governo francês, durante a presidência de François Hollande.

Livros

Entre seus livros estão “O que é jornalismo” (1980), “Militarismo na América Latina (1990) e “Enviado especial: 25 anos ao redor do mundo” (1999).

O jornalista deixa esposa, Catarina Rossi, três filhos e três netos.

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

quinta-feira, 13 de junho de 2019

IstoÉ demite Rudolfo Lago e Ary Filgueira e fecha sucursal DF


Publicado originalmente no site Jornal Opção, em 23/04/2019 

IstoÉ demite Rudolfo Lago e Ary Filgueira e fecha sucursal de Brasília

Por Euler de França Belém

Ex-diretor publica post no Facebook e sugere que a Editora Três e a revista devem acabar

Na maior crise de sua história, a revista “IstoÉ” fechou sua sucursal de Brasília, que era responsável pelas principais reportagens — as notícias quentes — da publicação da Editora Três. Foram demitidos dois — o diretor Rudolfo Lago e Ary Filgueira — dos três jornalistas da equipe. Wilson Lima será mantido e escreverá suas reportagens a partir de sua casa ou algum escritório particular.

Num longo post (leia o texto integral abaixo), publicado no Facebook, Rudolfo Lago comenta a crise: “Eu não tenho a menor dúvida de que é um passo célere para o fim da revista e da Editora Três”. Os salários dos funcionários da Editora Três estão atrasados.  O jornalista frisa que a editora fechou a revista “Planeta”.

Texto de Rudolfo Lago, ex-diretor da revista IstoÉ em Brasília

“A partir da manhã de hoje, cumpro a dolorosa tarefa de fechar as portas da sucursal de Brasília da revista IstoÉ.

“Eu não tenho a menor dúvida de que é um passo célere para o fim da revista e da Editora Três. Tomou-se também a decisão de acabar com a revista Planeta, a primeira revista da editora fundada por Domingo Azulgaray. A decisão tomada hoje é meio como extirpar metade das funções vitais de um corpo para evitar a evolução de um câncer. Até pode diminuir a evolução do câncer. Mas o corpo pela metade não vai sobreviver por muito tempo.

“Antes da decisão de pôr fim à sucursal de Brasília, a IstoÉ, carro-chefe da editora, já vinha funcionando com uma equipe de somente 13 pessoas. Esta sucursal, há alguns anos, tinha só ela mais de vinte jornalistas. Nestes últimos tempos, éramos três. Mas a leitura de qualquer edição da revista demonstrava o volume de produção que tinha Brasília como origem. Das cerca de 70 páginas editoriais da revista, vinte pelo menos eram produzidas todas as semanas pela sucursal de Brasília.

“Com relação ao nosso trabalho na sucursal, o que posso apresentar são números e dados. Na medição de audiência da semana passada, as duas matérias mais lidas e de maior alcance nas redes sociais foram produzidas pela Sucursal de Brasília: a entrevista com Dom Falcão, o bispo que se envolveu numa polêmica com Caetano Veloso, e a boa apuração de Wilson Lima sobre a atuação de Flávio Bolsonaro nos bastidores para barrar a CPI Lava Toga.

“Ao longo do tempo em que estive à frente da Sucursal, a quase totalidade das matérias que tiveram repercussão foram por nós produzidas. A última vez que IstoÉ foi mencionada no Jornal Nacional foi quando publicamos os áudios das conversas comprometedoras de um secretário do governo do Paraná que mais tarde acabaram levando à prisão do ex-governador Beto Richa. Fizemos ainda uma trabalhosa apuração junto a amigos da ministra Cármen Lúcia, conseguindo extrair diversas declarações ditas por ela a esses amigos sobre a situação do Supremo Tribunal Federal em um de seus momentos mais tensos. Fomos os primeiros a contar sobre a vida humilde na Ceilândia dos parentes de Michelle Bolsonaro. Mostramos as indenizações milionárias e mal explicadas da Comissão da Anistia, publicando pela primeira vez a lista com os nomes e os valores de cada indenização. Publicamos os cheques assinados pela irmã de dois milicianos em nome da campanha de Flávio Bolsonaro no Rio, na última reportagem de grande repercussão de IstoÉ – que, talvez, venha mesmo a ser a última reportagem de grande repercussão de IstoÉ.

