terça-feira, 19 de maio de 2026

Clara Angélica fala sobre Joel Silveira

Post compartilhado do Facebook/Marcos Cardoso, de 18 de maio de 2026

Clara Angélica fala sobre Joel Silveira
Por Marcos Cardoso

A jornalista e artista Clara Angélica Porto Caskey, que nos deixou há poucos dias aos 76 anos (18/12/1949 – 10/05/2026), gostava da polêmica e não fugia do assunto. Nesta entrevista concedida em 12 de novembro de 2021, para um projeto sobre Joel Silveira (23/09/1918 – 15/08/2007), ela conta tudo sobre sua relação com o consagrado jornalista sergipano, de quem foi secretária adjunta na Secretaria da Cultura no governo de Antônio Carlos Valadares (1987 – 1991). 

Como você conheceu Joel Silveira?

Clara Angélica - No primeiro governo de João Alves (1983-1986) teve uma solenidade no Cacique Chá e o governador me apresentou a Joel Silveira. Eu já o conhecia de nome e já o reverenciava, então fiquei assim... E ele prestou atenção em mim, ficamos conversando e ele sempre me procurando, com um copo de uísque na mão, e a gente ficava trocando conversinha miúda. Aí teve um almoço e ele me convidou, era um almoço para o qual eu não tinha sido convidada. Um almoço oferecido a ele, provavelmente oferecido pelo governo. Nesse almoço, me fez sentar ao lado dele e ficamos conversando muito e trocamos telefone.

Joel de vez em quando me telefonava. A gente batia uns papos maravilhosos, ele tinha um senso de humor ferino, único e inteligentíssimo. Eu adorava aquela inteligência.

Eu sempre ia ao Rio e ficava hospedada na casa de meu irmão, Airton Porto, do primeiro casamento de papai, junto com Nino Porto. Ficava também na casa de Paulo Nou, que também morava no Rio nessa época, em Laranjeiras. Um dia fui  visitar Joel. Ele queria porque queria que eu ficasse na casa dele, porque eu era a mulher mais maravilhosa de Sergipe e me apresentou ao filho, me apresentou à filha e a dona Iracema.

Eu disse que estava na casa de meu irmão e na casa de Paulo Nou (ele conhecia o velho Paulo Nou, que foi desembargador). Então ele ligou para meu irmão: Aqui quem fala é Joel Silveira e quero sua permissão para Clara Angélica ficar na minha casa. 

Ele me tratava como uma filha, me mimava. Mandava preparar um banho de banheira e botava sais maravilhosos, importados e mandava: Vá tomar banho! Eu dizia, Joel, eu não estou suja. Aí eu ia e encontrava aquela surpresa no banheiro, aquele banho, com pétalas de rosa. E dona Iracema: Ele só faz isso com as pessoas que ele mais gosta. Ele tinha esse lado completamente carinhoso – apesar de falar como se tivesse dando ordem.

Eu me sentava aos pés dele para ele contar histórias. No apartamento, tinham quadros até no teto. Ele tinha tantas obras de arte que não cabiam mais nas paredes, cobertas de quadros até no rodapé. Ele dizia: Não tem mais espaço, mas aqui eu fico me deliciando com meus quadros. Era uma pessoa diferente. O apartamento não era nada luxuoso, mas era muito confortável.

Ele adorava aquele joelho de porco, chucrutes, daquele restaurante famoso (?), entre o Leme e Copacabana, era um restaurante muito famoso, frequentado por Rubem Braga e os jornalistas todos. 

Ele se comunicava muito com Rubem Braga e uma vez Joel marcou um encontro meu com “Bragueta”, numa lanchonete, um lugar onde as pessoas tomavam um drinque no final da tarde. E Rubem Braga me disse: Joel só fala de você. Porque você é uma mulher bonita e inteligente.

Através dele, conheci Nana Caymmi, que ele dizia ser uma mulher horrível, apesar de cantar maravilhosamente: Vive na chefatura porque briga com as empregadas e eu tenho que conversar com o delegado pra deixá-la ir pra casa. É doida, mas é filha de Dorival Caymmi, que é meu amigo.

Ele era amigo de todo mundo e todo mundo era amigo de Joel. Mas também brigava com todo mundo. Ele tinha uma personalidade complexa. Alguma coisa nele era inexorável, era antagônico: ao mesmo tempo que tinha uma suavidade, tinha uma raiva. Joel se complementava em si mesmo. Ele se bastava. Ele tinha grande generosidade, mas o resto tinha que se comportar como ele queria. Mas era muito carinhoso com as pessoas que estavam passando dificuldade. Ele me apresentou a Mauritônio Meira, que fazia a Revista Nacional. Nessa época ele não tinha relação de amizade com ninguém de Sergipe.

Eu tive uns seis anos de amizade com Joel. Quando fiz uma cirurgia de miopia ele disse que eu ficaria na casa dele porque ele e Iracema iriam cuidar de mim. Eu contava as coisas para Luiz Eduardo Costa e ele dizia: Esse velho tem tesão em você. E eu respondia que ele me tratava como uma filha.

E como aconteceu o convite para Joel ser secretário da Cultura de Sergipe?

CA – Quando Valadares foi eleito, em 1986, LEC vem falar comigo, que estava precisando de mim. Nós fomos sócios no jornal O Quê por dez anos. Ele perguntou: O que você acha de ser criada a Secretaria de Estado da Cultura? Eu achei a ideia maravilhosa, ainda não havia uma Secretaria da Cultura. Mas ele disse: Mas pra isso eu preciso da sua ajuda. Pra trabalhar na equipe, ajudar a estruturar a secretaria, eu estou disposta, respondi.

