Jornalista Diógenes Brayner se foi, aos 79 anos, mas deixou um legado de grande contribuição ao Jornalismo de Sergipe
Por Jozailto Lima (Coluna Aparte) *
Morreu na madrugada desta quinta-feira, 25, o jornalista, analista de política e proprietário do FaxAju, Diógenes Brayner, aos 79 anos. O decano do jornalismo político sergipano estava internado no Hospital da Unimed desde o início do ano após contrair uma pneumonia, mas vinha lutando também contra um câncer de pâncreas – causa atribuída pela família à sua morte.
Na madrugada, Brayner encerrou sua passagem física que foi marcada por muito vigor, importância de análises e grande contribuição para o Jornalismo sergipano. Para muitos, Diógenes Brayner é e continuará sendo um dos grandes nomes do jornalismo político em Sergipe.
Nascido na antiga Petrolândia, em Pernambuco, o jovem Brayner viu sua terra natal ser submersa para a construção da Barragem de Itaparica e aos quatros anos foi para João Pessoa, capital da Paraíba. Na adolescência, fincou raízes em Recife, onde descobriu o amor pelo Jornalismo.
“Fiquei alucinado e senti que o jornal, com as suas emoções diárias, era o melhor rumo profissional”, disse Brayner na Entrevista Domingueira concedida a Jozailto Lima em 2020. Ele sabia com exatidão a data em que mergulhou no oceano do Jornalismo, cheio de maremotos, peixes, tubarões e megalodontes: 2 de agosto de 1962. Era um imberbe, tinha apenas 15 anos.
Brayner foi funcionário do Banco do Brasil de Carpina, da Zona da Mata de Pernambuco, quando decidiu cursar oficialmente Comunicação Social Universidade Federal de Pernambuco - UFPE – e no mesmo período entrou para o Diário de Pernambuco. Quando o BB o transferiu para Recife, Brayner saiu das salas de ar-condicionado das agências e entrou na vida calorosa e aguerrida do Jornalismo. E nunca mais o abandonou.
POR ACASO, EM SERGIPE - “De seis em seis meses vinha a Sergipe, em rápidas férias, buscar minha ex-mulher que era de Propriá, mas visitava sempre os pais e a família naquela cidade e em Aracaju”, lembrou Brayner na Domingueira.
É nesse vai e vem semestral que em 1982 Diógenes Brayner vem de Teresina, onde trabalhava no jornal O Dia, e aporta em Sergipe, e aqui, sob a visão do empresário Nazário Pimentel, é contratado para o Jornal de Sergipe.
“Ele disse que era jornalista. Eu disse: “Ótimo, muito bem, tem futuro”. O contratei. E eu estava certo”, relembra Nazário Pimentel, o primeiro chefe de Brayner em solo sergipano.
Brayner é pai de quatro filhos: Pablo, Aloma, Alanna e Anco Márcio de Figueiredo Brayner, e é avô de Giovanna Lobo Brayner, Guilherme Lobo Brayner, Maria Clara Brayner Mendonça e João Matheus Brayner Mendonça. Ele deixa viúva a empresária Renata Brayner.
Com mais de 60 anos de atuação, Brayner era considerado “um jornalista nato”, “um eterno foca”, “um símbolo do bom jornalismo”. As atribuições dadas a ele são diversas e quase unânimes. O criador do FaxAju conquistou admiradores de diversas vertentes, áreas e atuações.
PRIMOR DA INQUIETAÇÃO – Para o jornalista Valter Lima, que conheceu Diógenes Brayner no oficio jornalístico, o decano nunca se satisfez com a pouca informação.
“Ele era sempre aquela pessoa com quem eu compartilhava informação e a quem eu procurava para levar as informações das pessoas que eu assessorava. Eu considero ele uma pessoa muito querida, um amigo, a gente conversava. Ele sempre era muito solícito, sempre muito agradável, sempre muito disponível para mim”, diz Valter.