“Enquanto vamos aqui recolhendo nossas coisas pessoais e nossos papeis, vamos assistindo melancólicos a mais um capítulo dessa triste crise do jornalismo brasileiro. No Brasil, essa crise que é do modelo agravou-se muito pelos equívocos cometidos pelos responsáveis por cada publicação, que não perceberam – e ainda não percebem – as mudanças. Aqui, toma-se a decisão de eliminar o principal foco de produção. Sei lá: vão-se os dedos para não se perder os anéis…”.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornalopcao.com.br

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Revista Veja troca diretor


Publicado originalmente no site da revista STYLLUS, em 23 de maio de 2019

Revista Veja troca diretor


Revista Veja troca diretor. André Petry porquanto se despede do cargo que ocupava desde fevereiro de 2016. Colunista e redator-chefe até esta semana, Mauricio Lima assume como diretor de redação da revista Veja. Em ‘Carta ao Leitor’, similarmente publicação da Editora Abril fala em renovar “compromisso com o jornalismo de excelência”.

Surpreendentemente Chega ao fim o período de André Petry como diretor de redação da Veja. Na edição desta semana, a revista confirma que o jornalista deixa o cargo para Mauricio Lima, que atualmente é responsável pela coluna ‘Radar’. Ele integra o time de redatores-chefes. A mudança ocorre um mês após o comando do Grupo Abril, que edita a semanal, deixar de pertencer à família Civita. Desde 17 de abril, o controle da empresa de mídia pertence ao empresário Fabio Carvalho, da Cavalry Investimentos.

A princípio, André Petry sai com a marca de ter sido o profissional que por menos tempo permaneceu na função. Ainda assim, ele estava no cargo desde fevereiro de 2016, quando sucedeu Eurípedes Alcântara. Assim como os dois, em conclusão apenas quatro jornalistas podem dizer que foram diretor ao decorrer dos 50 anos de história da Veja. O primeiro a ocupar o posto foi Mino Carta (1968 – 1976). O título ainda contou com as lideranças de Mario Sergio Conti (1991 – 1998) e Tales Alvarenga (1998 – 2004). Hoje colunista do veículo, José Roberto Guzzo foi o número 1 do jornalismo do impresso durante 15 anos, de 1976 a 1991.

Na ‘Carta ao Leitor’ da edição desta semana da Veja, o Grupo Abril valoriza a gestão de André Petry. Em conclusão coloca a saída dele como parte de processo que visa renovar o “compromisso com o jornalismo de excelência”. Em resumo o veículo evidencia números alcançados durante a direção dele. Há destaque para feito realizado fora da mídia impressa. “[O site Veja.com] já que ganhou ainda mais projeção. Nesse meio tempo saltando de uma média mensal de 12 milhões para 30 milhões de visitantes únicos”. Por fim Informa-se, também, o crescimento da marca nas redes sociais, como Facebook e Twitter.

Jornalista petista?

Sucessor de Eurípedes Alcântara, André Petry assumiu a direção de jornalismo da publicação com a desconfiança de ser um “petista”. A acusação foi feita, inclusive, por ex-colaboradores da revista, como Mario Sabino, Diogo Mainardi e Rodrigo Constantino. O começo de seu trabalho no posto de liderança, contudo, serviu para rechaçar tais afirmações. As quatro primeiras capas da Veja desde que o jornalista havia sido anunciado como diretor traziam o ex-presidente Lula. Nenhuma era em tom elogioso. Uma, inclusive, falava em “o desespero da jararaca”.

Veja faz jornalismo que bate nos dois lados, disse o profissional em entrevista concedida ao Portal Comunique-se em abril de 2018.


No comando da revista, André Petry acompanhou de perto um dos períodos mais turbulentos do Grupo Abril. A empresa de mídia entrou com pedido de recuperação judicial em agosto de 2018, semanas após encerrar títulos e demitir em massa. Ele, inclusive, está na lista de credores, tendo a receber mais de R$ 109 mil. No aspecto editorial, apostou em estratégias para além do impresso e do online. A marca realizou eventos e encontros. Foram debates com o nome de “Amarelas ao Vivo”, sessões em parceria com Exame e o “Prêmio Veja-se”. No que diz respeito à gestão de pessoas, demitiu e aceitou pedidos de demissões. Entre outros nomes, saíram os colunistas Vera Magalhães (maio de 2016), Reinaldo Azevedo (maio de 2017) e os redatores-chefes Carlos Graieb (maio de 2016) e Thaís Oyama (dezembro de 2018).