Ele disse que Valadares deu uma condição pra criar a secretaria: Ele quer que Joel Silveira venha ser o primeiro secretário de Cultura do Estado de Sergipe. Eu respondi: Não está vendo que Joel não vem? Ele vai sair do Rio, daquela vidinha de quem já fez muito e agora quer só os louros? O uisquinho dele, escrever quando quer, você acha que ele vem?

Luiz queria a secretaria, Valadares impôs a condição e a secretaria seria criada exclusivamente para abrigar Joel Silveira. Já havia a Fundesc criada por João Alves.

Eu me convenci e fui para o Rio. Cheguei pra ele e disse: Jojoquinha, eu tenho uma batata quente aqui para jogar em cima de você. Ele conhecia Paulo Costa, o pai de Luiz. Falei do sonho de todos ligados à cultura e às artes de Sergipe e ele: Onde é que eu entro nisso? Você quer o meu endosso? Eu disse, não. Nós queremos que você vá ser o primeiro secretário da Cultura de Sergipe. Eu vim aqui lhe pedir, porque isso vai dar o empurrão necessário para que o governador eleito crie a secretaria. Aí ele colocou obstáculos, disse que mesmo que aceitasse Iracema não ia querer sair de perto dos filhos.

Mas todo dia a gente conversava sobre o assunto. Eu disse: estou autorizada a lhe dizer que você vai morar onde quiser, num apartamento todo mobiliado, no nível do seu aqui, com todo o conforto, você faz uma lista das exigências e tudo vai ser feito. Aí quando dona Iracema escutou essa coisa, dona de casa, veio logo dizendo: Se eu for vou querer talheres do diário e de visitas, copos do diário e de visitas, carro, motorista, empregada da semana, empregada do fim de semana, apartamento montado, roupa de cama. Nós só levaríamos as coisas pessoais, nossas malas.

Eu expus para Luiz e ele falou com Valadares. E o governador eleito dizia sim a todas as exigências. Ficaram de se reunir com Elizabeth, a filha que participava de todas as decisões familiares. O outro filho é Ismael. A menina dos olhos dele era Elizabeth. Ela era muito inteligente, personalidade forte.

Então Elizabeth fez o enunciado das exigências do casal, considerando a idade da mãe, a idade do pai, médico e despesas médicas pagas, segurança em todos os sentidos. Eu pensei, tá na hora de voltar para Sergipe, já tenho uma proposta.

Conversei com Luiz Eduardo. Se prepare porque tem que ser um bom prédio, em área nobre, porque dona Iracema não vai deixar isso barato. Ele conversou com Valadares, que coçou a cabeça, mas não resistiu à grande honra de ter como primeiro secretário de Cultura de Sergipe, da secretaria que ele estava criando, o grande Joel Silveira, um nome nacional. Valia o investimento.

Joel também exigiu que você estivesse ao lado dele?

CA – Uma das exigências de Joel foi que eu fosse a secretária adjunta dele, porque eu seria a parte executiva.

Eu fiquei preocupada porque sabia que ia chegar tanta flexa na minha direção, como chegou, de Amaral, de Lu Spinelli, pessoas que sempre fizeram parte do meu amor, mas sempre me atiraram flexa, porque eu cheguei dos Estados Unidos e fui considerada uma intrusa por algumas pessoas. Eles dois eram os mais proeminentes. Ilminha (Fontes) também, que era muito minha amiga, mas quando eu cheguei aqui me proibiu de trabalhar com carteira assinada. Ganhei em competição para ser a apresentadora regional do TV Mulher e ela disse que se eu aceitasse a nossa amizade acabava ali. Eles não queriam que eu me destacasse, tinha vindo dos EUA, tinha passado por Harvard, onde estudei produção teatral. Eu não entendia isso. Ela escreveu na Folha da Praia: “Clara Angélica = CA = Câncer. Só que o câncer evolui”. Fernando Sávio ficou correndo atrás de mim, me procurando. Cheguei no Olímpio Campos e me disseram: Fernando Sávio saiu daqui agora com um jornal na mão, lhe procurando, não quer que você leia jornal nenhum até você encontrar com ele. A gente se cuidava, eu cuidava dele e ele cuidava de mim. Ele disse: eu não queria que você lesse o que Ilma escreveu sem eu estar junto de você. Quando eu li eu vomitei na hora, da dor que eu senti. Eu tenho muito remorso disso, tenho muito remorso. No dia que Ilma morreu, eu estava ali na rede, quando eu soube na minha cabeça veio: o câncer evolui sim. Aí entrei num pranto desconsolado. Pedi desculpa a Deus por aquilo. E entrei num luto de alma por uns quatro dias.

Eu disse para Luiz: como dona Iracema vivia em torno de Joel, então ela aproveitava essas situações para ser, e vai ser com exagero. Escolheram um apartamento no Condomínio Sílvio César Leite, esquina da avenida Barão de Maruim com rua Itabaiana, no sexto andar. Joel e dona Iracema me incumbiram dos móveis, eu ligava, descrevia, como era a sala, que era muito parecida com a deles. Sofá, quarto de hóspedes, quarto de Elizabeth e o marido, quarto do neto e a suíte deles, até as panelas, talheres e copos de cristal. Tapetes, uma casa inteira.

Ele chegou primeiro sozinho, Elizabeth é quem viria trazer a mãe depois, pra examinar tudo e aprovar ou não.