“Não sei escrever contra colegas, embora já tenha sido castigado por alguns deles. Nesse ponto, sou corporativista. Prefiro conversar e contornar os problemas a fragilizar a classe. Jamais me arvorei de ser jornalista. O anonimato facilita colher informação”, disse Brayner em entrevista a Jozailto Lima.
Mesmo com fama de brigão, ele reformulava esse adjetivo para a opção “intolerante em relação à alteração dos fatos”. Para Brayner, ser repórter é entender que não se pode criar mágoas e rixas com ninguém na sociedade.
O governador Fábio Mitidieri disse que Brayner foi “um amigo cuja presença sempre foi marcada pela atenção, pelo cuidado e pela generosidade”.
“Brayner conhecia como poucos os bastidores da política sergipana e, ao mesmo tempo em que exercia um Jornalismo firme e independente, fazia questão de cultivar amizades e defender aqueles por quem tinha estima”, disse o governador.
Diógenes Brayner: um garimpador de ouro na apuração dos fatos
“Brayner, quando chegou de Pernambuco, foi o primeiro repórter de Sergipe, de fato. Porque ele saía à cata da notícia. Eu cansei de chegar, de madrugada no aeroporto, e encontrar Brayner. Eu perguntava a ele: “Rapaz, o que está fazendo aqui a essa hora?” E ele dizia: “Tô esperando passar os políticos”, revela Luiz Eduardo Costa, que conheceu o jornalista nas idas e vindas do até então precário jornalismo político sergipano. “Ele era um catador de notícias. Isso não era comum no jornalismo sergipano, que era um jornalismo muito atrasado” completa Luiz Eduardo.
“Ele foi um dos colunistas políticos mais influentes. Teve um período que os políticos não saíam de casa ou não tomavam decisão sem ler a Coluna de Brayner. É uma lacuna muito grande no jornalismo porque ele tinha essa característica de garimpar notícias, de buscar notícias”, afirma o ex-prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira.
Brayner contou na Entrevista Domingueira que em sua contratação Nazário propôs que ele o ajudasse a “mudar o visual do Jornal de Sergipe e a modernizar a forma de redação e de como expor a notícia”.
“O Jornalismo sergipano era atrasado em técnica, em visão, em ação. Era o Jornalismo que, às vezes, só reagia ao fato. Ele não ia buscar o fato antes que o fato acontecesse. Com a chegada da visão do jornalismo moderno, que era dos Diários Associados, que tinha no Brasil todo, era a Globo da época, melhorou. Agora, o Brayner deu conteúdo a isso tudo, porque ele agia independentemente, e foi o primeiro modernizador”, reforça Luiz Eduardo Costa, destacando a importância de Brayner no jornalismo sergipano.
A CONSTRUÇÃO DE UMA REFERÊNCIA - Alguns podem e se tornam inspiração, outros conseguem escrever seu nome no livro dos grandes da sua profissão, outros ainda tantos podem e viram referências e referendam centenas de atitudes ao longo da carreia. É necessário dizer que José Diógenes Menezes Brayner subiria nesses três pódios com imensa facilidade.
“O nome dele carrega um peso que é como se ele evocasse uma imprensa de verdade em alguma medida. É como se, junto com o nome Brayner, viesse a assinatura dele, e um atestado de confiabilidade. Isso é ouro para um profissional do nosso ramo de atuação. Isso é o que existe, talvez, de mais relevante numa reputação profissional”, afirma Rian Santos.
Confiabilidade. Essa palavra pode definir o futuro do atual jornalismo que cada vez mais sofre alterações, remodelações e remanejamento de conceitos. O colunista Brayner nunca deixou de lado a visão de que jornalismo e verdade devem ser pleonasmo, e de que o que configura um jornalista é a confiança da fonte e dos leitores.
“Jamais deixei de publicar qualquer denúncia ou crítica contra mim. Se acho que é da boa imprensa publicar matérias críticas ou contra qualquer outro cidadão, por que não contra o órgão e o repórter não?”, disse ele na Entrevista.