De colunista a diretor

A era de André Petry como diretor de redação não contou apenas com demissões. Ele foi o responsável por contratar, entre outros profissionais, Mauricio Lima. Ele chegou à equipe da Veja para, de certo modo, substituir Vera Magalhães e Carlos Graieb de uma vez só, em maio de 2016. Foi contratado para ser o colunista de ‘Radar’, que conta com blog e espaço no impresso, e ser um dos redatores-chefes. Agora, é justamente Mauricio Lima quem assume a direção da Veja. Ele terá de seguir adiante com as missões propagadas pelo próprio título: “defender a democracia, a livre-iniciativa e a justiça social”.

Aos 46 anos, o carioca Mauricio Lima tem sua carreira no jornalismo ligada ao Grupo Abril. A chegada em 2016 representa apenas mais uma passagem sua pela empresa. Em 1997, ele foi aluno do “Curso Abril de Jornalismo”. Passou por outras publicações da casa, como a esportiva Placar, a Exame (economia e negócios) e a local Veja Rio.  Para Veja, desempenhou diversas funções. Foi repórter em São Paulo, editor na sucursal de Brasília e, desde o seu retorno, vinha respondendo como redator-chefe baseado no Rio de Janeiro. “Mostrou sua enorme capacidade de trabalho, sua busca incansável pela boa informação e seu brilhantismo para jogar em qualquer posição”, afirma a ‘Carta ao Leitor’. O novo diretor de redação é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fora do país, realizou cursos de extensão pela Havard Business School.

De diretor a colunista

Enquanto Mauricio Lima vai de colunista a diretor de redação, André Petry faz o caminho inverso. No aviso sobre a troca de comando, o Grupo Abril avisa que ele “começará nova fase” na revista. A promessa é que ele se torne colunista da versão impressa, com direito a blog no site da marca. A data de estreia para a nova função não foi divulgada. Sabe-se que ela terá início “depois de um merecido período de descanso”. Vale destacar que o mesmo aviso foi feito quando Eurípedes Alcântara deixou o comando da semanal, mas a coluna editada por ele nunca chegou a existir nas páginas do impresso. Por ora, André Petry está confirmado como palestrante da Jornada Galápagos de Jornalismo, iniciativa de Alecsandra Zapparoli.

Por Anderson Scardoelli


Texto e imagens reproduzidos do site: revistastyllus.com.br

quinta-feira, 30 de maio de 2019

A literatura ou a vida: uma conversa franca com Nirlando...

Acervo pessoal 

Publicado originalmente no site da revista CartaCapital, em 28 de maio de 2019

A literatura ou a vida: uma conversa franca com Nirlando Beirão

Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches  

Escrito entre o diagnóstico de um mal incurável e a memória da família, ‘Meus Começos e Meu Fim’ emociona e ilumina

Jean-Paul Sartre dizia que escrevia “porque o artista deve confiar a outro a tarefa de concluir o que ele começou”. Nada parece se encaixar mais como definição de Meus Começos e Meu Fim (Companhia das Letras), de Nirlando Beirão: é um livro cuja pulsão literária está na transmissão, para adiante, de uma consciência do mundo, uma consciência dolorida, adquirida em uma situação extremada.

Diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em julho de 2016, o jornalista Nirlando Beirão refugiou-se numa de suas atividades de excelência, a literatura, para compreender o processo da vida. Mesmo em meio à “corrosão emocional de ver a angústia da doença fatal me consumindo”, iniciou essa investigação de si mesmo no que considerava a raiz de tudo: a história do avô, António Beirão, ex-padre, ex-colega do ditador Salazar no seminário. O resultado é uma das mais cortantes, emocionantes e singulares narrativas da literatura brasileira em 2019.

