Meio Impresso
Jornais, revistas, jornalistas e artes gráficas.
domingo, 7 de junho de 2026
Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento
sábado, 6 de junho de 2026
A sofisticação em meio a simplicidade
Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 5 de Junho de 2026
A sofisticação em meio a simplicidade
Por José Roberto de Lima Andrade *
A semana terminou, pra variar, com mais um daqueles Febeapa – Festival de Besteiras que Assola o País. Novo tarifaço anunciado por Trump, ataque ao Pix, e etc. Cansa falar da estupidez da classe política brasileira.
Melhor falar sobre o documentário lançado no último dia 28 de maio – “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”. Apesar de vários artigos sobre o documentário, as lembranças da minha juventude em uma Aracaju extremamente “simples” falaram mais alto. E, portanto, vão se lascar Trump e acessórios.
A Folha da Praia surgiu no início da década de 80 e durou até a metade dos anos 20 deste século. Coincidiu com o início da minha adolescência e começo da juventude em uma Aracaju, tempo que não possuía nada de extraordinário.
Fui criado no bairro São José, que para mim sempre foi o centro do mundo. Estudava, ia ao hospital, a igreja, a pizzaria, aos clubes, ao estádio de futebol, aos passeios dominicais circulares na Praça Tobias Barreto, aos shows no Constâncio Vieira, tudo isso em um raio de no máximo um quilômetro.
Para mim, Aracaju era o Bairro São José, o centro da cidade - o “comércio” – e a Atalaia. A Atalaia, um pedaço do paraíso ainda pouco habitado. Das peladas aos domingos, onde tínhamos que chegar cedo, ao surf que começou a tomar espaço do futebol.
E a vida noturna também era na Atalaia. Começava no Manequito, cuja batida, supostamente, continha substâncias misteriosas, terminando no Bar do China.
O Teimonde era frequentado por uma galera mais velha e com mais dinheiro. Tinha também a Tio Zé. Não tinha dinheiro para essa coisa de boate. No máximo, uma passada no Circo Amoras e Amores.
Mas voltando à Folha da Praia. No Hawaizinho, point da galera do surf nos anos 80 e 90, ficávamos esperando alguém distribuir o jornal. Como não tinha exemplares para todo mundo, normalmente dividíamos a leitura.
Notícias de surf, coluna social – provocativa, sem frescura – poesia, e mais um monte de coisas interessantes. Lembro até hoje de um debate sobre política entre a então liderança emergente Marcelo Déda versus o jornalista Luciano Correa.
Para mim a Folha da Praia foi o máximo de sofisticação intelectual em uma cidade de hábitos tão simples, daquilo que costumamos chamar de provinciano.
Cheguei recentemente aos 57 anos e vejo que, morando em uma Aracaju muito mais “sofisticada” - ou menos provinciana - perdemos a capacidade, salvo raras exceções, de produzir discussões e notícias no mesmo nível da Folha da Praia.
Jornal que gerou - algo raro - a expectativa de aguardar uma semana para poder absorver algo de extraordinário em um espaço tão ordinário, simples, como aquela Aracaju dos anos 80 do século passado.
Morei na Atalaia em frente à casa de Amaral Cavalcante, idealizador da Folha da Praia. Conversávamos pouco. As histórias divertidas sobre as aventuras de um Aracaju “careta” normalmente surgiam com a presença de João Augusto Gama, figura marcante na cultura e na política sergipanas.
Certa vez, ao passar pela calçada de Amaral me deparei com um papagaio que ele criava. Automaticamente, chamei o bicho por louro, lourinho – como denominamos todos os papagaios. A resposta foi um monte de palavrão. Nunca imaginei que um bicho pudesse xingar tanto. Padrão Folha da Praia.
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* É economista, professor da UFS e presidente do SergipePrevidência.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolítica com br
quinta-feira, 4 de junho de 2026
João de Barros vive na medalha e na memória da imprensa SE.
Publicação compartilhada do site FAUSTO LEITE, de 28 de maio de 2026
João de Barros vive na medalha e na memória da imprensa sergipana
A Medalha João de Barros Filho, o eterno Barrinhos, é uma das homenagens mais simbólicas da comunicação sergipana. Criada pela Assembleia Legislativa de Sergipe, ela reconhece jornalistas, radialistas e profissionais que ajudaram a fortalecer a imprensa, a cultura e a vida pública do Estado. Na sessão especial marcada para o dia 2 de junho de 2026, às 11h, no Palácio Governador João Alves Filho, o advogado e jornalista Fausto Goes Leite Júnior estará entre os homenageados com essa importante comenda.
João de Barros foi muito mais do que um colunista social. Foi jornalista, radialista, comunicador, agitador cultural e um dos nomes mais queridos da imprensa sergipana. Atuou no Jornal da Cidade, brilhou na televisão, criou eventos culturais marcantes e ajudou a dar vida ao ambiente artístico e jornalístico de Sergipe. Barrinhos tinha uma presença rara: sabia circular pelos salões, mas também enxergava o povo simples, a cultura popular e as dores reais da sociedade.
Uma das marcas mais bonitas de sua trajetória foi a Ação Solidária Santo Antônio, em Rosa Elze, onde prestava assistência a pessoas carentes. Ali, João de Barros mostrou que comunicação também é gesto, presença e humanidade. Não era apenas um homem de microfone e coluna social. Era um homem de atitude, que transformava prestígio em solidariedade e amizade em serviço.
Para Fausto Leite, receber a Medalha João de Barros tem um significado profundamente afetivo. Fausto foi amigo de Barrinhos, conviveu com ele no Jornal da Cidade e acompanhou de perto sua caminhada, inclusive na construção da obra social Santo Antônio. Por isso, a homenagem não representa apenas reconhecimento profissional. Representa memória, carinho e gratidão por um amigo que marcou sua vida e a história da comunicação sergipana.
