domingo, 21 de junho de 2026

Stênio Gonçalves: o mestre das artes gráficas...


Post compartilhado do Perfil do Facebook/Carlos Magno Andrade Bastos, de 20/06/2026

Stênio Gonçalves: o mestre das artes gráficas que deixa um legado eterno em Sergipe

O setor gráfico sergipano amanheceu mais silencioso. A partida de Stênio Gonçalves, fundador da J. Andrade, deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. Não apenas por ter sido o maior empresário da indústria gráfica de Sergipe, mas porque sua trajetória ajudou a escrever a própria história da comunicação impressa do Estado.

Ao longo de décadas, jornais, revistas, livros, catálogos, informativos e as mais diversas publicações passaram pelas mãos de uma empresa que se tornou referência em qualidade, inovação e compromisso. Sob sua liderança, a J. Andrade construiu o maior e mais moderno parque gráfico de Sergipe, transformando-se em um polo de excelência que ultrapassou as fronteiras do Estado e conquistou clientes em todo o Nordeste.

Stênio sempre acreditou que a tecnologia deveria caminhar ao lado da competência. Por isso, esteve à frente das grandes transformações do setor gráfico, investindo continuamente em equipamentos de última geração, na qualificação de sua equipe e na busca permanente pela excelência. Graças a essa visão empreendedora, a J. Andrade tornou-se uma das mais respeitadas gráficas da região.

Mas falar de Stênio Gonçalves apenas como empresário seria uma enorme injustiça.

Para mim, ele foi um verdadeiro mestre.

Foi com ele que aprendi muito do que sei sobre o universo das artes gráficas. Em cada livro que publiquei, em cada edição do Jornal Papagaio, da Revista Papagaio e em tantas outras publicações ao longo da minha vida profissional, encontrei nele um parceiro, um conselheiro e um incentivador. Nunca mediu esforços para compartilhar conhecimento. Sempre tinha uma orientação, uma sugestão técnica, uma palavra amiga.

Era um homem profundamente humano. Acolhia colegas, clientes e colaboradores com respeito e simplicidade. Carregava consigo marcas que hoje parecem cada vez mais raras: lisura, honestidade, ética e um amor quase artesanal pelo seu trabalho. Não fazia apenas impressos; ajudava a transformar ideias em obras que permaneceriam para sempre.

Seu legado também se confunde com o desenvolvimento econômico de Sergipe. Como industrial do setor gráfico, gerou empregos, impulsionou a modernização da indústria e projetou o nome do Estado através da qualidade dos serviços prestados. Empresas de diversos estados nordestinos buscavam a J. Andrade pela confiança conquistada ao longo de décadas de dedicação.

A morte de Stênio Gonçalves representa uma perda irreparável para a indústria gráfica sergipana e nordestina. Sua ausência será sentida por escritores, jornalistas, publicitários, editores, empresários e todos aqueles que tiveram o privilégio de trabalhar ao seu lado.

Entretanto, homens como Stênio não desaparecem completamente. Permanecem vivos nas páginas dos milhares de livros que ajudou a imprimir, nas revistas que circularam pelas mãos de gerações, nos jornais que registraram a história de Sergipe e, sobretudo, na memória daqueles que aprenderam com sua competência e grandeza humana.

Minha gratidão será eterna.

Descanse em paz, meu amigo. Seu nome continuará impresso, para sempre, na história das artes gráficas de Sergipe.

Post reproduzido do Perfil do Facebook/Carlos Magno Andrade Bastos

Morre o empresário Stênio Andrade


Publicação compartilhada do site RADAR SERGIPE, de 20 de junho de 2026

Morre o empresário Stênio Andrade, dono da Gráfica J. AndradeO sepultamento será à tarde, neste sábado 20 de junho

Por: César Cabral 
Fonte: Redação

Morreu neste sábado, 20 de junho, o empresário sergipano Stêncio Gonçalves Andrade, proprietário da Gráfica J. Andrade, uma das mais tradicionais do estado de Sergipe.

Por mais de sessenta anos, Stênio se dedicou ao trabalho gráfico, tornando-se uma referência do setor pela qualidade dos serviços, pontualidade na entrega das encomendas e no fino trato com a sua clientela.

Durante muitos anos, quando se fazia campanha política de verdade neste país, nesse período pré-eleitoral, a sua empresa ficava abarrotada de políticos que procuravam pelos serviços qualificados que a Gráfica J. Andrade produzia. Cartazes em vários tamanhos, folderes, santinhos, adesivos e outros similares eram encomendados com a certeza da entrega na data combinada e com a qualidade inigualável que caracteriza a empresa.

Políticos de todos os partidos, de todas as regiões de Sergipe e até de outros estados que disputavam os mais diferentes cargos eletivos, batiam na porta da Gráfica J. Andrade para fazer orçamentos e fechar os contratos. Com muita paciência, Sténio atendia um a um, com a mesma serenidade e de forma educada, mesmo aqueles que, de antemão, ele sabia que não tinham condições financeiras para contratar os serviços. 

Sergipe perde um empresário sério, um homem probo, sinônimo de honstidade, bom caráter e empreendedor por excelência.

O velório está previsto para começar às 12 horas, no Cemitério Colina da Saudade, onde será sepultado às 15 horas.

Texto e imagens reproduzidos do site: radarse com br

sábado, 20 de junho de 2026

Morre aos 82 anos Stênio Andrade, da Gráfica J. Andrade


Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 20 de Junho de 2026

Morre aos 82 anos Stênio Andrade, da Gráfica J. Andrade

Por Jozailto Lima (Coluna Aparte)

Velório e sepultamento acontecem neste sábado, 20, no Colina da Saudade

Morreu na madrugada deste sábado, 20, aos 82 anos, o empresário Stênio Gonçalves Andrade, um dos nomes mais importantes do setor gráfico em Sergipe à frente da Gráfica J. Andrade. O velório acontece a partir das 12h, no Cemitério Colina da Saudade, no Bairro Jabotiana, em Aracaju. O sepultamento está previsto para as 15h.

O filho dele, Rodrigo Andrade, informou que Stênio enfrentava problemas cardíacos e vinha sendo acompanhado pela família. “Ele descansou enquanto estava no seio da família. Foi uma passagem tranquila”, afirmou.

HISTÓRIA - Nascido em 9 de setembro de 1943, Stênio Andrade dedicou grande parte da vida ao desenvolvimento da empresa fundada por seus pais, Jesonias Andrade e Maria Gonçalves Andrade, em 1964. 

Inicialmente responsável pela área comercial da gráfica, ele ajudou a consolidar o negócio ao lado dos irmãos Clóvis Gonçalves Andrade e José Augusto Gonçalves Andrade. Sob sua atuação, a J. Andrade tornou-se uma das principais gráficas do estado, ampliando sua estrutura e investindo em um parque gráfico moderno. 

Ao longo das décadas, a empresa também ganhou reconhecimento por abrir espaço para autores sergipanos e contribuir para a circulação da produção literária local. “Com sua arte de imprimir, Stênio Andrade e a família dele vincaram fortemente a cultura de Sergipe", destacou o poeta e jornalista Jozailto Lima.

"Lembro-me de ter sido muitíssimo bem tratado por ele e por seus colaboradores na impressão do meu quarto livro, ‘Viagem na Argila’, em 2012, que me levou à reimpressão por duas outras vezes ali mesmo, passando de 3,3 mil exemplares, algo raro em se tratando de uma publicação de poesia”, completou Jozailto.

O LIDE Sergipe - grupo de líderes empresariais sergipanos - emitiu uma nota de pesar pelo falecimento do empresário, destacando a trajetória de Stênio. "Sua visão empresarial, compromisso com a qualidade e a incansável capacidade de trabalho deixaram um legado marcante". 

A Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas - ADCE - entidade que já teve Stênio Andrade como vice-presidente, também lamentou a perda. "Durante sua passagem pela ADCE, marcou nossa história com visão, fé inabalável e um amor genuíno ao próximo".

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Jozailto Lima - É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Com colaboração de Magno Montte Joaquim.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Edições regionais de O Pasquim em SP e RS (acervo digital)

O Pasquim: sátira e política Fotos: Agência Brasil

O saudoso cartunista Jaguar, um dos fundadores do Pasquim Divulgação

Publicação compartilhada do site do JORNAL DO BRASIL, de 15 de junho de 2026

Edições regionais de O Pasquim em SP e RS ganham acervo digital

Por JORNAL DO BRASIL (redacao@jb.com.br)


Por Denise Machado - Abertura política no país, lançamento do Plano Cruzado, fim da fabricação do fusca, acidente radioativo em Chernobyl. Foi em meio a esse cenário que, em 1986, os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul ganharam edições regionais de O Pasquim.

O periódico, que havia se consolidado no Rio de Janeiro em plena ditadura militar, com uma linha editorial irreverente, crítica e, não raro, censurada, passou a falar com o sotaque desses dois estados por um curto período de tempo.

Para celebrar essa história, que completa quatro décadas, as 114 edições regionais do Pasquim foram digitalizadas e colocadas à disposição dos leitores na Biblioteca Nacional Digital. O acervo já incluía as 1.072 edições cariocas do jornal alternativo.

Quando surgiu a ideia de levaro Pasquim para São Paulo e para o Rio Grande do Sul, o tabloide já não tinha mais a relevância que teve nos anos 60 e 70. Dois jornalistas tomaram lideraram o projeto, movidos pela admiração que sentiam por essa que foi uma das marcas do jornalismo brasileiro.

Em São Paulo, o jovem Paulo Markun embarcou na aventura (definição dele próprio), levando consigo Manoel Canabarro e apoiado por Dante Matiussi.

Assim que soube que o jornal se abriria a outros mercados, Flávio Braga pegou um ônibus do Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro, disposto a convencer o cartunista Jaguar na época, diretor de O Pasquim a autorizar uma sucursal gaúcha.

Flávio acredita que as pessoas podem até saber da importância do Pasquim, mas dificilmente têm a real dimensão do que ele significou para toda uma geração.

O jornalista exalta o papel transgressor expresso em artigos e entrevistas comandadas por nomes como Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis, além das charges e caricaturas de Jaguar, Henfil, Ziraldo. Tudo entremeado de palavrões, sátiras políticas e contracultura. "E isso em plena ditadura militar", pontua.

Pautas locais com a mesma irreverência

Uma das particularidades das edições regionais era a pauta. Os assuntos tratados eram locais, ainda que, eventualmente, utilizassem entrevistas e reportagens da matriz carioca.

No Sul, o Pasquim manteve o tom satírico para, por exemplo, falar do típico "macho sulino", o que provocou confrontos e debates, lembra Flávio.

Já em São Paulo, espelhou a "efervescência política, fruto do fim da ditadura, que tinha acabado pouquíssimo tempo antes", diz Markun.

As edições regionais expuseram também aspectos comportamentais típicos da contracultura e que eram muito mais visíveis no Rio de Janeiro, como, por exemplo, a liberdade sexual e o uso recreativo de drogas.

As sátiras políticas, responsáveis por boa parte do sucesso de O Pasquim, encontraram em políticos como Paulo Maluf um prato cheio. Governador do estado de São Paulo e, por duas vezes, prefeito da capital, Maluf não tinha o apoio político de nenhum dos colaboradores na regional paulista.

"Todos eram contra o Maluf. Tinha os defensores do Eduardo Suplicy, que era do PT, do Orestes Quércia, que era do PMDB, e até do Antônio Ermínio de Moraes, que era, na época, do PTB, um empresário candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro, veja só", conta Markun.

Outra das particularidades de O Pasquimem suas edições regionaisfoi dar relevância ao trabalho de cartunistas e jornalistas locais. Em São Paulo, Markun, cita nomes como Marangoni, Régis, Laerte, Jau (Jaguar), Jô Soares, Augusto Nunes, Gabriel Priolli, Alberto Dines e Fernando Morais.

Aliás, os dois tiveram uma briga pública no Pasquim São Paulo, por conta da defesa de seus candidatos a governador", conta sobre Dines e Morais.

No Rio Grande do Sul, Flávio lembra: "Edgard Vasquez, que até hoje continua desenhando, Santiago, Bier (Augusto Franke Bier), Canini (Renato Vinícius Canini), o jornalista Reverbel e muitos outros. O jornal não existiria sem eles".

Sobrevivênciano pós-ditadura

A subsistência financeira, crucial para qualquer publicação ontem e hoje, foi um dos aspectos determinantes para que O Pasquim durasse pouco mais de um ano, tanto em São Paulo quanto no Rio Grande do Sul.

No Sul, a redação ficava em Porto Alegre, e o tabloide se sustentou com parcerias estratégicas e anunciantes de peso, como a extinta companhia aérea Varig.

Em São Paulo, diz Markun, os anunciantes não eram muitos, e a venda avulsa era razoável, mas aquém do necessário.

"Havia muita gente que ainda resistia à ideia de anunciar no Pasquim, por conta do passado mais irreverente", analisa Markun.

"Os cenários eram diferentes: no tempo da ditadura, o Pasquim foi um tal êxito de vendas que não foram os anúncios que deram dinheiro, foi a venda avulsa.Ele vendia 200 mil exemplares, um número impressionante", pontua.

Para Markun, a falta de clareza sobre qual seria o papel de um jornal alternativo, finda a ditadura, foi outro aspecto que tornou a sobrevivência das edições regionais difícil.

"A imprensa tradicional já abria espaço para debates e discussões anteriormente proibidas, então, sobrava uma franja muito reduzida para a gente operar".

Digitalização

Esta semana, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) manteve, por unanimidade, a decisão que obriga uma produtora cultural a devolver à União R$ 812 mil captados por meio da Lei Rouanet, para o projeto de digitalização de O Pasquim.

A produtora já tinha sido condenada em primeira instância pela Justiça Federal no Rio de Janeiro. O projeto havia sido aprovado pelo Ministério da Cultura e recebeu patrocínio da Petrobras.

O problema surgiu na hora da prestação de contas, já que não foi comprovado que todo o acervo do jornal seria disponibilizado gratuitamente na internet.

Já a digitalização do acervo pela Biblioteca Nacional foi coordenada de forma voluntária pelo corretor de seguros Fernando Coelho dos Santos, outro admirador de O Pasquim, além de amigo de vários dos jornalistas e cartunistas que fizeram a fama do jornal.

Depois que se aposentou, em 2016, Fernando trabalhou gratuitamente na digitalização do acervo original, das edições cariocas, e também coordenou uma exposição no SESC no cinquentenário do jornal, em 2019.

Em seguida, o admirador do periódico alternativo trabalhou nas edições regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul em conjunto com a Biblioteca Nacional, em um extenso trabalho de "formiguinha", que incluiu desde a reunião do material até a operacionalização técnica. De todas as edições publicadas regionalmente, faltou digitalizar apenas duas, que o corretor não conseguiu encontrar.

"Hoje, o site do Pasquim dentro da Biblioteca Nacional Digital tem 100% do principal e 98% das duas franquias. E as franquias são uma coisa inédita, porque muitas pessoas não se lembram que elas existiram", conta.

Segundo Fernando, o trabalho foi uma espécie de doação. "Eu doei minha parte para essa história ficar. Tem tanta história! E fico muito feliz da Biblioteca Nacional Digital ter apoiado a ideia e ter ido além, porque o site é o único que tem tudo de um periódico que marcou época e é um dos mais importantes do Brasil".