Editor-executivo de CartaCapital, chefe, portanto, destes editores, Nirlando é mineiro de Belo Horizonte, tem 70 anos e começou a carreira no jornal Última Hora, em 1967. Passou pelos principais veículos de comunicação do País e é autor de diversos livros, entre eles, América: Depoimentos (Companhia das Letras, 1989). Em 2011, foi nomeado Chevalier des Arts et des Lettres pelo Ministério da Cultura da França. Nirlando nos concedeu por e-mail a descontraída/bem-humorada/sagaz entrevista.

NIRLANDO: “SOFRI CULPAS QUE NEM ERAM MINHAS”

CartaCapital: Como está sua saúde desde que concluiu o livro? Já teria adendos a fazer à história que conta em Meus Começos e Meu Fim?

Nirlando Beirão: Hoje estou melhor do que amanhã, apesar de todo o esforço e da competência do exército de aventais brancos que me cerca. Esta é a sina – às vezes imperceptível – de uma doença degenerativa. Escrevi o livro com a mão direita, continuo escrevendo.

CC: A certa altura você se pergunta se somatizou o 7 a 1 da Alemanha, o Donald Trump, o impeachment de Dilma Rousseff, o Jair Bolsonaro… Ainda que o pensamento não ajude a resolver as coisas, faz sentido viver a dor de um país no próprio corpo, na própria mente?

NB: Tudo isso machuca, mas inconscientemente acabei interpondo um véu leitoso entre mim e a realidade. Não que eu queira me alienar, nunca. É uma defesa involuntária. Sempre tive a tendência de desligar o botão do pânico. A primeira vez que percebi a película protetora foi passando de forma banal pela Paulista. Foi como se desmaiassem som e imagem.

CC: Por que a culpa está tão presente no seu livro? É o avô padre Beirão? É a avó mulher do padre? É a naturalidade mineira? É o catolicismo? É, de alguma forma, uma culpa que você próprio sente?

NB: Estranhei a rezação excessiva em família quando meu avô morreu. O catolicismo pune desde o início. Uma vez o Glauber Rocha me disse: Sabe por que eu sou livre? Nasci em família protestante, sem a ideia do pecado original. Criança, eu sofria de culpas que nem eram minhas.

 
O AVÔ PADRE DE NIRLANDO

CC: Você conta no livro que começou no jornalismo em 13 de junho de 1967. Era um momento agudo da vida nacional, e já se desenrolava o processo que no ano seguinte culminaria no AI-5. Do que tem acompanhado do processo atual, que paralelos traçaria entre os dois momentos, o da sua juventude e o dos 69 anos de idade?

NB: 70 anos, cheguei lá. A diferença é que, apesar do entorno, a gente acreditava no jornalismo e no futuro do Brasil. Confesso agora certo desalento.

CC: Quais foram e são os melhores momentos para fazer jornalismo no Brasil? Os de maior liberdade ou os de grande aperto institucional?

NB: Do ponto de vista profissional, minha geração foi privilegiada. Havia várias empresas jornalísticas, investindo, crescendo. Hoje, as que sobraram, com raras exceções, desistiram do jornalismo, só pensam no business. Aliás, a indústria de comunicação, assim como toda a nossa indústria, é muito atrasada. Ainda bem que existe a guerrilha da internet.

CC: O que a profissão do jornalismo tem, para você, de mais feio e de mais bonito? Ainda vale a pena ser jornalista em 2019?

NB: Acho que respondi acima. O jornalismo que mobiliza, que emociona, tem seu lugar. Chega de fingir que nós repórteres somos robôs e que há normalidade nessa realidade tão anormal.

“O jornalismo que mobiliza tem seu lugar. Nós repórteres não somos robôs”

CC: Você relata que sua condição, ou doença, não se pauta principalmente pela dor. Isso é bom? Ou seria melhor sentir dor?

NB: A dor intrínseca existe. Tem dias que acordo Frank Capra, it’s a wonderful world, mas tem dias que acordo Franz Kafka (não confundir com cafta), me sentindo um inseto.

CC: Seu avô, António Beirão, teve a coragem de romper com um elo moral, a Igreja, para fugir com sua avó e largar a batina. Ele representa seus começos, como diz o título, que se refere a duas extremidades da vida. Dessa forma, quais são os rompimentos fundamentais que a sua maturidade jornalística e literária lhe propiciou?

