quinta-feira, 25 de junho de 2026

Jornalista Diógenes Brayner se foi, aos 79 anos...

Até os últimos dias, ele esteve mergulhado no oceano do jornalismo

Renata Brayner: “Brayner era meu coração, minha vida. 
Foram 22 anos juntos, a saudade vai ser grande"

Brayner e o reconhecimento: recebendo Prêmio Roberto Marinho de Mérito Jornalístico

Diógenes Brayner: um garimpador de ouro na apuração dos fatos

Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 25 de Junho de 2026

Jornalista Diógenes Brayner se foi, aos 79 anos, mas deixou um legado de grande contribuição ao Jornalismo de Sergipe

Por Jozailto Lima (Coluna Aparte)

Morreu na madrugada desta quinta-feira, 25, o jornalista, analista de política e proprietário do FaxAju, Diógenes Brayner, aos 79 anos. O decano do jornalismo político sergipano estava internado no Hospital da Unimed desde o início do ano após contrair uma pneumonia, mas vinha lutando também contra um câncer de pâncreas – causa atribuída pela família à sua morte.

Na madrugada, Brayner encerrou sua passagem física que foi marcada por muito vigor, importância de análises e grande contribuição para o Jornalismo sergipano. Para muitos, Diógenes Brayner é e continuará sendo um dos grandes nomes do jornalismo político em Sergipe.

Nascido na antiga Petrolândia, em Pernambuco, o jovem Brayner viu sua terra natal ser submersa para a construção da Barragem de Itaparica e aos quatros anos foi para João Pessoa, capital da Paraíba. Na adolescência, fincou raízes em Recife, onde descobriu o amor pelo Jornalismo.

“Fiquei alucinado e senti que o jornal, com as suas emoções diárias, era o melhor rumo profissional”, disse Brayner na Entrevista Domingueira concedida a Jozailto Lima em 2020. Ele sabia com exatidão a data em que mergulhou no oceano do Jornalismo, cheio de maremotos, peixes, tubarões e megalodontes: 2 de agosto de 1962. Era um imberbe, tinha apenas 15  anos.

Brayner foi funcionário do Banco do Brasil de Carpina, da Zona da Mata  de Pernambuco, quando decidiu cursar oficialmente Comunicação Social Universidade Federal de Pernambuco - UFPE – e no mesmo período entrou para o Diário de Pernambuco. Quando o BB o transferiu para Recife, Brayner saiu das salas de ar-condicionado das agências e entrou na vida calorosa e aguerrida do Jornalismo. E nunca mais o abandonou.

POR ACASO, EM SERGIPE - “De seis em seis meses vinha a Sergipe, em rápidas férias, buscar minha ex-mulher que era de Propriá, mas visitava sempre os pais e a família naquela cidade e em Aracaju”, lembrou Brayner na Domingueira.

É nesse vai e vem semestral que em 1982 Diógenes Brayner vem de Teresina, onde trabalhava no jornal O Dia, e aporta em Sergipe, e aqui, sob a visão do empresário Nazário Pimentel, é contratado para o Jornal de Sergipe.

“Ele disse que era jornalista. Eu disse: “Ótimo, muito bem, tem futuro”. O contratei. E eu estava certo”, relembra Nazário Pimentel, o primeiro chefe de Brayner em solo sergipano.

Brayner é pai de quatro filhos: Pablo, Aloma, Alanna e Anco Márcio de Figueiredo Brayner, e é avô de Giovanna Lobo Brayner, Guilherme Lobo Brayner, Maria Clara Brayner Mendonça e João Matheus Brayner Mendonça. Ele deixa viúva a empresária Renata Brayner.

Com mais de 60 anos de atuação, Brayner era considerado “um jornalista nato”, “um eterno foca”, “um símbolo do bom jornalismo”. As atribuições dadas a ele são diversas e quase unânimes. O criador do FaxAju conquistou admiradores de diversas vertentes, áreas e atuações.

PRIMOR DA INQUIETAÇÃO – Para o jornalista Valter Lima, que conheceu Diógenes Brayner no oficio jornalístico, o decano nunca se satisfez com a pouca informação.

“Ele era sempre aquela pessoa com quem eu compartilhava informação e a quem eu procurava para levar as informações das pessoas que eu assessorava. Eu considero ele uma pessoa muito querida, um amigo, a gente conversava. Ele sempre era muito solícito, sempre muito agradável, sempre muito disponível para mim”, diz Valter.

“Não sei escrever contra colegas, embora já tenha sido castigado por alguns deles. Nesse ponto, sou corporativista. Prefiro conversar e contornar os problemas a fragilizar a classe. Jamais me arvorei de ser jornalista. O anonimato facilita colher informação”, disse Brayner em entrevista a Jozailto Lima.

Mesmo com fama de brigão, ele reformulava esse adjetivo para a opção “intolerante em relação à alteração dos fatos”. Para Brayner, ser repórter é entender que não se pode criar mágoas e rixas com ninguém na sociedade.

O governador Fábio Mitidieri disse que Brayner foi “um amigo cuja presença sempre foi marcada pela atenção, pelo cuidado e pela generosidade”.

“Brayner conhecia como poucos os bastidores da política sergipana e, ao mesmo tempo em que exercia um Jornalismo firme e independente, fazia questão de cultivar amizades e defender aqueles por quem tinha estima”, disse o governador.

Diógenes Brayner: um garimpador de ouro na apuração dos fatos

“Brayner, quando chegou de Pernambuco, foi o primeiro repórter de Sergipe, de fato. Porque ele saía à cata da notícia. Eu cansei de chegar, de madrugada no aeroporto, e encontrar Brayner. Eu perguntava a ele: “Rapaz, o que está fazendo aqui a essa hora?” E ele dizia: “Tô esperando passar os políticos”, revela Luiz Eduardo Costa, que conheceu o jornalista nas idas e vindas do até então precário jornalismo político sergipano. “Ele era um catador de notícias. Isso não era comum no jornalismo sergipano, que era um jornalismo muito atrasado” completa Luiz Eduardo.

“Ele foi um dos colunistas políticos mais influentes. Teve um período que os políticos não saíam de casa ou não tomavam decisão sem ler a Coluna de Brayner. É uma lacuna muito grande no jornalismo porque ele tinha essa característica de garimpar notícias, de buscar notícias”, afirma o ex-prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira.

Brayner contou na Entrevista Domingueira que em sua contratação Nazário propôs que ele o ajudasse a “mudar o visual do Jornal de Sergipe e a modernizar a forma de redação e de como expor a notícia”.

“O Jornalismo sergipano era atrasado em técnica, em visão, em ação. Era o Jornalismo que, às vezes, só reagia ao fato. Ele não ia buscar o fato antes que o fato acontecesse. Com a chegada da visão do jornalismo moderno, que era dos Diários Associados, que tinha no Brasil todo, era a Globo da época, melhorou. Agora, o Brayner deu conteúdo a isso tudo, porque ele agia independentemente, e foi o primeiro modernizador”, reforça Luiz Eduardo Costa, destacando a importância de Brayner no jornalismo sergipano.

A CONSTRUÇÃO DE UMA REFERÊNCIA - Alguns podem e se tornam inspiração, outros conseguem escrever seu nome no livro dos grandes da sua profissão, outros ainda tantos podem e viram referências e referendam centenas de atitudes ao longo da carreia. É necessário dizer que José Diógenes Menezes Brayner subiria nesses três pódios com imensa facilidade.

“O nome dele carrega um peso que é como se ele evocasse uma imprensa de verdade em alguma medida. É como se, junto com o nome Brayner, viesse a assinatura dele, e um atestado de confiabilidade. Isso é ouro para um profissional do nosso ramo de atuação. Isso é o que existe, talvez, de mais relevante numa reputação profissional”, afirma Rian Santos.

Confiabilidade. Essa palavra pode definir o futuro do atual jornalismo que cada vez mais sofre alterações, remodelações e remanejamento de conceitos. O colunista Brayner nunca deixou de lado a visão de que jornalismo e verdade devem ser pleonasmo, e de que o que configura um jornalista é a confiança da fonte e dos leitores.