Quem quiser saber mais sobre como era e o que significou O Pasquim, tanto nas edições originais, quanto na das franquias regionais, pode acessar o endereço. (com Agência Brasil)

Texto e imagens reproduzidos do site: www jb com br/brasil/imprensa

domingo, 7 de junho de 2026

Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento


Alex Nascimento: dando duro sobre o arquivo empoeirado do Folha da Praia, 
mas está colhendo boas recompensas

Texto compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 6 de junho de 2026

Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento

Alex Nascimento: “O Folha da Praia renovou a linguagem da imprensa sergipana”

“Tenho já escritos dois outros grandes projetos para dois outros longas”

Em muitas frentes e esferas, a cidade Aracaju e o Estado de Sergipe precisam se preocupar mais com suas memórias. Em pesquisá-las, guardá-las e preservá-las mais efetivamente para que sirvam mais perenemente aos próprios sergipanos.

Isso parece ser uma realidade que se vincula a muitas atividades da capital e do Estado nos muitos afazeres dos sergipanos - sobretudo na esfera cultural.

Ao pesquisar o passado e o histórico do jornal Folha da Praia e adensá-los no documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”, o jornalista e professor Alex Nascimento deu recentemente uma boa prova do quanto esta preocupação é pertinente.

A Folha da Praia, jornal alternativo concebido e levado a efeito pelo jornalista e poeta Amaral Cavalcante, vicejou bem durante os anos de 1980 e 1990.

Ele foi um veículo importante, marcou época no fim de uma ditadura militar iniciada em 1º de abril de 1964 e numa cidade que até pouco tempo reinava com seu provincianismo a toda prova. Mas silenciou-se de uma forma perversa.

Com as profundas mudanças nos meios de mídias, com a morte de Amaral Cavalcante há seis anos, uma pedra foi posta na memória da velha Folha, sobretudo envolvendo a nova geração.  

E é nesta hora que o documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” vem como um sopro forte. Não para ressuscitar a Folha, ou o Folha, como Alex a denomina.

Mas para avivar e acender a sua importância. Para dizer sobretudo às novas gerações que o passado é uma roupa que ainda pode nos servir um pouco mais.

E Alex Nascimento e a sua companheirada de missão fizeram um trabalho com precisão. Com uma mão forte: o que seria um curta de menos de 20 minutos, deu num longa de 74.

E não se tornou um longa por afetação. Tornou-se por precisão. É como se Alex e os seus estivessem em sintonia com a ideia de que a cidade e o Estado “precisam se preocupar mais com suas memórias”.

 Portanto, não é sem razão que a recepção ao documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” foi e está sendo avassaladoramente positiva.

Gente de toda a espécie está a falar bem dele. A falar bem do rigor como ele trouxe os fatos à tona. De como o documentário não dourou somente as virtudes do Folha.

De como expôs seu tombo proporcionado por um Amaral alternativo que se deixou cooptar pelo poder político e encaretou o seu semanário ao ponto de desidratá-lo e levá-lo à morte.

Mas enquanto surfou em rebeldia, a Folha vincou bem seu tempo. “Foi o retrato de uma geração e de uma liderança. Uma geração que precisava de um canal de comunicação para expressar o desejo de viver novas possibilidades, de construir uma nova história, negar um mundo caduco na política e nos costumes”, constata Alex Nascimento.

Para Alex, o que prevaleceu foi a coisa boa, a ideia sã. “Foi uma experiência marcada pela ousadia, criatividade e sentimento de liberdade sintonizada com o que acontecia no restante do Brasil. O Folha da Praia renovou a linguagem da imprensa sergipana e foi o grande veículo de divulgação e espaço da cultura, da contracultura, especialmente nos anos 80 e 90”, reitera.

Nesta Entrevista Domingueira, Alex Nascimento vai falar do prazer que gerou nele e na equipe ter feito este documentário, dirá do que pensa em fazer com a película daqui para frente e informará que isso tudo lhe enterneceu tanto que está com novos projetos de audiovisuais na cabeça para execução.
E adianta projetos literários pessoais, como um livro de poemas de gaveta e um romance em fase de escrita, e sobretudo de como pretende encarar o batente de nova sobrevivência, deixando de lado 34 anos de cátedra educativa.

Alex Sandro da Silva Nascimento nasceu no dia 4 de dezembro de 1971 em Lagarto, mas sempre sentiu-se de Simão Dias. Ele é filho de Hélio Floriano do Nascimento e de Tereza da Silva Nascimento.

 É um rapaz velho que já experimentou dois casamentos que ele considera “fracassados”. “Em matéria de amor, tive muitos. Mas em matéria de união duradora, fracassei em duas tentativas”, avisa. É pai de Antônio Augusto Santos Nascimento e de Hélio Benício Santos Nascimento.

 Alex tem formação acadêmica em Comunicação Social pela Universidade Tiradentes com habilitação em Jornalismo. É pós-graduado em Língua Portuguesa e tem mestrado inconcluso em Comunicação.

Alex Nascimento e o trio elementar composto por Helena Cabral, Daniel Cireno e Sandro Cajé, parte da equipe que trabalhou no documentário

Apesar de ter uma vida umbilicalmente ligada à educação, tem amplas passagens pela Comunicação Social, sobretudo na área pública, e pelo rádio.

 “Tenho já escritos dois outros grandes projetos para dois outros longas, que penso sejam importantes para Sergipe que aconteçam. Não ficarei esperando por editais, vou buscar parcerias, buscar dialogar também com a iniciativa privada”, promete.

A Entrevista com Alex Nascimento vale o prazer da leitura. (PS - Alex trata a Folha da Praia por o Folha. Ele prefere a concordância com o jornal. A redação do JLPolítica & Negócio opta por a Folha. Não há divergência). 
 
Alex Nascimento como coordenador de Comunicação da Funcap, durante Fórum da Música Nordestina, com o cantor e compositor Aldemário Coelho

JLPolítica & Negócio - O senhor se surpreendeu com o histórico da Folha da Praia ou já entrou na pesquisa sabendo do que viria dessa sua escavação?

Alex Nascimento - Conheci o Folha da Praia na primeira vez em que fui à Praia da Atalaia, e era eu um tabaréu de Simão Dias. Acompanhei como leitor, dentro do possível, a sua trajetória, e sabia de sua importância para a comunicação, para a história da imprensa local e para a cultura sergipana. Alguns anos depois, fui apresentado por Antônio Passos ao jornalista Amaral Cavalcante, e tivemos certa aproximação. Certa feita, homenageei-o em uma inesquecível noitada que começou às 19h e foi terminar por volta das 8h do outro dia, em meu apartamento, pouco depois dele ser empossado na Academia Sergipana de Letras. Sabia o que o Folha e Amaral representavam, que teria muito material com o qual trabalhar, mas ainda assim me surpreendi. Amaral cuidou bem do arquivo do Folha, e este precisa urgentemente ser digitalizado, por razões óbvias. Foi um grande mergulho no jornalismo sergipano, especialmente dos anos 1980 e 1990. 

JLPolítica & Negócio - No final de tudo, o que lhe parece que foi aquela experiência do Amaral Cavalcante para com a comunicação e a cultura de Sergipe?

AN - Foi o retrato de uma geração e de uma liderança. Uma geração que precisava de um canal de comunicação para expressar o desejo de viver novas possibilidades, de construir uma nova história, negar um mundo caduco na política e nos costumes. Foi uma experiência marcada pela ousadia, criatividade e sentimento de liberdade sintonizada com o que acontecia no restante do Brasil. O Folha renovou a linguagem da imprensa sergipana e foi o grande veículo de divulgação e espaço da cultura, da contracultura, especialmente nos anos 80 e 90.Foi também uma experiência de amizade, cumplicidade e ocupação dos espaços urbanos, especialmente da Atalaia e da Praia dos Artistas. 

