segunda-feira, 20 de abril de 2026

'Editora Abril: a um passo de se tornar história'


Publicação compartilhada do site JORNAL GGN, de 24 de julho de 2016

Editora Abril: a um passo de se tornar história
Por Luis Nassif

Pouco antes de morrer, o presidente da Editora Abril, Roberto Civita, aproximou-se de banqueiros paulistas. Conseguiu do Itaú-Unibanco uma sobrevida para a empresa.

Um dos banqueiros, mais ideológicos, fez uma última tentativa para manter vivos a Abril e o Estadão. Lançou a ideia de criação de uma fundação que assumisse as duas empresas. Chegou-se, inclusive, ao nome de André Lara Rezende para presidente.

A ideia morreu quando foram abertas as contas de ambas as empresas: eram economicamente inviáveis.

Agora, está próxima do fim a aventura da mais relevante editora de revistas do país.

O crescimento inicial foi fruto da intuição – e dos contatos norte-americanos – do patriarca Victor Civita, que por aqui aportou com a retaguarda dos grupos Disney e Time-Life, quando os americanos se deram conta que a legislação restritiva brasileira não permitiria participação direta no país e as parcerias com o Departamento do Estado conferiam à mídia papel relevante nas disputas ideológicas do continente, decorrentes da Guerra Fria.

A partir dos anos 70, houve um impulso grande no grupo, graças à visão de Roberto Civita. Por incrível que pareça, para quem acompanhou a decadência de Veja, Civita foi um grande editor, inclusive na escolha dos diretores de redação que ajudaram a forjar a glória da empresa. Lançou a revista Realidade, das grandes reportagens, trazendo os maiores nomes da época, Milton Coelho da Graça, Luiz Fernando Mercadante, José Hamilton Ribeiro. Depois, foi buscar Mino Carta no Jornal da Tarde para lançar a 4 Rodas e a Veja. Surgiram as revistas femininas, a Playboy. E fascículos que marcaram época.

A Abril tornou-se uma editora imbatível, inclusive valendo-se de sua força política para obter favores oficiais graúdos, como os incentivos para a rede Quatro Rodas, dados pela ditadura, e os canais de TV a cabo pelo governo Sarney.

As mudanças tecnológicas

Dentre os editores brasileiros, nenhum foi mais antenado que Roberto Civita com as mudanças na mídia. Entendeu o papel da TV a cabo, lançando a TV A, dos satélites como difusores de sinal e da própria Internet, através do lançamento da BOL. Teve experiências bem-sucedidas com produção, com a TV Abril e com a MTV. Sempre foi o primeiro a imoprtar no país as últimas ondas do mercado norte-americano.

A visão de futuro não foi acompanhada de uma estratégia financeira adequada. Uma a uma as experiências fracassaram pela falta de executivos adequadas e por uma praga que assola empresas quando surgem tecnologias matadoras.

Sempre que aparecia uma tecnologia de corte, a ATT criava uma empresa à parte, independente, pois sabia que se fosse desenvolver dentro da própria empresa, a empresa velha mataria a nova.

A Microsoft não aprendeu a lição. Quando surgiram os sistemas operacionais para tablets e celulares, incumbiu a divisão do Windows de desenvolve-los. E os pais do Windows para computadores não quiseram amputar funções para adaptar o sistema aos mobiles. Perdeu o bonde para a Apple e o Google.

Uma a uma, as inovações da Abril foram sendo boicotadas pelos executivos do papel, receosos de perder espaço para os novos setores.

Foi assim com a TV Abril, com a TVA, com a BOL.

O erro da BOL

Um alto executivo da época me contou, certa vez, o boicote sofrido por Antônio Machado que, depois de uma brilhante passagem pela Exame, foi incumbido de colocar em pé o portal da Abril.

Houve alguns erros iniciais, como o de pretender montar uma verdadeira central telefônica para atender as chamadas, em vez das parcerias com pequenos provedores do interior, como fez a UOL. E também a ideia da padronização das revistas, transformando a BOL em uma enorme revista padronizada. Nada que não pudesse ser corrigido, sem tirar da BOL o mérito do pioneirismo e do maior acervo de publicações da jovem Internet brasileira.

De nada adiantou. Civita acabou aceitando a proposta de Luiz Frias de juntar as duas operações, da UOL e da BOL, dando a gestão para o sócio.

Pouco tempo depois, Luiz montou uma parceria com grupos da Portugal Telecom visando diluir a participação da Abril. De um dia para outro anunciou um aumento de capital e, apanhado de surpresa, Civita não conseguiu acompanhar a Folha e acabou diluído. A velha raposa sendo passado para trás pelo jovem empreendedor.

A mesma falta de visão ocorreu com a tentativa mais recente de apostar de novo na Internet, através do portal Abril e da Veja.

Certa vez, um talentoso desenvolvedor brasileiro, que havia criado uma rede corporativa de primeiro nível, me contou que tentou vender a rede para a Abril utilizar em seus portais.

Antes que concluísse a história, pedi para adivinhar o resultado:

– Um dos executivos da Abril rejeitou sua proposta dizendo que a aposta da editora, agora, era em revistas de quadrinhos de baixo custo para a nova classe C.

Ele se espantou:

– Como você sabe?

Porque, na mesma época, a IBM enviou para a Abril altos executivos da IBM norte-americana, para oferecer ferramentas para utilização em portais da Internet. E a resposta foi a mesma.

A aposta na educação

Restava à Abril apelar para a força política da Veja. A partir dos anos 90, Civita assumiu a supervisão direta da revista, envolvendo-a cada vez mais em jogadas políticas e comerciais.

Nos tempos de Mino Carta e da dupla Roberto Guzzo-Elio Gaspari, os diretores alertavam Civita quando poderia ultrapassar os limites do jornalismo para atender aos interesses políticos e comerciais do grupo. A partir dos 90, entraram diretores cada vez mais submissos e sem envergadura jornalística para se contrapor às ordens do chefe. E aí foram lambanças sucessivas.

Sem conseguir avançar em nenhuma frente digital, a Abril concentrou esforços na parte educacional. Adquiriu editoras que vendiam livros didáticos preferencialmente para o MEC (Ministério da Educação) e cursos apostilados para estados e prefeituras, valendo-se da força política da Veja e da estrutura de vendedores de assinaturas para tentar se impor. As escolas eram procuradas por vendedores que convenciam diretores a escolher os livros da Abril na cesta oferecida pelo MEC.

Na gestão Tarso Genro, fechou-se essa porta. O MEC passou a divulgar catálogos dos livros selecionados e a proibir o uso de vendedores. Civita ficou possesso e chegou a telefonar para Tarso Genro, ameaçando-o com uma capa se insistisse na nova política. Não conseguiu intimidar o Ministro.

Seguiu-se uma fase de investimentos intensos no ramo educacional. Uma a uma foram sendo vendidas as empresas coligadas e o dinheiro investido na compra de cursos, para a montagem de um grupo educacional, não apenas com recursos próprios, mas com financiamentos bancários.

Mais uma vez, Civita quebrou a cara pela má escolha de executivos. A presidência do grupo foi entregue a conhecido CEO, conhecido pela megalomania. As compras foram efetuadas por preços muito acima dos de mercado. Em plena corrida da Abril, um concorrente me descreveu a estratégias a cegueira de Civita, de não avaliar os preços dos bens adquiridos.

– As contas não fecham de maneira nenhuma.

As loucuras aconteceram em todos os quadrantes, com a empresa se endividando para apostas irrealistas. Como a proposta para João Dória Jr., para a venda do controle da Casa Cor, uma proposta tão absurdamente alta que o próprio Dória duvidou da sanidade do grupo.

A aposta na direita

Restou a Civita o último berro, a identificação talentosa da nova tendência da opinião pública, de ir para a direita e para teses de intolerância. Trouxe dos Estados Unidos o padrão Rupert Murdock que foi testado pela primeira vez na campanha em defesa das armas.