“Brayner era sagaz e extremamente bem informado. Ele conquistava notícias exclusivas com a credibilidade construída ao longo de décadas e abriu caminhos para muitos profissionais da comunicação, compartilhando conhecimento e deixando uma marca de ética, responsabilidade e respeito no colunismo político sergipano”, disse Fábio Mitidieri.
“Brayner é uma referência para o jornalismo sergipano e um precursor em muitas coisas. Seja na própria leitura que ele fazia, que ele sempre fez da política sergipana, seja efetivamente experimentando novos formatos”, afirma Valter Lima.
Inquieto, insistente, inovador e capacitado, Brayner não descansava até descobrir o que acontecia não só por trás das portas do Palácio do Governo ou da Prefeitura de Aracaju, mas também dos mais longínquos municípios sergipanos e das mais simples Câmaras Municipais do interior. Era notícia. Porque a notícia faz o dia, a hora e a vida de qualquer repórter. “Ele parecia, apesar da experiência dele, com um foca que está sempre em busca da notícia. Por isso era um repórter autêntico”, reforça Nazário Pimentel
Rogério Carvalho sabe da importância e da magnitude de Brayner para a classe política sergipana e tratou de reconhecer isso em sua homenagem póstuma. “Ele foi uma grande referência da comunicação, um profissional que marcou gerações com sua dedicação e com o amor pelo jornalismo. Ele deixa um legado para imprensa e para a classe política sergipana e para os que acreditam na força da comunicação como instrumento de transformação social”, disse ele.
Rita Oliveira, que trabalhou com Brayner durante anos, nutre uma profunda gratidão e o considera seu “padrinho jornalístico”. “Eu agradeço a ele chegar onde eu cheguei, no jornalismo sergipano. Por quê? Porque eu era simplesmente repórter de cidade. Ele viu meu potencial jornalístico e me colocou na área de política”, diz ela.
No Jornal Gazeta de Sergipe, onde Brayner foi editor-chefe, a amizade entre ele e Rita se estabeleceu fortemente. Com o passar do tempo, o jornalista a chamou para ser colunista no jornal aos domingos.
“A coluna era chamada Debate, na Gazeta de Sergipe. Ele me botou na esfera do jornalismo político. Ele foi responsável por isso. Eu cheguei aonde eu cheguei graças a ele, pelo reconhecimento dele ao meu trabalho”, reforça Rita, numa fala que emenda gratidão com carinho e reverência.
“Eu acho que a grande característica de Brayner é a inquietação mesmo. Ele nunca se satisfez com uma única informação. Ele sempre foi aquele cara que procurou, que tentou encontrar as informações. E acho que por conta disso mesmo ele se tornou o que ele é, ou foi, e por isso ele sempre deu tantos furos no jornalismo, porque era um cara que sempre corria muito atrás, sempre desconfiava de tudo. E para um bom jornalista isso é fundamental” diz Valter Lima, que mesmo nunca trabalhando junto ao decano, sempre conversou e trocou experiências.
A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, afirmou que “Diógenes Brayner marcou o jornalismo sergipano com seu profissionalismo e dedicação” e que “isso é uma marca que poucos conseguem alcançar com a liberdade que ele tinha”.
“Eu acho que nosso campo profissional tem uma crise. A gente fala muito, por exemplo, da crise do papel, da crise do jornalismo impresso. Mas, na verdade, essa crise também passa pela falta de referência. Eu acho que a gente tem uma crise de falta de cabelos brancos, vamos dizer assim, porque a gente tem profissionais com o Luiz Eduardo Costa, tem o Brayner, o próprio Jozailto Lima. Só que parece que faltar às gerações mais jovens, vamos dizer assim, em algum nível, em alguma medida, saber do papel que esses profissionais desempenham e desempenharam na história da imprensa”, diz Rian Santos, sobre o impacto da longevidade do decano no jornalismo político em Sergipe
NASCE O FAXAJU - Em 19 de junho de 2007, Diógenes Brayner inova mais uma vez e lança o FaxAju Online. O novo portal trazia Brayner com a Coluna Plenário, que já era conhecida no site Infonet e que disparava via fax.