A indicação da deputada Gracinha Garcez torna a homenagem ainda mais especial. Ex-prefeita de Itaporanga d’Ajuda, ex-deputada e figura muito querida em sua terra, Gracinha tem uma trajetória ligada ao serviço público, à educação e à vida comunitária. Fausto Leite agradece à deputada pela sensibilidade da indicação e pela honra de receber uma medalha que carrega o nome de João de Barros, um verdadeiro baluarte da imprensa, da cultura e da solidariedade em Sergipe.
Texto e imagem reproduzidos do site: faustoleite com br
terça-feira, 2 de junho de 2026
Um Doc para a história da imprensa sergipana
Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 1 de Junho de 2026
Um Doc para a história da imprensa sergipana
Por Luciano Correia *
Há documentários que servem à vaidade do diretor e, talvez, de uma meia dúzia de chegados de sua bolha. Há os que são feitos só pra justificar o dinheiro recebido e, como no poema de Brecht, há os imprescindíveis.
Alex Nascimento, professor com vários anos de pó de giz em salas do ensino médio, acaba de entregar à sociedade um desses trabalhos para entrar para a história do audiovisual em Sergipe. E ao fazer isso contando a história de um jornal que impactou o cenário jornalístico local há mais de 40 anos, acabou fazendo História também, essa com “H” maiúsculo.
Alex pode ser desconhecido para muita gente, “do campo”, como se diz nas vetustas academias, incluindo a mais pretensiosa delas, a universitária. Mas nunca foi um Zé Ninguém no mundo da comunicação e da cultura.
Primeiro, como professor de Redação e de Literatura, é um jornalista que sabe a diferença do tempo de um verbo no presente do subjuntivo e no pretérito imperfeito. Depois, sabe conjugá-lo. Por fim, é jornalista como todos nós do clube, após esquentar os mesmos bancos da companheirada.
O documentário sobre a lendária Folha da Praia, jornal capitaneado pela mente vulcânica do poeta Amaral Cavalcante no comecinho dos anos 80, mostra que em matéria de imprensa já fomos muito melhores do que a maioria dos perfis de aluguel que reivindicam indevidamente a qualificação de imprensa para exercer seu jornalismo tacanho, pra ficarmos numa classificação mais branda.
“Folha da Praia: um pasquim sob o sol de Aracaju” é uma lufada na cara dos caretas encastelados nas sinecuras e conselhos de cultura que não servem pra nada. A Aracaju que sobressai do mergulho de Alex nas origens da Folha é de uma cidade ainda pequena, onde dizia-se que “todo mundo se conhece”.
Era rebelde, com perfil oposicionista, e celebrava a boemia com som e fúria nos points tradicionalmente consagrados: o Bar do China ou o velho e emblemático Manequito com sua enfieira de batidas saborosas e explosivas. Mas a chamada juventude dourada daquele final dos anos 70, inspirada pelo célebre verão da abertura política em Ipanema e Leblon, se encontrava e tietava no território democrático e psicodélico do Barbudo’s, vizinho ao Manequito, que recebia uma gente mais raiz, que não davam bola pra tietagem.
Barbudo recebia a freguesia usando batas indianas, vestindo por baixo dos panos somente uma sumária tanga, em moda na época. A Folha, como dizia um dos bordões usados semanalmente, deitava e rolava entre as mesas do apertado espaço. O próprio Barbudo, figura ilustrada, com perfil de esquerda, acabou se tornando também um dos colaboradores do jornal, escrevendo praticamente até sua morte, anos depois. Essa era a vida noturna da Folha da Praia.
Mas a diurna também precisava ocorrer, até para honrar o título de jornal de praia, apesar da intensa vida boêmia de sua equipe. E ela se dava na confluência entre o rio e o mar já perto do Colodiano, na recém-batizada Praia dos Artistas.
O nome não evocava só a poesia da arte, porque semanalmente suas areias ficavam inteiramente tomadas pela gente da música, do teatro, da dança, da poesia, além de escritores e jornalistas que fizeram daquela esquina atlântica sua tribuna livre de luta e prazer.
Pro lado esquerdo, só havia o Colodiano e o mangue, porque não havia Coroa do Meio nem a ponte que veio ligá-la à cidade depois. À direita, só a Atalaia, porque a ideia de praia, na época, terminava no Bar do China ou, vá lá, no boteco do pescador Duda, tão rústico que nem merecia o título de bar. E a juventude bronzeada e os intelectuais fetichistas que iam fotografá-la com suas máquinas e retinas já tinham decretado a caretice da velha Atalaia.
Lugar de gente descolada era a Praia dos Artistas. Foi ali que a Folha reinou soberana, estendendo as reuniões da Redação para a mesa do bar, com Amaral regendo a orquestra nem sempre afinada de jornalistas como Fernando Sávio, Ilma Fontes, Clara Angélica, Marcos Cardoso, Guga Oliveira, Zenóbio Melo e os fotógrafos Fernando Souza, Ricardo Nunes, César de Oliveira, Álvaro Vilela, entre outros.
Eu mesmo, ainda estudante na Bahia, mas escrevendo no jornal desde seu Ano I, desembarcava de Salvador direto para aquelas areias, onde também molhava o bico e aprendia com aquela faculdade de Jornalismo itinerante, pulsativa e cáustica como tudo que eu gostava na época.
Pois essa Aracaju foi o cenário da Folha alternativa que fez graça e humor, mordeu e assoprou, arranjou brigas, processos, mas fez escola no jornalismo sergipano, influindo na cultura e na política de um tempo que prometia muito mais do que temos hoje.