Com o sucesso obtido, radicalizou. Mais e mais Veja foi se transformando em um lago de detritos, em um esgoto a céu aberto, inventando capas inverossímeis, vendendo-se para jogadas comerciais, como a de Daniel Dantas, aliando-se ao crime organizado de Carlinhos Cachoeira, para garantir o suprimento semanal de escândalos, praticando crimes de opinião, perdendo a cada edição o contato com os fatos e com o jornalismo.

Seu último feito foi liderar um pacto de cartelização da mídia em 2005, que matou qualquer veleidade de jornalismo da parte deles e que tornou a imprensa a maior ameaça à democracia brasileira e à estabilidade política e econômica.

Depois disso, houve a queima de ativos.

A venda da parte educacional deixou a família com caixa. Mas com pouca disposição de colocar dinheiro em uma empresa inviável. Começou, então, um movimento de transferência de títulos para o grupo argentino Caras. Foram transferidos dez títulos...

Mas os tempos são outros. Apesar da óbvia blindagem recebida do Ministério Público Federal no episódio Carlinhos Cachoeira, a transferência poderia configurar evasão fiscal. A família voltou atrás na estratégia e terminou aportando R$ 450 milhões, única maneira dos credores toparem o refinanciamento das dívidas... , mantendo com aparelhos os sinais vitais da empresa.

Por outro lado, a morte de Roberto Civita impediu que fossem feitos ajustes na linha da Veja. Apenas na véspera do fim, a família tomou medidas para tentar restaurar o jornalismo da revista, tarefa impossível: a revista tornou-se refém da malta que ajudou a criar.

Há, portanto, um ponto em comum entre os Civita e o governo Dilma que eles ajudaram a derrubar: o de fazer as mudanças necessárias com anos de atraso, e quando o desastre se tornou irreversível.

----------------------------

Luis Nassif - Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN. luis nassif@gmail com

Texto reproduzido do site: jornalggn com br

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Linotipo, a oitava maravilha do mundo

Jornal O Progresso circula no sul e Sudoeste do Maranhão, Sul do Pará 
e Norte do Tocantins há 54 anos e utiliza um linotipo


 Ottemar, inventor do linotipo

Artigo compartilhado do site PORTAL DA COMUNICAÇÃO, de 3 de julho de 2025

Linotipo, a oitava maravilha do mundo

Equipamento para compor jornais, revistas e livros, hoje superado, revolucionou a imprensa e foi utilizado pela primeira vez pelo New Your Tribune, em 3 de julho de 1886

Por Carlos Rodrigues 

Depois da invenção da imprensa por Gutemberg, a maior evolução nesse equipamento aconceceu em 1886 com o uso do linotipo, que substituiu a composição manual e acelerou o processo de composição de jornais, revistas e livros. O jornal New Your Tribune foi o primero a usar a maravilha da época, em 3 de julho de 1886. E reinou até 1940 quando foi desenvolvido a fotocomposição, (ou composição a frio), que gradualmente substituiu os processos de composição “a quente” da linotipo. Mas, este último, só começou a ser utilizado em larga escala entre as décadas de 1960-70, com a popularização do processo de impressão “offset”. Mais tarde, a composição com fontes digitais e os softwares de editoração eletrônica dominaram o mercado, tornando a profissão de linotipista obsoleta com a transição para a era digital. 

No Brasil, ainda se utilizam linotipos, principalmente por jornais do interior e pequenas gráficas que produzem jornais, folhetos, convites, e outros impressos artesanais personalizados. Algumas dessas máquinas estão funcionando a mais de 100 anos. Profissionais que dominam essa técnica também são raros.

Ao longo do século XIX, as prensas tipográficas avançaram e atingiram velocidades incríveis, mas a composição tipográfica continuou sendo um processo lento. O linotipo era a máquina há muito aguardada que traria velocidade a uma área totalmente nova do processo de impressão: a sala de composição.

Substituíram com muita vantagem o trabalho artesanal de escolher letra por letra, as maiúsculas na caixa de cima, as minúsculas na caixa de baixo, para com elas se ir compondo cada palavra, cada frase, cada período, até formar o artigo inteiro, a página inteira, o jornal inteiro.

Evolução

De Gutenberg até a década de 1880, as letras tipográficas precisavam ser fundidas individualmente em moldes e ordenadas à mão, de trás para frente. Embora um compositor experiente pudesse compor tipos com grande velocidade e precisão (ambas métricas que frequentemente determinavam as faixas salariais), ainda era um processo lento. E não se esqueça do tempo que levava para colocar os tipos de volta nas caixas!

Acelerar o processo de composição tipográfica era o foco de muitos inventores e editores na década de 1800. Diversas máquinas são anteriores ao linotipo, mas os linotipos, e a empresa que os fabricava, dominavam o mercado com sua funcionalidade e acessibilidade (e também com suas patentes).

Quem inventou

Ottmar Mergenthaler , um imigrante alemão em Baltimore, Maryland (EUA), é o homem mais intimamente associado ao linotipo. Engenheiro de profissão e relojoeiro por experiência, Mergenthaler fez parte da equipe contratada em 1876 para inventar uma máquina copiadora para acelerar o trabalho dos estenógrafos da corte. Em 1884, Mergenthaler havia desistido de muitos protótipos e se concentrado no conceito de fundir uma linha inteira de tipos de uma só vez. Ele encontrou a solução certa em 1886 e fundou sua própria empresa: a Mergenthaler Printing Company. Mais tarde, ela seria conhecida mundialmente como Mergenthaler Linotype Company.

Um dos financiadores do projeto foi Whitelaw Reid , editor do New-York Tribune. Portanto, foi esse jornal que primeiro testou os linotipos em 1886. Depois de alguns anos, o Tribune divulgou seu sucesso no jornal.

À medida que a máquina era continuamente aprimorada, com mais modelos e estilos em produção, outros jornais se apressavam em adicionar linotipos à sua produção gráfica. Os jornais ostentavam seus linotipos e compartilhavam a maravilha da máquina de impressão a quente com seus leitores. Chamavam-na de “A máquina do século” e “quase humana” na forma como operava semi-automatizada.

Segundo Emanuel Araújo, autor da obra “A construção do livro” (edição publicada no Rio de Janeiro pela Lexikon Editora Digital, em 2008), esse sistema apresentava algumas limitações em relação à variação de caracteres, adaptação a diagramações complexas, espaçamento de entrelinhas e correção de texto. Há de se mencionar que a mecanização da composição tipográfica fez com que muitos compositores manuais migrassem para o ofício de compositor mecânico, o linotipista, cuja produção podia atingir a de oito daqueles profissionais.

A linotipo foi um invento de sucesso, que possibilitou o alargamento da produção gráfica, a rapidez no fechamento de jornais, e foi o principal meio de composição tipográfica até meados do século XX, quando entraram em cena os processos de fotocomposição e, atualmente, a composição com fontes digitais.

Processo barulhento e tóxico

O Linotipo funde automaticamente (uma liga de chumbo, antimônio e estanho) linhas inteiras de texto em “slugs” ou “lingotes” de metal tipográfico, a partir de um teclado semelhante ao de uma máquina de escrever. O operador, o linotipista, digita o texto desejado em um teclado, que aciona a liberação de pequenas matrizes de latão (moldes para as letras) de um magazine onde ficam armazenadas. Os lingotes fundidos, uma vez resfriados, são colocados em “bastões” para serem inseridos na forma da prensa que está sendo preparada para a impressão. Depois de utilizados, os lingotes são fundidos novamente para reiniciar nova produção. É um processo barulhento, que emite gases tóxicos. O aquecimento de chumbo e outros metais gerava vapores e resíduos metálicos. 