A posse dele foi linda, logo depois de o governador assumir. Foi o tempo de montar o apartamento, o que só poderia ser feito depois que o governador assumisse. Valadares criou a secretaria, colocou um diretor financeiro, para montar a estrutura administrativo-financeira, também botou como chefe de gabinete uma pessoa dele. E eu contratei o músico Irmão, que era economista. A Secretaria ocupava um andar inteiro do edifício Walter Franco.

Como foi a experiência de trabalhar com Joel Silveira?

CA - Ser adjunta de Joel não era ser adjunta de qualquer um. A gente ia para Brasília, para uma reunião do Conselho de Cultura, e José Aparecido, que era governador de Brasília, fazia uma festa pra Joel, nas Águas Claras, que vinha Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro, os amigos de Joel, Gilberto Gil, que era presidente da Fundação Cultural da Bahia, Capinam, que era secretário de Cultura da Bahia, que ia com a “Clara Angélica” dele, que era uma negra alta, linda, muito elegante. 

Quando Joel e Capinam estavam conversando, que ele nos apresentou, ele disse, se dirigindo a ela: pronto, você é a Clara Angélica de Capinam, já entendi tudo. 

A ex-ministra da Educação Esther Marcondes Ferraz estava sentada ao lado dela e Darcy Ribeiro só de olho em mim, aí se aproximou com um cálice de vinho, e a ministra olhou pra mim e disse: Você é secretária de alguma dessas autoridades? Eu disse quem eu era, Darcy se aproximou, brindou comigo e me chamou para completar as taças de vinho. E já saí tietando: Que honra Darcy, você nem sabe como eu gosto de você! Ele era muito galanteador, carismático, um homem lindo. Me convidou para jantar com ele, mas Joel não permitiu: Ela não vai não, está muito ocupada, é minha executiva e não posso ficar nem um jantar sem ela.

Foi um período de pessoas proeminentes cuidando da cultura nos seus estados, Beth Mendes em São Paulo. E José Aparecido era amigo íntimo de Joel Silveira. Ele botava uma van com motorista nas mãos de Joel, que não saía de noite. Então eu tinha a van para levar a galera toda, Gil, Capinam, Beth Mendes, Jorge Mautner. Muita coisa foi criada naquela época, no governo de Sarney. Politicamente ele é equivocado, mas é um homem brilhante.

Estruturamos a Secretaria da Cultura e Amaral muito puto, porque ele, como presidente da Fundesc, quando vinha despachar com o secretário, Joel me chamava e dizia: Resolva com a Clara Angélica. Peça a ela, se ela concordar... Aí Amaral morria, queria me matar.

Não importava o que eu fizesse, sempre saía como a ruim. Tinha o lado pessoal, porque eu trabalhava na Secretaria da Cultura, das 8h às 18h ou 19h. No início foi muito pesado.

Dona Iracema passava um mês aqui, que era um mês maravilhoso, e três meses no Rio, porque ela não conseguia ficar longe da filha. Ela me dizia: Clara, você cuide de Joel. De noite tem que ter a jarra de água com muito gelo na mesa de cabeceira de Joel, porque ele bebe água a noite inteira. Então todo dia eu passava e dizia à empregada, mas tinha que passar para conferir. A essa altura eu já era amiga de João, irmão de Joel, dos filhos, e Joel adorava meus filhos.

Eu dizia a ele: Joel, eu não venho aqui hora nenhuma sozinha, porque Aracaju é cruel e as histórias surgiam. Então sempre que precisar de alguma coisa de noite eu venho com mamãe e se for durante o dia venho com os meninos. Uma vez mandou o motorista me pegar no final do expediente e dizia que tinha um assunto importante e uma surpresa para mim. Cheguei lá ele estava na mesa com minha mãe e meus filhos tomando sopa. Ele mandava buscar mamãe e os meninos porque sabia que eu não subia sozinha. Eu ia morta de cansada, porque ainda fazia o jornal, cuidava da minha família etc.

A gestão de Joel durou pouco mais de um ano. Eu fiquei um ano e depois que saí ele ficou menos de um ano.

O secretário Joel era uma figura decorativa?

CA – Não, ele discutia comigo as questões e junto decidíamos. O que ele não estava bem a par ele queria saber de mim. O que ele conhecia e já tinha uma opinião formada ele dizia como deveria ser feito. Ele era participativo e todos os dias estava lá, eram raros os dias que ele não ia. A realização maior nesse período foi a criação da Secretaria, estruturar o setor Cultural.

Ainda tinha os sábados à tarde, que ele queria passar no sítio com Jocelino Emílio de Carvalho, que foi uma figura proeminente, presidente da Energipe. Era amigo de infância. Morava na rua Propriá. Ele queria minha presença nos fins de semana também. Os meninos ficavam correndo no sítio e eu acompanhando as conversas deles, a inteligência dos dois. Eu adorava, mas eu não tinha mais vida. No domingo, Jojoca não queria ficar só. Então íamos eu, mamãe e os meninos almoçar e passar a tarde de domingo com ele. Era um full time job.

Eu comecei a me sentir muito sufocada, fiquei sem vida. Era um problema levar meus filhos para um teatro e ele queria botar o motorista, mas eu não aceitava porque não queria ser vista com carro oficial. Eu ia com meu carro para o teatro, o Centro de Criatividade, e ele mandava o motorista para ver se eu já estava vindo. Sábado de manhã, quando não ia para o sítio, passava o dia no Parque dos Coqueiros bebendo uísque e eu com os meninos na piscina.