JLPolítica & Negócio - Para o senhor, toda aquela experimentação teria sido possível não fosse no momento de uma ditadura militar que morria?

AN - O Folha foi o que foi, teve a roupagem que teve, de certa forma, por causa, sim, do momento histórico, tanto que no documentário, que é dividido em seis partes, abordamos esta questão. Mas penso que experiências e construções como o do Folha da Praia possam ser consolidadas em qualquer época. Neste momento, por exemplo, um Folha da Praia, como afirma o jornalista Rian Santos no documentário, “é urgente, o mundo está encaretando, existe fundamentalismo de todos os lados”. 

Alex Nascimento com o grande Otto em sua militância ambiental: soltando tartarugas marinhas no Oceanário de Aracaju

JLPolítica & Negócio - Havia uma ordem naquele modo do Amaral Cavalcante e de seus colegas na busca por uma realidade de comunicação?

AN - Penso que sim. Amaral sabia o que estava fazendo. Certamente que grande parte dos que fizeram o jornal não tinham consciência de que estavam envolvidos em algo tão significativo. Mas Amaral sabia. Amaral e outros mais maduros, a exemplo de Ilma Fontes, que depois fundou o jornal O Capital. Amaral sabia que o jornal precisava ter uma linguagem jovem, mas que era preciso também se comunicar com os segmentos, digamos, formadores de opinião.

JLPolítica & Negócio - Na sua pesquisa, o senhor encontrou algo de comunicação social praticado em Sergipe semelhante à Folha da Praia em Sergipe?

AN - O jornal Pipiri tinha muito do que havia no Folha, mas era outra a pegada. O Capital também foi outro jornal alternativo importante, mas era mais denso. 

JLPolítica & Negócio - Por que que em nenhum momento o Pipiri aparece como referencial no documentário “Folha da Praia: um Pasquim sob o sol de Aracaju?” 

AN - Pipiri - O Jornal da Cultura foi uma publicação inicialmente produzida pela Secretaria Municipal de Cultura com foco no que rolava em termos de arte e cultura em Aracaju, na gestão de Lânia Duarte, com editoria de Ilma Fontes. Foi um grande e importante projeto, certamente. Mas o Pipiri foi o Pipiri, o Folha, o Folha. Nós gravamos quase 15 horas de entrevistas. Tive que rever todo o roteiro original do projeto, estruturar toda a sequência de falas e imagens, digitalizar, cortar jornais e fotos, enfim, e editar todo o material que compõe o documentário exigiu, obviamente, fazer uma seleção. 

Alex Nascimento e os filhotes Antônio Augusto e Hélio Benício numa paisagem do Tobias Barreto. Ele é pai-babão

JLPolítica & Negócio - O senhor já conhecia de perto aqueles personagens mais clássicos do documentário, como Erê e Gigi?

AN - Não os conhecia pessoalmente. Foi fantástico quando vi Gigi chegando ao set de gravação. Erê, que foi casado com Amaral, foi outra maravilhosa alegria tê-lo conhecido. Assim que finalizamos as gravações com eles, eu soube que seria preciso trabalhar a participação deles no documentário com bastante sensibilidade e equilíbrio, como de resto, claro. Eu sabia o que tinha em mãos. Eu analisei cada entrevista dezenas de vezes. Trabalhei com consciência do que queria, tracei o perfil de cada um dos 18 entrevistados e, digamos, o papel que cada um deles deveria ter. Não obstante a riqueza de depoimentos de todos, Gigi e Erê tem no filme uma participação toda especial, conscientemente trabalhada. 

JLPolítica & Negócio - Afinal, existe um domínio de guarda do arquivo da Folha da Praia?

AN - Sim.  Ele é do querido amigo Samuel Santos, a quem mais uma vez aproveito para agradecer pela confiança depositada em mim. Samuel me disponibilizou todo o arquivo do Folha. 

ENTROU NA PESQUISA SABENDO DO PESO DA FOLHA

“Conheci o Folha da Praia na primeira vez em que fui à Praia da Atalaia, e era eu um tabaréu de Simão Dias. Acompanhei como leitor, dentro do possível, a sua trajetória, e sabia de sua importância para a comunicação, para a história da imprensa local e para a cultura sergipana”

Alex Nascimento e uma ruma de amigos no Memorial Professor Jouberto Uchoa durante lançamento do documentário

JLPolítica & Negócio - O Folha da Praia teria sido possível com outro personagem que não Amaral Cavalcante?

AN - Acredito que não. Um projeto como esse precisa ter um sujeito com fibra, com visão de momento, de oportunidade, de liderança e ser preparado intelectualmente para fazê-lo. 

JLPolítica & Negócio - O senhor não exibe, no documentário, qualquer senso de julgamento entre a Folha da Praia alternativa e a Folha da Praia comercial, com entrevistas vendidas. Mas o senhor vê nisso uma contradição para um jornal que se queria alternativo?

AN - Como afirma o jornalista Luciano Correia, o Folha não foi um jornal planejado. Não houve, por parte de Amaral, um cuidado maior para estruturar economicamente o jornal para que ele pudesse manter a mesma verve que teve nos anos 80 e 90. Além disso, os tempos mudaram, Aracaju mudou e Amaral, e o jornal, precisavam sobreviver. Ademais, o sistema não brinca. 

AMARAL CAVALCANTE ENTENDIA DO TERRENO EM QUE PISAVA

“Amaral sabia o que estava fazendo. Certamente que grande parte dos que fizeram o jornal não tinham consciência de que estavam envolvidos em algo tão significativo. Mas Amaral sabia. Amaral e outros mais maduros, a exemplo de Ilma Fontes, que depois fundou o jornal O Capital”

Alex Nascimento: dando duro sobre o arquivo empoeirado do Folha da Praia, mas está colhendo boas recompensas

JLPolítica & Negócio - O senhor se deu por contente com a recepção do “Folha da Praia: um Pasquim sob o sol de Aracaju?”

AN – Sim. Foi uma recepção maravilhosa. Logo nos primeiros três minutos, quando o público soltou a primeira gargalhada, depois uma sequência muito bacana de respostas ao que havíamos pensado, a emoção percebida, os olhares, a plateia sem nenhuma dispersão, pessoas em pé, pessoas enxugando lágrimas. O público aplaudiu de pé e longamente, entende! Trabalhamos duro, especialmente eu e Alex Soares, meu amigo e parceiro, editor do documentário. Nos encontrávamos diariamente, incluindo finais de semana e feriados. Foram oito meses de estúdio, oito, dez horas por dia, e em casa eu ainda seguia em frente do computador ou dos jornais até às três, quatro da manhã. Além do roteiro, direção e produção executiva, eu fiz também todo o trabalho de criação e direção de design, e tudo isso me exigiu muito. Eu precisava chegar ao estúdio com tudo muito bem definido, então eu seguia trabalhando. Dizia a Soares: “Vamos refazer o que tiver que ser refeito quantas vezes forem necessárias. Vamos entregar um produto que esteja à altura do Folha da Praia e em respeito a todos os entrevistados e a essa geração que fez história na imprensa sergipana”. Acho que conseguimos. Pediram até uma versão ampliada, apesar dos já 74 minutos. Um elogio e tanto. 

JLPolítica & Negócio - Qual é o destino do seu documentário de agora por diante?