O documentário de Alex Nascimento é, por assim dizer, um bálsamo de saudade e homenagem à cidade que fomos outro dia - um bálsamo de nos orgulhar para sempre. Ao contar a história de um jornal, conta a de uma cidade, do seu povo e de um grupo de adoráveis vagabundos que fizeram jornalismo como se fosse diversão. Vida e festa contaminaram um jeito de fazer jornalismo como nunca mais se viu por aqui. E Alex ligou as pontas disso tudo, com começo, meio e fim.
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* Articulista Luciano Correia - É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê. Escreve às segundas.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista/luciano-correia
terça-feira, 26 de maio de 2026
"(...) A Voz Pioneira que Marcou o Jornalismo e a Cultura SE."
Artigo publicado originalmente no site JORNAL ARACAJU, de 11 de maio de 2026
Legado de Clara Angélica Porto: A Voz Pioneira que Marcou o Jornalismo e a Cultura Sergipana
Por Diego Velázquez
A morte de Clara Angélica Porto Caskey, aos 77 anos, representa bem mais que o fim de uma trajetória profissional. Ela simboliza o encerramento de uma era no jornalismo sergipano, marcada por pioneirismo, versatilidade e dedicação à cultura local. Neste artigo, exploramos sua carreira brilhante, o impacto de seu trabalho na sociedade de Sergipe e as lições que sua história oferece para novos profissionais da comunicação e da gestão cultural.
Clara Angélica construiu uma carreira que transcendeu os limites de uma única função. Começando ainda adolescente, aos 16 anos, como colunista social na Gazeta de Sergipe, ela demonstrou desde cedo habilidade para conectar pessoas, narrar histórias e registrar o cotidiano com sensibilidade. Naquela época, o colunismo social não era mero entretenimento: servia como registro histórico de uma sociedade em transformação, capturando costumes, eventos e relações sociais que, de outra forma, poderiam se perder no tempo. Sua capacidade de observação e escrita fluida abriu portas para papéis mais complexos, consolidando-a como referência no cenário local.
Ao longo das décadas, Clara Angélica ampliou seu campo de atuação de forma notável. Atuou como tradutora, advogada e comunicadora, sempre unindo o rigor técnico à paixão pela palavra. Apresentou o programa TV Mulher na TV Sergipe, ao lado de Theotônio Neto, e editou o jornal “O Que”, iniciativas que levaram temas relevantes ao público feminino e à sociedade em geral. Essas experiências destacam uma característica essencial de sua trajetória: a adaptação constante a novos formatos e demandas, algo cada vez mais necessário em um mercado de comunicação volátil.
O compromisso com a cultura pública
Um dos capítulos mais relevantes de sua vida profissional foi o exercício de cargos na administração cultural. Como presidente da Fundação de Cultura de Aracaju (Funcaju) e subsecretária de Cultura do Estado de Sergipe, Clara Angélica assumiu a responsabilidade de gerir recursos e políticas públicas voltadas para a preservação e difusão da identidade sergipana. Nessas funções, ela enfrentou desafios típicos da gestão cultural brasileira: escassez de verbas, burocracia e a necessidade de conciliar interesses diversos. Sua atuação reforçou a importância de profissionais com experiência jornalística na administração pública, pois eles trazem visão ampla, capacidade de diálogo e habilidade para contar a história de forma acessível.
Em um estado como Sergipe, rico em tradições mas muitas vezes distante dos grandes centros de decisão, figuras como Clara Angélica atuam como pontes. Elas valorizam a produção local, incentivam artistas e garantem que a memória coletiva não se apague. Sua passagem pela cultura pública deixa um convite claro aos gestores atuais: investir em profissionais que compreendam tanto a narrativa quanto a execução de projetos. A cultura não sobrevive apenas com editais; ela precisa de vozes que a comuniquem com autenticidade.
Do ponto de vista editorial, a trajetória de Clara Angélica revela o valor duradouro do jornalismo ético e enraizado na comunidade. Em tempos de algoritmos e busca por engajamento imediato, seu exemplo lembra que credibilidade se constrói com consistência, proximidade com o público e compromisso com a verdade. Jovens repórteres podem aprender com ela a importância de dominar múltiplas habilidades — da redação à tradução, da apresentação ao planejamento cultural — para se destacarem em um mercado competitivo.
Além disso, sua história reforça a necessidade de valorizar a memória jornalística regional. Muitas contribuições importantes permanecem pouco documentadas fora dos grandes veículos nacionais. Registrar e estudar carreiras como a de Clara Angélica ajuda a formar novas gerações de comunicadores que compreendam seu papel social para além da velocidade das redes. Profissionais que, como ela, saibam transformar observações cotidianas em conteúdo relevante e transformador.
A perda de Clara Angélica Porto Caskey deixa um vazio na imprensa e na cultura de Sergipe, mas também inspira reflexão sobre o que realmente importa na carreira. Seu pioneirismo demonstra que é possível construir um legado sólido mesmo partindo de contextos modestos, desde que haja dedicação, curiosidade e respeito pelo público. Para quem atua na comunicação hoje, o recado é claro: invista em versatilidade, priorize a qualidade e mantenha viva a conexão com as raízes locais.
Sua influência continua presente nas páginas que ajudou a escrever, nos programas que apresentou e nas políticas culturais que ajudou a implementar. O jornalismo e a cultura sergipana ganham força ao celebrarem não apenas sua partida, mas principalmente o exemplo vivo de uma profissional que transformou palavras em ação e memória em legado duradouro.