“Jamais deixei de publicar qualquer denúncia ou crítica contra mim. Se acho que é da boa imprensa publicar matérias críticas ou contra qualquer outro cidadão, por que não contra o órgão e o repórter não?”, disse ele na Entrevista.

“Brayner era sagaz e extremamente bem informado. Ele conquistava notícias exclusivas com a credibilidade construída ao longo de décadas e abriu caminhos para muitos profissionais da comunicação, compartilhando conhecimento e deixando uma marca de ética, responsabilidade e respeito no colunismo político sergipano”, disse Fábio Mitidieri.

“Brayner é uma referência para o jornalismo sergipano e um precursor em muitas coisas. Seja na própria leitura que ele fazia, que ele sempre fez da política sergipana, seja efetivamente experimentando novos formatos”, afirma Valter Lima.

Inquieto, insistente, inovador e capacitado, Brayner não descansava até descobrir o que acontecia não só por trás das portas do Palácio do Governo ou da Prefeitura de Aracaju, mas também dos mais longínquos municípios sergipanos e das mais simples Câmaras Municipais do interior. Era notícia. Porque a notícia faz o dia, a hora e a vida de qualquer repórter. “Ele parecia, apesar da experiência dele, com um foca que está sempre em busca da notícia. Por isso era um repórter autêntico”, reforça Nazário Pimentel

Rogério Carvalho sabe da importância e da magnitude de Brayner para a classe política sergipana e tratou de reconhecer isso em sua homenagem póstuma. “Ele foi uma grande referência da comunicação, um profissional que marcou gerações com sua dedicação e com o amor pelo jornalismo. Ele deixa um legado para imprensa e para a classe política sergipana e para os que acreditam na força da comunicação como instrumento de transformação social”, disse ele.

Rita Oliveira, que trabalhou com Brayner durante anos, nutre uma profunda gratidão e o considera seu “padrinho jornalístico”. “Eu agradeço a ele chegar onde eu cheguei, no jornalismo sergipano. Por quê? Porque eu era simplesmente repórter de cidade. Ele viu meu potencial jornalístico e me colocou na área de política”, diz ela.

No Jornal Gazeta de Sergipe, onde Brayner foi editor-chefe, a amizade entre ele e Rita se estabeleceu fortemente. Com o passar do tempo, o jornalista a chamou para ser colunista no jornal aos domingos.

“A coluna era chamada Debate, na Gazeta de Sergipe. Ele me botou na esfera do jornalismo político. Ele foi responsável por isso. Eu cheguei aonde eu cheguei graças a ele, pelo reconhecimento dele ao meu trabalho”, reforça Rita, numa fala que emenda gratidão com carinho e reverência.

“Eu acho que a grande característica de Brayner é a inquietação mesmo. Ele nunca se satisfez com uma única informação. Ele sempre foi aquele cara que procurou, que tentou encontrar as informações. E acho que por conta disso mesmo ele se tornou o que ele é, ou foi, e por isso ele sempre deu tantos furos no jornalismo, porque era um cara que sempre corria muito atrás, sempre desconfiava de tudo. E para um bom jornalista isso é fundamental” diz Valter Lima, que mesmo nunca trabalhando junto ao decano, sempre conversou e trocou experiências.

A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, afirmou que “Diógenes Brayner marcou o jornalismo sergipano com seu profissionalismo e dedicação” e que “isso é uma marca que poucos conseguem alcançar com a liberdade que ele tinha”.

“Eu acho que nosso campo profissional tem uma crise. A gente fala muito, por exemplo, da crise do papel, da crise do jornalismo impresso. Mas, na verdade, essa crise também passa pela falta de referência. Eu acho que a gente tem uma crise de falta de cabelos brancos, vamos dizer assim, porque a gente tem profissionais com o Luiz Eduardo Costa, tem o Brayner, o próprio Jozailto Lima. Só que parece que faltar às gerações mais jovens, vamos dizer assim, em algum nível, em alguma medida, saber do papel que esses profissionais desempenham e desempenharam na história da imprensa”, diz Rian Santos, sobre o impacto da longevidade do decano no jornalismo político em Sergipe

NASCE O FAXAJU - Em 19 de junho de 2007, Diógenes Brayner inova mais uma vez e lança o FaxAju Online. O novo portal trazia Brayner com a Coluna Plenário, que já era conhecida no site Infonet e que disparava via fax.

Na direção Comercial, Renata Brayner, a quem Diógenes não escondia o amor e a admiração. “Renata é minha namorada eterna. Conhecemo-nos em 2003 e nos casamos em 2006. Até hoje somos os mesmos e nos tratamos como se vivêssemos o primeiro encontro. Ela acompanhou toda a fundação do Portal FaxAju e se tornou diretora Comercial, e isso lhe confere importância diferente dos demais membros da equipe, inclusive eu”, disse ele ao Portal JLPolítica & Negócio.

Ao longo de 22 anos, Renata Brayner retribuiu o amor e a parceira, e hoje, diante do companheiro falecido, ela exalta o tempo que conviveram. “Brayner era meu coração, minha vida. Foram 22 anos juntos, a saudade vai ser grande. A gente se completava. Como ele mesmo dizia, era a notícia em primeiro lugar. Eu dizia: “Brayner, venha jantar. O jantar tá na mesa”, e ele dizia: “Renatinha, você não daria nunca pra ser jornalista, porque a notícia está em primeiro lugar. O jantar espera, a vida espera”. Eu ficava numa raiva danada”, rememora Renata, com os olhos afogados em lágrimas.

“O FaxAju era significativo porque era o sumário e a interpretação da política sergipana e uma projeção dos fatos que poderiam acontecer”, disse Luiz Eduardo Costa. O FaxAju ganhou corpo, forma e acompanhou a importância de Brayner.

“Não existia nem celular, nem rede social, então ele foi pioneiro na implantação do jornal, digamos assim, via fax. Ele foi pioneiro nesse sentido. Inclusive, cheguei a trabalhar também no FaxAju logo na fundação”, relembra Rita Oliveira.

“Eu costumo lembrar de várias declarações, de várias informações que foram dadas primeiras por ele. Marcelo Déda mesmo: eu sempre descobri uma informação nova que ele conseguia tirar do governador, por exemplo. Então é essa a referência que me vem e que me virá ao falar de Brayner”, conclui Valter Lima.

Nazário Pimentel coloca Brayner na condição de “uma figura extraordinária”. Ele fez muito pelo nosso desenvolvimento social. Foi uma pessoa que merece todo o nosso respeito, toda a nossa admiração”, diz.

O deputado estadual Luciano Pimentel reforça os elogios à figura do decano. “Brayner deixa um legado de dedicação ao jornalismo, compromisso com informação e relevantes contribuições para a comunicação do nosso Estado. A sua trajetória será lembrada pelo profissionalismo, pela credibilidade e pelo respeito conquistados ao longo de décadas de atuação”, disse ele.

O senador Alessandro Vieira afirmou que “Brayner foi um jornalista que dedicou a sua vida à comunicação e à informação com profissionalismo e compromisso com a verdade”. Para Edvaldo, Brayner escreveu importantes páginas do jornalismo político em Sergipe. “Ele era um inquieto. Ele estava sempre buscando a notícia. A notícia era o fio condutor da vida de Brayner”, disse ele.

Brayner sai de cena e deixa a grande lição. “Acho que reconhecer o erro é uma das virtudes de qualquer profissional de imprensa. Ninguém é infalível e pode cometer divulgação inexata da notícia. A correção e o pedido de desculpas passa a ser obrigação tanto de quem erra publicamente, quanto dos que erram até mesmo entre familiares, amigos, colegas e a sociedade como um todo”, disse ele na entrevista a este Portal. “Vá em paz, companheiro, e mande notícias do mundo de lá!”, escreveu hoje cedo o jornalista Jozailto Lima ao tratar sobre a morte de Brayner.

O Corpo do jornalista Diógenes Brayner está sendo velado no Velatório Osaf da Rua de Itaporanga em ato que perdura até as 15h. Depois disso seu corpo será remetido ao Crematório Vila da Paz no município de Itaporanga D'Ajuda.
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 * É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Com colaboração de Magno Montte Joaquim.