AN - Vamos inscrevê-lo em festivais, programar novas exibições. O secretário da Funcaju, Paulo Corrêa, que esteve no lançamento representando a prefeita Emília Corrêa, nos convidou para o exibirmos no Cinema do Centro; a TV Alese nos pediu autorização para exibi-lo durante as comemorações de aniversário da TV; já temos também convite para irmos a UFS. Ou seja, vamos promover outras sessões e depois disponibilizá-lo ao público através de streamings e do Youtube. Mas eu desejo ir para outros Estados mostrar lá fora o que foi o Folha da Praia e esta geração maravilhosa que marcou a história recente de Aracaju e de Sergipe. 

DAS GRANDES ESTRELAS GIGI E ERÊ

“Foi fantástico quando vi Gigi chegando ao set de gravação. Erê, que foi casado com Amaral, foi outra maravilhosa alegria tê-lo conhecido. Assim que finalizamos as gravações com eles, eu soube que seria preciso trabalhar a participação deles no documentário com bastante sensibilidade e equilíbrio”

Alex Nascimento, o documentarista, com Sandro Café, diretor de Fotografia do documentário Folha da Praia: debatendo soluções

JLPolítica & Negócio - O senhor considera que algumas figuras da comunicação nesta aventura com Amaral Cavalcante ficaram de fora do documentário e que elas fizeram falta?

AN - Guardarei para sempre uma grande tristeza, que foi não ter conseguido gravar com Clara Angélica. Dois dias antes da gravação com ela, recebemos um telefonema nos informando que teria que ir para Nova Iorque. Ela mesma sugeriu nos enviar um vídeo quando chegasse, mas, infelizmente, não sei o que houve, não rolou. Fiquei muito triste. Infelizmente, houve outras figuras que foram marcantes para o Folha e que não conseguimos pegar o depoimento - ou porquê não conseguimos contato ou por desencontro de agenda. Há um detalhe: o diretor de fotografia do documentário, o querido Sandro Cajé, sergipano de Neópolis, no espaço entre a aprovação do projeto pela Paulo Gustavo, através da Funcap, e a liberação da verba para começarmos a trabalhar, Sandro passou a  morar em São Paulo. Foi preciso ajustar agenda de gravações, custos com aluguel de equipamentos, diária de hotel, alimentação, transporte etc. Nós trabalhamos com um orçamento muito curto. Produzimos um longa com recurso para um curta. Buscamos, no entanto, levar para o documentário aqueles que não foram entrevistados. E acho que, de alguma maneira, conseguimos.

JLPolítica & Negócio - Esta experiência com o documentário da Folha da Praia estaria fomentando na sua pessoa a possibilidade de outros documentários?

AN - Sim. O filme não aconteceu por acaso. Tenho já escrito dois outros grandes projetos para dois outros longas, que penso sejam importantes para Sergipe que aconteçam. Não ficarei esperando por editais, vou buscar parcerias, buscar dialogar também com a iniciativa privada. Para isso, preciso divulgar ao máximo o documentário que entregamos, preciso que conheçam o nosso trabalho. Não podemos ficar dependendo apenas de verba federal. Vou buscar dialogar com o governo em torno de um destes projetos. Claro que vou estar atento aos editais, incluindo a Lei Rouanet e outros. Ou seja, vou me movimentar. E espero também receber convites para participar de outros projetos. Estou na pista!
 
DAS CAUSAS DO TOMBO FINAL DA FOLHA

“Como afirma o jornalista Luciano Correia, o Folha não foi um jornal planejado. Não houve, por parte de Amaral, um cuidado maior para estruturar economicamente o jornal para que ele pudesse manter a mesma verve que teve nos anos 80 e 90. Além disso, os tempos mudaram, Aracaju mudou e Amaral, e o jornal, precisavam sobreviver. Ademais, o sistema não brinca” 

Alex Nascimento sempre plantou flores no lajedo áspero da comunicação: aqui entrevistando a cantora Vanessa da Mata

JLPolítica & Negócio - O senhor passou a régua em sua carreira de professor de Redação e de Literatura. Mas tem se dedicado ao que na teia do existir?

AN - É preciso ter coragem e clareza do que se quer. E pagar o preço. Tive que abrir mão de muita coisa. Não foi e não tem sido fácil. Hoje, vivo da assessoria de comunicação que presto a duas instituições, uma delas o Concese, que é o Conselho de Consumidores da Energisa Sergipe. Embora eu tenha passado 34 anos em sala de aula, sempre atuei também como jornalista, com passagens por órgãos públicos como a Sefaz e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Fui coordenador de comunicação da Funcap, na gestão de Belivaldo Chagas, à convite da amiga Conceição Vieira. Trabalhei na equipe de comunicação de uma dezena de campanhas eleitorais, enfim, tenho certo lastro e vou buscar abrir algumas portas. Preciso recuperar a renda que tinha consolidada na educação. Não é fácil. Nenhuma transição é fácil. 

JLPolítica & Negócio - O senhor acha que numa fase de desconstrução da comunicação, dá para se viver de jornalismo?

AN -  Sim, é possível viver de jornalismo, mas sob novas condições. Com as redes sociais, e esse bando de comunicadores miolo mole que as ocupam, o que temos é uma crise de comunicação, não da profissão jornalismo. O poder migrou para as plataformas digitais, desmontou o modelo econômico tradicional da imprensa e gerou a fragilidade dos fatos - que são substituídos por narrativas instáveis. Neste cenário, o jornalismo se torna ainda mais necessário como mediador confiável. O jornalismo ainda sustenta o debate político. É inegável que é mais difícil viver dele hoje em dia, mas também é verdade que é ainda mais essencial a nossa presença, mais do que nunca foi, e há espaços para um jornalismo sério. 

DA TRISTE AUSÊNCIA DE CLARA ANGÉLICA

“Guardarei para sempre uma grande tristeza, que foi não ter conseguido gravar com Clara Angélica. Dois dias antes da gravação com ela, recebemos um telefonema nos informando que teria que ir para Nova Iorque. Ela mesma sugeriu nos enviar um vídeo quando chegasse, mas, infelizmente, não rolou”

Alex Nascimento: revirar os escombros do Folha da Praia, abriu-lhe o apetite para novos documentários

JLPolítica & Negócio - O senhor abandonou por definitivo a sua militância comunicacional na área de ecologia e de meio ambiente? Quede aquele seu Programa Ecos em Debate?

AN - Continuo atento às grandes questões que envolvem o meio ambiente. É um tema cercado de desafios e oportunismos. Eu produzia e apresentava o Ecos em Debate, que chegou a ser considerado pela Arpub - Associação das Rádios Públicas do Brasil -, como o primeiro programa de jornalismo ambiental das rádios públicas do país. Na época, recebemos o convite para que o programa fosse transmitido também em outros Estados. Era pela Aperipê, durou dois anos e pouco, e foi bem recebido pelos ouvintes. Depois, houve mudança de direção da emissora e não foi possível continuar com o programa. Cheguei a receber alguns convites, mas não foi possível aceitá-los. Ainda mantive por um bom tempo o portal Ecos em Debate, produzimos matérias muito bacanas, viajamos pelo interior do Estado, fomos ao sertão sergipano, fizemos belas entrevistas também com personagens de renome nacional.

JLPolítica & Negócio - Mas o senhor gostou daquela experiência?