Texto reproduzido do site: jornalaracaju com br
segunda-feira, 25 de maio de 2026
'Meu mestre Raimundo Pereira', por Flávio Aguiar
Artigo compartilhado do site A TERRA E REDONDA, de 7 de maio de 2026
Meu mestre Raimundo Pereira
Por Flávio Aguiar *
Da liderança no jornal Movimento à formação de novos quadros, a trajetória de Raimundo Pereira exemplifica a fusão entre a paixão política e a ética inegociável da informação fundamentada
“Ele era grande, mesmo quando exagerava” (Machado de Assis, no elogio fúnebre de José de Alencar”.
1.
Tive confrontos épicos, dramáticos e até cômicos com Raimundo Pereira (1940-2026), sempre motivados por divergências políticas. Não é o momentos para detalhar os confrontos, somente para registrar que existiram. Aqui, agora, quero lembrar que Raimundo Pereira foi um dos meus dois grandes mestres em matéria de jornalismo. O outro foi Bernardo Kucinski.
No fim de 1974 meu amigo Ricardo Maranhão convidou-me para integrar a equipe do jornal Movimento, em formação em São Paulo, sob a liderança de Raimundo Pereira, depois de sua ruptura com Fernando Gasparian, que financiava o jornal Opinião, no Rio de Janeiro. Topei a empreitada, na qualidade de um dos editores de Cultura, compartilhando-a com José Miguel Wisnik. Depois de algum tempo este se afastou do jornal, e eu fiquei como editor de Cultura, tendo Maria Rita Kehl como editora-assistente.
Logo a galeria de meus heróis do jornalismo começou a desfilar perante meus olhos. Além dos já citados Raimundo Pereira e Bernardo Kucinski, vieram Jean-Claude Bernadet, Francisco de Oliveira, Fernando Peixoto, E depois astros como Francisco Pinto, Nelson Werneck Sodré, Lisâneas Maciel, Hermilo Borba Filho, Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso, que então ainda era o Príncipe da sociologia, Eduardo Suplicy, Maria da Conceição Tavares, Maria Moraes, o jovem Guido Mantega, o mais jovem Mutilo Carvalho e muitos e muitos outros e outras, tudo gravitando em torno de Raimundo Pereira e sua aura de jornalista conceituado e amparado por suas atuações anteriores em Veja, Realidade e Opinião.
Com o andar da carruagem passei a ocupar a mesa em frente à dele, e dali fui aprendendo o que ele ensinava através de sua prática. Ele transmitia valores como tenacidade e perseverança, paciência e dedicação. Ensinava que a retórica não substitui a pesquisa, que a opinião complementa mas não substitui a informação, porque aquela só pode vir fundamentada nesta, que ler e ouvir adversários e inimigos é tão ou mais importante que ouvir amigos.
2.
Raimundo Pereira ensinou que no longo prazo era possível vencer a censura prévia a que o jornal era submetido, e que tornava duríssimas as condições de trabalho. Tínhamos de aprontar as matérias do jornal semanalmente até a quarta-feira à noite. Daí todas elas seguiam para Brasília, num malote especial. Nelas os censores e as censoras se regalavam até a sexta-feira à tarde, quando as devolviam para nosso correspondente na capital, Teodomiro Braga. Este sentava-se ao telefone, com Tonico Ferreira em São Paulo na frente de uma cópia xerocada das mesmas, e passava, palavra por palavra, linha por linha, parágrafo por parágrafo, os cortes feitos. Por vezes havia matérias inteiras que eram proibidas.
Cumprida esta parte da missão, partíamos para elaborar o jornal com o que restava, entrando pela madrugada adentro. Os que mais sofriam eram Sérgio Buarque de Gusmão, editor de Nacional, e Flávio de Carvalho, da Internacional, cujas seções eram estraçalhadas pela censura. No sábado pela manhã a edição entrava na gráfica, e à tarde um exemplar impresso era levado à delegacia da Polícia Federal em São Paulo, que liberava a edição para seguir aos assinantes e às bancas. E Raimundo Pereira nos liderava através desta loucura toda com sua perseverança, com sua tenacidade e sua fé no jornalismo.
Para mim tudo isto durou até o grande racha do jornal Movimento em abril de 1977. Ali eu, Bernardo Kucinski, Maria Rita Kehl, Maria Moraes, Guido Mantega, Chico de Oliveira e muita outra gente seguimos um rumo alternativo, enquanto Raimundo Pereira e outros e outras seguiram no jornal Movimento.
Não houve mortos, embora tenha havido feridos, alguns com feridas incuráveis durante muito tempo. Hoje tudo está cicatrizado. Voltei a trabalhar ao lado de Raimundo Pereira na tentativa de criar um jornal para o PT, Brasil Agora. Hoje tudo isto e mais alguns jornais que nasceram e morreram pelos caminhos estão entregues às estantes e ao mundo digitalizado das cicliotecas.
Além de ser um grande jornalista, Raimundo Pereira lá pelas tantas quis ser um líder político. Deixou-se envolver por uma aura messiânica de auto-confiança excessiva. Foi neste rumo que tivemos muitas divergências de monta. Cometeu erros? Cometeu. Eu cometi, tu cometeste, nós cometemos, eles cometeram. Quem se julgar incólume, que jogue a primeira lauda ou pedra. Uma coisa posso garantir. Mesmo nos erros que cometeu, seus motivos nunca foram torpes, sempre foram de uma nobreza ímpar.
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* Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).
Texto e imagem reproduzidos do site: aterraeredonda com br
terça-feira, 19 de maio de 2026
Clara Angélica fala sobre Joel Silveira
Post compartilhado do Facebook/Marcos Cardoso, de 18 de maio de 2026
Clara Angélica fala sobre Joel Silveira
Por Marcos Cardoso
A jornalista e artista Clara Angélica Porto Caskey, que nos deixou há poucos dias aos 76 anos (18/12/1949 – 10/05/2026), gostava da polêmica e não fugia do assunto. Nesta entrevista concedida em 12 de novembro de 2021, para um projeto sobre Joel Silveira (23/09/1918 – 15/08/2007), ela conta tudo sobre sua relação com o consagrado jornalista sergipano, de quem foi secretária adjunta na Secretaria da Cultura no governo de Antônio Carlos Valadares (1987 – 1991).