Aí recebia pessoas do Rio que se hospedavam lá, Mauritônio Meira veio passar muitos fins de semana. Vinha João Silveira com a filha e o neto, que ficava brincando com meus filhos. Então eu não podia nem dizer que ficaria um sábado em casa com meus filhos. Quando eu não estava na secretaria ou no jornal, estava de dama de companhia de Joel.

Aí eu fiquei assoberbada de coisas. Não era nem com o trabalho, era com a obrigação de cuidar de Joel. Dona Iracema vinha passar uns dias aqui e ia embora ficar com a filha.

E aquela desconfiança de Luiz Eduardo Costa, de ele ser apaixonado por você?

CA – Um dia eu saí com umas amigas, botei um macacão de listrinhas, fui a um barzinho. E eu dizia: eu quero um marinheiro para me salvar! Eu queria uma aventura. E chegou um indivíduo, de currículo meio duvidoso, mas bastante gostoso, aí as meninas disseram: Clara, chegou o marinheiro que você queria. Era uma figura bem underground.

Tive um caso com o marinheiro caladinha, escondido. Não durou dois meses, mas ele era uma figura popular, que conhecia esse povo todo. Eu não era de aventura, sou muito romântica, casei muito cedo, passei 12 anos casada e me acostumei com esse tipo de relação, de namorido.

Aí foram contar a Joel. Ele não acreditou, porque Clara Angélica era a Deusa, perfeita, não era uma mulher de pecados. É a minha filha adotiva. Na realidade, era um amor platônico. Mas era um amor, uma paixão.

Então ele não acreditou que a Deusa imaculada tivesse um caso com um cara que era conhecido por ser drogado. Mas eu tive. Eu estava sugada e foi uma válvula de escape. Um dia Joel marca um almoço com Jocelino Emílio de Carvalho, no restaurante Panorâmico, na praça Tobias Barreto.

Joel tinha uma cabeça maravilhosa, mas era um homem conservador. Era antagônico, complementar e se bastava. Era complacente, tinha a generosidade de levar pra casa um amigo que tivesse em dificuldade.

No almoço, Jocelino me disse: Joel está muito triste com você. E eu, falando para ele: Joel, por que você está triste comigo? Eu continuo me dando na Secretaria, só falto dar o meu couro, continuo lhe dando atenção, continuo indo com você para o Parque dos Coqueiros, tudo que você precisa eu estou junto, em que eu mudei?

E Jocelino: Joel não está se sentindo confortável com um disse-me-disse a seu respeito. E eu: seu Jocelino e Joel, vamos deixar uma coisa bem clara: Eu sou Clara Angélica, sempre clara e nem sempre angélica. Estou fazendo uma coisa que não é nada angelical, mas é clara. Estou curtindo uma aventura. Quantas aventuras os senhores já curtiram na vida? Sou solteira, sou jovem, estou curtindo uma aventura e no momento estou mergulhando de cabeça. Aí foi aquele almoço contrariado.

Uma vez, o tal do indivíduo apareceu lá na Secretaria e não tinha nada a ver dele aparecer. Foi um tititi na secretaria, que todo mundo já sabia, que Amaral já tinha espalhado por tudo. Nossos gabinetes eram ligados por um corredor privativo e as portas ficavam abertas. Mas a partir desse almoço ele passou a deixar a porta fechada e eu só ia quando ele me chamava, que era toda hora! Mas avisaram a Joel e ele veio pela porta privativa, olhou, fuzilou, bateu a porta, bateu a segunda porta e voltou para o gabinete dele. Eu mandei o rapaz embora e não quis mais ver. Porque apesar das fofocas eu mantinha a coisa privê e aquilo tinha que ser respeitado.

Joel foi falar com Valadares e pediu minha cabeça. E não quis mais falar comigo. João Silveira estava aqui, foi falar comigo, para conversar sobre o assunto. Eu contei tudo a João. E ele: Joel não admite isso, ele só admitiria se você tivesse um namorado oficial, e assim mesmo seria uma briga, porque Joel lhe tem como uma deusa imaculada. Eu disse: Eu tenho direito. E ele: mas é que Joel é louco por você. E eu: mas aí é uma equação de solução íntima dele.

Ele me deu a condição de eu terminar a aventura, que eu já tinha terminado, mas não aceitei a condição. Fiquei com uma assessoria de Luiz Eduardo, a convite dele.

Mostraram para ele também uns nus artísticos fotografados por Marinho Neto. Até isso fizeram.

Depois que saí da Secretaria da Cultura, nunca mais vi Joel. Fim de 1987 para início de 1988.

E quanto à história, que virou folclore, de que ele gritava pelo seu nome?

CA – Aí Lu Spinelli e Amaral Cavalcante passaram a ser visitas constantes de Joel. Luciano Correia também. Iam também para o Parque dos Coqueiros e Joel, com saudade de mim, falava meu nome: Eu quero Clara Angélica. E ninguém entendia. O que você quer, Joel? Entendiam Laranjeiras, acarajé...

Contam que ele mandou me buscar em casa de noite e eu fui de camisola encontrar com ele, mas isso não é verdade. Fernando Sávio ligava pra mim: Ele está aqui louco, venha porque ele quer lhe ver. E eu: Não vou não. E Fernando, direto do hotel: Ele está chorando, sofrendo demais. Bêbado e com remorso porque sabia que eu não merecia. E ficou sabendo que eu terminei aquela aventura no dia que ele me viu com o rapaz lá.