Muitos operadores adoeciam com o tempo. Era um ambiente insalubre.  Além disso os operários trabalhavam sob um calor de 60º ou mais. Imagine isso em um país tropical. Ou durante nosso verão. Os operadores usavam uma toalha úmida enrolada no pescoço para amenizar o calor. “Amenizar” é um eufemismo. Eles tomavam leite (nem todas gráficas dispunham do produto) como antídoto do ao efeito tóxico do chumbo, responsável por uma doença chamada saturnismo ou plumbismo. A ventilação nesses locais era precária, o que dificultava a dispersão dos gases tóxicos, porque muitos linotipos funcionavam nos porões de jornais ou nos fundos de estabelecimentos gráficos.

Essa intoxicação pode ocorrer por diversas vias, como a inalação de poeira ou vapores de chumbo, ingestão de água contaminada ou contato com objetos que contenham o metal. O saturnismo pode afetar diversos órgãos e sistemas, causando uma variedade de sintomas, como problemas neurológicos, gastrointestinais, hematológicos, renais e reprodutivos.  E hoje atinge também trabalhadores em fábricas de tintas, solventes, baterias, tintas, solda, mineração e construção civil. 

Texto e imagens reproduzidos do site: portaldacomunicacao com br

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

'O último romântico do jornalismo', por Luciano Correia

Fausto Wolff - Escritor e jornalista (Foto: Wikipedia)


Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 28 de janeiro de 2026

O último romântico do jornalismo
Por Luciano Correia *

Não sei exatamente quando o jornalismo entrou na minha vida, pelo menos como leitor de revistas e jornais. Papai comprava revistas sem capa a um rapaz que trabalhava na distribuidora de Zé Queiroz e as entregava semanalmente na Exatoria de Itabaiana as edições semanais de Manchete, Fatos e Fotos, Capricho, Amiga, Contigo e as famosas Seleções de Reader’s Digest. Antigamente, edições da semana anterior eram vendidas sem o frontispício da marca por um valor muito abaixo do exibido na capa. Foi na Fatos e Fotos que tive o privilégio de ler semanalmente as colunas de Nelson Rodrigues e de Carlos Castelo Branco. Pouco depois, já iniciado na juventude, me acostumei a ler jornais e, quando ingressei na UFS para estudar Engenharia Química, me tornei um fã do irreverente semanário Pasquim.

O Pasquim não foi o único, mas era o principal veículo da imprensa alternativa que desafiava a ditadura e, em termos de mídia impressa, um contumaz combatente da nossa imprensa corporativa careta e covarde, os jornalões Folha, Globo, Estadão e outros. Aqui mesmo tivemos a inusitada experiência da Folha da Praia, liderada por Amaral Cavalcante, onde batuquei minhas primeiras mal traçadas linhas em letra impressa. Foi lendo dois dos muitos grandes jornalistas do Pasquim que aprendi a escrever, se se puder considerar que eu aprendi.

Dos jornalistas que mais me influenciaram, destacam-se o brilhante Tarso de Castro e o touro indomável Fausto Wolff. O terceiro foi, sem dúvidas, o alagoano-sergipano Fernando Sávio. E um quarto, Charles Bukowski, este da literatura, mas uma literatura tão carregada de realismo que parecia saltar das páginas dos jornais.  As 569 páginas de “A mão esquerda de Deus” constituem um esboço de autobiografia de Fausto Wolff, gaúcho de Santo Ângelo, misto de brigão e playboy bonitão, um homenzarrão de quase dois metros, tão valente quanto propenso a se derramar em lágrimas diante do sofrimento de uma criança. Sempre ligado à esquerda, exilado durante a ditadura militar e brizolista quando voltou ao país após a abertura, Wolff carregava em si as dores do mundo.

Em A mão esquerda… ele, como é típico nesses casos, se refugia em nomes fictícios para proteger pessoas reais, ele próprio escondido na alcunha de Percival von Traurigzeit, o Pérsio, um paralelo claro com seu nome de batismo, Faustin von Wolffenbüttel, transformado no polêmico e explosivo Fausto. O livro é um vai e vem no tempo e na história de uma família que, garante Fausto, tem origem em príncipes aristocráticos da Alemanha do século XIV. Conhecendo o personagem autor, é possível que aí esteja um dos momentos em que o texto é pura ficção. Ou não. Das remotas origens em guerras sangrentas entre povos bárbaros, chega-se aos imigrantes que aportaram no Rio Grande do Sul no século XIX, onde a família que um dia foi nobre e rica inicia uma saga de muito trabalho e luta contra a pobreza.

No Rio do Pasquim e dos jornais e revistas por onde passou, Wolff passeia pelas dezenas, quiçá centenas de lindas mulheres que foram parar em sua cama, algumas socialites ricas fascinadas por um jornalista romântico e sem tostão. Em certo momento ele proclama: “tudo que tenho são um punhado de livros e algumas roupas”. E certamente foi assim durante toda a sua vida, desde os trepidantes anos na Dinamarca, onde teve mulheres e fez uma filha, até os últimos dias, quando morreu no Rio de Janeiro, em 2008, aos 68 anos, vítima de uma hemorragia digestiva, não por acaso relacionada com os anos de muito uísque, chope e cigarros. Além do excelente jornalista que foi, crítico mordaz dos colegas mais apaixonados pelos patrões do que pela causa do jornalismo, foi também um escritor de peças teatrais e vários romances, dentre eles Sandra na terra do antes, escrito para resgatar as saudades da infância da primeira filha, nascida no Brasil.

Como jornalista, ele tem outro livro bastante lido nos anos de 1980: Os palestinos: judeus da 3ª Guerra Mundial, onde traça um paralelo entre a perseguição e exílio sofridos historicamente pelo povo judeu e a condição dos palestinos, vítimas do Estado sionista desde que este foi criado, em 1948, passando pela Guerra dos Seis Dias, em 1967, pela nova guerra de 1973, pelo massacre dos assentamentos de Sabra e Chatila, em 1982, até chegar aos horripilantes dias que correm.

As farras, amores e a bebida em fartura talvez tenham sido o modo encontrado por um gigante de olhos azuis que nunca suportou as injustiças, fazendo daqueles expedientes sua válvula de escape. Como seu colega Tarso de Castro, também gaúcho e de texto ainda mais cáustico, Fausto Wolff encarnava um jornalismo cujo autor misturava-se com sua obra, o chamado jornalismo gonzo, assumidamente subjetivo e livre dessa bobagem chamada objetividade. Depois de Fausto, não houve mais ninguém que encarnasse esse personagem no jornalismo brasileiro.

Trecho

“O mulherio adorava o John, o mais moço da turma, uma espécie de Babe Face Nelson, que quando não estava conosco, andava com um pessoal mais barra pesada. Ele achava que amava Isla pela simples razão de ela não ligar para ele, e ela, certamente, não ligava para ele porque ela a amava. Para os filósofos estoicos, a dialética era uma disciplina de lógica formal, Kant complicou mais as coisas quando expôs a dialética como uma tentativa de entender o que não se pode experimentar, Hegel identificou a dialética como um resultado de dois aspectos negativos de uma mesma questão, Marx e Engels adaptaram a dialética ao materialismo histórico, mas nunca, jamais, em tempo ou dimensão alguma, alguém poderá entender o conflito dialético entre a buceta e o coração de uma mulher”.

--------------------------

 * Luciano Correia - Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

Texto e imagens reproduzidos do site: sosergipe com br

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Francisco Araújo, ex-entregador do jornal, visita o arquivo...






Ex-entregador do Diario, Francisco Araújo reencontra os jornais que distribuiu nos anos 1970 (Crisly Viana/DP Fotos)

Publicado originalmente no site do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, em 15 de dezembro de 2025 

Memória > Extra, Extra! Um jornaleiro contra um mundo de esquecimentos reencontra o Diario após quase 50 anos

Francisco Araújo, ex-entregador do Diario, testemunhou cotidiano ao distribuir os jornais pelo Recife

Por Marília Parente

Esquecendo-se do sol de quase meio-dia, do peso da bolsinha com três marmitas para as filhas e dos 80 anos incompletos sobre as pernas, Francisco Araújo encara atentamente a sede do Diario de Pernambuco, no Centro do Recife. Ele acaba de chegar ao local, após almoçar em um restaurante popular nas redondezas, e intercepta alguns funcionários na calçada: “fui entregador do jornal”, apresenta-se orgulhosamente.

