quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Greve dos jornalistas e radialistas de 1991 vira tema de livro


Henrique Maynart (Foto: Segrase)

Publicado originalmente no site do portal Infonet, em 11 set, 2018 17:15

Greve dos jornalistas e radialistas de 1991 vira tema de livro

‘Nem copo de cachaça, nem prato de comida – a primeira greve dos comunicadores sergipanos’, do jornalista Henrique Maynart, é a nova publicação da Editora Oficial do Estado de Sergipe – Edise.

A obra será lançada durante mais uma edição do projeto ‘Ocupe a Praça Direitos Humanos’, que acontece no dia 13 de setembro, às 17h, no Centro Cultural de Aracaju, na Praça General Valadão, Centro de Aracaju. O trabalho de conclusão do curso de Jornalismo do autor conta a história da maior greve dos jornalistas e radialistas na história da imprensa sergipana, que aconteceu entre 22 a 29 de novembro de 1991.

Após 26 anos de silêncio sobre o tema, baseados pelo medo e opressão, o autor propôs não deixar que o assunto caísse em esquecimento. Henrique se engajou na busca de informações que contam esse período através de documentos contendo atas ou reportagens, depoimentos dos comunicadores envolvidos e fotografias das mobilizações e reuniões para que, mesmo com poucos registros, as pessoas que fizeram parte desse movimento pudessem relembrar e contar suas histórias, relatando fatos que eram desconhecidos por muitos. A pesquisa foi muito difícil, conta Henrique. “Foram 25 entrevistados, as lidas no livro de atas dos sindicatos para checar todos os dados, as idas às hemerotecas do Jornal da Cidade, Jornal de Sergipe e Gazeta de Sergipe, os dados da Federação Sergipana de Futebol, até porque essa greve interrompeu a final antecipada do campeonato sergipano”, relembrou.

O autor também nos conta como escolheu esse tema, que rendeu para ele o seu primeiro livro. “Em 2013 eu encontrei o colega jornalista Cristian Góes na Praça Olympio Campos, durante nossa conversa surgiu o assunto da greve dos jornalistas em Sergipe, que havia parado até uma transmissão de um jogo realizado no Batistão. Fiquei pensando como eles conseguiram interromper toda a transmissão, porque envolve muitos profissionais – fotógrafo, repórter, quem está na redação, quem fica na cabine de transmissão, enfim, deve ter sido muito louco, porque se hoje em dia seria estranho imagine em 1991, afinal naquela época não existia a “celularização”. Acabei me interessando pelo tema e tive um grande auxílio de José Juva, meu orientador, para consolidar essa pesquisa”.

Marcos Sales, presidente em exercício da Empresa de Serviços Gráficos de Sergipe – Segrase, deixa claro sua satisfação ao publicar esta obra, pois, dentre os entrevistados que fizeram parte do movimento grevista, encontra-se o seu colega de trabalho, o jornalista e diretor Industrial da Segrase, Mílton Alves. “Sergipe tem muitas histórias para serem contadas que poucos conhecem. Esse livro nos traz a vantagem de explorar mais a memória do nosso Estado e de também conhecer um pouco da história de um grande jornalista sergipano, Mílton Alves”.

Para um dos grevistas, Mílton Alves, a paralisação foi um momento único. “Eu acho que a decisão naquele momento de reunir as duas categorias, jornalistas e radialistas, foi muito importante para que se tivesse uma macro visão do que se passava dentro das redações por esses profissionais. Para mim, àquela greve de oito dias foi algo que cravou a nossa história, o livro de Henrique resgatou isso. A greve foi maravilhosa! Quem não conhece ou conheceu, ao ler o livro vai entender isso. É um livro para ser usado e debatido em sala de aula”. E completa: “Este livro de Henrique Maynart é ouro”.

O movimento grevista iniciado pelos comunicadores não ficou apenas estagnada nos profissionais da área. O leque foi ampliado para outras categorias em busca de apoio, a exemplo de bancários, a CUT, gráficos, petroleiros e professores, que de uma forma ou de outra respaldaram aquela luta iniciada pelo grupo e entenderam a importância da paralisação. O livro é especialmente primordial para jornalistas ou estudantes e todos aqueles que se interessem pelo assunto, que é abordado na maior riqueza de detalhes.

Fonte: ascom Segrase

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Jornalista Henrique Maynart lança livro em Aracaju


Publicado originalmente no site do Cinform, em 10/09/2018

Jornalista Henrique Maynart lança livro em Aracaju

Por Fredson Navarro

Livro-reportagem narra a primeira greve dos comunicadores sergipanos

O jornalista Henrique Maynart mergulhou no passado e resgatou a história do fato mais marcante na comunicação sergipana: a greve dos jornalistas e radialistas. Maynart escreveu o livro ‘Nem copo de cachaça nem prato de comida: a primeira greve dos comunicadores sergipanos’, com todas os detalhes e a obra será lançada no dia 13 de setembro, a partir das 17h no Centro Cultural de Aracaju, na Praça General Valadão, Centro.

“Você sabia que esta greve ocorreu? Que as estações de rádio e TV tiveram suas programações interrompidas? Que a final antecipada do campeonato sergipano de futebol, protagonizada por Sergipe e Confiança, não foi transmitida? Conto todos os detalhes no livro e conto com a presença de todos para este lançamento que promete ser um grande encontro entre os comunicadores sergipanos”, convida o escritor.

Greve

A primeira obra do jornalista detalha como tudo ocorreu em 1991. “Fiquei sabendo deste momento histórico através de um bate papo com o jornalista Anderson Gois, fiquei impressionado e logo me interessei pelo assunto. Escolhi este tema para fazer meu projeto de conclusão do curso de jornalismo e mergulhei na história”, recorda.

“A ideia do projeto começou em 2013, mas foi em 2017 que fiz as entrevistas, foram cerca de 25. Entre os meus entrevistados que me ajudaram com as informações estão o presidente do Sindicato do Jornalistas de Sergipe, Paulo Souza, e o presidente do Sindicato dos Radialistas Fernando Cabral”.

Henrique buscou informações nos arquivos dos jornais impressos e foi também até o Instituto Histórico de Geográfico de Sergipe. “Encontrei registros as edições da época dos extintos Jornal de Sergipe e Gazeta de Sergipe, e também no Jornal da Cidade e Cinform. Os arquivos do Instituto Histórico e Geográfico e as atas dos registros dos sindicatos também foram muito importantes para meu projeto”, revela o escritor.

Henrique descobriu que o único veículo tradicional da comunicação da época que não aderiu a greve foi o Cinform. “O jornal pagava em dia e não aderiu a greve mas cobriu a paralisação de forma muito positiva mostrando as lutas dos sindicatos. A repercussão foi muito boa e os resultados do ato foram comemorados. A categoria avançou e passou a ser mais valorizada e respeitada, mas pecou no ponto de vista que faltou alguém para fazer esse registro muito importante. Acredito que até hoje muita gente não sabe que a greve ocorreu. Agora já temos este livro-reportagem com todos as informações”, orgulha-se.

Polêmica

O livro traz uma frase polêmica que causou uma grande indignação e desconforto entre os comunicadores da época e agora virou o tema da primeira obra de Henrique Maynart. “Em Sergipe, para comprar um jornalista ou um radialista basta um copo de cachaça e um prato de comida”. Esta afirmação, remetida nas rodas informais ao ex-deputado e empresário Viana de Assis, foi duramente combatida em uma sexta-feira de novembro de 1991. Jornalistas e radialistas, unidos, bambearam uma verdade tida como inabalável em uma greve ousada, insolente e largada pelas dobraduras do esquecimento.

Esse momento é relatado no livro ‘Nem copo de cachaça nem prato de comida: a primeira greve dos comunicadores sergipanos’. “O livro-reportagem detalha diversos acontecimentos importantes do momento histórico. Espero que todos suguem as informações para entender um pouco da nossa própria história”, finaliza o escritor e jornalista.

Texto e imagem reproduzidos do site: cinform.com.br

sábado, 25 de agosto de 2018

Revista Trip entrevista Otavio Frias Filho

Crédito: Bob Wolfenson

Publicado originalmente no site da revista TRIP, em 01.12.1992

Diretor de redação da Folha de S.Paulo, escritor, polêmico, de voz baixa e pausada, o jornalista tem o mérito de ter dado cara nova à mídia impressa brasileira

BaúdaTrip: Na edição 100 da revista, em dezembro de 1992, entrevistamos nas Páginas Negras Otavio Frias Filho. O jornalista, dramaturgo e ensaísta comandou a Folha de S.Paulo por 34 anos e renovou o projeto do jornal na década de 80. Otavio morreu nesta terça-feira (21/8), aos 61 anos, em São Paulo. Abaixo, a entrevista, pela primeira vez no site.