Como você conheceu Joel Silveira?
Clara Angélica - No primeiro governo de João Alves (1983-1986) teve uma solenidade no Cacique Chá e o governador me apresentou a Joel Silveira. Eu já o conhecia de nome e já o reverenciava, então fiquei assim... E ele prestou atenção em mim, ficamos conversando e ele sempre me procurando, com um copo de uísque na mão, e a gente ficava trocando conversinha miúda. Aí teve um almoço e ele me convidou, era um almoço para o qual eu não tinha sido convidada. Um almoço oferecido a ele, provavelmente oferecido pelo governo. Nesse almoço, me fez sentar ao lado dele e ficamos conversando muito e trocamos telefone.
Joel de vez em quando me telefonava. A gente batia uns papos maravilhosos, ele tinha um senso de humor ferino, único e inteligentíssimo. Eu adorava aquela inteligência.
Eu sempre ia ao Rio e ficava hospedada na casa de meu irmão, Airton Porto, do primeiro casamento de papai, junto com Nino Porto. Ficava também na casa de Paulo Nou, que também morava no Rio nessa época, em Laranjeiras. Um dia fui visitar Joel. Ele queria porque queria que eu ficasse na casa dele, porque eu era a mulher mais maravilhosa de Sergipe e me apresentou ao filho, me apresentou à filha e a dona Iracema.
Eu disse que estava na casa de meu irmão e na casa de Paulo Nou (ele conhecia o velho Paulo Nou, que foi desembargador). Então ele ligou para meu irmão: Aqui quem fala é Joel Silveira e quero sua permissão para Clara Angélica ficar na minha casa.
Ele me tratava como uma filha, me mimava. Mandava preparar um banho de banheira e botava sais maravilhosos, importados e mandava: Vá tomar banho! Eu dizia, Joel, eu não estou suja. Aí eu ia e encontrava aquela surpresa no banheiro, aquele banho, com pétalas de rosa. E dona Iracema: Ele só faz isso com as pessoas que ele mais gosta. Ele tinha esse lado completamente carinhoso – apesar de falar como se tivesse dando ordem.
Eu me sentava aos pés dele para ele contar histórias. No apartamento, tinham quadros até no teto. Ele tinha tantas obras de arte que não cabiam mais nas paredes, cobertas de quadros até no rodapé. Ele dizia: Não tem mais espaço, mas aqui eu fico me deliciando com meus quadros. Era uma pessoa diferente. O apartamento não era nada luxuoso, mas era muito confortável.
Ele adorava aquele joelho de porco, chucrutes, daquele restaurante famoso (?), entre o Leme e Copacabana, era um restaurante muito famoso, frequentado por Rubem Braga e os jornalistas todos.
Ele se comunicava muito com Rubem Braga e uma vez Joel marcou um encontro meu com “Bragueta”, numa lanchonete, um lugar onde as pessoas tomavam um drinque no final da tarde. E Rubem Braga me disse: Joel só fala de você. Porque você é uma mulher bonita e inteligente.
Através dele, conheci Nana Caymmi, que ele dizia ser uma mulher horrível, apesar de cantar maravilhosamente: Vive na chefatura porque briga com as empregadas e eu tenho que conversar com o delegado pra deixá-la ir pra casa. É doida, mas é filha de Dorival Caymmi, que é meu amigo.
Ele era amigo de todo mundo e todo mundo era amigo de Joel. Mas também brigava com todo mundo. Ele tinha uma personalidade complexa. Alguma coisa nele era inexorável, era antagônico: ao mesmo tempo que tinha uma suavidade, tinha uma raiva. Joel se complementava em si mesmo. Ele se bastava. Ele tinha grande generosidade, mas o resto tinha que se comportar como ele queria. Mas era muito carinhoso com as pessoas que estavam passando dificuldade. Ele me apresentou a Mauritônio Meira, que fazia a Revista Nacional. Nessa época ele não tinha relação de amizade com ninguém de Sergipe.
Eu tive uns seis anos de amizade com Joel. Quando fiz uma cirurgia de miopia ele disse que eu ficaria na casa dele porque ele e Iracema iriam cuidar de mim. Eu contava as coisas para Luiz Eduardo Costa e ele dizia: Esse velho tem tesão em você. E eu respondia que ele me tratava como uma filha.
E como aconteceu o convite para Joel ser secretário da Cultura de Sergipe?
CA – Quando Valadares foi eleito, em 1986, LEC vem falar comigo, que estava precisando de mim. Nós fomos sócios no jornal O Quê por dez anos. Ele perguntou: O que você acha de ser criada a Secretaria de Estado da Cultura? Eu achei a ideia maravilhosa, ainda não havia uma Secretaria da Cultura. Mas ele disse: Mas pra isso eu preciso da sua ajuda. Pra trabalhar na equipe, ajudar a estruturar a secretaria, eu estou disposta, respondi.
Ele disse que Valadares deu uma condição pra criar a secretaria: Ele quer que Joel Silveira venha ser o primeiro secretário de Cultura do Estado de Sergipe. Eu respondi: Não está vendo que Joel não vem? Ele vai sair do Rio, daquela vidinha de quem já fez muito e agora quer só os louros? O uisquinho dele, escrever quando quer, você acha que ele vem?
Luiz queria a secretaria, Valadares impôs a condição e a secretaria seria criada exclusivamente para abrigar Joel Silveira. Já havia a Fundesc criada por João Alves.