Francisco deseja que alguém lhe responda o porquê de o jornal ter “ficado tão grande”. A resposta é coisa para conversa longa, motivo pelo qual esta repórter o convida para entrar e puxar uma cadeira. Com a elegância de outros tempos, o senhorzinho atarracado realinha o chapéu no modelo newsboy (que coincidentemente significa “jornaleiro”, em inglês) e topa a conversa.

Ele nasceu no dia 18 de maio de 1946, em Maceió, capital de Alagoas, e mudou-se para o Recife ainda na infância, após perder a mãe precocemente. “Fui criado por minhas irmãs. Morava em Peixinhos [Olinda] quando um amigo do bairro me chamou para trabalhar no jornal. Era um bico, um extra”, lembra.

Francisco se atrapalha quando é questionado acerca da data de início de suas atividades no jornal. E quando a memória o trai desta forma, a voz rouca vai rareando e os olhos miúdos se espremem num esforço contra o próprio corpo. Como se estar fora da precisão das notícias, ainda hoje, o deixasse desconfortável.

"Eu sei que foi nos começo dos anos 1970, quando eu tinha uns 30 anos. A rotina era difícil, o fardo de jornal é pesado e a gente acordava muito cedo para trabalhar”, vai dizendo.

Da correria nas ruas, Francisco sente falta da camaradagem com os colegas de trabalho e das amizades que fazia pela cidade. “Aprendi a me comunicar. A gente tinha que falar com todo tipo de gente para entregar os jornais”, lembra.

Recebido no Centro de Documentação (Cedoc) do Diario, o jornaleiro reencontra, pela primeira vez, alguns exemplares históricos que distribuiu pelas ruas. Com a ponta do dedo indicador, lê atentamente cada linha da matéria “Perna Fantasma surge em moradia em Tiúma”, assinada pelo jornalista Raimundo Carreiro em 10 de dezembro de 1975, que noticiava pela primeira vez uma das mais célebres lendas urbanas do Recife.

A edição histórica foi lembrada no filme O Agente Secreto, do pernambucano Kléber Mendonça Filho, em cena que retrata o esforço dos entregadores do Diario para distribuir os folhetins ao público. “Me lembro de entregar os jornais com a capa da cheia de 1975, porque também fui um flagelado das enchentes. Eu e minha família perdemos tudo”, lamenta.

O jornaleiro, no entanto, demonstra maior interesse pelo noticiário esportivo. Pelo longo corredor de gavetas do arquivo, se demora alguns instantes diante dos documentos esportivos. Em tudo que o interessa, faz questão de deslizar calmamente as mãos, com o carinho de quem criou jeito para dar boas ou más notícias.

“Eu tenho, dentro de mim, muita sede de aprender alguma coisa”, dispara Francisco, que não sabe informar se concluiu o ensino fundamental. “Eu acho a profissão de jornalista muito bonita, porque vocês têm que saber de tudo um pouco e não podem mentir. É muito difícil ser jornalista”, continua.
Francisco deixou o jornal no final da década de 1970, para trabalhar como faxineiro. Depois, foi vigilante de uma escola. Hoje, vive com a esposa e as enteadas, que vão precisar ler esta matéria para entender o porquê de terem recebido suas marmitas resfriadas. 

A primeira entrega atrasada de Francisco, contudo, pouco importa. Extra, Extra! Desta vez, ele é a matéria do jornal. 

Texto e imagens reproduzidos do site: www diariodepernambuco com br

domingo, 9 de novembro de 2025

Diário de Pernambuco: 200 Anos de História...

Foto: Ilustração

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 7 de novembro de 2025

Em 7 de novembro de 1825 surgiu o Diário de Pernambuco, jornal mais antigo e em circulação da América Latina.

Diário de Pernambuco: 200 Anos de História e o Início da Imprensa

Em um momento crucial da história brasileira, apenas três anos após a Proclamação da Independência, a cidade de Recife, em Pernambuco, testemunhava o nascimento de um marco da imprensa nacional: o Diário de Pernambuco. Fundado em 7 de novembro de 1825, o periódico não é apenas o jornal mais antigo em circulação no Brasil, mas também em toda a América Latina, um título que carrega o peso de dois séculos de história.

O lançamento do Diário de Pernambuco, idealizado pelo tipógrafo Antonino José de Miranda Falcão, representou um passo fundamental para a consolidação da imprensa no país. Em suas primeiras edições, o jornal era um modesto folheto, inicialmente focado em anúncios e informações comerciais, refletindo a necessidade de comunicação e organização da crescente sociedade pernambucana. No entanto, sua relevância rapidamente transcendeu o escopo comercial.

 Nascido sob o regime do Primeiro Reinado, o Diário de Pernambuco acompanhou e registrou as transformações políticas, sociais e econômicas do Brasil, desde o Império até a República, sobrevivendo a revoluções, golpes de estado e crises. Sua longevidade é um testemunho da resiliência e da importância do jornalismo para a memória e a identidade nacional.

A fundação do Diário de Pernambuco em 1825 é um evento que sublinha a efervescência cultural e política de Pernambuco no século XIX. O estado, que já havia sido palco de movimentos emancipacionistas como a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador em 1824, consolidava-se como um centro de pensamento e debate, com o jornal servindo como um instrumento vital para a circulação de ideias e a unificação regional.

 Ao longo de sua trajetória, o Diário de Pernambuco se tornou um verdadeiro patrimônio cultural, registrando a vida cotidiana, a arte, a política e a economia do Nordeste e do Brasil. A data de 7 de novembro de 1825 não marca apenas o início de um jornal, mas o alvorecer de uma era para a comunicação e a liberdade de expressão no continente.

Texto e imagem reproduzidos do site: radarse com br

sábado, 8 de novembro de 2025

'A ausência de Yara', por Jorge Carvalho do Nascimento

Foto: Flávio Monteiro|Postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.

Artigo compartilhado do site JORNAL DO DIA SE, de 7 de outubro de 2025 

A ausência de Yara
Por Jorge Carvalho do Nascimento*

Ouvindo o noticiário da TV Sergipe na manhã desta segunda-feira, seis de outubro de 2025, tomei conhecimento da morte da jornalista Yara Belchior. Amiga muito querida, Yara passou a infância e a adolescência na zona norte de Aracaju, entre os bairros Dezoito do Forte e Santo Antônio. Fomos vizinhos.

Aportou por aqui ainda criança, por volta dos oito anos de idade, acompanhando os pais José de Sá e Gedalva que migraram de Salvador para Aracaju, seguindo os passos dos demais núcleos da sua grande família que tem origens no sertão do Estado de Sergipe, mais precisamente na região de Porto da Folha.

À medida que os anos passaram, a menina sapeca Yara se transformou numa adolescente viçosa, numa moça muito bonita, numa mulher exuberante., estudiosa, inteligente, numa militante política comprometida que sabia liderar. Encarnou compromissos sociais, tomou posição ideológica e se fez quadro do movimento estudantil quando ingressou na Universidade Federal de Sergipe, na segunda metade da década de 70. Ficou por lá até o início dos anos 80 do século XX, integrando o Partido Comunista do Brasil – PC do B, então na clandestinidade.

Tenho forte nas minhas lembranças a influência que Yara exercia sobre os seus irmãos mais novos (a belíssima Yracema e o inquieto Manoelzinho, ambos já falecidos). Também não esqueço a boa relação de amizade estabelecida entre Yara e a minha irmã Conceição. Eram parceiras de estudos (apesar de Conceição haver se dedicado ao campo da Matemática e Yara a Literatura), de passeios, das idas ao cinema e, certamente, das muitas traquinagens juvenis, como é natural a todos nos primeiros anos da juventude.