Encoste a cabeça no travesseiro e tente imaginar a manchete do jornal de um milhão de leitores para o dia seguinte. Pense em jogar a primeira pedra e acusar o presidente eleito com 35 milhões de votos no envolvimento em casos de corrupção - ainda nos tempos do sorriso latino, da brilhantina e das bandas de jet ski em Angra. Diretor de redação da Folha de S.Paulo, escritor, polêmico, magrinho, de voz baixa e pausada, Otavio Frias Filho tem o mérito de ter estabelecido alguns novos conceitos e dado cara nova à mídia impressa brasileira. Como todas as qualidades, entre um Hollywood e um gole de Cuba Libre, Otavio é maneiro na frente do gravador.

O que você estaria fazendo, se não estivesse aqui sendo entrevistado? Provavelmente, estaria no jornal. Normalmente, eu chego na Folha na hora do almoço, alguns dias nós temos uma reunião pela manhã, em outros, uma outra reunião por volta do meio-dia, para discutirmos os problemas do dia, principalmente de linha editorial. Saio por volta das oito, nove da noite.

E de manhã, o que você faz antes de ir para o jornal? Eu costumo acordar relativamente tarde. Dou uma espiada nos jornais - muitas vezes eu já dei uma lida na Folha de madrugada -, mas depende muito, eu levo uma vida muito sem agenda. Por exemplo, durante esse período de impeachment do Collor foi uma época de muitas reuniões...

As suas reuniões são sempre voltadas para o editorial ou você também tem reuniões de negócios com empresários? O que eu tenho, às vezes, são algumas reuniões para discutir problemas orçamentários internos. A minha responsabilidade se restringe à área editorial.

A necessidade de vender jornal pesa muito na hora das decisões editoriais? As duas coisas estão muito associadas na minha cabeça. Se você, por exemplo, fizer um esforço e investir na qualidade do produto, isso acaba resultando em aumento de venda. Então eu tenho a preocupação indireta de vender através da qualidade, oferecer serviços diferentes...

Infelizmente, o nível médio do cidadão brasileiro é baixo, e há um maior consumo de bens de baixa qualidade do que de alta qualidade. Isso não se constitui em um problema para você? Basicamente, o leitor do jornal - pelo menos dos jornais do tipo da Folha -, é de classe média. Nessa região mais rica do país, existe uma classe média bastante ampla, com hábitos de consumo relativamente sofisticados. Então, existe uma base mercadológica para que se consiga sustentar uma imprensa de boa qualidade.

Você acha que há uma função meio didática do jornal? A Folha tem tido uma influência biológica na imprensa. Hoje eu acho que a imprensa, de um modo geral, é mais crítica e apartidária  do que era em um passado recente. Isso em parte tem a ver com uma certa influência representada pela Folha, sobretudo nesses últimos anos.  

Você acha que nasceu inteligente? Desde criança eu vivi no meio jornalístico. As discussões em casa era sobre política, sobre jornal. Meu pai dirigiu a empresa e até hoje ele tem uma função de aconselhamento, de supervisão geral, e vai todos os dias ao jornal, tendo participação ativa na direção maior da empresa. Depois, quando eu tinha por volta de 16, 17 anos, comecei a ir com mais frequência ao jornal. Me aproximei do Cláudio Abramo e trabalhei durante alguns anos como uma espécie de assistente informal dele, escrevendo editoriais. Foi um aprendizado em função da experiência e da atuação do meu pai no jornal e em função desse contato mais profissional com o Cláudio Abramo.

Então, você diria que como jornalista é cria do Cláudio Abramo? Eu diria que sim, apesar de nós termos tido muitas divergências no fim da vida dele. Tínhamos uma relação muito estreita, e acabou havendo um certa afastamento.

Quando ele morreu, vocês estavam meio brigados? Eu não digo brigados. A gente tinha uma relação de cortesia, mais respeitosa, mas, ao mesmo tempo, distante, fria.

Antes de você começar no jornal, como foi sua infância? Você preferia brincar de bola na rua ou ficar em casa lendo Monteiro Lobato? Eu passei por dois colégios. Primeiro eu estudava em um colégio que era muito liberal. Aos 10 anos, eu mudei para outro que era justamente o contrário, semi-internato de padres católicos. Era bem conservador e passei a adolescência toda nesse colégio, o Santo Américo. Meu temperamento sempre foi assim mais retraído, pouco expansivo, sempre fui bom aluno. Eu joguei bola na rua, mas nunca fui desse tipo, sempre fui do mais estudioso, tímido, retraído.

Você tem uma casa em Ubatuba. Já chegou a surfar? Já, mas nunca fui bem.

Que prancha você usou? Primeiro era uma prancha canhão, enorme. Depois, foram ficando menores, mas o máximo que eu conseguia fazer era ficar em pé em cima da prancha. Eu sempre tive uma interesse pouco duradouro por esportes, nunca fui apaixonado. A última coisa que fiz em termos de esporte foi natação há alguns meses, mas parei.

Como todo pai e filho, e todo patrão e empregado, você já deve ter tido atritos com seu pai. O que é mais difícil, brigar de frente com o Collor ou brigar com o pai? Houve muitos momentos de tensão com meu pai. Mas não me lembro de ter havido nenhuma briga, porque ele sempre me deu um apoio muito grande e sempre houve convergência entre nós. Eu procuro ter uma atitude hierárquica em relação a ele. Como empresário e como jornalista, ele é uma pessoa de muito talento, apesar de dizer que não é jornalista.

Você tem medo dele às vezes? Não, porque meu pai é uma pessoa muito informal, ao contrário de mim. Minha tendência é ser mais formal. Ele é muito liberal e não respeita nenhum tipo de prerrogativa que não seja baseada em argumentos. Ele sempre discute muito abertamente os assuntos e não só admite como até gosta de controvérsias e estimula pontos de vista divergentes. Esse espírito de pluralismo da Folha, acho que tem muito a ver com dados de temperamento do meu pai.

Você acha que ele tem características de vendedor? Ele se declara um vendedor e trabalhou como vendedor na juventude dele. Traduziu livros de técnicas de venda.

Voltando à política, você já deve ter visto um cartaz de 1974, do Quércia ao lado de um Dodge Dart com os dizeres do tipo: “Esse é o vereador Orestes Quércia que chegou a São Paulo para resolver os problemas dos paulistanos”. Bem, hoje ele é quase presidente do Brasil, dono de metade do Congresso, suspeito em casos de corrupção, falam que ele é proprietário de um hotel cinco estrelas em Portugal. Nesse caso da CPI da Vasp, qual a posição da Folha? Você acredita que a redação do jornal está dando a devida atenção ao assunto, como no caso Collor/PC? A política do jornal é de ter uma atitude crítica e apartidária em geral. Sendo assim, a minha resposta é sim. Isso não significa, porém, que vamos fazer uma campanha de destruição pessoal em cima do Collor. Durante o período do “Collorgate”, um dos esforços mais intensos dos órgãos que comandam a parte editorial da Folha foi o de evitar que houvesse por um lado uma atitude de destruir o Collor a qualquer preço. E por outro lado, que houvesse um maniqueísmo fácil do tipo “O Collor é o mal, quem está contra ele é o bem”. Nós sempre procuramos ouvir o governo Collor, publicando artigos de pessoas que se alinhavam com Collor até o final, para garantir o mínimo de respiração do ponto de vista divergente dentro do jornal. Agora há indícios muito claros de que Orestes Quércia tem responsabilidades civis e criminais, que estão surgindo à medida que as investigações da CPI da Vasp estão avançando. A ideia do jornal é cobrir isso da maneira mais factual possível e dar uma dimensão de destaque editorial semelhante ao caso Collor.

Quais são as duas virtudes para um jornalista fazer parte da redação da Folha? Se fosse resumir e dizer duas coisas, diria que deve gostar de notícias e ter gosto pela novidade em si.

Quem é a Madonna da Folha? Seria necessário fazer uma eleição. Existem várias candidatas, mas na posição de diretor de redação tenho que ter uma atitude de isenção.

Essa atitude de isenção não te enche o saco às vezes? Muitas vezes, porque é uma espécie de ditadura a qual você tem que se submeter.

Quantas vezes por mês você tem vontade de mandar todo mundo à merda e sumir? Várias vezes ao longo desses anos todos.

Do que você tem medo? Como todas as pessoas, tenho medo de várias coisas. Desde os medos mais prosaicos, como medo de avião, até mais metafísicos, tipo medo de fracassar, de regredir em termos existenciais, de envelhecer. Não é uma obsessão, mas tenho medo de morrer também. À medida que você tem amor à vida, aparece o medo de morrer.