Eu me convenci e fui para o Rio. Cheguei pra ele e disse: Jojoquinha, eu tenho uma batata quente aqui para jogar em cima de você. Ele conhecia Paulo Costa, o pai de Luiz. Falei do sonho de todos ligados à cultura e às artes de Sergipe e ele: Onde é que eu entro nisso? Você quer o meu endosso? Eu disse, não. Nós queremos que você vá ser o primeiro secretário da Cultura de Sergipe. Eu vim aqui lhe pedir, porque isso vai dar o empurrão necessário para que o governador eleito crie a secretaria. Aí ele colocou obstáculos, disse que mesmo que aceitasse Iracema não ia querer sair de perto dos filhos.
Mas todo dia a gente conversava sobre o assunto. Eu disse: estou autorizada a lhe dizer que você vai morar onde quiser, num apartamento todo mobiliado, no nível do seu aqui, com todo o conforto, você faz uma lista das exigências e tudo vai ser feito. Aí quando dona Iracema escutou essa coisa, dona de casa, veio logo dizendo: Se eu for vou querer talheres do diário e de visitas, copos do diário e de visitas, carro, motorista, empregada da semana, empregada do fim de semana, apartamento montado, roupa de cama. Nós só levaríamos as coisas pessoais, nossas malas.
Eu expus para Luiz e ele falou com Valadares. E o governador eleito dizia sim a todas as exigências. Ficaram de se reunir com Elizabeth, a filha que participava de todas as decisões familiares. O outro filho é Ismael. A menina dos olhos dele era Elizabeth. Ela era muito inteligente, personalidade forte.
Então Elizabeth fez o enunciado das exigências do casal, considerando a idade da mãe, a idade do pai, médico e despesas médicas pagas, segurança em todos os sentidos. Eu pensei, tá na hora de voltar para Sergipe, já tenho uma proposta.
Conversei com Luiz Eduardo. Se prepare porque tem que ser um bom prédio, em área nobre, porque dona Iracema não vai deixar isso barato. Ele conversou com Valadares, que coçou a cabeça, mas não resistiu à grande honra de ter como primeiro secretário de Cultura de Sergipe, da secretaria que ele estava criando, o grande Joel Silveira, um nome nacional. Valia o investimento.
Joel também exigiu que você estivesse ao lado dele?
CA – Uma das exigências de Joel foi que eu fosse a secretária adjunta dele, porque eu seria a parte executiva.
Eu fiquei preocupada porque sabia que ia chegar tanta flexa na minha direção, como chegou, de Amaral, de Lu Spinelli, pessoas que sempre fizeram parte do meu amor, mas sempre me atiraram flexa, porque eu cheguei dos Estados Unidos e fui considerada uma intrusa por algumas pessoas. Eles dois eram os mais proeminentes. Ilminha (Fontes) também, que era muito minha amiga, mas quando eu cheguei aqui me proibiu de trabalhar com carteira assinada. Ganhei em competição para ser a apresentadora regional do TV Mulher e ela disse que se eu aceitasse a nossa amizade acabava ali. Eles não queriam que eu me destacasse, tinha vindo dos EUA, tinha passado por Harvard, onde estudei produção teatral. Eu não entendia isso. Ela escreveu na Folha da Praia: “Clara Angélica = CA = Câncer. Só que o câncer evolui”. Fernando Sávio ficou correndo atrás de mim, me procurando. Cheguei no Olímpio Campos e me disseram: Fernando Sávio saiu daqui agora com um jornal na mão, lhe procurando, não quer que você leia jornal nenhum até você encontrar com ele. A gente se cuidava, eu cuidava dele e ele cuidava de mim. Ele disse: eu não queria que você lesse o que Ilma escreveu sem eu estar junto de você. Quando eu li eu vomitei na hora, da dor que eu senti. Eu tenho muito remorso disso, tenho muito remorso. No dia que Ilma morreu, eu estava ali na rede, quando eu soube na minha cabeça veio: o câncer evolui sim. Aí entrei num pranto desconsolado. Pedi desculpa a Deus por aquilo. E entrei num luto de alma por uns quatro dias.
Eu disse para Luiz: como dona Iracema vivia em torno de Joel, então ela aproveitava essas situações para ser, e vai ser com exagero. Escolheram um apartamento no Condomínio Sílvio César Leite, esquina da avenida Barão de Maruim com rua Itabaiana, no sexto andar. Joel e dona Iracema me incumbiram dos móveis, eu ligava, descrevia, como era a sala, que era muito parecida com a deles. Sofá, quarto de hóspedes, quarto de Elizabeth e o marido, quarto do neto e a suíte deles, até as panelas, talheres e copos de cristal. Tapetes, uma casa inteira.
Ele chegou primeiro sozinho, Elizabeth é quem viria trazer a mãe depois, pra examinar tudo e aprovar ou não.
A posse dele foi linda, logo depois de o governador assumir. Foi o tempo de montar o apartamento, o que só poderia ser feito depois que o governador assumisse. Valadares criou a secretaria, colocou um diretor financeiro, para montar a estrutura administrativo-financeira, também botou como chefe de gabinete uma pessoa dele. E eu contratei o músico Irmão, que era economista. A Secretaria ocupava um andar inteiro do edifício Walter Franco.
Como foi a experiência de trabalhar com Joel Silveira?
CA - Ser adjunta de Joel não era ser adjunta de qualquer um. A gente ia para Brasília, para uma reunião do Conselho de Cultura, e José Aparecido, que era governador de Brasília, fazia uma festa pra Joel, nas Águas Claras, que vinha Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro, os amigos de Joel, Gilberto Gil, que era presidente da Fundação Cultural da Bahia, Capinam, que era secretário de Cultura da Bahia, que ia com a “Clara Angélica” dele, que era uma negra alta, linda, muito elegante.