Eu sentia muita saudade, mas ele era vingativo. João Silveira ficou meu amigo e sempre vinha me ver: Um dia ele me contou que uma revista foi entrevistá-lo e ele disse que saiu daqui por causa de você. E que a revista iria me procurar. João disse que Joel pediu a ele para me avisar. A revista veio, foi lá em casa, contei que o convite a ele para ser secretário foi através de mim, ele aceitou, fez as exigências, que foram cumpridas, e fiquei com ele no primeiro tempo para ajudar a estruturar a secretaria. E me perguntaram: houve alguma coisa entre você e Joel. E eu disse que pessoalmente não, o que houve foi fofoca de cidade pequena. Eles publicaram alguma coisa maliciosa, como se eu tivesse traído a confiança dele.

Joel morreu sem que tivéssemos tido mais nenhum contato. Eu estava morando em Nova York e fiquei muito sentida, mas não entrei em luto profundo, porque fiquei muito magoada. Não consegui desmagoar, porque não tive tempo, como tive com o poeta, como tive com Lu. Com Ilma eu não consegui desmagoar. Ela me procurou muito, na superfície, se encontrava comigo, me abraçava, me beijava, mas foi muito duro o que ela fez.

Eu tenho certeza que essa mágoa com Jojoquinha acabaria, porque era um carinho muito grande, era amor. 

Texto e imagens reproduzidos de post do Facebook/Marcos Cardoso

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Clara Angélica e o lugar onde ela recolhia alegria

Clara Angélica: sorriso que muito e a muitos iluminou!

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 17 de maio de 2026

Clara Angélica e o lugar onde ela recolhia alegria
Por Eduardo Almeida * (Coluna JLCultura)

Tivéramos uma relação profissional na Gazeta de Sergipe. Mais tarde eu me mudei para o Cinform achando que já sabia tudo. Uma imatura reportagem feita por mim, sobre colunismo social, azedou a nossa relação, que não era de proximidade, mas respeitosa.

A partir daí, nunca mais arriscamos nem um simples cumprimento nas raras vezes em que nos vimos, casualmente. Clara Angélica Porto se foi e com ela foi-se a minha esperança de um dia tudo se ajeitar.

A Gazeta era uma escola de jornalismo – combativo e polêmico. Por lá passaram nomes como Ancelmo Gois e Ivan Valença. Os editoriais de Orlando Dantas faziam tremer o mundo político sergipano pelo prestígio e influência do jornal.

Foi na Gazeta que me fiz repórter e onde conheci Nino Porto, responsável pela coluna Informe GS e irmão de Clara Angélica. De Nino fui amigo até a morte dele, já aposentado do ofício.

Daquela reportagem não me lembro bem. Mas, no geral, procurava colocar o colunismo social no rol das frivolidades humanas. Clara Angélica nunca me perdoou por essa ignorância. Ela que à época era dona da prestigiada coluna social da Gazeta de Sergipe. Tinha razão.

A Gazeta não resistiu aos humores do mercado e fechou. O Cinform deixou as bancas e foi abduzido pela era digital. E a vida continua, com suas entrâncias, suas escolhas, suas lições, seus aprendizados e seus significados.

Clara Angélica passou, mas não vai passar o que ela cultivou entre os vivos: a crônica aguda, a voz afinada, a mulher convertida ao conhecimento e um sorriso genuíno que irradiava afeto e confiança.

A propósito, ela dizia: “E me pergunto de onde vem tanta alegria. Vem de mim mesma. Vem lá de dentro, do lugar onde recolho alegrias. E uso tudo que tenho. Alegria, então, não deve ser desperdiçada, mesmo quando nem sei de quê. É minha, a alegria. Sai da minha tristeza. Do mesmo lugar. Mesmo lugar de mim...” Evoé.

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* É jornalista.

Texto reproduzido do site: jlpolitica com br/colunas/jlcultura

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Este foi Joel Silveira

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 14 de maio de 2026

Mistura de jornalismo com literatura dá certo

Víbora, o repórter que escrevia com tinta de sangue e literatura. Este foi Joel Silveira

Por Valter Albano *

Houve um tempo em que o jornalismo brasileiro não se contentava apenas com o “quem, o quando e o onde” comum dos leads. Houve um tempo em que a notícia precisava ter alma, ritmo e uma pitada de veneno. No centro dessa era dourada, estava um sergipano de olhar arguto e texto afiado.

Seu nome era Joel Silveira, apelidado de A Víbora. Nascido em Aracaju em 1918 e criado em Lagarto, Joel Silveira se transformou em cidadão do mundo e levou do Nordeste uma sensibilidade aguçada para as injustiças sociais e um vocabulário que se recusava a ser meramente funcional. Protocolar.

Quando desembarcou no Rio de Janeiro na década de 1930, trazia na bagagem a audácia dos que sabem que a palavra é uma arma. Foi nas redações mantidas por Assis Chateaubriand que ele ganhou o apelido que o acompanharia para sempre: A Víbora.

Não por maldade gratuita, mas pela precisão cirúrgica com que desmascarava a hipocrisia das elites. Seu texto não apenas informava. Picava, incomodava e, acima de tudo, encantava pela beleza literária.

O divisor de águas da trajetória profissional de Joel Silveira foi a Segunda Guerra Mundial. Enviado para a Itália para cobrir a Força Expedicionária Brasileira - FEB -, Joel não buscou apenas a estratégia dos generais. Ele buscou o homem acossado pela grande guerra.