Você disse que é interessante o jornalista ter uma certa tendência esquerdista. E uma certa tendência homossexual? Você não acha que isso pode ocasionar um tipo diferente de visão de mundo, que pode ser bastante interessante profissionalmente? Eu nunca havia pensando nesse aspecto, mas acho que é possível que sim, desde que não se tire nenhuma conclusão automática do tipo “se é de esquerda, é bom jornalista”, porque isso não é verdade. Mas em tese eu concordaria, acho que tudo que predispõe na pessoa um certo espírito de antagonismo em relação ao padrão normal é um terreno fecundo para o jornalismo.

Você tem amigos homossexuais? Não.

Quantos amigos você tem? Amigos íntimos, que acompanham o que está acontecendo na sua vida, com quem você discute as coisas que estão te preocupando, são poucos.

Qual é a porcentagem das questões que te preocupam que você abre para seus amigos? Praticamente tudo. O que não abro mais é por receio de chatear e aborrecer essas pessoas íntimas do que por algum tipo de reserva.

Tem alguém com quem você abra tudo? Sim.

Você já fez análise? Já, na adolescência fiz durante um ano e meio e, há dois anos, fiz mais um período de um ano e meio.

Foi legal? Interessante. Do ponto de vista intelectual - ou mesmo existencial – é uma coisa que pode ser boa.

O que você descobriu na análise que nem passava pela sua cabeça antes? Algo que eu nunca tivesse pensado, mas que reforçou certas opiniões que eu tinha a meu respeito. Por exemplo, eu sempre tive uma auto exigência muito grande e isso é uma coisa que tem um lado positivo. Mas tem um lado muito negativo que é o de eu ficar me martirizando.

Você tem algum tipo de cuidado com o seu corpo ou ele é só um “carrinho para o seu intelecto”? Eu acho que tenho o mínimo de cuidado, como evitar comer demais, fumar demais.

Tem espelho na sua casa? Sim.

Que relógio você está usando? Um Seiko que eu ganhei.

Como é sua relação com dinheiro, você gosta de dinheiro? Eu dou muito valor ao dinheiro, acho que é uma coisa importante na vida.

Nós somos treinados para achar que o chique é ser meio despojado, não dar valor, não ser muito importante na vida um carro legal, um sapato último tipo. Você acha que foi ensinado a ser despojado? Acho que sim.

Pegaria mal, por exemplo, você ter uma Nissan Pathfinder? Muito mal.

Que carro você tem? Um Voyage.

Mas você gostaria de dirigir um carro importado? Eu não tenho essa atração. Coisas eletrônicas, por exemplo, não me atraem e eu detesto fazer compras.

Como é a televisão na sua casa? É uma que eu ganhei do meu pai quando mudei de casa em 84.

E o som? É um equipamento dessa época também, e um CD player que eu comprei posteriormente.

O que você costuma escutar? Antigamente eu ouvia muito rock, tipo Rolling Stones. De uns anos pra cá, tenho ouvido mais música clássica. Mas não sou uma pessoa muito “musical”.

Em que tipo de loja você compra roupa? Eu vou à lojas o menos possível, não tenho prazer em comprar. Me vejo adiando e adiando várias vezes quando tenho que comprar algo.

Quantos sapatos você tem? Alguns, mas eu sempre acabo usando sempre os mesmos, dois pares.

Você gosta de comprar roupa em viagem? Gosto muito de viagens, mas a combinação compras/viagem não me agrada.

Quem é o jornalista mais lido na Folha atualmente? Fazemos pesquisas periódicas e há oscilações. Atualmente rivalizam o Jânio de Freitas e o Gilberto Dimenstein.

E o caderno “Mais”, com todos aqueles blocos de texto, não deve ter índice de leitura muito alto. Isso procede? O “Mais” é um investimento institucional que o jornal faz em termos de imagem, de presença na área cultural, do que propriamente um apelo de leitura.

Como leitor, qual a parte do jornal que te dá mais prazer de ler? Uma vez me perguntaram isso e eu respondi meio sério e meio na brincadeira que era os quadrinhos. Eu sempre gostei de histórias em quadrinhos e quando eu dei essa resposta foi porque os quadrinhos são uma das poucas parte dos jornal em que não há qualquer tipo de responsabilidade. Não há erros nos quadrinhos. Então, além de gostar por causa disso, os quadrinhos são uma das poucas partes que eu leio como leitor.

E o horóscopo, você acredita? Não. A Folha cortou as palavras cruzadas. Mas em relação ao horóscopo, nunca foi cogitado nada a esse respeito.

Já é consenso que a Folha deu um pau no Estadão. As tiragens mostraram isso. Mas uma instituição de prestígio como o Estadão não acaba de um dia pro outro. Você acha que o jornal está numa curva descendente, numa trajetória definida pra baixo? É um pouco cedo para dizer isso. A impressão que eu tenho é que existe uma espécie de dilema que está corroendo o Estado: se não mudar, irá realçar esse aspecto anacrônico que possui.  A tendência, se isso for levado às últimas consequências, seria desaparecer, virar uma espécie de objeto de museu. Por outro lado, se o Estadão mudar, vai se desfigurando à medida que muda o patrimônio principal, que é sua característica tradicional. Por exemplo, recentemente eles usaram o slogan “O Estadão não é mais aquele” e a força deles sempre foi a de que o Estadão continuava sendo aquele. Esse dilema está dilacerando a identidade do jornal – apesar de que com essas mudanças todas, eles adquiriram uma competitividade que não tinham antes. Eu não acho que o conflito mercadológico entre Folha e Estado esteja decidido em São Paulo. A Folha leva uma certa vantagem, mas a coisa está longe do fim.

A Folha é hoje uma das instituições mais respeitadas e tem pouquíssimas coisas que as pessoas podem se pegar contra a empresa. As duas coisas que eu me lembro são: o negócio das assinaturas que eram para sempre e deixaram de ser e a tal história da rodoviária. Dá pra dar uma pincelada rápida nessas histórias? O caso da rodoviária foi o seguinte: antes de adquirir o controle acionário da Folha, meu pai e o sócio dele, Carlos Caldeira Filho, montaram a estação rodoviária. Era uma coisa particular, destinada a funcionar como uma sede de transferência de ônibus e de embarque e desembarque de passageiros. Era cobrada uma determinada taxa das empresas de ônibus que serviam desse local. E durante muitos anos, o Estado de S.Paulo, jornal preocupado com o crescimento da Folha, começou a combater a estação rodoviária, a meu ver, partindo da ideia de que ela estivesse financiando o crescimento da Folha. Coisa que nunca ocorreu, porque as economias das suas empresas sempre foram coisas separadas, distantes. Então hoje há muita celeuma em torno dessa questão, motivada por uma ideia, aliás, equivocada do Estadão, de que poderia atingir a Folha, se atacasse a estação rodoviária. A questão das assinaturas permanentes foi o seguinte: no final dos anos 50, numa tentativa de aumentar o capital da empresa, os então proprietários da Folha, tiveram essa ideia de emitir assinaturas vitalícias, que além disso, se transferiam para os herdeiros. A pessoa pagava uma quantidade para adquirir essa titularidade e o objetivo era capitalizar a empresa com essa emissão de assinaturas. E pode ter sido um expediente, digamos, oportuno naquele momento, no fim dos anos 50. Mas era uma iniciativa que a longo prazo, significava a empresa ter que arrastar um bônus constante. Como se fosse uma dívida eterna. E uma das primeiras providências que o Caldeira e o meu pai adotaram quando eles assumiram o controle acionário da Folha foi cancelar isso. E tivemos uma longa batalha judicial contra vários titulares dessa suposta assinatura eterna, que foram à justiça reclamar os direitos.

Então foi um erro das pessoas que tinham o jornal antes do seu pai? Acho que sim.

Onde você acha que o Estadão poderia melhorar? Olha, se eu tivesse alguma responsabilidade no Estadão faria um processo de mudanças completamente diferente do que eles fizeram. Em vez de mimetizar características da Folha e jogar na confusão de Folha e Estado – me parece que é basicamente a política deles -, eu teria feito uma organização, teria modificado procedimentos, padrões, a equipe do jornal, mas teria feito isso procurando marcar cada vez mais a imagem de que o Estado significava qualidade, enquanto a Folha significaria oportunismo, arrivismo etc. Não foi o que eles fizeram. Eles banalizaram o jornal.

Na medida que está dando dicas a eles, você considera que isso é meio irreversível, que agora eles já erraram e isso não tem volta? Não sei se é irreversível. Mas eles parecem muito interessados em qualquer tipo de ganho a curto prazo e pouco interessados no jornal enquanto instituição. Parecem não se importar no que vai ser O Estado em 1995 ou no ano 2000, 2005, e muito interessados no que vai ser no mês que vem, ou até no final do ano. Me parece uma política de curto prazo, imediatista. Eu não vejo um planejamento inteligente, uma estratégia mais de largo alcance.