Quando Joel e Capinam estavam conversando, que ele nos apresentou, ele disse, se dirigindo a ela: pronto, você é a Clara Angélica de Capinam, já entendi tudo.
A ex-ministra da Educação Esther Marcondes Ferraz estava sentada ao lado dela e Darcy Ribeiro só de olho em mim, aí se aproximou com um cálice de vinho, e a ministra olhou pra mim e disse: Você é secretária de alguma dessas autoridades? Eu disse quem eu era, Darcy se aproximou, brindou comigo e me chamou para completar as taças de vinho. E já saí tietando: Que honra Darcy, você nem sabe como eu gosto de você! Ele era muito galanteador, carismático, um homem lindo. Me convidou para jantar com ele, mas Joel não permitiu: Ela não vai não, está muito ocupada, é minha executiva e não posso ficar nem um jantar sem ela.
Foi um período de pessoas proeminentes cuidando da cultura nos seus estados, Beth Mendes em São Paulo. E José Aparecido era amigo íntimo de Joel Silveira. Ele botava uma van com motorista nas mãos de Joel, que não saía de noite. Então eu tinha a van para levar a galera toda, Gil, Capinam, Beth Mendes, Jorge Mautner. Muita coisa foi criada naquela época, no governo de Sarney. Politicamente ele é equivocado, mas é um homem brilhante.
Estruturamos a Secretaria da Cultura e Amaral muito puto, porque ele, como presidente da Fundesc, quando vinha despachar com o secretário, Joel me chamava e dizia: Resolva com a Clara Angélica. Peça a ela, se ela concordar... Aí Amaral morria, queria me matar.
Não importava o que eu fizesse, sempre saía como a ruim. Tinha o lado pessoal, porque eu trabalhava na Secretaria da Cultura, das 8h às 18h ou 19h. No início foi muito pesado.
Dona Iracema passava um mês aqui, que era um mês maravilhoso, e três meses no Rio, porque ela não conseguia ficar longe da filha. Ela me dizia: Clara, você cuide de Joel. De noite tem que ter a jarra de água com muito gelo na mesa de cabeceira de Joel, porque ele bebe água a noite inteira. Então todo dia eu passava e dizia à empregada, mas tinha que passar para conferir. A essa altura eu já era amiga de João, irmão de Joel, dos filhos, e Joel adorava meus filhos.
Eu dizia a ele: Joel, eu não venho aqui hora nenhuma sozinha, porque Aracaju é cruel e as histórias surgiam. Então sempre que precisar de alguma coisa de noite eu venho com mamãe e se for durante o dia venho com os meninos. Uma vez mandou o motorista me pegar no final do expediente e dizia que tinha um assunto importante e uma surpresa para mim. Cheguei lá ele estava na mesa com minha mãe e meus filhos tomando sopa. Ele mandava buscar mamãe e os meninos porque sabia que eu não subia sozinha. Eu ia morta de cansada, porque ainda fazia o jornal, cuidava da minha família etc.
A gestão de Joel durou pouco mais de um ano. Eu fiquei um ano e depois que saí ele ficou menos de um ano.
O secretário Joel era uma figura decorativa?
CA – Não, ele discutia comigo as questões e junto decidíamos. O que ele não estava bem a par ele queria saber de mim. O que ele conhecia e já tinha uma opinião formada ele dizia como deveria ser feito. Ele era participativo e todos os dias estava lá, eram raros os dias que ele não ia. A realização maior nesse período foi a criação da Secretaria, estruturar o setor Cultural.
Ainda tinha os sábados à tarde, que ele queria passar no sítio com Jocelino Emílio de Carvalho, que foi uma figura proeminente, presidente da Energipe. Era amigo de infância. Morava na rua Propriá. Ele queria minha presença nos fins de semana também. Os meninos ficavam correndo no sítio e eu acompanhando as conversas deles, a inteligência dos dois. Eu adorava, mas eu não tinha mais vida. No domingo, Jojoca não queria ficar só. Então íamos eu, mamãe e os meninos almoçar e passar a tarde de domingo com ele. Era um full time job.
Eu comecei a me sentir muito sufocada, fiquei sem vida. Era um problema levar meus filhos para um teatro e ele queria botar o motorista, mas eu não aceitava porque não queria ser vista com carro oficial. Eu ia com meu carro para o teatro, o Centro de Criatividade, e ele mandava o motorista para ver se eu já estava vindo. Sábado de manhã, quando não ia para o sítio, passava o dia no Parque dos Coqueiros bebendo uísque e eu com os meninos na piscina.
Aí recebia pessoas do Rio que se hospedavam lá, Mauritônio Meira veio passar muitos fins de semana. Vinha João Silveira com a filha e o neto, que ficava brincando com meus filhos. Então eu não podia nem dizer que ficaria um sábado em casa com meus filhos. Quando eu não estava na secretaria ou no jornal, estava de dama de companhia de Joel.
Aí eu fiquei assoberbada de coisas. Não era nem com o trabalho, era com a obrigação de cuidar de Joel. Dona Iracema vinha passar uns dias aqui e ia embora ficar com a filha.
E aquela desconfiança de Luiz Eduardo Costa, de ele ser apaixonado por você?
CA – Um dia eu saí com umas amigas, botei um macacão de listrinhas, fui a um barzinho. E eu dizia: eu quero um marinheiro para me salvar! Eu queria uma aventura. E chegou um indivíduo, de currículo meio duvidoso, mas bastante gostoso, aí as meninas disseram: Clara, chegou o marinheiro que você queria. Era uma figura bem underground.