NB: O primeiro rompimento foi com a culpa, o temor e os dogmas que a religião infringe. No jornalismo, logo rompi com a hierarquia dos temas. Como se uma notícia de esporte – que contagia milhares e milhares de leitores – fosse mais desprezível que o solene editorial do jornal. O curso de Antropologia, num momento sombrio da universidade, início dos anos 70, foi importante para reiterar que as pessoas são diferentes. Do Country Club aos Yanomâmi, cada tribo tem seu jeito de comer, dormir, dançar, fazer sexo, sobreviver. Ninguém é superior a ninguém. A propósito, visitei uma oca coletiva dos Yanomâmi. É tão grandiosa, tão imponente quanto as catedrais góticas. É curiosa a Antropologia: nasceu porque os poderes coloniais precisavam entender quem eram aqueles “primitivos” que eles estavam espoliando. Felizmente, os antropólogos foram bem além. A psicanálise, que frequento há mais tempo que o Woody Allen, me fez romper com certos fantasmas íntimos.

O NÚCLEO CENTRAL DA FAMÍLIA, RETRATADA EM SEU LIVRO.

CC: Anteriormente, você publicou livros sobre a churrascaria Rodeio, sobre o arquiteto Claudio Bernardes, sobre o Corinthians, sobre Sérgio Motta, o “trator de FHC”, sobre o Bar Original. Sua trajetória literária não é marcada pela radicalidade, mas principalmente pela circunstancialidade. O que significa para você publicar agora uma obra que se caracteriza pelo mergulho mais profundo, doloroso e visceral na experiência humana mais extrema?


NB: Não chamaria propriamente de literária. Escrevi livros de encomenda, alguns como ghost-writer. Estes citados por acaso gostei de escrever: um passeio pelos Jardins, em São Paulo, a história dos bares e cafés do mundo, a vida e obra de um arquiteto talentoso e carismático que, infelizmente, morreu num desastre estúpido logo depois… Mas o livro que mexeu com minhas entranhas é este de agora.

CC: O seu livro foi escrito em uma circunstância que ultrapassa a questão do julgamento do autor pelo crítico e pelo leitor. Dessa forma, posta-se em uma condição singular, que o posiciona além da ansiedade e da repercussão. Você o entende assim? Você o vê como algo que vai além do exercício do estilo e da vaidade literários?

NB: A vaidade talvez seja esta: é um livro, tem sua compostura. Embora eu ironize a pose em torno do tema leitura, confesso que tinha pensado antes em escrever um blog, uma espécie de diário da doença. Tinha até título: Neuro e Neuras. Mas a internet me acovardou. Imaginei o dia em que um internauta impaciente iria me interpelar: E aí, cara, vai morrer ou não vai?

CC: Livros escritos em situações de saúde debilitada marcam a literatura de grandes autores, como Virginia Woolf, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis. E, mais recentemente, Christopher Hitchens, em Últimas Palavras. Hitchens teve o humor, a mordacidade e o sarcasmo potencializados pela experiência. Quais são os sentimentos e qualidades que Meus Começos e Meu Fim destacou em você?

NB: Na comparação, prefiro ficar com o Christopher Hitchens. A narrativa dele na Vanity Fair me deliciou, se é que dá para usar a palavra em tais circunstâncias. Até o absolvi do pecado de ter defendido a invasão do Iraque pelo Bush. Eu morava na Califórnia em 2003 e o assisti falando besteiras em Berkeley – mas com carisma e humor. O que mudou em mim? Talvez perder o medo. Talvez aprender a receber o carinho que nem sei se mereço.

CC: O Nirlando Beirão, titular da coluna QI, é um homem sofisticado, grand vivant, que sabe admirar tanto os bons vinhos quanto uma capa inglesa Burberry. Mas que confidencia imaginar que a boa velhice incluía uma boina vermelha. Por qual dessas imagens extremas você prefere ser lembrado?