Texto e imagens reproduzidas do site: jlpolitica com br/colunas

Morre aos 79 anos, o jornalista Diógenes Brayner

Diogenes Brayner: aos 79 anos, fecha a conta, levado por um câncer de pâncreas

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 25 de Jun de 2026

Diógenes Brayner fechou a conta, mas nos deixou grandes lições em favor do Jornalismo

Por Jozailto Lima (Coluna Aparte)*

Ao morrer na madrugada desta quinta-feira, 25, aos 79 anos, o jornalista Diógenes Brayner já tinha nos deixado uma lição básica e elementar sobre o sacerdócio do jornalismo: a notícia é um trem vivo, deve ser tratada com respeito e nenhuma ideologia que a adultere deve repousar sobre ela.

A tradução real, líquida e certa disso é a de que nenhum noticiador deve se sentir superior à notícia. Muito menos aos personagens de quem ela trata.

Num tempo em que muitos dentro do mundo noticioso atuam para asfixiar a notícia, tirando o foco dela para si, sob o nome xaroposo e narcisista de digital influencer, o modus Brayner de ser constitui-se numa causa nobre. Numa causa de reação.

Era meritoso vê-lo, maduro e passado dos 70 anos, garimpando o ouro da apuração dos fatos com sua bateia de contatos, de liga-liga, de insistência. 

Brayner deixou cravado, neste seu modo de ser, algo bom e óbvio: a notícia sempre foi e sempre será fruto de apuração intensa. 

Quanto mais apuração, mais depurada e crível será a notícia. E não importa se você tem 70 anos e se comporta como um foca, um xereta iniciante. 

Às vezes, para ser grande e preciso, é necessário até se parecer um ingênuo. O exemplo de Diógenes Brayner, que às vezes gostava de umas turras em nome de uma boa investigação, é pra ficar numa galeria de comportamentos exemplares. 

Vá em paz, companheiro, e mande notícias do mundo de lá!

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 * É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Com colaboração de Magno Montte Joaquim.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolítica com br

Morre em Aracaju o jornalista Diógenes Brayner

Diógenes Brayner nasceu em Petrolândia (PE) e 
veio para Sergipe editar o Jornal de Sergipe

Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 25 de junho de 2026

Morre em Aracaju o jornalista Diógenes Brayner

Vítima de câncer de pâncreas, morreu em Aracaju o jornalista Diógenes Brayner, 79 anos. O comunicador faleceu na noite dessa quarta-feira (24) e o corpo será velado no Velatório Osaf, devendo ser cremado às 15 horas, no Crematório Vila da Paz, localizado em Itaporanga d’Ajuda.

Diógenes Brayner nasceu em Petrolândia (PE), tendo construído grande parte da sua carreira na comunicação em estados do Nordeste. Fez faculdade de Comunicação no Recife, viveu uma diáspora larga antes de chegar a Sergipe – e isso inclui uma cidade no Mato Grosso do Sul, aonde aporta como bancário concursado do Banco do Brasil, emprego que depois ele largaria em nome da carreira profissional na comunicação.

O jornalista chegou em Sergipe há cerca de 40 anos para editar o Jornal de Sergipe, tendo depois se transferido para a Gazeta de Sergipe e o Correio de Sergipe. Durante anos, editava o portal Faxaju.

Entrevistado pelo jornalista Jozailto Lima, Brayner revelou ser “apenas e sempre um repórter e não considero que ser jornalista seja escrever artigos e comentários profundos. Geralmente quem se rotula de “homem de imprensa” por escrever e expor artigos e exibir intelectualidades não sabe escrever uma “nota de aniversário” e nem se interessa pelo dia-a-dia da informação” diz.

Governador e prefeita lamentam

O governador de Sergipe, Fábio Mitidideri (PSD), e a prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (Republicanos), lamentaram a morte de Diógenes Brayner:

Mitidieri disse que recebeu “com profunda tristeza a notícia do falecimento do jornalista Diógenes Brayner, um amigo cuja presença sempre foi marcada pela atenção, pelo cuidado e pela generosidade. Descanse em paz, meu amigo. Que Deus, em Sua infinita misericórdia, o receba de braços abertos e conforte o coração de todos os seus familiares, amigos e colegas de profissão. Recebam o meu abraço e as minhas sinceras condolências”.

Já a prefeita afirmou em nota que “neste momento de dor, a prefeita Emília Corrêa e a secretária municipal da Comunicação Social, Gleice Queiroz, solidarizam-se com familiares, amigos e colegas de profissão, expressando as mais sinceras condolências e reconhecendo a inestimável contribuição de Diógenes Brayner para a história do jornalismo em Sergipe”.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

domingo, 21 de junho de 2026

Stênio Gonçalves: o mestre das artes gráficas...


Post compartilhado do Perfil do Facebook/Carlos Magno Andrade Bastos, de 20/06/2026

Stênio Gonçalves: o mestre das artes gráficas que deixa um legado eterno em Sergipe

O setor gráfico sergipano amanheceu mais silencioso. A partida de Stênio Gonçalves, fundador da J. Andrade, deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. Não apenas por ter sido o maior empresário da indústria gráfica de Sergipe, mas porque sua trajetória ajudou a escrever a própria história da comunicação impressa do Estado.

Ao longo de décadas, jornais, revistas, livros, catálogos, informativos e as mais diversas publicações passaram pelas mãos de uma empresa que se tornou referência em qualidade, inovação e compromisso. Sob sua liderança, a J. Andrade construiu o maior e mais moderno parque gráfico de Sergipe, transformando-se em um polo de excelência que ultrapassou as fronteiras do Estado e conquistou clientes em todo o Nordeste.

Stênio sempre acreditou que a tecnologia deveria caminhar ao lado da competência. Por isso, esteve à frente das grandes transformações do setor gráfico, investindo continuamente em equipamentos de última geração, na qualificação de sua equipe e na busca permanente pela excelência. Graças a essa visão empreendedora, a J. Andrade tornou-se uma das mais respeitadas gráficas da região.

Mas falar de Stênio Gonçalves apenas como empresário seria uma enorme injustiça.

Para mim, ele foi um verdadeiro mestre.

Foi com ele que aprendi muito do que sei sobre o universo das artes gráficas. Em cada livro que publiquei, em cada edição do Jornal Papagaio, da Revista Papagaio e em tantas outras publicações ao longo da minha vida profissional, encontrei nele um parceiro, um conselheiro e um incentivador. Nunca mediu esforços para compartilhar conhecimento. Sempre tinha uma orientação, uma sugestão técnica, uma palavra amiga.

Era um homem profundamente humano. Acolhia colegas, clientes e colaboradores com respeito e simplicidade. Carregava consigo marcas que hoje parecem cada vez mais raras: lisura, honestidade, ética e um amor quase artesanal pelo seu trabalho. Não fazia apenas impressos; ajudava a transformar ideias em obras que permaneceriam para sempre.

Seu legado também se confunde com o desenvolvimento econômico de Sergipe. Como industrial do setor gráfico, gerou empregos, impulsionou a modernização da indústria e projetou o nome do Estado através da qualidade dos serviços prestados. Empresas de diversos estados nordestinos buscavam a J. Andrade pela confiança conquistada ao longo de décadas de dedicação.

A morte de Stênio Gonçalves representa uma perda irreparável para a indústria gráfica sergipana e nordestina. Sua ausência será sentida por escritores, jornalistas, publicitários, editores, empresários e todos aqueles que tiveram o privilégio de trabalhar ao seu lado.

Entretanto, homens como Stênio não desaparecem completamente. Permanecem vivos nas páginas dos milhares de livros que ajudou a imprimir, nas revistas que circularam pelas mãos de gerações, nos jornais que registraram a história de Sergipe e, sobretudo, na memória daqueles que aprenderam com sua competência e grandeza humana.

Minha gratidão será eterna.

Descanse em paz, meu amigo. Seu nome continuará impresso, para sempre, na história das artes gráficas de Sergipe.

Post reproduzido do Perfil do Facebook/Carlos Magno Andrade Bastos

Morre o empresário Stênio Andrade


Publicação compartilhada do site RADAR SERGIPE, de 20 de junho de 2026

Morre o empresário Stênio Andrade, dono da Gráfica J. AndradeO sepultamento será à tarde, neste sábado 20 de junho

Por: César Cabral 
Fonte: Redação

Morreu neste sábado, 20 de junho, o empresário sergipano Stêncio Gonçalves Andrade, proprietário da Gráfica J. Andrade, uma das mais tradicionais do estado de Sergipe.