AN - Foi muito boa a experiência. Foi um período bastante agitado, chegou um momento que ficou difícil conciliá-lo com as cinco escolas nas quais eu lecionava. Realizamos também o movimento Manifesto Reduza Sua Pegada Ecológica, então uma pauta pouco conhecida do grande público, com apoio da Prefeitura de Aracaju, gestão de Edvaldo Nogueira, TV Sergipe e o Oceanário de Aracaju. Depois, aceitei convite para fazer assessoria parlamentar na Câmara Municipal de Aracaju.  Além disso, acabei me tornando presidente - porta-voz - municipal, depois estadual e delegado nacional do partido Rede Sustentabilidade. Mas esse é um outro papo…

DA POSSIBILIDADE DE VIVER DO JORNALISMO

“É possível viver de jornalismo, mas sob novas condições. Com as redes sociais, e esse bando de comunicadores miolo mole que as ocupam, o que temos é uma crise de comunicação, não da profissão jornalismo. Neste cenário, o jornalismo se torna ainda mais necessário como mediador confiável”

Alex Nascimento e o solene encontro com a grande figura de Erê, companheiro de Amaral Cavalcante: ele deu liga leve ao documentário

JLPolítica & Negócio - O que está faltando para que o senhor dê à luz “Poemas de Escavação”, seu livro de poesia?

AN -Está faltando voltar a dar atenção a ele, parar um pouco, desacelerar para completar o trabalho. Está faltando me embrenhar solitária e surdamente no reino das palavras, como diz Drummond. A ideia era lançá-lo ainda este ano, mas talvez não haja mais tempo, já que o fazimento do “Pasquim Sob o Sol de Aracaju” me cobrou muito tempo. Mas ele sairá. Você, Jozailto Lima, que é poeta dos grandes, amigo querido com quem compartilho tessituras, cujo livro “Viagem na Argila”, tive a honra de ler os originais para produzir ensaio, a seu convite, é meu maior incentivador. Diz você que tenho cá umas coisinhas que merecem ser publicadas. E serão.  

JLPolítica & Negócio - Em que pé está a concepção de “Tereza Lunática, a Catadora de Afetos”, romance que o senhor vem escrevendo?  

AN - O sujeito não escreve um poema e fica o resto do dia escrevendo poesia. Bem, pelo menos imagino que não. Escrever um romance é diferente. Exige uma entrega diária. Eu vinha dedicando seis, oito horas, à escrita dele. Agora que o filme foi lançado, estou muito motivado a retomá-lo. Já está com quase 100 páginas. É um livro sobre afetos, cheiro de doces e dramas femininos. Mas tudo a seu tempo, sem agonias, como foi o documentário sobre o Folha da Praia, cuja recepção do público tem me encorajado ainda mais. 

O QUE FALTA PARA LANÇAR O LIVRO POESIA?

“Está faltando voltar a dar atenção a ele, parar um pouco, desacelerar para completar o trabalho. Está faltando me embrenhar solitária e surdamente no reino das palavras, como diz Drummond. A ideia era lançá-lo ainda este ano, mas talvez não haja mais tempo” 

Alex Nascimento recebe no lançamento do documentário as presenças solenes de Paulo Corrêa, secretário de Cultura se Aracaju, e a esposa Kalina Elizabete Lopes Corrêa

JLPolítica & Negócio - O senhor se sente mais para a prosa ou mais para a poesia, e nessas duas esferas, quem são suas referências?

AN -  Para a prosa, embora a poesia rasgue-me a alma de maneira especial. Carlos Drummond é o maior de todos. Depois vem Manuel Bandeira, Mário Quintana, que nos humilha com sua simplicidade e dizer das coisas; João Cabral de Melo Neto e sua secura, e Manoel de Barros e tantos outros e outras. Mas olha, sem agrado tolo, temos por aqui em Sergipe grandes nomes, a exemplo de você mesmo, Araripe Coutinho. Na prosa, Machado de Assis, claro, é o maior de todos, e José Saramago que amo de paixão, como dizem, isso para ficarmos no terreno da língua portuguesa.
 
JLPolítica & Negócio - Em sã consciência, o senhor acha que ainda há lugar para literatura na sociedade contemporânea, ou ela estaria numa fase de banimento de significado? 

AN - Há lugar para a literatura justamente porque há excesso de ruído. A literatura permanece como uma das poucas experiências que exigem entrega, imaginação e profundidade. Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca - não por nostalgia, mas porque os livros ampliam as fronteiras da experiência humana. Para Milan Kundera, a função do romance, ou da literatura, é justamente resistir às simplificações do mundo, preservando a complexidade da condição humana. Clarice Lispector, por exemplo, dizia que a literatura é o território insubstituível para explorar o que não cabe nos discursos prontos. Não há tecnologia no mundo, e jamais haverá, capaz de entregar o que um bom livro entrega. 

A LITERATURA E A AMPLIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA HUMANA

“Há lugar para a literatura justamente porque há excesso de ruído. A literatura permanece como uma das poucas experiências que exigem entrega, imaginação e profundidade. Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca - não por nostalgia, mas porque os livros ampliam as fronteiras da experiência humana”

Alex Nascimento de refrega com Marina Silva: ele e ela pitam o mesmo cachimbo de assuntos ambientais

JLPolítica & Negócio - Que evento foi aquele que o senhor produziu no começo dos anos 1990, chamado Dia da Palavra?

AN - Oito horas ininterruptas de arte: quarto, cinco peças de teatro, suítes de dança, recitais de poesias, apresentações musicais, mais de 50, sei lá, 60 jovens envolvidos, uns 15 a 20 artistas convidados. Tudo isso no Teatro Atheneu Sergipense. Nunca havia acontecido um evento cultural daquele porte na cidade de Aracaju. Tenho muito orgulho dele. Nós fizemos adaptações de textos, montamos recitais, dirigimos a garotada. No Dia da Palavra, apresentei o monólogo “A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo e jogar as cinzas depois”, do grande teatrólogo Vieira Neto. Me lembro que o músico Henrique Teles, do Maria Scombona, ainda muito jovem, foi um dos que se apresentou no evento.

JLPolítica & Negócio - Certamente isso marcou geração?

NA - Na noite de lançamento do documentário do Folha, quando saímos para comemorar, o jornalista Rian Santos, que foi meu aluno e participou do evento, estava exatamente lembrando do Dia da Palavra, do que foi para aqueles jovens, e para mim, passar três, quatro meses, dentro do teatro Atheneu ensaiando, vivendo arte. Guardo isso com muito carinho. Foi algo inusitado naquela época e o que me projetou, inicialmente, junto às escolas. Abriu-me muitas portas. 
 
Texto e imagens reproduzidos do site: jlpolitica com br

sábado, 6 de junho de 2026

A sofisticação em meio a simplicidade

Legenda da foto: Amaral Cavalcante liderou um projeto que disse muito!

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 5 de Junho de 2026

A sofisticação em meio a simplicidade
Por José Roberto de Lima Andrade *

A semana terminou, pra variar, com mais um daqueles Febeapa – Festival de Besteiras que Assola o País. Novo tarifaço anunciado por Trump, ataque ao Pix, e etc. Cansa falar da estupidez da classe política brasileira.

Melhor falar sobre o documentário lançado no último dia 28 de maio – “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”. Apesar de vários artigos sobre o documentário, as lembranças da minha juventude em uma Aracaju extremamente “simples” falaram mais alto. E, portanto, vão se lascar Trump e acessórios.

A Folha da Praia surgiu no início da década de 80 e durou até a metade dos anos 20 deste século. Coincidiu com o início da minha adolescência e começo da juventude em uma Aracaju, tempo que não possuía nada de extraordinário. 

Fui criado no bairro São José, que para mim sempre foi o centro do mundo. Estudava, ia ao hospital, a igreja, a pizzaria, aos clubes, ao estádio de futebol, aos passeios dominicais circulares na Praça Tobias Barreto, aos shows no Constâncio Vieira, tudo isso em um raio de no máximo um quilômetro. 

Para mim, Aracaju era o Bairro São José, o centro da cidade - o “comércio” – e a Atalaia. A Atalaia, um pedaço do paraíso ainda pouco habitado. Das peladas aos domingos, onde tínhamos que chegar cedo, ao surf que começou a tomar espaço do futebol.