NB: Roupa é uma fantasia, literalmente, que você expressa ali. De Lady Gaga ao Duque de Kent. Nas viagens, eu comprava roupas fora do meu padrão, na esperança de me transformar. Comprei de calça de capoeirista, de algodão cru, no Mercado Modelo de Salvador, a paletó Harry’s Tweed na City de Londres. Eu sou assumidamente esquerda-foie gras. Prefiro, de todo modo, a boina. Uma vez, o Leon Ferrari recebeu em Buenos Aires este repórter brasileiro perplexo com os enigmas da política argentina. Avisou que iria chamar uns amigos sociólogos, jornalistas, cientistas políticos, artistas como ele. Foram chegando, um a um, os velhinhos. Todos de boina. Parecia congresso da Segunda Internacional.

CC: A sua atual cabeceira de livros inclui Philip Roth, Ian McEwan, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Edward Said, a revista Granta. Revela tanto o perfil de um homem eclético quanto culto. Qual livro não leu, não lerá, e se arrepende disso?

NB: Cheguei a estudar um pouco de alemão porque queria ler A Montanha Mágica no original. Não li nem no original nem em português. Tenho uma versão em inglês que me espia lá do alto da estante.


CC: No livro, afirma que sempre foi mais de calar do que de falar. Um bom jornalista fala e ouve muito, mas não costuma se calar diante do que deve ser dito, seja a quem for. O que e a quem você gostaria de ter dito algo, mas se calou?

NB: Falo por escrito. Sou – desculpe a pretensão – militante da palavra. Tenho convicções. Mas a minha “condição”, como dizem os médicos, me leva muito mais a uma autocrítica íntima sobre tudo o que não fiz. Se fosse botar em papel tudo o que devia ter feito, e não fiz, dava para encher toda a biblioteca de Alexandria. É possível que ao longo da carreira e da vida eu tenha engolido um ou outro sapo. Bem menos, asseguro, do que o ministro da Justiça atual e provisório.

“Se fosse botar no papel tudo que devia ter feito, e não fiz, dava para encher a biblioteca de Alexandria”

CC: Você afirma que adora o jornalismo desimportante, o jornalismo pop, das franjas, da periferia. E lembra que fez colunismo social com black-tie emprestado. Quem faz esses tipos de jornalismo nos dias de hoje?

NB: Passei pelo colunismo na época em que falava muito em neocolunismo, ou new columnism, como preferia a categoria. Menos festa, mais notícia. Zózimo Barroso do Amaral, no Jornal do Brasil, depois n’O Globo, o Boechat. E a Joyce. Hoje o colunista, coitado, é obrigado a conviver com gente muito xexelenta. Perto desse rebotalho que está no poder, o governo Collor, com o qual convivi, era a corte de Lorenzo de Medici. Mas o jornalismo pop venceu. Vocês estão aí para não me deixar mentir. A historiografia contemporânea também se apoia muito nos faits divers.

CC: Lula livre? Por quê?

NB: Porque a matilha de Curitiba só o condenou, sem prova alguma, para concretizar a etapa 2 do golpe e impedir a eleição dele. E porque ele é o único líder de verdade que o Brasil tem.

CC: Você pensa na hipótese de seu final vir a ser completamente diferente daquele dos 69 anos do avô Beirão? Gostaria que isso acontecesse?

NB: Escrevi que tenho o duvidoso privilégio de pensar todos os dias na minha morte. As fantasias variam. Pode ser uma suprema arrogância essa, mas não tenho medo.

Texto e imagens reproduzidos do site: cartacapital.com.br

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Mino Carta: Sem Gianni, tudo muda para mim


Publicado originalmente no site da revista CARTA CAPITAL, em 9 de maio de 2019  

Mino Carta: Sem Gianni, tudo muda para mim
Por Mino Carta*

Quem diz que o tempo ameniza a dor se engana. Pelo contrário, aprofunda o abismo da perda

A morte de Gianni muda a vida e o mundo, a dor é de pedra. Meu filho era desassombrado, letrado, culto bem mais que o pai. E era também um homem de bem, generoso, de cortesia refinada e sem jactância, com a contribuição de um senso de humor apurado. Sábio inclusive: aos 16 anos, depois de promover rebuliços políticos no Colégio Dante Alighieri, onde cursava o Clássico, saiu do Brasil ao vaticinar: “Isto nunca vai dar certo”. Voltava ao País para visitar a família. Fora leitor de Gilberto Freyre e Raymundo Faoro, de quem foi grande amigo, a despeito da diferença de idade. Gianni é que estava certo.