A jornalista Yara Belchior de Sá era psicanalista e bacharela em Letras pela Universidade Federal de Sergipe. Ao ingressar no jornalismo foi orientada por dois grandes nomes da imprensa aracajuana: Waldomiro Junior (desde o início do século XXI ele se transformou em um influente jornalista baiano, vivendo em Salvador) e Gilvan Manoel, respeitado e persistente editor da mídia impressa em Sergipe.

Yara começou sua atividade jornalística como revisora. Passou para a reportagem, atuou como “foca”, foi setorista, principalmente na área de política, cobrindo as sessões da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe. Ao longo da sua carreira de jornalista, Yara trabalhou no Jornal da Cidade, Jornal de Sergipe, Jornal da Manhã, Gazeta de Sergipe, TV Sergipe e foi correspondente da revista Veja.

Aos poucos descobriu e foi migrando para o gênero que a projetou profissionalmente – a coluna social. Foi colunista social em diferentes veículos da mídia impressa, em Aracaju. Por último, manteve uma coluna no Portal Infonet, o seu derradeiro trabalho. Sempre que eu conversava com Yara costumávamos falar sobre a vida. Ela gostava de dizer que nasceu na Bahia e foi feliz em Sergipe. Em 1996 foi reconhecida e recebeu da Assembleia Legislativa o título de cidadã sergipana.

Nos últimos 10 anos a saúde de Yara foi aos poucos ficando frágil. O corpo da mulher exuberante foi tomado pela obesidade e algumas enfermidades como o diabetes e outras doenças oportunistas que daí advieram foram aos poucos lhe tirando a mobilidade e provocando o seu afastamento gradativo do convívio social.

Tentei nos últimos cinco anos gravar com ela um depoimento memorialístico, uma entrevista sobre a sua história de vida, como gosto de fazer com as pessoas que considero importantes. Humilde, ela nunca aceitou. Se esquivava dizendo que teve uma vida comum e não tinha nada a acrescentar.

Perdemos Yara. Ela partiu aos 64 anos de idade. É hora de dizer adeus, sentir saudades e anunciar que ela nos fará muita falta.

----------------------------

* Jorge Carvalho do Nascimento, jornalista, é professor aposentado da UFS

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldodiase com br

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Morre em Aracaju, aos 64 anos, a jornalista Yara Belchior

Foto: Divulgação

Publicação compartilhada do site HORA NEWS, de 6 de outubro de 2025

Morre em Aracaju, aos 64 anos, a jornalista Yara Belchior

Por Redação

O amanhecer desta segunda-feira (6) trouxe uma notícia que entristeceu profundamente a imprensa sergipana. Faleceu, na madrugada de hoje, a jornalista Yara Belchior, aos 64 anos, deixando um legado de dedicação à informação. Ela estava internada desde a última quinta-feira em um hospital particular de Aracaju.

Yara construiu sua carreira em algumas das redações mais tradicionais do estado, como o Jornal da Cidade, o Jornal da Manhã e o portal Infonet. Na TV Sergipe, marcou época como colunista de política, sempre com análises firmes e apuradas, conquistando o respeito de colegas, leitores e telespectadores.

A notícia de sua partida foi lamentada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Sergipe (SINDIJOR-SE).

“O jornalismo sergipano perde não apenas uma profissional de talento, mas também uma voz comprometida com a transparência e a ética. Hoje, a notícia não é apenas um fato: é um sentimento compartilhado por todos que conviveram com sua trajetória”, mencionou o sindicato.

A família preferiu não divulgar a causa da morte e informou que detalhes sobre velório e sepultamento serão comunicados nas próximas horas.

Texto e imagem reproduzidos do site: horanews net

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Em crise, o jornalismo precisa de humildade

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 28 de setembro de 2025

Em crise, o jornalismo precisa de humildade.

No Dia Mundial do Jornalismo, reafirma-se seu caráter imprescindível para a democracia, e por isso mesmo é necessário que seus profissionais lutem para resgatar sua credibilidade. Editorial do Estadão:

Neste Dia Mundial do Jornalismo, é incontornável refletir sobre a interdependência entre a imprensa e a democracia. Nenhuma sociedade livre pode prescindir de informação independente, produzida com rigor, transparência e responsabilidade. Onde não há jornalismo, florescem a propaganda, a manipulação e o silêncio – e, com eles, o autoritarismo.

O jornalismo profissional sempre foi alvo preferencial dos que aspiram ao poder sem limites. Populistas de direita fazem da imprensa um inimigo a ser desmoralizado e, se possível, silenciado: Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Narendra Modi – todos recorrem à tática de acusar a imprensa de fabricar fake news para justificar suas próprias falsificações. Mas não é só a direita populista que ameaça a liberdade jornalística. Regimes autocráticos de esquerda, como os do Partido Comunista Chinês ou de Nicolás Maduro, na Venezuela, perseguem jornais independentes com ferocidade cada vez maior. O PT, por sua vez, inventou o “Partido da Imprensa Golpista”, espécie de conluio maligno dos jornais para derrubar os virtuosos governos petistas, e Lula da Silva nunca renunciou ao sonho do “controle social da mídia”, agora reciclado para a “regulação das redes digitais”.

Se os inimigos da imprensa são evidentes, não menos grave é a crise endógena que corrói sua integridade. O descrédito generalizado da mídia não se deve apenas à desinformação fabricada por demagogos e redes sociais; decorre também de escolhas viciosas dentro das próprias redações. A hegemonia progressista no jornalismo profissional erodiu a confiança de vastos segmentos da sociedade, que passaram a enxergar a imprensa não como guardiã dos fatos, mas como porta-voz de uma ortodoxia ideológica. A noção de “clareza moral” degenerou, com frequência, em moralismo militante. A busca de cliques levou a sacrificar imparcialidade em favor de narrativas engajadas ou sensacionalistas.

O problema não se restringe à esquerda. O jornalismo conservador também produziu seus desvios, que beiram o negacionismo e a fraude. O caso da Fox News, obrigada a pagar quase US$ 800 milhões por difamar uma empresa de urnas eletrônicas após a eleição americana de 2020, mostrou até onde pode levar o casamento tóxico entre desinformação, audiência e lucro. A direita radical descobriu que transformar paranoia em produto midiático rende cliques e votos, ainda que ao custo de envenenar a democracia – ou justamente por isso.

Assim, a imprensa se vê sitiada por fora e, em grande medida, corrompida por dentro: de um lado, populistas que querem calá-la; de outro, jornalistas que, em nome de causas ou da audiência, traíram seu compromisso com objetividade e rigor. O resultado é a perda da confiança pública – exatamente o que autoritários de toda cor desejam.

A saída não está em nostalgia nem em acomodação, mas em renovação. É preciso recobrar os valores fundacionais do ofício: objetividade entendida como método disciplinado de verificação; imparcialidade como lealdade aos fatos, e não a partidos; integridade ética contra a tentação de se tornar trincheira política. Mais do que nunca, o jornalismo precisa de humildade – para reconhecer erros, corrigi-los rapidamente e cultivar proximidade com o público sem se deixar capturar por ele.

Num tempo de desinformação industrial, redes sociais viciadas em escândalos e inteligência artificial capaz de fabricar realidades falsas em segundos, o jornalismo profissional é um bem coletivo mais precioso, não menos. Só ele pode oferecer à democracia uma base factual comum, sem a qual o debate público se dissolve em gritos inconciliáveis. É um trabalho árduo, mas indispensável: acender luzes onde o poder quer sombras, dar voz ao que o autoritarismo quer calar, separar a verdade da propaganda, oferecer verdades incômodas onde o público quer afagos.