Por mais de sessenta anos, Stênio se dedicou ao trabalho gráfico, tornando-se uma referência do setor pela qualidade dos serviços, pontualidade na entrega das encomendas e no fino trato com a sua clientela.

Durante muitos anos, quando se fazia campanha política de verdade neste país, nesse período pré-eleitoral, a sua empresa ficava abarrotada de políticos que procuravam pelos serviços qualificados que a Gráfica J. Andrade produzia. Cartazes em vários tamanhos, folderes, santinhos, adesivos e outros similares eram encomendados com a certeza da entrega na data combinada e com a qualidade inigualável que caracteriza a empresa.

Políticos de todos os partidos, de todas as regiões de Sergipe e até de outros estados que disputavam os mais diferentes cargos eletivos, batiam na porta da Gráfica J. Andrade para fazer orçamentos e fechar os contratos. Com muita paciência, Sténio atendia um a um, com a mesma serenidade e de forma educada, mesmo aqueles que, de antemão, ele sabia que não tinham condições financeiras para contratar os serviços. 

Sergipe perde um empresário sério, um homem probo, sinônimo de honstidade, bom caráter e empreendedor por excelência.

O velório está previsto para começar às 12 horas, no Cemitério Colina da Saudade, onde será sepultado às 15 horas.

Texto e imagens reproduzidos do site: radarse com br

sábado, 20 de junho de 2026

Morre aos 82 anos Stênio Andrade, da Gráfica J. Andrade


Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 20 de Junho de 2026

Morre aos 82 anos Stênio Andrade, da Gráfica J. Andrade

Por Jozailto Lima (Coluna Aparte)

Velório e sepultamento acontecem neste sábado, 20, no Colina da Saudade

Morreu na madrugada deste sábado, 20, aos 82 anos, o empresário Stênio Gonçalves Andrade, um dos nomes mais importantes do setor gráfico em Sergipe à frente da Gráfica J. Andrade. O velório acontece a partir das 12h, no Cemitério Colina da Saudade, no Bairro Jabotiana, em Aracaju. O sepultamento está previsto para as 15h.

O filho dele, Rodrigo Andrade, informou que Stênio enfrentava problemas cardíacos e vinha sendo acompanhado pela família. “Ele descansou enquanto estava no seio da família. Foi uma passagem tranquila”, afirmou.

HISTÓRIA - Nascido em 9 de setembro de 1943, Stênio Andrade dedicou grande parte da vida ao desenvolvimento da empresa fundada por seus pais, Jesonias Andrade e Maria Gonçalves Andrade, em 1964. 

Inicialmente responsável pela área comercial da gráfica, ele ajudou a consolidar o negócio ao lado dos irmãos Clóvis Gonçalves Andrade e José Augusto Gonçalves Andrade. Sob sua atuação, a J. Andrade tornou-se uma das principais gráficas do estado, ampliando sua estrutura e investindo em um parque gráfico moderno. 

Ao longo das décadas, a empresa também ganhou reconhecimento por abrir espaço para autores sergipanos e contribuir para a circulação da produção literária local. “Com sua arte de imprimir, Stênio Andrade e a família dele vincaram fortemente a cultura de Sergipe", destacou o poeta e jornalista Jozailto Lima.

"Lembro-me de ter sido muitíssimo bem tratado por ele e por seus colaboradores na impressão do meu quarto livro, ‘Viagem na Argila’, em 2012, que me levou à reimpressão por duas outras vezes ali mesmo, passando de 3,3 mil exemplares, algo raro em se tratando de uma publicação de poesia”, completou Jozailto.

O LIDE Sergipe - grupo de líderes empresariais sergipanos - emitiu uma nota de pesar pelo falecimento do empresário, destacando a trajetória de Stênio. "Sua visão empresarial, compromisso com a qualidade e a incansável capacidade de trabalho deixaram um legado marcante". 

A Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas - ADCE - entidade que já teve Stênio Andrade como vice-presidente, também lamentou a perda. "Durante sua passagem pela ADCE, marcou nossa história com visão, fé inabalável e um amor genuíno ao próximo".

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Jozailto Lima - É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Com colaboração de Magno Montte Joaquim.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Edições regionais de O Pasquim em SP e RS (acervo digital)

O Pasquim: sátira e política Fotos: Agência Brasil

O saudoso cartunista Jaguar, um dos fundadores do Pasquim Divulgação

Publicação compartilhada do site do JORNAL DO BRASIL, de 15 de junho de 2026

Edições regionais de O Pasquim em SP e RS ganham acervo digital

Por JORNAL DO BRASIL (redacao@jb.com.br)


Por Denise Machado - Abertura política no país, lançamento do Plano Cruzado, fim da fabricação do fusca, acidente radioativo em Chernobyl. Foi em meio a esse cenário que, em 1986, os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul ganharam edições regionais de O Pasquim.

O periódico, que havia se consolidado no Rio de Janeiro em plena ditadura militar, com uma linha editorial irreverente, crítica e, não raro, censurada, passou a falar com o sotaque desses dois estados por um curto período de tempo.

Para celebrar essa história, que completa quatro décadas, as 114 edições regionais do Pasquim foram digitalizadas e colocadas à disposição dos leitores na Biblioteca Nacional Digital. O acervo já incluía as 1.072 edições cariocas do jornal alternativo.

Quando surgiu a ideia de levaro Pasquim para São Paulo e para o Rio Grande do Sul, o tabloide já não tinha mais a relevância que teve nos anos 60 e 70. Dois jornalistas tomaram lideraram o projeto, movidos pela admiração que sentiam por essa que foi uma das marcas do jornalismo brasileiro.

Em São Paulo, o jovem Paulo Markun embarcou na aventura (definição dele próprio), levando consigo Manoel Canabarro e apoiado por Dante Matiussi.

Assim que soube que o jornal se abriria a outros mercados, Flávio Braga pegou um ônibus do Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro, disposto a convencer o cartunista Jaguar na época, diretor de O Pasquim a autorizar uma sucursal gaúcha.

Flávio acredita que as pessoas podem até saber da importância do Pasquim, mas dificilmente têm a real dimensão do que ele significou para toda uma geração.

O jornalista exalta o papel transgressor expresso em artigos e entrevistas comandadas por nomes como Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis, além das charges e caricaturas de Jaguar, Henfil, Ziraldo. Tudo entremeado de palavrões, sátiras políticas e contracultura. "E isso em plena ditadura militar", pontua.

Pautas locais com a mesma irreverência

Uma das particularidades das edições regionais era a pauta. Os assuntos tratados eram locais, ainda que, eventualmente, utilizassem entrevistas e reportagens da matriz carioca.

No Sul, o Pasquim manteve o tom satírico para, por exemplo, falar do típico "macho sulino", o que provocou confrontos e debates, lembra Flávio.

Já em São Paulo, espelhou a "efervescência política, fruto do fim da ditadura, que tinha acabado pouquíssimo tempo antes", diz Markun.

As edições regionais expuseram também aspectos comportamentais típicos da contracultura e que eram muito mais visíveis no Rio de Janeiro, como, por exemplo, a liberdade sexual e o uso recreativo de drogas.

As sátiras políticas, responsáveis por boa parte do sucesso de O Pasquim, encontraram em políticos como Paulo Maluf um prato cheio. Governador do estado de São Paulo e, por duas vezes, prefeito da capital, Maluf não tinha o apoio político de nenhum dos colaboradores na regional paulista.

"Todos eram contra o Maluf. Tinha os defensores do Eduardo Suplicy, que era do PT, do Orestes Quércia, que era do PMDB, e até do Antônio Ermínio de Moraes, que era, na época, do PTB, um empresário candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro, veja só", conta Markun.

Outra das particularidades de O Pasquimem suas edições regionaisfoi dar relevância ao trabalho de cartunistas e jornalistas locais. Em São Paulo, Markun, cita nomes como Marangoni, Régis, Laerte, Jau (Jaguar), Jô Soares, Augusto Nunes, Gabriel Priolli, Alberto Dines e Fernando Morais.