Em suas crônicas de guerra, o leitor brasileiro não encontrava apenas relatórios de baixas. Encontrava o medo do soldado no barro, a saudade de casa traduzida em silêncio e o absurdo da violência humana narrados com a dignidade de um romance de Ernest Hemingway.

Joel provou que a reportagem poderia ser, sim, um gênero literário de primeira grandeza. O que diferenciava Joel de seus contemporâneos era exatamente a sua capacidade de “romancear” a realidade sem jamais trair a verdade dos fatos.

Seus perfis de figuras públicas eram verdadeiras autópsias psicológicas. Suas grandes reportagens, como a icônica incursão pelo cotidiano da elite paulistana - “A milésima segunda noite da avenida Paulista” -, são aulas de observação social e de domínio da língua portuguesa.

Joel pertencia a uma linhagem de jornalistas-escritores que tratavam o adjetivo com respeito e o verbo com autoridade – por isso muito do que ele escreveu como jornalista sobreviveu ao tempo. Para Joel, uma frase bem construída era tão importante quanto um furo de reportagem.

O legado do mestre Joel Silveira atravessou o século XX como uma testemunha privilegiada e ácida da história brasileira, rendeu dezenas de livros que são hoje lidos tanto em faculdades de Jornalismo quanto em cursos de Letras.

Recordar sua trajetória é lembrar que a informação não precisa ser árida. Ele nos ensinou que o bom repórter deve ser, antes de tudo, um bom humanista. Joel partiu em 2007, mas sua voz continua ecoando sempre que um jovem jornalista decide que, além de informar, precisa emocionar e fazer pensar através da força da escrita.

A nossa Víbora descansou, mas seu veneno - aquele que mata a ignorância e a complacência - permanece mais necessário do que nunca.

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* É jornalista e historiador, desenvolve pesquisas sobre música, cultura, mitos, lendas, imaginário coletivo e conflitos sociais rurais, com tônica para o Cangaço, ao qual dedica especial interesse e tem domínio.

Texto reproduzido do site: jlpolitica com br

domingo, 3 de maio de 2026

Morre Raimundo Pereira, o maior dos jornalistas


Legenda da foto: Jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu em 2 de maio, aos 85 anos - (Crédito da foto: Reprodução/Memorial da Resistência).

Publicação compartilhada do site BRASIL DE FATO, de 3 de maio de 2026

Morre Raimundo Pereira, o maior dos jornalistas

Durante ditadura, foi grande líder da imprensa alternativa, abandonando redações de grandes grupos empresariais

Por Breno Altman | Opera Mundi

A morte de Raimundo Rodrigues Pereira, neste 2 de maio de 2026, aos 85 anos, nos obriga a olhar para trás e reconhecer a dimensão de uma trajetória rara no jornalismo brasileiro — talvez a maior de todas.

Expulso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, Raimundo fez um movimento pouco convencional: deixou para trás a engenharia e escolheu o jornalismo como trincheira. Essa transição não foi apenas profissional, mas profundamente política. Em vez de cálculos e projetos técnicos, passou a lidar com a matéria viva da sociedade brasileira, buscando compreendê-la e transformá-la pela palavra.

Sua passagem pelas revistas Realidade e Veja marcou uma geração. Em Realidade, participou de um dos momentos mais criativos e ousados da imprensa nacional, ajudando a construir uma linguagem inovadora, investigativa e profundamente conectada com o país real. Em Veja, atuou em sua fase inicial, quando a revista ainda buscava um jornalismo mais analítico e ambicioso, antes de se transformar em outra coisa ao longo dos anos.

Mas foi sobretudo na imprensa alternativa, sob a sombra da ditadura, que Raimundo Rodrigues Pereira deixou sua marca mais profunda. Foi um dos fundadores do jornal Opinião, espaço decisivo de resistência intelectual e política. Em seguida, teve papel central na criação do Movimento, que se tornaria um dos mais importantes veículos de oposição ao regime militar, reunindo vozes críticas e ajudando a manter acesa a chama do debate público.

Sua inquietação jamais cessou. Raimundo também esteve à frente de projetos como o Retratos do Brasil e a revista Reportagem, sempre com o mesmo objetivo: compreender o Brasil em profundidade, dar voz aos silenciados e oferecer ao leitor instrumentos para pensar criticamente a realidade.

Mais do que os veículos que ajudou a fundar ou dirigir, foi sua postura que marcou época. Raimundo nunca se rendeu ao jornalismo acomodado, nem à falsa neutralidade que tantas vezes serve para mascarar interesses. Sua escrita era clara, firme, ancorada em princípios. Ele sabia de que lado estava — e nunca fez disso um segredo. Tampouco cedia na ferramenta que escolhera: o jornalismo rigoroso, bem apurado, colado nos fatos, sem concessões à propaganda.

Para quem teve o privilégio de acompanhar sua trajetória, fica a impressão de que Raimundo Rodrigues Pereira não apenas atravessou a história recente do Brasil, mas ajudou a moldá-la. Seu legado não está apenas nos textos ou nas publicações, mas na ideia de que o jornalismo pode ser, ao mesmo tempo, rigoroso e comprometido, crítico e transformador.

Durante muitos anos tive a honra de partilhar projetos com esse grande mestre. Convidei-o a participar em empreendimentos sob meu comando, como as revistas Página Aberta e Atenção!, e fui seu colaborador em empreitadas como a revista Reportagem. Foram tempos de ensinamentos inesquecíveis.

Sua morte encerra uma vida, mas não apaga sua presença. Ao contrário: em tempos de desinformação e de crise no jornalismo, sua trajetória se torna ainda mais necessária. Lembrá-lo é, também, assumir o compromisso de seguir adiante com sua missão.