Na direção Comercial, Renata Brayner, a quem Diógenes não escondia o amor e a admiração. “Renata é minha namorada eterna. Conhecemo-nos em 2003 e nos casamos em 2006. Até hoje somos os mesmos e nos tratamos como se vivêssemos o primeiro encontro. Ela acompanhou toda a fundação do Portal FaxAju e se tornou diretora Comercial, e isso lhe confere importância diferente dos demais membros da equipe, inclusive eu”, disse ele ao Portal JLPolítica & Negócio.
Ao longo de 22 anos, Renata Brayner retribuiu o amor e a parceira, e hoje, diante do companheiro falecido, ela exalta o tempo que conviveram. “Brayner era meu coração, minha vida. Foram 22 anos juntos, a saudade vai ser grande. A gente se completava. Como ele mesmo dizia, era a notícia em primeiro lugar. Eu dizia: “Brayner, venha jantar. O jantar tá na mesa”, e ele dizia: “Renatinha, você não daria nunca pra ser jornalista, porque a notícia está em primeiro lugar. O jantar espera, a vida espera”. Eu ficava numa raiva danada”, rememora Renata, com os olhos afogados em lágrimas.
“O FaxAju era significativo porque era o sumário e a interpretação da política sergipana e uma projeção dos fatos que poderiam acontecer”, disse Luiz Eduardo Costa. O FaxAju ganhou corpo, forma e acompanhou a importância de Brayner.
“Não existia nem celular, nem rede social, então ele foi pioneiro na implantação do jornal, digamos assim, via fax. Ele foi pioneiro nesse sentido. Inclusive, cheguei a trabalhar também no FaxAju logo na fundação”, relembra Rita Oliveira.
“Eu costumo lembrar de várias declarações, de várias informações que foram dadas primeiras por ele. Marcelo Déda mesmo: eu sempre descobri uma informação nova que ele conseguia tirar do governador, por exemplo. Então é essa a referência que me vem e que me virá ao falar de Brayner”, conclui Valter Lima.
Nazário Pimentel coloca Brayner na condição de “uma figura extraordinária”. Ele fez muito pelo nosso desenvolvimento social. Foi uma pessoa que merece todo o nosso respeito, toda a nossa admiração”, diz.
O deputado estadual Luciano Pimentel reforça os elogios à figura do decano. “Brayner deixa um legado de dedicação ao jornalismo, compromisso com informação e relevantes contribuições para a comunicação do nosso Estado. A sua trajetória será lembrada pelo profissionalismo, pela credibilidade e pelo respeito conquistados ao longo de décadas de atuação”, disse ele.
O senador Alessandro Vieira afirmou que “Brayner foi um jornalista que dedicou a sua vida à comunicação e à informação com profissionalismo e compromisso com a verdade”. Para Edvaldo, Brayner escreveu importantes páginas do jornalismo político em Sergipe. “Ele era um inquieto. Ele estava sempre buscando a notícia. A notícia era o fio condutor da vida de Brayner”, disse ele.
Brayner sai de cena e deixa a grande lição. “Acho que reconhecer o erro é uma das virtudes de qualquer profissional de imprensa. Ninguém é infalível e pode cometer divulgação inexata da notícia. A correção e o pedido de desculpas passa a ser obrigação tanto de quem erra publicamente, quanto dos que erram até mesmo entre familiares, amigos, colegas e a sociedade como um todo”, disse ele na entrevista a este Portal. “Vá em paz, companheiro, e mande notícias do mundo de lá!”, escreveu hoje cedo o jornalista Jozailto Lima ao tratar sobre a morte de Brayner.
O Corpo do jornalista Diógenes Brayner está sendo velado no Velatório Osaf da Rua de Itaporanga em ato que perdura até as 15h. Depois disso seu corpo será remetido ao Crematório Vila da Paz no município de Itaporanga D'Ajuda.
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* É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Com colaboração de Magno Montte Joaquim.
Texto e imagens reproduzidas do site: jlpolitica com br/colunas