Aliás, os dois tiveram uma briga pública no Pasquim São Paulo, por conta da defesa de seus candidatos a governador", conta sobre Dines e Morais.

No Rio Grande do Sul, Flávio lembra: "Edgard Vasquez, que até hoje continua desenhando, Santiago, Bier (Augusto Franke Bier), Canini (Renato Vinícius Canini), o jornalista Reverbel e muitos outros. O jornal não existiria sem eles".

Sobrevivênciano pós-ditadura

A subsistência financeira, crucial para qualquer publicação ontem e hoje, foi um dos aspectos determinantes para que O Pasquim durasse pouco mais de um ano, tanto em São Paulo quanto no Rio Grande do Sul.

No Sul, a redação ficava em Porto Alegre, e o tabloide se sustentou com parcerias estratégicas e anunciantes de peso, como a extinta companhia aérea Varig.

Em São Paulo, diz Markun, os anunciantes não eram muitos, e a venda avulsa era razoável, mas aquém do necessário.

"Havia muita gente que ainda resistia à ideia de anunciar no Pasquim, por conta do passado mais irreverente", analisa Markun.

"Os cenários eram diferentes: no tempo da ditadura, o Pasquim foi um tal êxito de vendas que não foram os anúncios que deram dinheiro, foi a venda avulsa.Ele vendia 200 mil exemplares, um número impressionante", pontua.

Para Markun, a falta de clareza sobre qual seria o papel de um jornal alternativo, finda a ditadura, foi outro aspecto que tornou a sobrevivência das edições regionais difícil.

"A imprensa tradicional já abria espaço para debates e discussões anteriormente proibidas, então, sobrava uma franja muito reduzida para a gente operar".

Digitalização

Esta semana, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) manteve, por unanimidade, a decisão que obriga uma produtora cultural a devolver à União R$ 812 mil captados por meio da Lei Rouanet, para o projeto de digitalização de O Pasquim.

A produtora já tinha sido condenada em primeira instância pela Justiça Federal no Rio de Janeiro. O projeto havia sido aprovado pelo Ministério da Cultura e recebeu patrocínio da Petrobras.

O problema surgiu na hora da prestação de contas, já que não foi comprovado que todo o acervo do jornal seria disponibilizado gratuitamente na internet.

Já a digitalização do acervo pela Biblioteca Nacional foi coordenada de forma voluntária pelo corretor de seguros Fernando Coelho dos Santos, outro admirador de O Pasquim, além de amigo de vários dos jornalistas e cartunistas que fizeram a fama do jornal.

Depois que se aposentou, em 2016, Fernando trabalhou gratuitamente na digitalização do acervo original, das edições cariocas, e também coordenou uma exposição no SESC no cinquentenário do jornal, em 2019.

Em seguida, o admirador do periódico alternativo trabalhou nas edições regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul em conjunto com a Biblioteca Nacional, em um extenso trabalho de "formiguinha", que incluiu desde a reunião do material até a operacionalização técnica. De todas as edições publicadas regionalmente, faltou digitalizar apenas duas, que o corretor não conseguiu encontrar.

"Hoje, o site do Pasquim dentro da Biblioteca Nacional Digital tem 100% do principal e 98% das duas franquias. E as franquias são uma coisa inédita, porque muitas pessoas não se lembram que elas existiram", conta.

Segundo Fernando, o trabalho foi uma espécie de doação. "Eu doei minha parte para essa história ficar. Tem tanta história! E fico muito feliz da Biblioteca Nacional Digital ter apoiado a ideia e ter ido além, porque o site é o único que tem tudo de um periódico que marcou época e é um dos mais importantes do Brasil".

Quem quiser saber mais sobre como era e o que significou O Pasquim, tanto nas edições originais, quanto na das franquias regionais, pode acessar o endereço. (com Agência Brasil)

Texto e imagens reproduzidos do site: www jb com br/brasil/imprensa

domingo, 7 de junho de 2026

Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento


Alex Nascimento: dando duro sobre o arquivo empoeirado do Folha da Praia, 
mas está colhendo boas recompensas

Texto compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 6 de junho de 2026

Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento

Alex Nascimento: “O Folha da Praia renovou a linguagem da imprensa sergipana”

“Tenho já escritos dois outros grandes projetos para dois outros longas”

Em muitas frentes e esferas, a cidade Aracaju e o Estado de Sergipe precisam se preocupar mais com suas memórias. Em pesquisá-las, guardá-las e preservá-las mais efetivamente para que sirvam mais perenemente aos próprios sergipanos.

Isso parece ser uma realidade que se vincula a muitas atividades da capital e do Estado nos muitos afazeres dos sergipanos - sobretudo na esfera cultural.

Ao pesquisar o passado e o histórico do jornal Folha da Praia e adensá-los no documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”, o jornalista e professor Alex Nascimento deu recentemente uma boa prova do quanto esta preocupação é pertinente.

A Folha da Praia, jornal alternativo concebido e levado a efeito pelo jornalista e poeta Amaral Cavalcante, vicejou bem durante os anos de 1980 e 1990.

Ele foi um veículo importante, marcou época no fim de uma ditadura militar iniciada em 1º de abril de 1964 e numa cidade que até pouco tempo reinava com seu provincianismo a toda prova. Mas silenciou-se de uma forma perversa.

Com as profundas mudanças nos meios de mídias, com a morte de Amaral Cavalcante há seis anos, uma pedra foi posta na memória da velha Folha, sobretudo envolvendo a nova geração.  

E é nesta hora que o documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” vem como um sopro forte. Não para ressuscitar a Folha, ou o Folha, como Alex a denomina.

Mas para avivar e acender a sua importância. Para dizer sobretudo às novas gerações que o passado é uma roupa que ainda pode nos servir um pouco mais.

E Alex Nascimento e a sua companheirada de missão fizeram um trabalho com precisão. Com uma mão forte: o que seria um curta de menos de 20 minutos, deu num longa de 74.

E não se tornou um longa por afetação. Tornou-se por precisão. É como se Alex e os seus estivessem em sintonia com a ideia de que a cidade e o Estado “precisam se preocupar mais com suas memórias”.

 Portanto, não é sem razão que a recepção ao documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” foi e está sendo avassaladoramente positiva.

Gente de toda a espécie está a falar bem dele. A falar bem do rigor como ele trouxe os fatos à tona. De como o documentário não dourou somente as virtudes do Folha.

De como expôs seu tombo proporcionado por um Amaral alternativo que se deixou cooptar pelo poder político e encaretou o seu semanário ao ponto de desidratá-lo e levá-lo à morte.

Mas enquanto surfou em rebeldia, a Folha vincou bem seu tempo. “Foi o retrato de uma geração e de uma liderança. Uma geração que precisava de um canal de comunicação para expressar o desejo de viver novas possibilidades, de construir uma nova história, negar um mundo caduco na política e nos costumes”, constata Alex Nascimento.

Para Alex, o que prevaleceu foi a coisa boa, a ideia sã. “Foi uma experiência marcada pela ousadia, criatividade e sentimento de liberdade sintonizada com o que acontecia no restante do Brasil. O Folha da Praia renovou a linguagem da imprensa sergipana e foi o grande veículo de divulgação e espaço da cultura, da contracultura, especialmente nos anos 80 e 90”, reitera.

Nesta Entrevista Domingueira, Alex Nascimento vai falar do prazer que gerou nele e na equipe ter feito este documentário, dirá do que pensa em fazer com a película daqui para frente e informará que isso tudo lhe enterneceu tanto que está com novos projetos de audiovisuais na cabeça para execução.
E adianta projetos literários pessoais, como um livro de poemas de gaveta e um romance em fase de escrita, e sobretudo de como pretende encarar o batente de nova sobrevivência, deixando de lado 34 anos de cátedra educativa.

Alex Sandro da Silva Nascimento nasceu no dia 4 de dezembro de 1971 em Lagarto, mas sempre sentiu-se de Simão Dias. Ele é filho de Hélio Floriano do Nascimento e de Tereza da Silva Nascimento.