Em quem você votou para prefeito? No primeiro turno eu não votei, justifiquei. No segundo anulei meu voto. Muito poucas vezes eu deixei de anular.

Quem você acha que poderia dar um bom prefeito para São Paulo ou um bom presidente para o país? Eu tenho uma atitude cética com a política em geral. Não acho que tenha grandes diferenças sendo uma pessoa ou outra. As forças de uma atuação na política são tão impessoais e poderosas que uma pessoa sozinha não tem muito o que fazer ou deixar de fazer. Não acredito que um presidente, um governador ou um prefeito possa alterar significativamente alguma coisa. O voto não deveria ser obrigatório, essa história me irrita muito, isso é um abuso. Eu anulei meu voto quase que num protesto íntimo.

Se o Maluf fosse candidato no RJ e no segundo turno sobrassem a Benedita e ele, você acha que seria a mesma coisa se qualquer um dos dois ganhasse? Eu acho que sim, embora ache o Maluf péssimo, um dos piores políticos que existem. Mas eu realmente não acredito que a política possa interferir de maneira real na vida das pessoas. É uma espécie de ficção.

E os astros, você acha que interferem? Não acredito.

Você acredita em Deus? Não.

Acredita em alguma força superior? Não.

Como você acha que é a mecânica das coisas, é tudo biológico? Eu tenho uma crença, digamos, científica. Acredito na biologia, na física. Nunca tive gosto por ciências exatas, mas acredito que as coisas funcionem dessa maneira, como a ciência diz que funciona.

E as gafes do jornal? São várias, muitas vezes essas gafes são erros.

E um erro sério que os leitores ficaram putos e mandaram cartas reclamando? Um erro que me deixou bastante aborrecido foi causado por uma repórter da sucursal de Brasília que teve acesso a um relatório de um inquérito da Polícia Federal sobre o caso Magri. Ela leu e concluiu que o relatório incriminava a construtora Odebrecht e mandou uma matéria, confirmando a informação. A Folha deu isso na primeira página e estava totalmente errado. O relatório excluía totalmente a Construtora.

A demissão da repórter também saiu na primeira página? Exato.

Você se sentiu culpado pelo erro ou pela demissão? Me senti culpado por ambos.

O que doeu mais, o erro ou a demissão? A demissão e a decisão de publicar que ela estava sendo demitida. Foi realmente um caso extremo, ela não compreendeu uma frase do relatório e interpretou ao contrário o sentido da palavra “elidir” [eliminar, suprimir, n.r.].

Os funcionários do jornal têm acesso irrestrito a você? Normalmente eu trabalho de porta aberta e sempre fiz questão de mantê-la aberta. Quem quiser falar comigo, em tese marca uma hora. É frequente eu falar com repórteres e redatores, pessoas que não têm o cargo de editor.

Qual é o seu objeto do desejo? Ser escritor é o que eu sempre quis.

Quantas mulheres você já amou na sua vida? Acho que algumas. Difícil dizer, porque cada situação é tão particular, tão específica.

Por que você nunca casou? Por várias razões eu acho. Não me adapto muito bem à rotina.

Você se adapta bem às mulheres? Eu acho que sim, mas como disse não me adapto bem à rotina. É uma responsabilidade enorme ter filho. A pessoa precisa se sentir madura e disposta a enfrentar todas as consequências de se ter um filho, e eu tenho um certo gosto por estar sozinho. Pelo menos até hoje tem sido assim.

O seu namoro mais demorado durou quanto tempo? Durou uns três anos.

Porque você nunca é visto com mulheres? Pra começar, eu saio pouco. Exceto ir a alguns restaurantes, praticamente não saio. Nunca vou a boates, raramente vou a festas.

Você assume sua namorada, apresenta para as pessoas? Sim.

Isso é para todo mundo? É, para as pessoas no círculo onde eu ando, que é um círculo de poucos. Quando saio é muito mais para jantar com poucas pessoas ou ir na casa de alguém.

Do que você acha que as mulheres mais gostam em você? Não sei dizer, acho que é uma mistura.

Você já namorou alguém do jornal? Sim.

Na sua vida teve uma mulher mais importante? Não, acho que não. É muito difícil quantificar essas coisas. É o que estava te falando antes, cada situação é como se fosse uma nova situação.

Quando você ficou a fim de alguma dessas garota, quanto tempo demorou para vocês transarem? Cada caso é um caso.

E a importância do sexo na relação? É muito importante. Tem um peso muito grande.

Você já ficou com alguma mulher só por causa de sexo? Não.

Você sente alguma dificuldade em se relacionar com as pessoas? Elas ficam um pouco ressabiadas pelo fato de você ser o Otavio Frias Filho? Acho que a minha pessoa é tão indissociável da minha imagem que seria meio ocioso ficar me preocupando com isso. Vamos supor que uma pessoa que tivesse uma determinada característica qualquer - a pessoa é um gênio em matemática, ou então tem muita sorte no jogo, por exemplo - é muito difícil para essa pessoa dissociar o que ela é dessa característica que ela tem. No fundo, isso forma um todo, então acho um pouco acadêmico ficar pensando coisas do tipo: “Será que é a minha imagem, será que é o que eu represento por causa do jornal, ou será que sou eu, pessoa física?”

Você pensa em sexo todo dia? [Risos] Não sei se eu tenho tempo. Se tivesse, acho que pensaria, sim.

Mas você consegue controlar isso, que dizer, o fato de você estar em uma reunião, e entra uma puta gata? Isso não te abala? Não. Você tem que ter uma autodisciplina, desenvolvida desde criança. Não tem nenhum problema.

E quando você está descontraído, numa festa ou na praia, o que te atrai mais no corpo da mulher? Acho que é o rosto.

Quando você sai do jornal, consegue se desligar? Sim. Eu desligo até em excesso… Se estou em férias, é uma coisa que sai da cabeça.

Você tira férias todo ano? Ultimamente, tenho procurado tirar mais regularmente. Mas houve um período na Folha - que foi de muita dificuldade interna, quando estava procurando impor minha legitimidade - que eu cheguei a ficar quase três anos sem sair.

Que outro jornal você lê diariamente além da Folha. Eu dou uma olhada nos outros jornais, e procuro ler a Folha o tanto quanto possível.

Onde você lê a Folha? Às vezes de madrugada, em casa. Às vezes, eu leio de manhã.

Você gosta de ler no banheiro? Não, na verdade eu não gosto de ler jornal. É um esforço eu ter que ler jornal.

Quanto tempo você gasta lendo a Folha de domingo? O ideal seria gastar umas duas, três horas. Mas eu nunca consigo fazer isso.

Quem você gostaria que estivesse escrevendo para o jornal hoje? Olha, o primeiro nome que me ocorre, assim quase que por uma coisa pessoal é o João Cabral [de Mello Neto, escritor e poeta].

Ele já foi convidado? Sim, ele foi convidado a escrever poemas. Mas ele é uma pessoa muito reservada, tem uma atitude meio refratária em relação à imprensa em geral.

Quantos funcionários a Folha tem hoje? A área editorial, como um todo, tem cerca de 650. Isso significa as redações da Folha de S. Paulo, da Agência Folha, das sucursais de Brasília e do Rio, duas redações menores que são a da Folha da Tarde e do Notícias Populares e uma redação bastante menor, que é o Banco de Dados. Na redação da Folha de S. Paulo, propriamente dita, devem estar trabalhando atualmente cerca de 270, 280 pessoas. Esses números só se referem a jornalistas.

Quantos têm diploma? Não sei dizer.

Você tem algum hobbie? Ir ao cinema.

Quais são os lugares que você frequenta? Olha, como te disse eu saio pouco.

Restaurantes, por exemplo? Acaba sendo uma escolha de quais são os restaurantes que ficam abertos até tarde. Varia muito. Às vezes, vou a uma churrascaria que geralmente fica aberta até tarde.

Você já saiu para dançar alguma vez? Eu não danço. A última vez que dancei, devia ter uns 19 anos. Eu também não sou um bom personagem para entrevistas.

Quais são os três erros que um jornalista não pode cometer? Eu acho que é se envolver emocionalmente com o que está cobrindo, não conhecer a própria língua e não acompanhar a mudança constante das coisas. O mundo está sempre mudando e a pessoa tem que estar “antenada” com o cinema, viagem, costumes, novas modas, novas manias…

E como você faz, já que como acabou de dizer, não gosta de viajar. Que tipo de ferramenta você usa para manter as suas antenas ligadas? Eu não me considero um modelo de jornalista. Acho que tenho vários “handicaps”, que idealmente um jornalista não deveria ter. Eu não gosto muito de viajar, e acho que um jornalista tem que ser uma pessoa que viaje bastante. Mas por outro lado eu me considero um observador muito atento das coisas. Quer dizer, eu tenho boa memória, observo muito os detalhes, leio relativamente bastante - isso em relação ao que a média as pessoas leem.