Editado por: Opera Mundi

Conteúdo originalmente publicado em: Opera Mundi

Texto e imagem reproduzidos do site: www brasildefato com br

Morre no Rio o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira

Imagem reproduzida do site Poder 360

Publicado originalmente no site do JORNAL DO BRASIL, de 2 de maio de 2026

Morre no Rio o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira

Por JORNAL DO BRASIL  (redacao@jb.com.br)

Editor dos jornais Opinião (1972-1975) e Movimento (1975-1981) durante da ditadura civil militar, Raimundo manteve por toda vida um jornalismo combativo com o qual buscava “a elevação do padrão material e cultural do povo”, como dizia.

Em 1975, rompido com Opinião, do empresário progressista Fernando Gasparian, Raimundo fundou o jornal Movimento que se tornou um dos principais jornais alternativos à grande mídia e de enfrentamento à ditadura. Em 1985 lançou em fascículos a coleção Retrato do Brasil fazendo um balanço dos 20 anos de Ditadura, sempre buscando entender e apresentar a condição de subordinação e dependência do País, por meio de temas cruciais como desigualdade social, urbanização, industrialização, dívida externa, que vendeu 60 mil exemplares de sua versão em livro, e chegou a todas as escolas públicas de São Paulo.

Anos depois da redemocratização, Raimundo fundou a Editora Manifesto, lançando em 1998 a revista Reportagem, com linha editorial de combate à política neoliberal do governo FHC. “Não fique perdido no processo de globalização”, dizia a propaganda de página inteira no primeiro número de Reportagem, apresentando os serviços da editora, “uma empresa a serviço dos trabalhadores e pequenos e médios empresários, de oposição ao desenvolvimento cada vez mais dependente e cada vez menos democrático comandado pelos monopólios”. O anúncio explicitava ainda seu ‘objetivo social’: “a elevação do padrão material e cultural de centena de milhão de brasileiros que estão sendo postos à margem da vida do país”. Em 2005 lançou nova edição de Retrato do Brasil, desta vez cobrindo as mudanças ocorridas no país entre 1984 e 2004, “da ditadura militar à ditadura financeira”. O título Retrato do Brasil se perpetuou até 2015 como revista mensal de reportagens, artigos e pontos de vista com cobertura dos fatos mais relevantes do Brasil e do Mundo.

Pernambucano da cidade de Exu, Raimundo Rodrigues Pereira nasceu no dia 08 de setembro de 1940. Aos três anos de idade, mudou-se com a família para o interior de São Paulo. Em 1960 deu início à faculdade de Engenharia no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos/SP. Ainda estudante, foi alvo de perseguição ideológica pelo conteúdo publicado no jornal produzido pelos estudantes. Foi expulso do ITA em 1964, no contexto do golpe militar, chegando a ser preso. Após a soltura, estudou e formou-se em Física na USP, mas passou a trabalhar como jornalista, atuando como redator de revistas técnicas até alcançar os veículos da grande imprensa. Foi da equipe que lançou a revista Veja, tendo sido editor de política que, em dezembro de 1969, organizou um histórico dossiê denunciando a tortura no governo Médici. Foi idealizador, editor e repórter das edições Amazônia e Nossas Cidades da revista Realidade, e ainda repórter de Ciência Ilustrada, Isto é, do jornal Folha da Tarde. Fez parcerias e colaborações com as revistas Caros Amigos e Carta Capital.

Vivia no Rio de Janeiro, ontem ainda colaborou com os sites Brasil 247 e revista Piauí.

Deixa quatro filhas e quatro netos, muitos amigos e admiradores do grande homem e jornalista que foi.

Texto reproduzido do site: www jb com br

Morre Raimundo R. Pereira, fundador do jornal Movimento


Imagens do Google

Texto compartilhado do site BRASIL247, de 2 de maio de 2026

Morre Raimundo Rodrigues Pereira, fundador do jornal Movimento e símbolo do jornalismo de resistência no Brasil

Raimundo, que parte aos 85 anos, foi protagonista na luta contra a ditadura e referência ética da imprensa brasileira

Conteúdo postado por: Redação Brasil 247

Morreu nesta manhã, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar. 

Fundador do jornal Movimento, ele deixa um legado marcado pelo rigor jornalístico, pela coragem política e pela construção de uma imprensa comprometida com a verdade e com o interesse público.

Uma trajetória marcada pela coragem

Raimundo Rodrigues Pereira iniciou sua carreira em veículos de grande prestígio, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade de suas reportagens e pela profundidade de suas análises. No entanto, foi na imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.

Durante a ditadura militar (1964-1985), quando a censura e a repressão limitavam drasticamente o jornalismo, Raimundo integrou uma geração que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e compromisso democrático.

Movimento: jornalismo como instrumento de luta

Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos pilares da imprensa alternativa brasileira. Sob sua liderança, o veículo assumiu papel decisivo na denúncia das arbitrariedades do regime e na construção de uma narrativa crítica em defesa da democracia.

Mais do que um jornal, Movimento foi também um espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas e contribuindo para a formação de uma consciência crítica no país.

O editor internacional do Brasil 247, José Reinaldo Carvalho, destacou a importância histórica de Raimundo:

“Raimundo Pereira foi um dos melhores jornalistas brasileiros”, afirmou. Segundo ele, o jornalista foi “pioneiro do jornalismo interpretativo e opinativo”, destacando-se pelo rigor e pela coerência.