 É um rapaz velho que já experimentou dois casamentos que ele considera “fracassados”. “Em matéria de amor, tive muitos. Mas em matéria de união duradora, fracassei em duas tentativas”, avisa. É pai de Antônio Augusto Santos Nascimento e de Hélio Benício Santos Nascimento.

 Alex tem formação acadêmica em Comunicação Social pela Universidade Tiradentes com habilitação em Jornalismo. É pós-graduado em Língua Portuguesa e tem mestrado inconcluso em Comunicação.

Alex Nascimento e o trio elementar composto por Helena Cabral, Daniel Cireno e Sandro Cajé, parte da equipe que trabalhou no documentário

Apesar de ter uma vida umbilicalmente ligada à educação, tem amplas passagens pela Comunicação Social, sobretudo na área pública, e pelo rádio.

 “Tenho já escritos dois outros grandes projetos para dois outros longas, que penso sejam importantes para Sergipe que aconteçam. Não ficarei esperando por editais, vou buscar parcerias, buscar dialogar também com a iniciativa privada”, promete.

A Entrevista com Alex Nascimento vale o prazer da leitura. (PS - Alex trata a Folha da Praia por o Folha. Ele prefere a concordância com o jornal. A redação do JLPolítica & Negócio opta por a Folha. Não há divergência). 
 
Alex Nascimento como coordenador de Comunicação da Funcap, durante Fórum da Música Nordestina, com o cantor e compositor Aldemário Coelho

JLPolítica & Negócio - O senhor se surpreendeu com o histórico da Folha da Praia ou já entrou na pesquisa sabendo do que viria dessa sua escavação?

Alex Nascimento - Conheci o Folha da Praia na primeira vez em que fui à Praia da Atalaia, e era eu um tabaréu de Simão Dias. Acompanhei como leitor, dentro do possível, a sua trajetória, e sabia de sua importância para a comunicação, para a história da imprensa local e para a cultura sergipana. Alguns anos depois, fui apresentado por Antônio Passos ao jornalista Amaral Cavalcante, e tivemos certa aproximação. Certa feita, homenageei-o em uma inesquecível noitada que começou às 19h e foi terminar por volta das 8h do outro dia, em meu apartamento, pouco depois dele ser empossado na Academia Sergipana de Letras. Sabia o que o Folha e Amaral representavam, que teria muito material com o qual trabalhar, mas ainda assim me surpreendi. Amaral cuidou bem do arquivo do Folha, e este precisa urgentemente ser digitalizado, por razões óbvias. Foi um grande mergulho no jornalismo sergipano, especialmente dos anos 1980 e 1990. 

JLPolítica & Negócio - No final de tudo, o que lhe parece que foi aquela experiência do Amaral Cavalcante para com a comunicação e a cultura de Sergipe?

AN - Foi o retrato de uma geração e de uma liderança. Uma geração que precisava de um canal de comunicação para expressar o desejo de viver novas possibilidades, de construir uma nova história, negar um mundo caduco na política e nos costumes. Foi uma experiência marcada pela ousadia, criatividade e sentimento de liberdade sintonizada com o que acontecia no restante do Brasil. O Folha renovou a linguagem da imprensa sergipana e foi o grande veículo de divulgação e espaço da cultura, da contracultura, especialmente nos anos 80 e 90.Foi também uma experiência de amizade, cumplicidade e ocupação dos espaços urbanos, especialmente da Atalaia e da Praia dos Artistas. 

JLPolítica & Negócio - Para o senhor, toda aquela experimentação teria sido possível não fosse no momento de uma ditadura militar que morria?

AN - O Folha foi o que foi, teve a roupagem que teve, de certa forma, por causa, sim, do momento histórico, tanto que no documentário, que é dividido em seis partes, abordamos esta questão. Mas penso que experiências e construções como o do Folha da Praia possam ser consolidadas em qualquer época. Neste momento, por exemplo, um Folha da Praia, como afirma o jornalista Rian Santos no documentário, “é urgente, o mundo está encaretando, existe fundamentalismo de todos os lados”. 

Alex Nascimento com o grande Otto em sua militância ambiental: soltando tartarugas marinhas no Oceanário de Aracaju

JLPolítica & Negócio - Havia uma ordem naquele modo do Amaral Cavalcante e de seus colegas na busca por uma realidade de comunicação?

AN - Penso que sim. Amaral sabia o que estava fazendo. Certamente que grande parte dos que fizeram o jornal não tinham consciência de que estavam envolvidos em algo tão significativo. Mas Amaral sabia. Amaral e outros mais maduros, a exemplo de Ilma Fontes, que depois fundou o jornal O Capital. Amaral sabia que o jornal precisava ter uma linguagem jovem, mas que era preciso também se comunicar com os segmentos, digamos, formadores de opinião.

JLPolítica & Negócio - Na sua pesquisa, o senhor encontrou algo de comunicação social praticado em Sergipe semelhante à Folha da Praia em Sergipe?

AN - O jornal Pipiri tinha muito do que havia no Folha, mas era outra a pegada. O Capital também foi outro jornal alternativo importante, mas era mais denso. 

JLPolítica & Negócio - Por que que em nenhum momento o Pipiri aparece como referencial no documentário “Folha da Praia: um Pasquim sob o sol de Aracaju?” 

AN - Pipiri - O Jornal da Cultura foi uma publicação inicialmente produzida pela Secretaria Municipal de Cultura com foco no que rolava em termos de arte e cultura em Aracaju, na gestão de Lânia Duarte, com editoria de Ilma Fontes. Foi um grande e importante projeto, certamente. Mas o Pipiri foi o Pipiri, o Folha, o Folha. Nós gravamos quase 15 horas de entrevistas. Tive que rever todo o roteiro original do projeto, estruturar toda a sequência de falas e imagens, digitalizar, cortar jornais e fotos, enfim, e editar todo o material que compõe o documentário exigiu, obviamente, fazer uma seleção. 

Alex Nascimento e os filhotes Antônio Augusto e Hélio Benício numa paisagem do Tobias Barreto. Ele é pai-babão

JLPolítica & Negócio - O senhor já conhecia de perto aqueles personagens mais clássicos do documentário, como Erê e Gigi?

AN - Não os conhecia pessoalmente. Foi fantástico quando vi Gigi chegando ao set de gravação. Erê, que foi casado com Amaral, foi outra maravilhosa alegria tê-lo conhecido. Assim que finalizamos as gravações com eles, eu soube que seria preciso trabalhar a participação deles no documentário com bastante sensibilidade e equilíbrio, como de resto, claro. Eu sabia o que tinha em mãos. Eu analisei cada entrevista dezenas de vezes. Trabalhei com consciência do que queria, tracei o perfil de cada um dos 18 entrevistados e, digamos, o papel que cada um deles deveria ter. Não obstante a riqueza de depoimentos de todos, Gigi e Erê tem no filme uma participação toda especial, conscientemente trabalhada. 

JLPolítica & Negócio - Afinal, existe um domínio de guarda do arquivo da Folha da Praia?

AN - Sim.  Ele é do querido amigo Samuel Santos, a quem mais uma vez aproveito para agradecer pela confiança depositada em mim. Samuel me disponibilizou todo o arquivo do Folha. 

ENTROU NA PESQUISA SABENDO DO PESO DA FOLHA

“Conheci o Folha da Praia na primeira vez em que fui à Praia da Atalaia, e era eu um tabaréu de Simão Dias. Acompanhei como leitor, dentro do possível, a sua trajetória, e sabia de sua importância para a comunicação, para a história da imprensa local e para a cultura sergipana”

Alex Nascimento e uma ruma de amigos no Memorial Professor Jouberto Uchoa durante lançamento do documentário

JLPolítica & Negócio - O Folha da Praia teria sido possível com outro personagem que não Amaral Cavalcante?

AN - Acredito que não. Um projeto como esse precisa ter um sujeito com fibra, com visão de momento, de oportunidade, de liderança e ser preparado intelectualmente para fazê-lo. 

JLPolítica & Negócio - O senhor não exibe, no documentário, qualquer senso de julgamento entre a Folha da Praia alternativa e a Folha da Praia comercial, com entrevistas vendidas. Mas o senhor vê nisso uma contradição para um jornal que se queria alternativo?