Sem imprensa livre, a democracia se atrofia. Sem democracia, a imprensa é asfixiada. Por isso, neste Dia Mundial do Jornalismo, o chamado é duplo: que os governantes cessem seus ataques covardes contra os repórteres, e que os jornalistas resgatem o sentido maior de sua profissão. Só assim a liberdade de todos poderá ser preservada.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Jornal Trabalho que Transforma, com foco no interior




Publicação compartilhada do site GOVERNO DE SERGIPE, de 18 de Setembro de 2025 

Governo de Sergipe lança jornal Trabalho que Transforma com foco no interior

Projeto aposta na tradição do impresso, com linguagem simples, acessibilidade e interação digital

O Governo de Sergipe lançou nesta quinta-feira, 18, o jornal Trabalho que Transforma, publicação mensal que apresenta as principais notícias de interesse dos sergipanos. A iniciativa retoma a tradição do jornal impresso, mas com um tom contemporâneo, linguagem simples e foco no interior do estado. Idealizada pela Secretaria de Estado da Comunicação Social (Secom) em parceria com a Imprensa Oficial de Sergipe (Iose), a proposta visa fortalecer a comunicação com a população, entendendo que a comunicação não se limita à internet e que o jornal impresso segue sendo um canal de grande alcance, especialmente em regiões onde o acesso digital ainda é limitado.

O jornal também aposta na inovação: é interativo, com QR Codes que direcionam para conteúdos digitais, e acessível, oferecendo uma versão em áudio para que pessoas com deficiência visual possam acompanhar os conteúdos.

O governador Fábio Mitidieri ressalta que a publicação será mensal e chegará a todas as regiões do estado, sendo distribuído, também, nas edições do ‘Sergipe é aqui’. “O jornal vai apresentar as ações do governo em todas as áreas, da infraestrutura ao esporte, mostrando os avanços que têm transformado a vida dos sergipanos”. 

O secretário de Estado da Comunicação Social, Cleon Nascimento, destaca que o projeto é mais uma iniciativa do Governo do Estado para qualificar a comunicação com os sergipanos. “Muitos dizem que o impresso morreu, mas nós acreditamos no contrário. Quando bem produzido, com planejamento e propósito, o jornal impresso se torna um veículo fundamental para comunicar. O Trabalho que Transforma reúne o esforço integrado de jornalistas, repórteres fotográficos, ilustradores e designers da Secom, resultando em um material de qualidade textual e gráfica, que aproxima o governo da população”, considera.

Parceria 

Para o diretor-presidente da Iose, Francisco Gualberto, o jornal Trabalho que Transforma representa mais uma forma de prestação de contas à população. “É um veículo que informa sobre ações que alteram positivamente a vida do povo sergipano. É uma iniciativa que contribui para levar mais informação para os sergipanos”, destaca. 

O diretor industrial da Iose, Mílton Alves, destacou a importância da parceria com a Secom para materializar mais esse produto da comunicação pública. Segundo ele, o trabalho conjunto garante qualidade editorial e gráfica ao tabloide, fortalecendo o alcance das informações do governo. “Todo esse trabalho integrado tem como objetivo mostrar as obras e ações do Governo de Sergipe. Com a circulação do jornal a população, principalmente no interior, passa a saber o que está sendo feito pela gestão do estado”, salienta.

Para a diretora de Jornalismo da Secom, Edjane Oliveira, o jornal tem como marca a simplicidade da linguagem, sem abrir mão da qualidade editorial. Segundo ela, mais do que uma prestação de contas, a publicação é um compromisso com a boa informação. “A linha editorial do Trabalho que Transforma é pautada pela clareza e pela proximidade com o povo. Queremos que as ações que impactam a vida dos sergipanos sejam entendidas de forma simples, mas com a qualidade de texto e imagem que a comunicação pública exige”, pontua.

O lançamento do jornal integra um movimento de qualificação da comunicação do Governo de Sergipe, que já conta com múltiplos canais, como a Agência Sergipe de Notícias e os canais nas redes sociais, que diariamente produzem e divulgam conteúdos, além da revista Sergipe Mais Presente e da newsletter Mais Perto, direcionada aos servidores.

Texto e imagens reproduzidos do site: www se gov br

sábado, 6 de setembro de 2025

Mino Carta, Veríssimo e Jaguar: a resistência ao banal

Foto: Reprodução/ilustração

Artigo compartilhado do site RADAR SERGIPE, de 6 de setembro de 2025

Mino Carta, Veríssimo e Jaguar: a resistência ao banal
Por Luiz Eduardo Oliva *

Não há lugar comum mais óbvio que aquele que diz “uma perda irreparável” quando morre uma pessoa – principalmente as famosas. Óbvio porque todas as mortes são perdas irreparáveis. Mas o sentido por trás da máxima é alertar para as credenciais do morto que, pela contribuição ao seu tempo, deixa imensa lacuna. 

Nessa última quinzena, o país viu perder três grandes nomes ligados à cultura jornalística: o cartunista Jaguar, o refinado cronista Luís Fernando Veríssimo e o jornalista Mino Carta. Contemporâneos de época (nonagenários, por assim dizer - Veríssimo aos 88 anos) tinham em comum a luta permanente pela democracia, a coragem de enfrentar establishment, e o talento de nos fazer advertir e deleitarmos com as suas criações.

Veríssimo foi considerado talvez a melhor do seu tempo no gênero crônica. Unia o estilo elegante da escrita com a inventividade de personagens ricos, o humor ácido sem ser agressivo. Jaguar foi senão o maior cartunista brasileiro, certamente o mais longevo. Seu traço rápido, diálogos curtos e mordaz e o estilo incomparável. Criou o “Pasquim” que fazendo escola, foi o pai dos jornais alternativos e pautou com humor e a boa crítica, a cultura brasileira do final dos anos 60 até os anos 80. 

Mino Carta foi o mais profícuo editor brasileiro (embora nascido em Gênova, na Itália), responsável pela criação de três dentre as principais revistas no período já citado: Veja, IstoÉ e CartaCapital. Os textos de Mino eram permanente advertência, seja no combate ao arbítrio, seja no alertar sobre os perigos que rodeiam a democracia, como esses que vivemos atualmente.

Embora tempos conturbados, a geração dos três legou ao Brasil um punhado rico de homens e mulheres que através do talento e da divina vigilância contra a estupidez, nos faz lembrar Belchior quando disse: “nossos ídolos ainda são os mesmos...”. Mas, porque é cíclico, estão partindo, embora deixando-nos a herança de um legado que diz o quanto lutar – com o traço, a música e as palavras - é necessário.

A mediocridade teima em triunfar. Junto com ela o dissimular criminoso de quem quer viver compactuando com o arbítrio. O teatrólogo e poeta alemão Bertold Brecht cunhou uma frase lapidar: “Aquele que não conhece a verdade é estúpido e só. Mas aquele que a conhece e a renega é criminoso”.  Vive-se tempos em que em nome da verdade se propaga as maiores dissimulações.

Nomes como os de Jaguar, Luiz Fernando Veríssimo e Mino Carta já estão a fazer imensa falta e seriam, no simbolismo da frase que inicia esse artigo, “perdas irreparáveis” não fosse o imenso legado que nos deixam. Jaguar, Veríssimo e Mino, três guardiões da resistência ao banal, três luminares que lançaram luzes em tempos tão sombrios.

* O articulista Luiz Eduardo Oliva, é advogado, professor, poeta, e membro das Academias Sergipana de Letras Jurídicas e Riachãoense de Letras, Artes e Cultura.

Texto e imagem reproduzidos do site: radarse com br

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Jornalista Giovani Allievi morre em Aracaju

Foto: arquivo familiar

Publicado originalmente no site DESTAQUE NOTÍCIAS, em 5 de setembro de 2025

Jornalista Giovani Allievi morre em Aracaju

Giovani Allievi foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju

O jornalista Giovani Alievi morreu em Aracaju nessa quinta-feira (04) à noite. O comunicador foi encontrado já sem vida no apartamento onde morava sozinho. A família acredita em mal subido, porém como ele já estava morto quando a filha chegou, o corpo foi levado para o Instituto Médico Legal para ser necropsiado e depois liberado. Ainda não foram definidos os locais do velório e da cremação.