Tive um caso com o marinheiro caladinha, escondido. Não durou dois meses, mas ele era uma figura popular, que conhecia esse povo todo. Eu não era de aventura, sou muito romântica, casei muito cedo, passei 12 anos casada e me acostumei com esse tipo de relação, de namorido.
Aí foram contar a Joel. Ele não acreditou, porque Clara Angélica era a Deusa, perfeita, não era uma mulher de pecados. É a minha filha adotiva. Na realidade, era um amor platônico. Mas era um amor, uma paixão.
Então ele não acreditou que a Deusa imaculada tivesse um caso com um cara que era conhecido por ser drogado. Mas eu tive. Eu estava sugada e foi uma válvula de escape. Um dia Joel marca um almoço com Jocelino Emílio de Carvalho, no restaurante Panorâmico, na praça Tobias Barreto.
Joel tinha uma cabeça maravilhosa, mas era um homem conservador. Era antagônico, complementar e se bastava. Era complacente, tinha a generosidade de levar pra casa um amigo que tivesse em dificuldade.
No almoço, Jocelino me disse: Joel está muito triste com você. E eu, falando para ele: Joel, por que você está triste comigo? Eu continuo me dando na Secretaria, só falto dar o meu couro, continuo lhe dando atenção, continuo indo com você para o Parque dos Coqueiros, tudo que você precisa eu estou junto, em que eu mudei?
E Jocelino: Joel não está se sentindo confortável com um disse-me-disse a seu respeito. E eu: seu Jocelino e Joel, vamos deixar uma coisa bem clara: Eu sou Clara Angélica, sempre clara e nem sempre angélica. Estou fazendo uma coisa que não é nada angelical, mas é clara. Estou curtindo uma aventura. Quantas aventuras os senhores já curtiram na vida? Sou solteira, sou jovem, estou curtindo uma aventura e no momento estou mergulhando de cabeça. Aí foi aquele almoço contrariado.
Uma vez, o tal do indivíduo apareceu lá na Secretaria e não tinha nada a ver dele aparecer. Foi um tititi na secretaria, que todo mundo já sabia, que Amaral já tinha espalhado por tudo. Nossos gabinetes eram ligados por um corredor privativo e as portas ficavam abertas. Mas a partir desse almoço ele passou a deixar a porta fechada e eu só ia quando ele me chamava, que era toda hora! Mas avisaram a Joel e ele veio pela porta privativa, olhou, fuzilou, bateu a porta, bateu a segunda porta e voltou para o gabinete dele. Eu mandei o rapaz embora e não quis mais ver. Porque apesar das fofocas eu mantinha a coisa privê e aquilo tinha que ser respeitado.
Joel foi falar com Valadares e pediu minha cabeça. E não quis mais falar comigo. João Silveira estava aqui, foi falar comigo, para conversar sobre o assunto. Eu contei tudo a João. E ele: Joel não admite isso, ele só admitiria se você tivesse um namorado oficial, e assim mesmo seria uma briga, porque Joel lhe tem como uma deusa imaculada. Eu disse: Eu tenho direito. E ele: mas é que Joel é louco por você. E eu: mas aí é uma equação de solução íntima dele.
Ele me deu a condição de eu terminar a aventura, que eu já tinha terminado, mas não aceitei a condição. Fiquei com uma assessoria de Luiz Eduardo, a convite dele.
Mostraram para ele também uns nus artísticos fotografados por Marinho Neto. Até isso fizeram.
Depois que saí da Secretaria da Cultura, nunca mais vi Joel. Fim de 1987 para início de 1988.
E quanto à história, que virou folclore, de que ele gritava pelo seu nome?
CA – Aí Lu Spinelli e Amaral Cavalcante passaram a ser visitas constantes de Joel. Luciano Correia também. Iam também para o Parque dos Coqueiros e Joel, com saudade de mim, falava meu nome: Eu quero Clara Angélica. E ninguém entendia. O que você quer, Joel? Entendiam Laranjeiras, acarajé...
Contam que ele mandou me buscar em casa de noite e eu fui de camisola encontrar com ele, mas isso não é verdade. Fernando Sávio ligava pra mim: Ele está aqui louco, venha porque ele quer lhe ver. E eu: Não vou não. E Fernando, direto do hotel: Ele está chorando, sofrendo demais. Bêbado e com remorso porque sabia que eu não merecia. E ficou sabendo que eu terminei aquela aventura no dia que ele me viu com o rapaz lá.
Eu sentia muita saudade, mas ele era vingativo. João Silveira ficou meu amigo e sempre vinha me ver: Um dia ele me contou que uma revista foi entrevistá-lo e ele disse que saiu daqui por causa de você. E que a revista iria me procurar. João disse que Joel pediu a ele para me avisar. A revista veio, foi lá em casa, contei que o convite a ele para ser secretário foi através de mim, ele aceitou, fez as exigências, que foram cumpridas, e fiquei com ele no primeiro tempo para ajudar a estruturar a secretaria. E me perguntaram: houve alguma coisa entre você e Joel. E eu disse que pessoalmente não, o que houve foi fofoca de cidade pequena. Eles publicaram alguma coisa maliciosa, como se eu tivesse traído a confiança dele.
Joel morreu sem que tivéssemos tido mais nenhum contato. Eu estava morando em Nova York e fiquei muito sentida, mas não entrei em luto profundo, porque fiquei muito magoada. Não consegui desmagoar, porque não tive tempo, como tive com o poeta, como tive com Lu. Com Ilma eu não consegui desmagoar. Ela me procurou muito, na superfície, se encontrava comigo, me abraçava, me beijava, mas foi muito duro o que ela fez.
Eu tenho certeza que essa mágoa com Jojoquinha acabaria, porque era um carinho muito grande, era amor.
Texto e imagens reproduzidos de post do Facebook/Marcos Cardoso