Você já experimentou maconha? [Pausa] Acho que toda pessoa tem o direito de não responder uma pergunta que a coloque numa posição de tonta ou de mentirosa.

Você acha que a maconha deveria ser tratada pela legislação de forma diferente de drogas como cocaína e heroína? De um modo geral, o consumo de drogas deveria ser descriminalizado. É um erro a política dos Estado em relação a questão das drogas. Deveria haver uma descriminalização do consumo e também mecanismos que regulassem o consumo e repressão ao tráfico.

Como você vê os intelectuais que são a favor da alteração do estado da pessoa, que defendem desde o LSD até a realidade virtual? São opções individuais. Essas decisões dependem sempre de um nível muito íntimo, muito pessoal. Não deveria haver uma coisa normativa para as pessoas de um modo geral. Depende muito de cada pessoa, da sociedade, da cultura, da época.

Você se considera um cara feliz? Moderadamente feliz. Eu me considero, hoje, mais feliz do que fui durante 30 e poucos anos.

Neste mês, qual foi o teu momento mais feliz? Foram vários. Estou passando por uma época em que me sinto muito contente.

Mas isso é profissional ou pessoal? É um pouco uma sensação de que por um lado consegui superar certos desafios profissionais mais ou menos bem. Por outro lado, é uma desenvoltura na atividade de autor, de escritor, que vejo que estou ganhando.

O seu lado profissional chega a sufocar muito a sua pessoa? Bastante.

Você está namorando? Estou.

Quantas vezes você encontra sua namorada por semana? Atualmente, muito raramente, porque ela mora na Venezuela. A última vez que encontrei com ela foi em julho.

Você é fiel a ela? Sou.

E você acha que ela é fiel? Eu acho que sim.

Ela é brasileira? Não, é venezuelana.

Você acha que casamento dá certo, tem futuro? Eu acho que se as pessoas têm uma expectativa de felicidade moderada, há uma boa chance do casamento funcionar. Como hoje em dia as expectativas de felicidade se exacerbaram muito, porque há uma ideia de muita liberdade, de muita possibilidade, de que você tenha muitas coisas ao mesmo tempo ao teu alcance, então, acho que a tendência das pessoas se frustarem no casamento é muito grande. Uma quantidade bem significativa de casais da minha geração se desfizeram bem rápido.

Você já morou junto com uma mulher? Já.

Quanto tempo? O maior período de tempo foi um ano e meio. 

Foi legal? Foi legal. Foi um pouco desgastante, mas foi legal.

Sofreu muito durante? Pouco.

Você acha que sofrimento é importante? Ou você acha que se pudesse não sofrer seria melhor? Eu acho as duas coisas. Sofrimento amadurece e se fosse possível não sofrer seria melhor.

Você consegue ser um pouco criança? Eu acho que num certo plano pessoal, sim, ao contrário das aparências.

E como é que é? Você se pega brincando, fazendo alguma bobagem? Eu me divirto com coisas com que a maioria dos adultos não se diverte. O próprio cinema, eu tenho um gosto pelo cinema que não vejo as pessoas terem.

Você está se divertindo agora durante esse papo ou é mais uma coisa profissional? É mais divertido do que geralmente são as entrevistas. Mas é uma coisa tensa, porque você está sendo submetido a questões, tem que pensar o que vai dizer. Não pode dizer as coisas impensadamente.

Em alguma situação, eventualmente um erro do jornal ou de um jornalista, ou mesmo na sua vida sexual, você teve vontade de matar alguém? Não, felizmente não.

E bater, você já bateu em alguém? Já saiu na porrada? Quando eu era criança. Brigas com colegas.

E apanhar? De mulheres, por exemplo? Felizmente, não.

Em que dia você nasceu? Sete de junho de 57.

Você é apaixonado por São Paulo? Vamos dizer que eu sou habituado a São Paulo. Não acho que seja uma cidade de extraordinária, é cheia de defeitos.

Tem alguma cidade no mundo que você gosta particularmente? Florença é uma cidade extraordinária. Paris também.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistatrip.uol.com.br

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Imprensa Oficial do Estado de Sergipe completa 123 anos hoje

Exercendo sempre o seu papel de transparência para a sociedade, 
a Imprensa Oficial por meio do Diário Oficial publica 
diariamente os atos e comunicados oficiais do Governo Estadual
Foto: Segrase

Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 24 de agosto de 2018

Imprensa Oficial do Estado de Sergipe completa 123 anos hoje

A Imprensa Oficial do Estado de Sergipe celebra 123 anos de existência nesta sexta-feira, 24 de agosto. Exercendo sempre o seu papel de transparência para a sociedade, a Imprensa Oficial por meio do Diário Oficial publica diariamente os atos e comunicados oficiais do Governo Estadual.

A história da Imprensa Oficial do Estado de Sergipe se inicia a partir da Lei 104, idealizada em 5 de dezembro de 1894,  por Manoel Prisciliano de Oliveira Valadão. Sancionada em 24 de agosto de 1895, esta Lei permitiu, somente em 1º de setembro do mesmo ano, a circulação do primeiro Diário Oficial de Sergipe.

Em 1919, o Brasão do Estado criado pelo professor Brício Cardoso, passa a ser estampado nos periódicos. Além das publicações e comunicados oficiais do Estado, o Diário reproduzia assuntos culturais, sociais, entre outros.  Após alguns anos de sua impressão, o governador Lourival Batista, por meio de decreto de Lei, transforma a Imprensa Oficial em Empresa Pública, a atual Serviços Gráficos de Sergipe (Segrase).

Nesse momento de inovação tecnológica, cada vez mais crescente e diplomática, percebeu-se a necessidade de inovar os métodos que dão acesso a essas informações. Então, em 21 de junho de 2012, por meio de um decreto assinado pelo ex-governador Marcelo Déda, o Diário Oficial entra de vez no mundo virtual, sendo lançado oficialmente em 03 de dezembro de 2012, e todas as publicações do Diário passaram utilizar a plataforma digital.

As publicações anteriores ao decreto estão arquivadas na Hemeroteca da Segrase, mantendo-as disponíveis para acesso da população. A impressão não foi absolutamente nula, alguns órgãos específicos ainda recebem o diário impresso, como por exemplo, Instituto Histórico e Geológico de Sergipe – IGHS e o Arquivo Publico Estadual de Sergipe são alguns deles, e a própria Segrase, que deixa arquivado cada exemplar em sua Hemeroteca. Pensando então em como manter esse arquivo mais acessível e conservado, um novo projeto foi aplicado à instituição. “A Segrase fez uma parceria com a Universidade Tiradentes no dia 3 de agosto de 2017, a fim de digitalizar mais de cem anos de edições do Diário Oficial de Sergipe que foram impressos. Nosso objetivo é guardar as informações para que não se perca com o tempo, utilizando os mecanismos digitais”, ressalta o presidente da Segrase, Ricardo Roriz.

Ricardo Roriz, presidente da Segrase
Foto: Segrase

“Além da diminuição da utilização do papel para impressão, contribuindo para o meio-ambiente, a transferência para as plataformas digitais trouxe uma maior aproximação com os mais jovens relacionados a assuntos que tratam dos atos governamentais do nosso Estado. Outro fator observado é a facilidade das pesquisas para os servidores públicos, acadêmicos, historiadores, pesquisadores e sociedade em geral’, conta o coordenador técnico da Hemeroteca, Wallace Santos.

A importância da Imprensa Oficial

A importância da Imprensa Oficial é múltipla e carrega em sua trajetória a memória do nosso Estado. Afinal, todos os atos governamentais somente podem ser efetuados após a publicação no Diário Oficial. E se estende das pesquisas acadêmicas, para absorção de conhecimento, até, por exemplo, a Lei do Acesso a Informação – LAI.

A Lei de nº 12.527/2011 regulamenta o direito constitucional de acesso às informações públicas. Essa norma entrou em vigor em 16 de maio de 2012. Qualquer pessoa, física ou jurídica, visto ao seu interesse, sem a necessidade de explicar o motivo, pode ter o acesso de informações públicas dos órgãos e entidades, de todos os Poderes, de toda Administração Pública e das Entidades sem fins lucrativos.