E a vida noturna também era na Atalaia. Começava no Manequito, cuja batida, supostamente, continha substâncias misteriosas, terminando no Bar do China.

O Teimonde era frequentado por uma galera mais velha e com mais dinheiro. Tinha também a Tio Zé. Não tinha dinheiro para essa coisa de boate. No máximo, uma passada no Circo Amoras e Amores. 

Mas voltando à Folha da Praia. No Hawaizinho, point da galera do surf nos anos 80 e 90, ficávamos esperando alguém distribuir o jornal. Como não tinha exemplares para todo mundo, normalmente dividíamos a leitura.

Notícias de surf, coluna social – provocativa, sem frescura – poesia, e mais um monte de coisas interessantes. Lembro até hoje de um debate sobre política entre a então liderança emergente Marcelo Déda versus o jornalista Luciano Correa. 

Para mim a Folha da Praia foi o máximo de sofisticação intelectual em uma cidade de hábitos tão simples, daquilo que costumamos chamar de provinciano.

Cheguei recentemente aos 57 anos e vejo que, morando em uma Aracaju muito mais “sofisticada” - ou menos provinciana - perdemos a capacidade, salvo raras exceções, de produzir discussões e notícias no mesmo nível da Folha da Praia. 

Jornal que gerou - algo raro - a expectativa de aguardar uma semana para poder absorver algo de extraordinário em um espaço tão ordinário, simples, como aquela Aracaju dos anos 80 do século passado.

Morei na Atalaia em frente à casa de Amaral Cavalcante, idealizador da Folha da Praia. Conversávamos pouco. As histórias divertidas sobre as aventuras de um Aracaju “careta” normalmente surgiam com a presença de João Augusto Gama, figura marcante na cultura e na política sergipanas. 

Certa vez, ao passar pela calçada de Amaral me deparei com um papagaio que ele criava. Automaticamente, chamei o bicho por louro, lourinho – como denominamos todos os papagaios. A resposta foi um monte de palavrão. Nunca imaginei que um bicho pudesse xingar tanto. Padrão Folha da Praia.

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* É economista, professor da UFS e presidente do SergipePrevidência. 

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolítica com br

quinta-feira, 4 de junho de 2026

João de Barros vive na medalha e na memória da imprensa SE.

Publicação compartilhada do site FAUSTO LEITE, de 28 de maio de 2026

João de Barros vive na medalha e na memória da imprensa sergipana

A Medalha João de Barros Filho, o eterno Barrinhos, é uma das homenagens mais simbólicas da comunicação sergipana. Criada pela Assembleia Legislativa de Sergipe, ela reconhece jornalistas, radialistas e profissionais que ajudaram a fortalecer a imprensa, a cultura e a vida pública do Estado. Na sessão especial marcada para o dia 2 de junho de 2026, às 11h, no Palácio Governador João Alves Filho, o advogado e jornalista Fausto Goes Leite Júnior estará entre os homenageados com essa importante comenda. 

João de Barros foi muito mais do que um colunista social. Foi jornalista, radialista, comunicador, agitador cultural e um dos nomes mais queridos da imprensa sergipana. Atuou no Jornal da Cidade, brilhou na televisão, criou eventos culturais marcantes e ajudou a dar vida ao ambiente artístico e jornalístico de Sergipe. Barrinhos tinha uma presença rara: sabia circular pelos salões, mas também enxergava o povo simples, a cultura popular e as dores reais da sociedade.

Uma das marcas mais bonitas de sua trajetória foi a Ação Solidária Santo Antônio, em Rosa Elze, onde prestava assistência a pessoas carentes. Ali, João de Barros mostrou que comunicação também é gesto, presença e humanidade. Não era apenas um homem de microfone e coluna social. Era um homem de atitude, que transformava prestígio em solidariedade e amizade em serviço.

Para Fausto Leite, receber a Medalha João de Barros tem um significado profundamente afetivo. Fausto foi amigo de Barrinhos, conviveu com ele no Jornal da Cidade e acompanhou de perto sua caminhada, inclusive na construção da obra social Santo Antônio. Por isso, a homenagem não representa apenas reconhecimento profissional. Representa memória, carinho e gratidão por um amigo que marcou sua vida e a história da comunicação sergipana.

A indicação da deputada Gracinha Garcez torna a homenagem ainda mais especial. Ex-prefeita de Itaporanga d’Ajuda, ex-deputada e figura muito querida em sua terra, Gracinha tem uma trajetória ligada ao serviço público, à educação e à vida comunitária. Fausto Leite agradece à deputada pela sensibilidade da indicação e pela honra de receber uma medalha que carrega o nome de João de Barros, um verdadeiro baluarte da imprensa, da cultura e da solidariedade em Sergipe.

Texto e imagem reproduzidos do site: faustoleite com br

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um Doc para a história da imprensa sergipana

Alex Nascimento, com Alex Soares, editor do documentário – ao fundo, Rivanda Santos,
 última secretária de Amaral na Folha da Praia

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 1 de Junho de 2026

Um Doc para a história da imprensa sergipana
Por Luciano Correia *

Há documentários que servem à vaidade do diretor e, talvez, de uma meia dúzia de chegados de sua bolha. Há os que são feitos só pra justificar o dinheiro recebido e, como no poema de Brecht, há os imprescindíveis.

Alex Nascimento, professor com vários anos de pó de giz em salas do ensino médio, acaba de entregar à sociedade um desses trabalhos para entrar para a história do audiovisual em Sergipe. E ao fazer isso contando a história de um jornal que impactou o cenário jornalístico local há mais de 40 anos, acabou fazendo História também, essa com “H” maiúsculo.

Alex pode ser desconhecido para muita gente, “do campo”, como se diz nas vetustas academias, incluindo a mais pretensiosa delas, a universitária. Mas nunca foi um Zé Ninguém no mundo da comunicação e da cultura.

Primeiro, como professor de Redação e de Literatura, é um jornalista que sabe a diferença do tempo de um verbo no presente do subjuntivo e no pretérito imperfeito. Depois, sabe conjugá-lo. Por fim, é jornalista como todos nós do clube, após esquentar os mesmos bancos da companheirada.

O documentário sobre a lendária Folha da Praia, jornal capitaneado pela mente vulcânica do poeta Amaral Cavalcante no comecinho dos anos 80, mostra que em matéria de imprensa já fomos muito melhores do que a maioria dos perfis de aluguel que reivindicam indevidamente a qualificação de imprensa para exercer seu jornalismo tacanho, pra ficarmos numa classificação mais branda.

“Folha da Praia: um pasquim sob o sol de Aracaju” é uma lufada na cara dos caretas encastelados nas sinecuras e conselhos de cultura que não servem pra nada. A Aracaju que sobressai do mergulho de Alex nas origens da Folha é de uma cidade ainda pequena, onde dizia-se que “todo mundo se conhece”.

Era rebelde, com perfil oposicionista, e celebrava a boemia com som e fúria nos points tradicionalmente consagrados: o Bar do China ou o velho e emblemático Manequito com sua enfieira de batidas saborosas e explosivas. Mas a chamada juventude dourada daquele final dos anos 70, inspirada pelo célebre verão da abertura política em Ipanema e Leblon, se encontrava e tietava no território democrático e psicodélico do Barbudo’s, vizinho ao Manequito, que recebia uma gente mais raiz, que não davam bola pra tietagem. 

Barbudo recebia a freguesia usando batas indianas, vestindo por baixo dos panos somente uma sumária tanga, em moda na época. A Folha, como dizia um dos bordões usados semanalmente, deitava e rolava entre as mesas do apertado espaço. O próprio Barbudo, figura ilustrada, com perfil de esquerda, acabou se tornando também um dos colaboradores do jornal, escrevendo praticamente até sua morte, anos depois. Essa era a vida noturna da Folha da Praia.