O passado roda à minha volta como um carrossel. Vejo o meninote de 3 anos que ao crescer pretendia ser “mostorista japonês” e alcanço o enviado especial a guerras, motins, levantes, revoltas, cenários tempestuosos, da Sérvia a Gaza, de Kiev a Trípoli, de La Paz a Bogotá. E o especialista na Rússia pós-URSS, e o entrevistador de personalidades e do anônimo frequentador das calçadas. Repórter completo voltado para a busca obsessiva da verdade factual, insuflada pelo scholar, um alter ego criado pelos estudos que de Los Angeles a Paris foram encerrados com Ph.D. em Ciências Políticas. Quando eu descia a campo à beira de um copo para afirmar que a política não é ciência, e sim, às vezes, excepcionalmente, arte, ele não hesitava em evocar algumas das inúmeras bobagens que pronunciei ao longo da vida. O seu primeiro livro reúne uma série de reportagens introduzidas por um substancioso ensaio sobre o “novo jornalismo” admirado nos Estados Unidos, e obviamente no colonizado Brasil, desde o momento em que Mailer, Capote, Talese, Tom Wolfe deram para tratar de assuntos jornalísticos. Neste prólogo iluminante ele demonstrava que na Europa sempre houve jornalistas habilitados a escrever com qualidade literária, e quanto a prática é estimulante para os leitores.

E de súbito Gianni aparece meninote, enverga quimono de judoca, ou o uniforme escolar a galgar impávido o palco do teatro do colégio para cantar, ele desafinado irremediável. Ou já moço em roupas imaculadas de tenista cercado de alunos adolescentes em um clube de Los Angeles, o futuro scholar a dar aulas ali ou a algum ricaço de Beverly Hills para sustentar os estudos na UCLA. O judoca não esqueceu a técnica dos golpes mais eficazes, o que o levou certa vez a enfrentar em uma briga de bar um valentão de 100 quilos: golpe perfeito, o brutamontes voou para cair sobre o próprio Gianni e quebrar-lhe o joelho esquerdo. Mas ele quebraria também o direito, na quadra.

A respeito de tênis foi seu segundo livro, uma história brasileira do esporte branco escrita em parceria com Roberto Marcher, ex-profissional que formou dupla com Thomas Koch. Assinaria mais três, entre eles um best seller, a biografia de Miguel Reali Jr., amigo querido e companheiro de belas jornadas parisienses. O mais notável, a meu ver, é aquele publicado pela Boitempo, ousado e revelador, descida com tocha e corda à procura da criação do mito garibaldino. Custou-lhe dez anos de pesquisa através do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina e diversos países europeus. Nesta edição Nirlando Beirão relê uma obra profunda e insólita, potente como seu herói. Outro é o protagonista do quinto livro, este sim digno do scholar, retrato minucioso e demolidor de Silvio Berlusconi, volumosa tese de Ph.D.

Casado duas vezes, encontrou em Valérie a outra metade da maçã de Sócrates, e ela se tornou uma filha para mim. Escreve: “Como sobreviver a esta perda? Gianni foi o amor da minha vida, um ser excepcional”. Do primeiro casamento nasceram dois filhos encantadores, Sophia e Nicolas, ambos londrinos educados na França.

Estavam em Paris quando o pai partiu para a sua viagem sem retorno. E agora estou com meu filho à beira do Danúbio. Chegamos a pé da praça central de Praga onde a música de Mozart ecoa para sempre, atravessamos a ponte que leva a Malastrana, o bairro de Franz Kafka, que o ministro da Educação de Bolsonaro confunde com um prato da cozinha árabe, estamos sentados à mesa, comemos um peixe do rio e os copos admitem conter um branco potável. A mesa sempre se ofereceu para os nossos melhores encontros, sobretudo em Roma, sua cidade preferida.

Quem diz que o tempo ameniza a dor se engana. Pelo contrário, aprofunda o abismo da perda.

* Diretor de Redação de CartaCapital

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br