Enrico Giovani Allievi tinha 75 anos e, entre outros veículos de comunicação, trabalhou como redator do Correio de Sergipe e na diretoria de imprensa da Assembleia Legislativa de Sergipe. Também foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju na gestão do ex-prefeito Almeida Lima. A última atuação de Allievi como jornalista foi na assessoria de comunicação da empresa Sergás.

O ex-prefeito Almeida Lima lamentou a morte de Giovani Allievi, “amigo e jornalista que me prestou relevantes serviços, e ao povo de Aracaju como secretário de Comunicação, por ocasião em que fui prefeito. Aos seus familiares o meu testemunho de sua dignidade e a gratidão por ter bem servido a mim e ao povo de Aracaju”, escreveu o ex-gestor.

Texto e imagem reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Memória & Poder > Entrevista Mino Carta (2002)

Mino Carta (1933 - 2025)

Publicação compartilhada do site da ABI, de 2 de setembro de 2025

Morre Mino Carta, o jornalista que desafiou o poder e transformou a imprensa brasileira

Da Carta Capital, com informações da Agência Brasil

O jornalista Mino Carta morreu nesta terça-feira 2, aos 91 anos. Há um ano, Mino lutava contra os problemas de saúde, em idas-e-vindas do hospital. Na última passagem, estava havia duas semanas na UTI do Sírio-Libanês, em São Paulo.

A trajetória de Mino Carta se confunde com a história do jornalismo contemporâneo do Brasil. Aos 27 anos, aceitou o convite de Victor Civita para dirigir uma nova revista da então nascente editora Abril, Quatro Rodas, mesmo sem saber dirigir nem diferenciar um Volkswagen de uma Mercedes, como se orgulhava em dizer. Descobriria ali o talento para criar e comandar algumas das publicações mais icônicas e influentes. Lançou as revistas Veja, em 1968, IstoÉ, em 1976 e CartaCapital, em 1994. Esteve à frente da equipe fundadora do Jornal da Tarde, em 1966, reconhecido pela modernidade na paginação e pela qualidade literária das reportagens que inspiraram gerações de jornalistas. Mesmo seu maior fracasso, o breve Jornal da República, de 1979, em parceria com o amigo e mentor Claudio Abramo e inspirado pelos ventos da abertura política, é um marco do jornalismo.

Durante toda a vida, a máquina Olivetti foi a sua maior companheira. Mino abominava as novas tecnologias e vaticinava: “Um dia, os computadores vão engolir as pessoas”. Em recente entrevista a Lira Neto, lamentou os efeitos da revolução tecnológica sobre o exercício da profissão: “Em lugar de praticar um jornalismo realmente ativo, na busca corajosa pela verdade, a imprensa está sendo engolida e escravizada pelas novas mídias”. Também estava desencantado em relação ao futuro do Brasil, graças à “permanência de um pensamento medieval representado pela Casa-Grande”. De maneira franca, admitiu ter perdido as esperanças. “Não há motivo para alimentá-la. De resto, meus mestres da filosofia, como [Baruch] Spinoza, recomendam: ‘Nem fé, nem medo’. É uma boa máxima. Fé em coisa nenhuma. Medo de nada”.

Nascido em Gênova, Mino Carta faz parte da terceira geração de jornalistas da família, tradição iniciada pelo avô materno Luigi Becherucci, diretor do jornal genovês Caffaro até perder o cargo em meio à perseguição fascista. Seu pai, Giannino, foi preso em abril de 1944 devido à ferrenha oposição ao regime de Benito Mussolini, mas conseguiu fugir dois meses depois, aproveitando-se de uma revolta entre os carcereiros. Logo após o término da Segunda Guerra, aceitou um convite para trabalhar no Brasil. Por intermédio do amigo Francisco Malgeri, conheceu o industrial italiano Francisco Matarazzo Júnior, que acabara de adquirir a maior parte das ações da Folha de São Paulo e o contratou para dirigir o jornal.

Ao chegar a São Paulo com a família, Giannino descobriu, no entanto, que o emprego não existia mais. Pela legislação nacional, Chiquinho, sucessor do pai no comando das Indústrias Matarazzo, estava proibido de assumir o controle de um veículo de comunicação brasileiro. Decidido a permanecer no Brasil por temer um novo conflito armado na Europa, Carta, também bom desenhista, virou-se com a produção de capas para os livros da editora Instituto Progresso Editorial (IPE), na qual Malgeri tinha participação societária.

A primeira experiência de Mino no jornalismo veio de maneira fortuita, quando mal completara 16 anos de idade. Em 1950, o pai recebeu de dois jornais italianos a encomenda de artigos sobre a Copa no Brasil. Ele aceitou, mas, como odiava futebol, perguntou ao filho se toparia escrever os textos em seu lugar. “Como pagavam bem, eu topei, pensando em mandar fazer um terno azul-marinho em um bom alfaiate, que eu tanto desejava para participar dignamente dos bailes de sábado. A partir daí, percebi que a felicidade não era tão cara e podia ser alcançada escrevendo”, rememorou em 2008, em uma entrevista ao portal da Associação Brasileira de Imprensa.

O gênio por trás das revistas

Depois de abandonar o curso de Direito no Largo São Francisco, Mino retornou em 1956, em companhia da família, à Itália, onde passou a trabalhar na Gazetta del Popolo, de Turim. Também atuou como correspondente dos brasileiros Diário de Notícias e Mundo Ilustrado. Pouco depois, seu pai regressaria ao Brasil para assumir a editoria internacional de O Estado de S. Paulo. Na sequência, seu irmão, Luigi, aceitaria um convite de Victor Civita para trabalhar na Abril e, em pouco tempo, assumiria um cargo de direção na editora. Por insistência de Luiz, Mino aceitou liderar a equipe responsável por tirar do papel, em 1960, a versão brasileira da revista Quattroruote, de estrondoso sucesso na Itália. Sob seu comando, despontaram nomes incontornáveis do jornalismo brasileiro, entre eles José Hamilton Ribeiro e Paulo Patarra, que mais tarde o acompanhariam na fundação de Veja.

Com fartos anúncios da indústria automobilística, em plena ascensão, a Quatro Rodas obteve rápido sucesso. A experiência despertou a atenção de Júlio Mesquita Neto, diretor do Estadão, que convidou Mino a assumir a edição de Esportes, fechada nas noites de domingo, com uma inovadora aparelhagem de telefoto, que permitia a transmissão de textos e e fotografias pelo telefone. Com uma linguagem leve, oposta ao estilo sisudo do diário da família Mesquita, o semanário esportivo também inovou na diagramação, com fotos grandes e bonitas, e serviu de laboratório para o lançamento do Jornal da Tarde, igualmente revolucionário.

Ao retornar à editora Abril para lançar Veja, Mino convocou vários dos profissionais que estiveram a seu lado no Jornal da Tarde, como Fernando Mitre, atual diretor da Band, e Nirlando Beirão, editor e colunista CartaCapital até sua morte, em 2020. O convite de Civita para criar uma news magazine de inspiração norte-americana veio em 1967. Diante do desafio de fazer jornalismo político em plena ditadura, Mino impôs uma condição para participar do projeto, como afirmou em numerosas ocasiões: “Só aceitaria o convite se os donos da Abril, uma vez definida a fórmula da publicação, se portassem como leitores a cada edição, passível de discussão, mas a posteriori, quer dizer, quando já nas bancas”. O acordo foi aceito pelos patrões e vigorou até a sua demissão, em 1976.

Fora de Veja, a convite do amigo Cláudio Abramo, então diretor de redação da Folha de S. Paulo, passou a assinar uma coluna na página 2 do jornal. A temporada no diário da família Frias durou pouco, porque, logo em seguida, foi convidado a criar IstoÉ, fundada pela Editora Três, sociedade entre Domingo Alzugaray, Fabrizio Fasano e seu irmão Luiz Carta. Inicialmente mensal, a revista passou a ter periodicidade semanal e foi a primeira a publicar, em 1978, uma grande entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva, líder em ascensão do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.