Mas a diurna também precisava ocorrer, até para honrar o título de jornal de praia, apesar da intensa vida boêmia de sua equipe. E ela se dava na confluência entre o rio e o mar já perto do Colodiano, na recém-batizada Praia dos Artistas.

O nome não evocava só a poesia da arte, porque semanalmente suas areias ficavam inteiramente tomadas pela gente da música, do teatro, da dança, da poesia, além de escritores e jornalistas que fizeram daquela esquina atlântica sua tribuna livre de luta e prazer.

Pro lado esquerdo, só havia o Colodiano e o mangue, porque não havia Coroa do Meio nem a ponte que veio ligá-la à cidade depois. À direita, só a Atalaia, porque a ideia de praia, na época, terminava no Bar do China ou, vá lá, no boteco do pescador Duda, tão rústico que nem merecia o título de bar. E a juventude bronzeada e os intelectuais fetichistas que iam fotografá-la com suas máquinas e retinas já tinham decretado a caretice da velha Atalaia.

Lugar de gente descolada era a Praia dos Artistas. Foi ali que a Folha reinou soberana, estendendo as reuniões da Redação para a mesa do bar, com Amaral regendo a orquestra nem sempre afinada de jornalistas como Fernando Sávio, Ilma Fontes, Clara Angélica, Marcos Cardoso, Guga Oliveira, Zenóbio Melo e os fotógrafos Fernando Souza, Ricardo Nunes, César de Oliveira, Álvaro Vilela, entre outros.

Eu mesmo, ainda estudante na Bahia, mas escrevendo no jornal desde seu Ano I, desembarcava de Salvador direto para aquelas areias, onde também molhava o bico e aprendia com aquela faculdade de Jornalismo itinerante, pulsativa e cáustica como tudo que eu gostava na época.

Pois essa Aracaju foi o cenário da Folha alternativa que fez graça e humor, mordeu e assoprou, arranjou brigas, processos, mas fez escola no jornalismo sergipano, influindo na cultura e na política de um tempo que prometia muito mais do que temos hoje.

O documentário de Alex Nascimento é, por assim dizer, um bálsamo de saudade e homenagem à cidade que fomos outro dia - um bálsamo de nos orgulhar para sempre. Ao contar a história de um jornal, conta a de uma cidade, do seu povo e de um grupo de adoráveis vagabundos que fizeram jornalismo como se fosse diversão. Vida e festa contaminaram um jeito de fazer jornalismo como nunca mais se viu por aqui. E Alex ligou as pontas disso tudo, com começo, meio e fim.

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* Articulista Luciano Correia - É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê. Escreve às segundas.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista/luciano-correia

terça-feira, 26 de maio de 2026

"(...) A Voz Pioneira que Marcou o Jornalismo e a Cultura SE."

Foto compartilhada do Facebook/Clara Angélica Porto e  
postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Artigo publicado originalmente no site JORNAL ARACAJU, de 11 de maio de 2026

Legado de Clara Angélica Porto: A Voz Pioneira que Marcou o Jornalismo e a Cultura Sergipana

Por Diego Velázquez

A morte de Clara Angélica Porto Caskey, aos 77 anos, representa bem mais que o fim de uma trajetória profissional. Ela simboliza o encerramento de uma era no jornalismo sergipano, marcada por pioneirismo, versatilidade e dedicação à cultura local. Neste artigo, exploramos sua carreira brilhante, o impacto de seu trabalho na sociedade de Sergipe e as lições que sua história oferece para novos profissionais da comunicação e da gestão cultural.

Clara Angélica construiu uma carreira que transcendeu os limites de uma única função. Começando ainda adolescente, aos 16 anos, como colunista social na Gazeta de Sergipe, ela demonstrou desde cedo habilidade para conectar pessoas, narrar histórias e registrar o cotidiano com sensibilidade. Naquela época, o colunismo social não era mero entretenimento: servia como registro histórico de uma sociedade em transformação, capturando costumes, eventos e relações sociais que, de outra forma, poderiam se perder no tempo. Sua capacidade de observação e escrita fluida abriu portas para papéis mais complexos, consolidando-a como referência no cenário local.

Ao longo das décadas, Clara Angélica ampliou seu campo de atuação de forma notável. Atuou como tradutora, advogada e comunicadora, sempre unindo o rigor técnico à paixão pela palavra. Apresentou o programa TV Mulher na TV Sergipe, ao lado de Theotônio Neto, e editou o jornal “O Que”, iniciativas que levaram temas relevantes ao público feminino e à sociedade em geral. Essas experiências destacam uma característica essencial de sua trajetória: a adaptação constante a novos formatos e demandas, algo cada vez mais necessário em um mercado de comunicação volátil.

O compromisso com a cultura pública

Um dos capítulos mais relevantes de sua vida profissional foi o exercício de cargos na administração cultural. Como presidente da Fundação de Cultura de Aracaju (Funcaju) e subsecretária de Cultura do Estado de Sergipe, Clara Angélica assumiu a responsabilidade de gerir recursos e políticas públicas voltadas para a preservação e difusão da identidade sergipana. Nessas funções, ela enfrentou desafios típicos da gestão cultural brasileira: escassez de verbas, burocracia e a necessidade de conciliar interesses diversos. Sua atuação reforçou a importância de profissionais com experiência jornalística na administração pública, pois eles trazem visão ampla, capacidade de diálogo e habilidade para contar a história de forma acessível.

Em um estado como Sergipe, rico em tradições mas muitas vezes distante dos grandes centros de decisão, figuras como Clara Angélica atuam como pontes. Elas valorizam a produção local, incentivam artistas e garantem que a memória coletiva não se apague. Sua passagem pela cultura pública deixa um convite claro aos gestores atuais: investir em profissionais que compreendam tanto a narrativa quanto a execução de projetos. A cultura não sobrevive apenas com editais; ela precisa de vozes que a comuniquem com autenticidade.

Do ponto de vista editorial, a trajetória de Clara Angélica revela o valor duradouro do jornalismo ético e enraizado na comunidade. Em tempos de algoritmos e busca por engajamento imediato, seu exemplo lembra que credibilidade se constrói com consistência, proximidade com o público e compromisso com a verdade. Jovens repórteres podem aprender com ela a importância de dominar múltiplas habilidades — da redação à tradução, da apresentação ao planejamento cultural — para se destacarem em um mercado competitivo.

Além disso, sua história reforça a necessidade de valorizar a memória jornalística regional. Muitas contribuições importantes permanecem pouco documentadas fora dos grandes veículos nacionais. Registrar e estudar carreiras como a de Clara Angélica ajuda a formar novas gerações de comunicadores que compreendam seu papel social para além da velocidade das redes. Profissionais que, como ela, saibam transformar observações cotidianas em conteúdo relevante e transformador.

A perda de Clara Angélica Porto Caskey deixa um vazio na imprensa e na cultura de Sergipe, mas também inspira reflexão sobre o que realmente importa na carreira. Seu pioneirismo demonstra que é possível construir um legado sólido mesmo partindo de contextos modestos, desde que haja dedicação, curiosidade e respeito pelo público. Para quem atua na comunicação hoje, o recado é claro: invista em versatilidade, priorize a qualidade e mantenha viva a conexão com as raízes locais.

Sua influência continua presente nas páginas que ajudou a escrever, nos programas que apresentou e nas políticas culturais que ajudou a implementar. O jornalismo e a cultura sergipana ganham força ao celebrarem não apenas sua partida, mas principalmente o exemplo vivo de uma profissional que transformou palavras em ação e memória em legado duradouro.

Texto reproduzido do site: jornalaracaju com br