AN - Como afirma o jornalista Luciano Correia, o Folha não foi um jornal planejado. Não houve, por parte de Amaral, um cuidado maior para estruturar economicamente o jornal para que ele pudesse manter a mesma verve que teve nos anos 80 e 90. Além disso, os tempos mudaram, Aracaju mudou e Amaral, e o jornal, precisavam sobreviver. Ademais, o sistema não brinca. 

AMARAL CAVALCANTE ENTENDIA DO TERRENO EM QUE PISAVA

“Amaral sabia o que estava fazendo. Certamente que grande parte dos que fizeram o jornal não tinham consciência de que estavam envolvidos em algo tão significativo. Mas Amaral sabia. Amaral e outros mais maduros, a exemplo de Ilma Fontes, que depois fundou o jornal O Capital”

Alex Nascimento: dando duro sobre o arquivo empoeirado do Folha da Praia, mas está colhendo boas recompensas

JLPolítica & Negócio - O senhor se deu por contente com a recepção do “Folha da Praia: um Pasquim sob o sol de Aracaju?”

AN – Sim. Foi uma recepção maravilhosa. Logo nos primeiros três minutos, quando o público soltou a primeira gargalhada, depois uma sequência muito bacana de respostas ao que havíamos pensado, a emoção percebida, os olhares, a plateia sem nenhuma dispersão, pessoas em pé, pessoas enxugando lágrimas. O público aplaudiu de pé e longamente, entende! Trabalhamos duro, especialmente eu e Alex Soares, meu amigo e parceiro, editor do documentário. Nos encontrávamos diariamente, incluindo finais de semana e feriados. Foram oito meses de estúdio, oito, dez horas por dia, e em casa eu ainda seguia em frente do computador ou dos jornais até às três, quatro da manhã. Além do roteiro, direção e produção executiva, eu fiz também todo o trabalho de criação e direção de design, e tudo isso me exigiu muito. Eu precisava chegar ao estúdio com tudo muito bem definido, então eu seguia trabalhando. Dizia a Soares: “Vamos refazer o que tiver que ser refeito quantas vezes forem necessárias. Vamos entregar um produto que esteja à altura do Folha da Praia e em respeito a todos os entrevistados e a essa geração que fez história na imprensa sergipana”. Acho que conseguimos. Pediram até uma versão ampliada, apesar dos já 74 minutos. Um elogio e tanto. 

JLPolítica & Negócio - Qual é o destino do seu documentário de agora por diante?

AN - Vamos inscrevê-lo em festivais, programar novas exibições. O secretário da Funcaju, Paulo Corrêa, que esteve no lançamento representando a prefeita Emília Corrêa, nos convidou para o exibirmos no Cinema do Centro; a TV Alese nos pediu autorização para exibi-lo durante as comemorações de aniversário da TV; já temos também convite para irmos a UFS. Ou seja, vamos promover outras sessões e depois disponibilizá-lo ao público através de streamings e do Youtube. Mas eu desejo ir para outros Estados mostrar lá fora o que foi o Folha da Praia e esta geração maravilhosa que marcou a história recente de Aracaju e de Sergipe. 

DAS GRANDES ESTRELAS GIGI E ERÊ

“Foi fantástico quando vi Gigi chegando ao set de gravação. Erê, que foi casado com Amaral, foi outra maravilhosa alegria tê-lo conhecido. Assim que finalizamos as gravações com eles, eu soube que seria preciso trabalhar a participação deles no documentário com bastante sensibilidade e equilíbrio”

Alex Nascimento, o documentarista, com Sandro Café, diretor de Fotografia do documentário Folha da Praia: debatendo soluções

JLPolítica & Negócio - O senhor considera que algumas figuras da comunicação nesta aventura com Amaral Cavalcante ficaram de fora do documentário e que elas fizeram falta?

AN - Guardarei para sempre uma grande tristeza, que foi não ter conseguido gravar com Clara Angélica. Dois dias antes da gravação com ela, recebemos um telefonema nos informando que teria que ir para Nova Iorque. Ela mesma sugeriu nos enviar um vídeo quando chegasse, mas, infelizmente, não sei o que houve, não rolou. Fiquei muito triste. Infelizmente, houve outras figuras que foram marcantes para o Folha e que não conseguimos pegar o depoimento - ou porquê não conseguimos contato ou por desencontro de agenda. Há um detalhe: o diretor de fotografia do documentário, o querido Sandro Cajé, sergipano de Neópolis, no espaço entre a aprovação do projeto pela Paulo Gustavo, através da Funcap, e a liberação da verba para começarmos a trabalhar, Sandro passou a  morar em São Paulo. Foi preciso ajustar agenda de gravações, custos com aluguel de equipamentos, diária de hotel, alimentação, transporte etc. Nós trabalhamos com um orçamento muito curto. Produzimos um longa com recurso para um curta. Buscamos, no entanto, levar para o documentário aqueles que não foram entrevistados. E acho que, de alguma maneira, conseguimos.

JLPolítica & Negócio - Esta experiência com o documentário da Folha da Praia estaria fomentando na sua pessoa a possibilidade de outros documentários?

AN - Sim. O filme não aconteceu por acaso. Tenho já escrito dois outros grandes projetos para dois outros longas, que penso sejam importantes para Sergipe que aconteçam. Não ficarei esperando por editais, vou buscar parcerias, buscar dialogar também com a iniciativa privada. Para isso, preciso divulgar ao máximo o documentário que entregamos, preciso que conheçam o nosso trabalho. Não podemos ficar dependendo apenas de verba federal. Vou buscar dialogar com o governo em torno de um destes projetos. Claro que vou estar atento aos editais, incluindo a Lei Rouanet e outros. Ou seja, vou me movimentar. E espero também receber convites para participar de outros projetos. Estou na pista!
 
DAS CAUSAS DO TOMBO FINAL DA FOLHA

“Como afirma o jornalista Luciano Correia, o Folha não foi um jornal planejado. Não houve, por parte de Amaral, um cuidado maior para estruturar economicamente o jornal para que ele pudesse manter a mesma verve que teve nos anos 80 e 90. Além disso, os tempos mudaram, Aracaju mudou e Amaral, e o jornal, precisavam sobreviver. Ademais, o sistema não brinca” 

Alex Nascimento sempre plantou flores no lajedo áspero da comunicação: aqui entrevistando a cantora Vanessa da Mata

JLPolítica & Negócio - O senhor passou a régua em sua carreira de professor de Redação e de Literatura. Mas tem se dedicado ao que na teia do existir?

AN - É preciso ter coragem e clareza do que se quer. E pagar o preço. Tive que abrir mão de muita coisa. Não foi e não tem sido fácil. Hoje, vivo da assessoria de comunicação que presto a duas instituições, uma delas o Concese, que é o Conselho de Consumidores da Energisa Sergipe. Embora eu tenha passado 34 anos em sala de aula, sempre atuei também como jornalista, com passagens por órgãos públicos como a Sefaz e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Fui coordenador de comunicação da Funcap, na gestão de Belivaldo Chagas, à convite da amiga Conceição Vieira. Trabalhei na equipe de comunicação de uma dezena de campanhas eleitorais, enfim, tenho certo lastro e vou buscar abrir algumas portas. Preciso recuperar a renda que tinha consolidada na educação. Não é fácil. Nenhuma transição é fácil. 

JLPolítica & Negócio - O senhor acha que numa fase de desconstrução da comunicação, dá para se viver de jornalismo?

AN -  Sim, é possível viver de jornalismo, mas sob novas condições. Com as redes sociais, e esse bando de comunicadores miolo mole que as ocupam, o que temos é uma crise de comunicação, não da profissão jornalismo. O poder migrou para as plataformas digitais, desmontou o modelo econômico tradicional da imprensa e gerou a fragilidade dos fatos - que são substituídos por narrativas instáveis. Neste cenário, o jornalismo se torna ainda mais necessário como mediador confiável. O jornalismo ainda sustenta o debate político. É inegável que é mais difícil viver dele hoje em dia, mas também é verdade que é ainda mais essencial a nossa presença, mais do que nunca foi, e há espaços para um jornalismo sério. 