Talita dos Santos esteve na Segrase para fazer consulta aos jornais do Diário Oficial que ainda não está digitalizado. Sua pesquisa é sobre o povoado Mussuca e o Samba de Pareia. Ela destaca a importância do acervo que a empresa disponibiliza a sociedade. “Graças ao arquivo da Segrase estou tendo acesso a documentos que preciso para minha pesquisa, acredito que facilitando o acesso a informação se mantém viva a história”.

A publicação da Lei de Acesso a Informações significa uma grande importância para a consolidação da democracia brasileira e por tornar possível uma maior participação popular e o controle social das ações governamentais, o acesso da sociedade às informações públicas permite que ocorra uma melhoria na gestão pública.

A principal conduta regente a disponibilização dessas informações é: a publicidade e a transparência das informações é a regra e o sigilo é a exceção. Portanto, a informação perante a guarda do Estado é sempre pública, e o acesso a ela pode ser restrito apenas em casos específicos e por um período de tempo determinado.

Fonte: ascom Segrase

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A trajetória de um jornalista transformador

Otavio Frias Filho (Foto: Lucas Lacaz Ruiz / Futura Press) 

Publicado originalmente no site G1 Globo/SP., em 21/08/2018

Otavio Frias Filho, a trajetória de um jornalista transformador

Diretor de redação da Folha morreu nesta terça-feira (21) em São Paulo aos 61 anos.

Por TV Globo, São Paulo

Em 24 de maio de 1984, a ‘Folha de S. Paulo’ estampava um passo importante na trajetória de Otavio Frias Filho e na sua própria: a primeira capa em que o jornalista aparecia como diretor de redação.

O começo não foi fácil. O jovem, de 26 anos, enfrentou resistência interna e externa. Especialmente porque era filho do dono, Octávio Frias de Oliveira.

"A memória do meu pai é um emblema muito importante na minha vida, na minha formação", disse Otavio à GloboNews.

O início na Folha tinha sido bem antes.

"Aos 21 anos, por conta da conexão familiar”, disse Frias Filho. “Comecei muito cedo trabalhando com meu pai, trabalhei também com o Claudio Abramo, passei por diversas fases do jornal."

Naquele período, a folha já tinha começado seu processo de modernização havia dez anos, buscando ser um veículo de imprensa independente das forças políticas.

Já tinha se afastado havia uma década do apoio que, por dez anos, deu à ditadura militar.

Nos 34 anos como diretor do jornal, passou por turbulências políticas e econômicas. E um período de profundas transformações no mundo e no Brasil, que ele dizia que foram acompanhadas também pela Folha e pelo jornalismo.

"Às vezes se cobra desta folha ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro."

Mas foi sem dúvida nas mãos de Otavio que esse processo de modernização se radicalizou, se aprofundou e se consolidou.

A Folha de S. Paulo se tornou o que é hoje: um jornal radical na busca por independência e isenção.

Otavio Frias Filho, assim que assumiu o comando da redação, lançou o Projeto Folha, que transformou o jornal e foi referência para as outras mudanças.

E com esse espírito, criou um manual de redação.

O documento pregava um texto mais descritivo, rigoroso e impessoal -- menos sujeito a impressões do autor e que influenciou toda uma geração de jornalistas, professores e estudantes da profissão.

“Nós estabelecemos alguns pressupostos em termos de projeto editorial. A gente costuma dizer que a gente está empenhado em praticar um jornalismo que seja crítico, apartidário e pluralista”, disse Frias Filho em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura.

Um momento que marcou o jornal logo no início da gestão de Otavio foi a decisão de encampar o movimento pelas Diretas-Já, em 1984, que pedia eleições diretas para presidente da república após o fim do mandato de João Figueiredo.

Em 1989, a Folha foi o primeiro jornal brasileiro a implantar a função de ombudsman - um jornalista cuja função é criticar com liberdade a forma e o conteúdo do jornal.

Paulistano, Otavio dizia que a Folha ficou conhecida como o jornal dos imigrantes.

“Voltou-se para as pessoas que nasciam ou chegavam a São Paulo dispostas a abrir seu próprio caminho e encontrar seu lugar ao sol. A Folha tornou-se um espelho dessas pessoas. Incorporou sua inquietude, seu arrojo e suas ambições”, disse Otavio à TV Folha.

Nos 34 anos como diretor do jornal, passou por turbulências políticas e econômicas. E um período de profundas transformações no mundo e no Brasil, que ele dizia que foram acompanhadas também pela Folha e pelo jornalismo.

"O jornalismo se desenvolveu muito, passou a contemplar áreas que não eram objeto da atenção dos jornalistas, acho que as coberturas se tornaram mais críticas, mais incisivas, acho que houve também um avanço também dos jornais e o jornalismo de um modo geral apresentarem visões mais plurais a respeito da realidade, diferentes pontos de vista”, disse Otavio à GloboNews.

Sobre o surgimento das novas mídias, era um entusiasta.

“Elas colocam dificuldades, problemas, desafios também, mas eu acho que quanto mais plataformas e veículos e possibilidades de comunicação jornalística houver, isso vai beneficiar a sociedade e o próprio jornalismo. Haverá mais competição e a competição em si é algo de bom.”

Em 2000, participou da criação do jornal Valor Econômico, uma parceria do Grupo Folha com o Grupo Globo (veja a nota do presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo sobre a morte de Otavio Frias Filho).

Em 2016, o Grupo Globo passou a ser o único proprietário do jornal.

Frias Filho era apaixonado por teatro, cinema, literatura e dizia ser muito exigente com a própria produção.

Autor de peças de teatro e livros.

Entre eles, um infantil e uma coletânea de 25 ensaios escritos ao longo da carreira.

“Eu sempre gostei de escrever, sempre gostei de ler, sempre foi assim um tipo de atmosfera na qual eu me sentia à vontade. Existe de esquizofrenia, você acaba levando duas vidas, uma vida que é a sua atividade profissional, sua responsabilidade, seu dia a dia e uma outra vida que no meu caso eu desenvolvi esse lado autoral.”

Mas foi no jornalismo onde, sobretudo, deixou sua marca.

"Divulgar a verdade, estimular um exercício consciente da cidadania, iluminar o debate dos problemas coletivos - que outra atividade seria mais elogiável e necessária do que essa?”

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/sp

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

As lições de Otávio Frias Filho

Otavio Frias Filho, em imagem de arquivo de maio de 2013
Foto: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo/Arquivo

Publicado originalmente no site G1/blog/Helio Gurovitz, em 22/08/2018

As lições de Otavio Frias Filho

Ele teve papel crucial para a consolidação do jornalismo profissional no Brasil

Por Helio Gurovitz

Quis o destino que Otavio Frias Filho morresse uma semana depois de Claudio Weber Abramo, ambos cedo demais, ambos levados pelo câncer, maior inimigo da humanidade depois dos males do coração.

Claudio, ex-matemático que se tornara editor da primeira página e que eu conhecera graças a meu interesse por matemática, foi o primeiro a me levar à redação da Folha de S.Paulo, recém-assumida por Otavio. Naquele momento, no início dos anos 1980, ia apenas entrevistar um jornalista para um trabalho de escola. Queria estudar matemática e jamais imaginaria que, dali a poucos anos, começaria a trabalhar como jornalista naquele lugar.

“Não entendo como você foi parar lá”, me perguntou Claudio mais de dez anos depois, quando tentava me tirar do jornal para outro emprego (na ocasião, recusei a proposta). A redação erguida e comandada sob o tacão de Otavio na Folha era conhecida como péssimo lugar para trabalhar.

O regime de óbvia inspiração stalinista criava uma tensão permanente, um clima de eterna paranoia. Não havia horários nem limite, além dos biológicos, para quanto alguém podia ou devia trabalhar. “Na Folha, é assim”, era um argumento suficiente para encerrar qualquer discussão sobre qualquer assunto, da ortografia à astrofísica.

Chefes eram avaliados não tanto por talento jornalístico, conhecimento ou capacidade intelectual quanto pela disciplina no cumprimento das ordens superiores, emanadas em última instância dos memorandos ou comunicados assinados com as iniciais de Otavio, “OFF”.

“Se houvesse naquele tempo denúncias por assédio moral, estaríamos respondendo a processos até hoje”, comentava ontem um ex-secretário de redação com outro depois da cerimônia de cremação de Otavio.

Paradoxalmente, derivava desse clima a qualidade do jornalismo, preocupado obsessivamente em ser correto no relato dos fatos – notas na seção “Erramos” eram motivo de vergonha –, em ouvir o famigerado “outro lado” em todas as reportagens e em respeitar o padrão de texto imposto pelo Projeto Folha, nem sempre correto segundo a gramática, nem sempre belo segundo a estilística – mas sempre claro e objetivo segundo a “jornalística”.