A aventura do Jornal da República, em sociedade com Domingos Alzugaray, foi breve. Apesar de reunir um estrelado time, entre eles o jornalista Ricardo Kotscho e o artista gráfico Hélio de Almeida, o diário padeceu com a falta de anúncios e sobreviveu apenas cinco meses. “Não tínhamos reforços para fazer aquilo. Jornal sai todo dia, é um sorvedouro de dinheiro. É impossível comparar com uma publicação semanal”, disse à ABI. “Domingo retirou-se da parada, algumas pessoas me ajudavam, entre elas o Raymundo Faoro, que era um pensador – fundamental para entender o Brasil, aliás –, não um jornalista. Éramos seis donos da operação, mas um bando de pobretões. Até aparecer um anjo, o Fernando Moreira Salles, filho do Walther, que se dispôs a tapar o buraco do jornal e ficar com a revista. Acabamos perdendo os dois”.

Moreira Salles comprou a IstoÉ em 1981. Mino voltaria a trabalhar com Alzugaray na revista Senhor, desta vez como empregado. Nos anos 1980, comandou o programa “Cartão Vermelho”, na TV Bandeirantes, e “Jogo de Carta”, na TV Record. Retornaria à direção da IstoÉ, recomprada por Alzugaray, em 1988 e comandaria a publicação até 1993, após o impeachment de Fernando Collor, só possível pelas reportagens incontestáveis publicadas pela semanal, a começar pelas revelações do motorista Eriberto França.

A resistência em tempos de ditadura

Os problemas com a ditadura não tardaram a aparecer na vida de Mino Carta. Na primeira edição de Veja, de 11 de setembro de 1968, os militares ficaram irritados com a capa, ilustrada com uma foice e um martelo. “A matéria, escrita por mim, tratava das tensões por trás da Cortina de Ferro, como se dizia à época. A Tchecoslováquia, que tentava se libertar da dominação soviética, tinha sido invadida por tropas russas. No entanto, os milicos, de uma burrice sublime, não perceberam, na imagem da capa, a crítica implícita à violência de Moscou”, explicou a Lira Neto, autor do livro Mino Carta: Sem Fé nem Medo, recém-publicado pelo Centro de Memória do IREE.

Ainda naquele ano, a temperatura subiu com outra capa, a favor da Igreja Católica politicamente engajada, e com a cobertura do congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, que resultou na prisão de vários estudantes, entre eles o jovem líder da entdade estudantil, José Dirceu.

No ano seguinte, sob o peso do AI-5, Veja voltou a enfurecer os militares com uma capa que apresentou 150 casos de tortura nas masmorras da ditadura, descritos de forma sucinta, e três casos contados em profundidade, fruto da investigação de uma equipe de oito repórteres liderada por Raymundo Rodrigues Pereira. A revista acabou apreendida nas bancas, mas levou outros veículos a pautarem o tema.  Na edição seguinte, em uma tentativa de driblar a censura, a publicação repercutiu o discurso do coronel Otávio Costa, responsável pela propaganda do regime, de que o novo ditador escolhido pela Junta Militar, Emílio Médici, estaria disposto a abrandar a repressão. A capa ostentava o ambíguo título “O presidente não admite tortura” – o fato de não admitir, está claro, não significa que ela não exista.

A revista passou a sofrer constante assédio dos agentes da repressão, que vez por outra batiam à porta da redação para abduzir críticos do regime em suas viaturas C-14. “Fui interrogado duas vezes pelo delegado [Sérgio] Fleury, que me ameaçava: ‘Se eu quiser, fecho sua revista’. Eu dizia: ‘Minha não, dos Civita’”, rememorou.

Na mesma entrevista a Lira Neto, a última, Mino falou ainda sobre sua relação com uma fonte graduada do regime, o general Golbery do Couto e Silva, de quem se tornou próximo. “Ele era contra a censura à imprensa, enfaticamente contra. Sua verdadeira função no governo era conter Geisel, que não desejava o processo de abertura, ao contrário dele”.

Golbery não conseguiu, porém, intervir quando Armando Falcão, ministro da Justiça, intensificou a censura na redação e exigiu a demissão do jornalista e dramaturgo Plínio Marcos. Preocupado com a demora na liberação de um empréstimo de 50 milhões de dólares da Caixa Econômica Federal para ampliar a editora, Civita estava disposto a fazer esta e outras concessões aos militares.  Mino recusou-se e pediu demissão, renunciando à indenização trabalhista a que teria direito. Em tom de galhofa, o jornalista costumava dizer que Cristo foi traído por 30 moedas de prata, mas sua cabeça “aparentemente valia um pouco mais”.

Mino dizia ter sido obrigado a criar os seus próprios empregos desde a saída de Veja. CartaCapital, concebida por meia dúzia de companheiros de longa data em sua sala de estar, foi a última empreitada. Inicialmente mensal, sob o guarda-chuva da Carta Editorial, comandada pelo sobrinho Andrea, a revista se tornaria quinzenal em 1996 e semanal em 2001.

Com um ponto-de-vista diferente, em contraposição ao pensamento único dominante na mídia, a publicação acaba de completar 31 anos. Algumas reportagens se tornaram emblemáticas, entre elas os grampos do BNDES, as negociatas do banqueiro Daniel Dantas, o racionamento de energia no governo Fernando Henrique Cardoso e as denúncias, antes da Vaza Jato, dos crimes cometidos pelo juiz Sergio Moro e a força-tarefa de Curitiba supostamente em nome do combate à corrupção.

O escritor

Mino sempre abominou a ideia de uma biografia, ainda mais de uma autobiografia. Recusou todas as sugestões e apelos para gravar as próprias memórias. Boa parte de sua história de vida e reminiscências da infância estão registradas nos três romances que, de em certa medida, formam uma trilogia: Castelo de Âmbar, de 2000, A Sombra do Silêncio, de 2003, e A Vida de Mat, de 2016. O último é o mais memorialístico e tem como mote a maneira como o jornalista entendia a existência. “Tudo é eterno e nada é”, escreveu. “A questão é o tempo, como sabemos, invenção do homem. Sinto que tudo na vida ocorre no mesmo momento, como se nascêssemos mortos”. O Brasil, de 2013, condensa sua visão ferina e arguta da história do País. Crônicas da Mooca (com a benção de San Gennaro) foi escrito “sem maiores pretensões, ditadas, porém, pelo sentimento e ilustradas pela objetiva do velho companheiro de aventuras”, Hélio Campos Mello.

Lula

O presidente Lula disse que, com a morte de Mino Carta, o Brasil perdeu seu melhor jornalista. Lula deixou a capital federal especialmente para participar do velório de Mino, que ocorreu no Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros, na capital paulista. 

“É importante que a juventude saiba, se tem uma coisa que o Mino Carta é, é que ele é inegavelmente o melhor jornalista brasileiro de todo o século 20 e do começo do século 21”, disse o presidente após comparecer ao velório.

“Eu fiz questão de vir aqui porque é a despedida de um grande companheiro. E você sabe que a gente não escolhe irmão. A gente não escolhe nem pai, nem mãe. Agora, companheiro, a gente escolhe. E o Mino Carta foi um cara escolhido para ser meu companheiro nesses últimos 50 anos”, acrescentou o presidente.

O presidente lembrou da atitude de Mino quando o estampou na capa da Revista IstoÉ em 1978 – a primeira vez que Lula foi manchete principal de um grande veículo de imprensa, com o título Lula e os Trabalhadores do Brasil.

“Foi  gentileza do Mino Carta ter a disposição, em um momento importante do recomeço da luta dos trabalhadores, em fazer uma capa na IstoÉ que me ajudou e me colocou no cenário brasileiro da imprensa”, disse.

Texto e imagem reproduzidos do site: www abi org br