DA TRISTE AUSÊNCIA DE CLARA ANGÉLICA

“Guardarei para sempre uma grande tristeza, que foi não ter conseguido gravar com Clara Angélica. Dois dias antes da gravação com ela, recebemos um telefonema nos informando que teria que ir para Nova Iorque. Ela mesma sugeriu nos enviar um vídeo quando chegasse, mas, infelizmente, não rolou”

Alex Nascimento: revirar os escombros do Folha da Praia, abriu-lhe o apetite para novos documentários

JLPolítica & Negócio - O senhor abandonou por definitivo a sua militância comunicacional na área de ecologia e de meio ambiente? Quede aquele seu Programa Ecos em Debate?

AN - Continuo atento às grandes questões que envolvem o meio ambiente. É um tema cercado de desafios e oportunismos. Eu produzia e apresentava o Ecos em Debate, que chegou a ser considerado pela Arpub - Associação das Rádios Públicas do Brasil -, como o primeiro programa de jornalismo ambiental das rádios públicas do país. Na época, recebemos o convite para que o programa fosse transmitido também em outros Estados. Era pela Aperipê, durou dois anos e pouco, e foi bem recebido pelos ouvintes. Depois, houve mudança de direção da emissora e não foi possível continuar com o programa. Cheguei a receber alguns convites, mas não foi possível aceitá-los. Ainda mantive por um bom tempo o portal Ecos em Debate, produzimos matérias muito bacanas, viajamos pelo interior do Estado, fomos ao sertão sergipano, fizemos belas entrevistas também com personagens de renome nacional.

JLPolítica & Negócio - Mas o senhor gostou daquela experiência?

AN - Foi muito boa a experiência. Foi um período bastante agitado, chegou um momento que ficou difícil conciliá-lo com as cinco escolas nas quais eu lecionava. Realizamos também o movimento Manifesto Reduza Sua Pegada Ecológica, então uma pauta pouco conhecida do grande público, com apoio da Prefeitura de Aracaju, gestão de Edvaldo Nogueira, TV Sergipe e o Oceanário de Aracaju. Depois, aceitei convite para fazer assessoria parlamentar na Câmara Municipal de Aracaju.  Além disso, acabei me tornando presidente - porta-voz - municipal, depois estadual e delegado nacional do partido Rede Sustentabilidade. Mas esse é um outro papo…

DA POSSIBILIDADE DE VIVER DO JORNALISMO

“É possível viver de jornalismo, mas sob novas condições. Com as redes sociais, e esse bando de comunicadores miolo mole que as ocupam, o que temos é uma crise de comunicação, não da profissão jornalismo. Neste cenário, o jornalismo se torna ainda mais necessário como mediador confiável”

Alex Nascimento e o solene encontro com a grande figura de Erê, companheiro de Amaral Cavalcante: ele deu liga leve ao documentário

JLPolítica & Negócio - O que está faltando para que o senhor dê à luz “Poemas de Escavação”, seu livro de poesia?

AN -Está faltando voltar a dar atenção a ele, parar um pouco, desacelerar para completar o trabalho. Está faltando me embrenhar solitária e surdamente no reino das palavras, como diz Drummond. A ideia era lançá-lo ainda este ano, mas talvez não haja mais tempo, já que o fazimento do “Pasquim Sob o Sol de Aracaju” me cobrou muito tempo. Mas ele sairá. Você, Jozailto Lima, que é poeta dos grandes, amigo querido com quem compartilho tessituras, cujo livro “Viagem na Argila”, tive a honra de ler os originais para produzir ensaio, a seu convite, é meu maior incentivador. Diz você que tenho cá umas coisinhas que merecem ser publicadas. E serão.  

JLPolítica & Negócio - Em que pé está a concepção de “Tereza Lunática, a Catadora de Afetos”, romance que o senhor vem escrevendo?  

AN - O sujeito não escreve um poema e fica o resto do dia escrevendo poesia. Bem, pelo menos imagino que não. Escrever um romance é diferente. Exige uma entrega diária. Eu vinha dedicando seis, oito horas, à escrita dele. Agora que o filme foi lançado, estou muito motivado a retomá-lo. Já está com quase 100 páginas. É um livro sobre afetos, cheiro de doces e dramas femininos. Mas tudo a seu tempo, sem agonias, como foi o documentário sobre o Folha da Praia, cuja recepção do público tem me encorajado ainda mais. 

O QUE FALTA PARA LANÇAR O LIVRO POESIA?

“Está faltando voltar a dar atenção a ele, parar um pouco, desacelerar para completar o trabalho. Está faltando me embrenhar solitária e surdamente no reino das palavras, como diz Drummond. A ideia era lançá-lo ainda este ano, mas talvez não haja mais tempo” 

Alex Nascimento recebe no lançamento do documentário as presenças solenes de Paulo Corrêa, secretário de Cultura se Aracaju, e a esposa Kalina Elizabete Lopes Corrêa

JLPolítica & Negócio - O senhor se sente mais para a prosa ou mais para a poesia, e nessas duas esferas, quem são suas referências?

AN -  Para a prosa, embora a poesia rasgue-me a alma de maneira especial. Carlos Drummond é o maior de todos. Depois vem Manuel Bandeira, Mário Quintana, que nos humilha com sua simplicidade e dizer das coisas; João Cabral de Melo Neto e sua secura, e Manoel de Barros e tantos outros e outras. Mas olha, sem agrado tolo, temos por aqui em Sergipe grandes nomes, a exemplo de você mesmo, Araripe Coutinho. Na prosa, Machado de Assis, claro, é o maior de todos, e José Saramago que amo de paixão, como dizem, isso para ficarmos no terreno da língua portuguesa.
 
JLPolítica & Negócio - Em sã consciência, o senhor acha que ainda há lugar para literatura na sociedade contemporânea, ou ela estaria numa fase de banimento de significado? 

AN - Há lugar para a literatura justamente porque há excesso de ruído. A literatura permanece como uma das poucas experiências que exigem entrega, imaginação e profundidade. Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca - não por nostalgia, mas porque os livros ampliam as fronteiras da experiência humana. Para Milan Kundera, a função do romance, ou da literatura, é justamente resistir às simplificações do mundo, preservando a complexidade da condição humana. Clarice Lispector, por exemplo, dizia que a literatura é o território insubstituível para explorar o que não cabe nos discursos prontos. Não há tecnologia no mundo, e jamais haverá, capaz de entregar o que um bom livro entrega. 

A LITERATURA E A AMPLIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA HUMANA

“Há lugar para a literatura justamente porque há excesso de ruído. A literatura permanece como uma das poucas experiências que exigem entrega, imaginação e profundidade. Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca - não por nostalgia, mas porque os livros ampliam as fronteiras da experiência humana”

Alex Nascimento de refrega com Marina Silva: ele e ela pitam o mesmo cachimbo de assuntos ambientais

JLPolítica & Negócio - Que evento foi aquele que o senhor produziu no começo dos anos 1990, chamado Dia da Palavra?

AN - Oito horas ininterruptas de arte: quarto, cinco peças de teatro, suítes de dança, recitais de poesias, apresentações musicais, mais de 50, sei lá, 60 jovens envolvidos, uns 15 a 20 artistas convidados. Tudo isso no Teatro Atheneu Sergipense. Nunca havia acontecido um evento cultural daquele porte na cidade de Aracaju. Tenho muito orgulho dele. Nós fizemos adaptações de textos, montamos recitais, dirigimos a garotada. No Dia da Palavra, apresentei o monólogo “A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo e jogar as cinzas depois”, do grande teatrólogo Vieira Neto. Me lembro que o músico Henrique Teles, do Maria Scombona, ainda muito jovem, foi um dos que se apresentou no evento.

JLPolítica & Negócio - Certamente isso marcou geração?

NA - Na noite de lançamento do documentário do Folha, quando saímos para comemorar, o jornalista Rian Santos, que foi meu aluno e participou do evento, estava exatamente lembrando do Dia da Palavra, do que foi para aqueles jovens, e para mim, passar três, quatro meses, dentro do teatro Atheneu ensaiando, vivendo arte. Guardo isso com muito carinho. Foi algo inusitado naquela época e o que me projetou, inicialmente, junto às escolas. Abriu-me muitas portas. 
 
Texto e imagens reproduzidos do site: jlpolitica com br