O modelo crítico – notícia era sempre má notícia, tanto que criaram uma seção “boa notícia” para compensar –, pluralista, independente e apartidário imposto pelo Projeto Folha deu forma ao jornalismo profissional que, depois da redemocratização, espalhou-se pela imprensa no Brasil.

Embora o país já tivesse registrado várias iniciativas de manter distância das fontes e independência editorial – com destaque para O Globo de Roberto Marinho e O Estado de S. Paulo de Júlio de Mesquita Filho –, elas eram exceção. Foi a Folha dos anos 1980 que transformou as práticas que definem o jornalismo no mundo todo em padrão no mercado brasileiro.

Depois do Projeto Folha, não haveria mais jornais flagrantemente partidários, como a Última Hora de Samuel Wainer ou a Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda. O responsável pelo passo pioneiro na consolidação do jornalismo profissional no Brasil foi Otavio – e isso bastaria para lhe garantir um lugar na nossa história.

As ideias essenciais, ele aprendera com Claudio Abramo, o pai de Claudio Weber, preceptor de Otavio como jornalista na Folha dos anos 1970. Claudio (o pai) fora responsável por implementar o padrão de jornalismo no Estado no final da década de 1950. Trazido para a Folha, transformou-a no jornal sério que Otavio levaria ao auge. Apresentou-o às melhores redações do mundo, como o New York Times, para prepará-lo a assumir a direção da Folha.

Uma vez no cargo, em 1984, Otavio promoveu a campanha das Diretas Já e, apesar da derrota, tornou a Folha, dali em diante, o veículo mais lido e temido em Brasília. Era o jornal que líamos em casa naquele início dos anos 1980, quando pela primeira vez entrei numa redação, e em cuja primeira página aparecemos, meu pai e eu, em meio à multidão que exigia democracia no comício do Vale do Anhangabaú. Foi também o jornal onde aprendi o ofício de jornalista.

Uma lição basta para entender o estilo de Otavio. Nos anos 1990, com menos de um ano de jornalismo, fui designado para cobrir uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma das obsessões de Otavio. O então presidente da SBPC, Aziz Ab’Sáber, atacara o ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero, em entrevista que publicamos no primeiro dia da reunião.

Diante dos microfones, depois da abertura em Vitória, ele soltou um palavrão diante da reação de Ricúpero (me lembro de, incrédulo, ter conferido antes de publicar os termos exatos com Ricardo Lessa, naquela época repórter do Estado, hoje no comando do Roda Viva). Ab’Sáber ligou a Otavio não apenas para contestar a publicação do palavrão, mas para negar que tivesse dado a declaração original em “on”.

A entrevista estava gravada. Por determinação de Otavio, tive, no fim de semana, de transcrever novamente toda a fita, anotar todos os pedidos de “off” e marcar a extensão exata de tempo transcorrido entre eles e a declaração sobre Ricúpero. Perdi horas preparando um relatório detalhado, que considerava àquela altura uma mera formalidade para justificar minha demissão.

Depois de entregue e lido pelo secretário de Redação e pelo editor-executivo, fui chamado à sala de Otavio. Meu relatório e a fita comprovavam que Ab’Sáber tinha mentido. Em seu tom de voz baixo e pausado, o olhar determinado atrás dos óculos de aro escuro, a gravata também escura sobre a camisa alvíssima, o jeito metódico a girar o lápis para o alto e catá-lo com a mão esquerda (ele era canhoto), sem errar uma única vez, Otavio me deu parabéns pelo relatório. E proferiu uma lição que depois repeti a vários jornalistas que chefiei:

– Não é porque alguém, em tese, está do “lado do bem”, que deixa de mentir quando se trata de defender o próprio interesse. O importante é descobrir a verdade.

Mesmo tendo recusado a oferta de Claudio, decidi deixar a Folha algum tempo depois. Otavio ligou para minha casa (não havia celular). Disse que estava chateado, mas entendia a decisão. Respondi que jamais esqueceria tudo o que havia, apesar de todas as dores, aprendido naqueles anos.

Foram minha escola.

Uma escola cujos mestres, como Otavio ou Claudio, aos poucos se vão, vítimas do câncer ou de outros males, enquanto os que restam se veem às voltas com os desafios urgentes da era digital, o desmoronamento de negócios editoriais antes sólidos e campanhas difamatórias contra o jornalismo profissional promovidas por calhordas, escondidos sob o anonimato das redes sociais.

Uma escola cujas lições foram resumidas do modo preciso e feliz pelo pai comum a Claudio (biológico) e Otavio (profissional), Claudio Abramo, ao definir o jornalismo como “o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter”. Cabe a nós e às futuras gerações preservá-las.

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/blog/helio-gurovitz

A morte de Otávio Frias Filho...


Texto publicado originalmente no site Jornal GGN, em 21/08/2018

A morte de Otávio Frias Filho, o grande escritor que não se completou

Por Luis Nassif

Otávio Frias Filho poderia ter sido um grande escritor. Tinha talento para tanto. Poderia ter feito carreira como teatrólogo e até como pensador. O embate constante, entre ser o herdeiro jornalístico do pai e a carreira solo, atrapalhou tanto o escritor quanto o jornalista. Foi um drama que o acompanhou em todo o período em que convivi com ele.

Era capaz de discorrer limpidamente sobre o papel da mídia e os princípios norteadores do jornalismo. Mas abominava a miudeza do dia-a-dia. Não tinha paciência para ler os demais jornais, para se sensibilizar com o fogo fátuo dos modismos diários. E, embora a Folha tenha sido o primeiro jornal a ir para a Internet, não se interessou pelos novos meios. Seu conhecimento se baseava nos fundamentos sólidos de jornalismo que, muito jovem, aprendera com Cláudio Abramo.

Minha relação com ele foi complexa – aliás, provavelmente como tudo na vida de ambos. Depois de lançar as seções Seu Dinheiro e Jornal do Carro no Jornal da Tarde continuei sem espaço no jornal. Decidi procurar a Folha, que já iniciara seu movimento de renovação.

Marquei uma conversa com Caio Tulio, então secretário de redação. Para minha surpresa, apareceu o velho Otávio Frias. Relatei minha dificuldade em emplacar novos projetos no JT – tinha um de consumo e outro de informática. Frias me interrompeu, pedindo que nada falasse sobre o caderno de informática, porque a Folha já estava planejando o seu e não queria que alguma coincidência pudesse ser interpretada como plágio.

Meses depois fui convidado a ser repórter especial, junto com craques como Ricardo Kotscho e Carlos Brickman. Desde o início tentei criar uma seção tipo Seu Dinheiro no jornal. No final do ano, um conjunto de análises minhas provocou a queda do presidente do Banco Nacional da Habitação, o assunto mutuário se tornara central na mídia e Frias chegou a colocar uma breve campanha no ar explorando minhas análises. Consegui, então, a seção Dinheiro Vivo em fins de 1983.

No ano seguinte, Frias passou a pressionar Otavinho para assumir a direção de redação.  Para minha surpresa, ele condicionou sua ida a que eu aceitasse o convite para ser Secretário de Redação de produção. Mal tínhamos trocado algumas palavras no meu curto período na Folha. Tentei recusar, mas Carlos Eduardo Lins da Silva, o emissário do convite, me disse que a aceitação era essencial para Otavio assumir o cargo.

Otavinho era encantado pelo estilo Veja de jornalismo e, provavelmente, o fato de eu ter passado por lá o levou a essa posição. Argumentei que o Dinheiro Vivo dava muita leitura e não queria abandoná-la. Na verdade, desde sempre me arrepiava o ambiente de redação, os jogos de poder, de lisonja, embora no JT tivesse vivido o melhor clima de trabalho de minha carreira. Me autorizaram a contratar dois repórteres para me ajudar no Dinheiro Vivo e lá fui eu para o sacrifício.

Diariamente, quatro jornalistas tínhamos reuniões diárias com Frias, pai, para discutir a pauta: os dois secretários de redação, eu e Caio Tulio, o chefe da Agência Folhas, Dácio Nitrini, e o diretor do Folha da Tarde, Adilson Laranjeiras. Foi uma experiência inesquecível e, até certo ponto, chocante, com um verdadeiro capitão da indústria.

Frias era uma personalidade fascinante, aliás muito semelhante à de outro capitão, Victor Civita, tal como descrito por Mino Carta em artigo recente. Mas era muito mais jornalista. Frio e objetivo no trato dos negócios, era capaz de momentos de sensibilidade, especialmente na análise de caráter, do qual era especialista, e no reconhecimento do talento dos grandes nomes do passado que ele trouxe para o Conselho Editorial, como Luiz Alberto Bahia e Oswaldo Peralva.

Foi o pior período de minha vida, a convivência com o ambiente burocrático, com as quizilas de redação, os puxa-sacos, as tentativas de puxadas de tapete de um colega contra outro.

Fiquei três meses como Secretário de Redação justamente no período de maior turbulência da Folha, o do início do projeto Folha que resultou na demissão de dezenas de jornalistas antigos e sua substituição por uma nova leva. Nos almoços com os editores e Frias, éramos apenas dois – Aloisio Biondi, então editor de economia, e eu – que tentávamos reduzir o alcance do passaralho. Não adiantaria tirar 30 jornalistas e colocar 30 melhores se destruísse a cultura interna do jornal.

De nada adiantou. O passaralho veio. Aguentei uma semana o clima horrível, devo ter perdido uns cinco quilos. Na segunda-feira seguinte sai de casa com duas decisões tomadas: demissão do sindicato (do qual era diretor) e demissão da Secretaria de Redação da Folha.

A reação de Otávio foi imediata:

- Não faça isso. Você vai ficar desprotegido!

Não voltei atrás. O tempo revelaria que o novo projeto Folha foi vitorioso.

Otavio ainda fez duas tentativas de me manter por perto. A primeira, o convite para me tornar ombudsman, que recusei. A segunda, para dirigir o DataFolha, o serviço que a Folha pretendia criar, ampliando as pesquisas eleitorais, que aceitei, sem abrir mão da coluna Dinheiro Vivo.

O velho Frias teve papel central na reforma da Folha, incorporando várias inovações do Jornal da Tarde – que foi relegado a segundo plano pelos Mesquita. Mas a grande cara da Folha foi a Ilustrada, que refletia como nenhum outro caderno a nova geração que surgia das faculdades. Foi obra de Otávio, secundado por Caio Túlio Costa e Matinas Suzuki.

Na época, era curioso observar como jovens jornalistas tentavam se vestir como Otavio, falar como Otávio, ser cerimonioso como Otavio. Nesse período tornou-se, de fato, referência para as novas gerações.

Nossa relação complicou quando veio o Plano Cruzado e denunciei manobras do então consultor geral da República Saulo Ramos. Houve uma negociação entre Frias e Saulo e acabei sendo mandado embora. Tive uma última conversa com Otavinho, onde pedi apenas que mantivesse uma repórter grávida. Fui me despedir de Frias, que me disse que Otavio ficara impressionado com o fato de eu não ter pedido nada.

Ali comecei a desvendar a natureza de Otavinho. Extremamente sensível, vulnerável até, no embate com o irmão Luiz – que herdara a objetividade fria do pai -, era obrigado a seguir o figurino familiar e participar das decisões duras que cabiam ao comandante – como o de demitir colunistas -, mesmo investindo contra sua própria natureza.

Alguns anos depois, terminado o terrível período Sarney-Saulo, estava em minha cidade quando Otavio me ligou convidando para assumir a coluna de Economia. Joelmir Betting estava de mudança para o Estadão.

Foi um período de ampla liberdade jornalística, no qual a estratégia dos jornais consistia em montar sua personalidade em cima da independência e da diversidade de opiniões de seus colunistas.,

Poucas vezes Otavio interveio e apenas em questões de forma. Às vezes eu exagerava na retórica, ele ligava e perguntava se não seria melhor um texto mais sóbrio. Em geral, eram observações pertinentes.

Certa vez, o recém assumido Secretário de Redação Josias de Souza foi se queixar a ele que, em minha coluna, estava adotando linha diferente daquela da Folha. Otavio me ligou para me informar da reclamação de Josias e de sua recomendação:

- Disse para ele te ligar toda segunda-feira para você passar dicas de enfoques.

Após a saída de Fernando Collor, quando ele se tornou saco de pancada de qualquer jornalista, escrevi uma coluna comparando com os tempos de Collor todo poderoso, paparicado por todos, e mencionando, como momento de corte, o editorial de primeira página da Folha, contra Collor, assinado por Otavinho, que marcou, dali para frente, a nova postura da imprensa em relação ao poder. Recebi um telefonema emocionado de Otavio dizendo saber como me custara fazer um elogio a ele, o chefe.

Nos anos seguintes, me coloquei contra a cobertura da Folha em vários episódios de linchamentos, da Escola Base ao caso Chico Lopes, sem jamais ser incomodado. Quando lancei meu livro “O jornalismo dos anos 90”, relatando dezenas de casos de abusos da mídia, grande parte da Folha, a única observação de Otávio foi que, no abre, eu deveria mencionar o fato da Folha ter criado a figura do ombudsman. No que estava certo.

Na cobertura da CPI dos Precatórios, passei um mês andando na contramão, investindo contra a linha de cobertura da sucursal de Brasília e sendo atacado por Fernando Rodrigues, na época ligado a Paulo Maluf.

Quando terminou a cobertura, em um dos almoços do Conselho, Otavio pediu um roteiro sobre como o jornal deveria se comportar nesses momentos de catarse. Não tinha experiência jornalística, mas sabia identificar os pilares centrais nos quais deveria se assentar o jornalismo.

Quando a Internet começou a explodir, escrevi um artigo para uma revista prevendo o fim do modelo tradicional do jornalismo. Nas reuniões do Conselho Editorial da Folha – do qual participei por 15 anos – por diversas vezes falei da importância de se começar a trabalhar o chamado jornalismo de dados (não se usava essa denominação na época).

Era um conselho meramente figurativo, mas que me permitiu convivência com alguns grandes caráteres, como Jânio de Freitas, Rogério Cerqueira Leite.

Otavio pediu que eu transformasse o artigo em um paper para incluir nas discussões sobre o novo projeto Folha. Marcou um almoço para que explicasse para ele o novo tempo que surgia. Asceta, o almoço foi em uma hamburgueria perto da Folha. Disse-lhe que as informações públicas cada vez mais iriam para a Internet, que as notícias quentes sairiam na véspera, na Internet e nas rádios, o que exigiria nova posição dos jornais. Previ, inclusive, o fim das super-redações. Ele ouviu e admitiu que foi apenas por desencargo. Que não entendia, nem queria entender o novo mundo tecnológico.

Todos os que conviveram com ele se lembram com enorme simpatia de seus modos algo tímidos, formais e respeitadores. Mas tinha suas mesquinharias também. Quando finalista do Prêmio Jabuti, com uma coletânea de crônicas que tinha escrito para a Folha, reclamou com uma namorada:

- Nassif foi finalista do Jabuti porque escreve para a Folha. Eu nunca tive reconhecimento, porque sou dono da Folha.

Tempos depois, vetou as crônicas literárias no caderno de Economia.

Mas tinha razão. Era dono de um dos melhores textos que já li. Mas a função de diretor da Folha sempre o impediu de seguir sua verdadeira vocação, de intelectual solitário, inventivo, desafiador. Teve essa oportunidade quando o pai morreu e o irmão assumiu de direito a frente dos negócios – embora há tempos tocasse a aventura bem-sucedida da UOL. Foi-lhe dada a oportunidade de se retirar do dia a dia, mas não aceitou.

A perda do pai, o grande timoneiro do jornal, mesmo afastado há algum tempo da linha de frente, fê-lo perder o rumo. E, aí, cometeu o maior erro de sua carreira, quando atrelou a Folha à linha editorial da Veja e se deixou liderar por Roberto Civita, o mais indigno dos donos de mídia do país.

Antes de sair da Folha, fui atacado pela Veja e respondi através da coluna. Sofri novo ataque e, ai, veio a recomendação de não mais rebater. Ficou claro que um novo tempo surgia no jornalismo brasileiro, a era da infâmia.

Era questão de tempo para minha saída do jornal. Foi-me oferecido ficar na UOL, mas recusei. Tivemos uma última e dolorida conversa, onde o alertei para a imprudência de caminhar a reboque da Veja. Disse-lhe que um jornal líder do mercado de opinião, como era a Folha, não podia ir a reboque sequer do The New York Times, quanto mais da Veja.

Foi em vão. Nos anos seguintes, sem os conselhos sábios do velho Frias, a Folha mergulhou na aventura dos factoides e do discurso de ódio. Tornou-se uma Veja de segunda mão, acentuando uma implicância irracional que Otávio sempre devotou a Lula e ao PT. Passei a ser alvo de muitos ataques, em represália às críticas que fazia à linha do jornal.

Nos últimos anos, Otávio passou a empreender uma dura tentativa de volta às raízes, de tentar reconstituir a face perdida da pluralidade. Abriu espaço para uma diversidade contida. Mas longe da grande ousadia dos anos 80, quando o jornal entendeu o verdadeiro papel da mídia, como agente civilizatório, e ajudou a empurrar a campanha pelas diretas.

Texto reproduzido do site: jornalggn.com.br