Reinaldo também ressaltou o papel estratégico do jornal Movimento: “Mais do que um jornal, o MOVIMENTO foi um organizador coletivo”, disse, lembrando que o veículo ajudou a articular forças políticas e sociais contra a ditadura. 

Para ele, o jornal foi “um dos propulsores da ampla frente democrática” que se formou no país naquele período.

Mario Vitor Santos, diretor do Brasil 247, também homenageou o jornalista. "Raimundo Rodrigues Pereira foi um exemplo para uma geração. Tinha a virtude máxima requerida ao jornalismo: a coragem. Aliava a isso um apreço inflexível pela qualidade da informação fornecida ao público", afirmou.

Resistência sob censura

A atuação de Movimento se deu sob intensa repressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em muitas edições, os espaços em branco denunciavam a violência do regime contra a liberdade de imprensa.

Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como ferramenta de transformação social. Sua trajetória foi marcada pela disciplina, pelo compromisso com os fatos e por uma postura intransigente em defesa da democracia.

Legado intelectual

Em uma fase posterior, Raimundo criou o projeto Retratos do Brasil, voltado à interpretação profunda da realidade nacional, reunindo reportagens extensas e análises estruturais do país.

Para José Reinaldo Carvalho, tratava-se de uma obra ambiciosa, com “reportagens de fôlego, uma verdadeira enciclopédia sobre o Brasil”.

O depoimento de um de seus melhores amigos

O jornalista Antônio Carlos Queiroz, o ACQ, também prestou uma bela homenagem ao mestre. "O Raimundo Rodrigues Pereira, mestre genial do jornalismo independente, democrático e popular, foi um daqueles lutadores imprescindíveis referidos pelo poeta Bertolt Brecht", escreveu.

"Por meio do jornal Opinião, trouxe de volta ao centro do debate público a questão nacional. Por meio do jornal Movimento, fincou as bandeiras do fim das leis de exceção da ditadura militar, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, e da convocação da Constituinte Livre e Soberana", prosseguiu.

"Radicalmente comprometido com a democratização republicana do País, e com a melhoria das condições de vida da população brasileira, o Raimundo foi também apaixonado pela divulgação das conquistas científicas. Ele dizia que o bom jornalista deve acompanhar os acontecimentos do seu bairro, de sua cidade, de seu Estado, do seu País, do planeta e também do Universo. O mundo, dizia, pode ser conhecido e o conhecimento é o caminho inevitável para que possamos mudá-lo", acrescentou.

ACQ também destacou sua visão sobre a ascensão chinesa. "Socialista, o Raimundo Pereira foi também um fã da República Popular da China", pontuou. "Vou sentir saudades do mestre, com quem eu comia feijoada com vinho, enquanto falávamos mal dos inimigos do povo brasileiro!".

Homenagem do Brasil 247

O jornalista Leonardo Attuch, fundador do Brasil 247, também destacou a importância pessoal e profissional de Raimundo, com quem conviveu em vários períodos, inclusive durante o período de criação do 247.

“Raimundo foi um grande amigo, parceiro e colunista do Brasil 247, e uma inspiração para o nosso projeto editorial”.

Um legado que permanece

Raimundo Rodrigues Pereira deixa uma obra que ultrapassa sua produção individual. Sua trajetória se confunde com a história da resistência democrática no Brasil.

O jornal Movimento permanece como símbolo de um tempo em que fazer jornalismo era um ato de coragem — e como referência permanente para todos que acreditam na imprensa como instrumento de liberdade e transformação social.

Raimundo, que será cremado neste sábado, parte, mas deixa um legado que serve como inspiração para vários jornalistas.

Texto reproduzido do site: www brasil247 com

segunda-feira, 20 de abril de 2026

'Editora Abril: a um passo de se tornar história'


Publicação compartilhada do site JORNAL GGN, de 24 de julho de 2016

Editora Abril: a um passo de se tornar história
Por Luis Nassif

Pouco antes de morrer, o presidente da Editora Abril, Roberto Civita, aproximou-se de banqueiros paulistas. Conseguiu do Itaú-Unibanco uma sobrevida para a empresa.

Um dos banqueiros, mais ideológicos, fez uma última tentativa para manter vivos a Abril e o Estadão. Lançou a ideia de criação de uma fundação que assumisse as duas empresas. Chegou-se, inclusive, ao nome de André Lara Rezende para presidente.

A ideia morreu quando foram abertas as contas de ambas as empresas: eram economicamente inviáveis.

Agora, está próxima do fim a aventura da mais relevante editora de revistas do país.

O crescimento inicial foi fruto da intuição – e dos contatos norte-americanos – do patriarca Victor Civita, que por aqui aportou com a retaguarda dos grupos Disney e Time-Life, quando os americanos se deram conta que a legislação restritiva brasileira não permitiria participação direta no país e as parcerias com o Departamento do Estado conferiam à mídia papel relevante nas disputas ideológicas do continente, decorrentes da Guerra Fria.

A partir dos anos 70, houve um impulso grande no grupo, graças à visão de Roberto Civita. Por incrível que pareça, para quem acompanhou a decadência de Veja, Civita foi um grande editor, inclusive na escolha dos diretores de redação que ajudaram a forjar a glória da empresa. Lançou a revista Realidade, das grandes reportagens, trazendo os maiores nomes da época, Milton Coelho da Graça, Luiz Fernando Mercadante, José Hamilton Ribeiro. Depois, foi buscar Mino Carta no Jornal da Tarde para lançar a 4 Rodas e a Veja. Surgiram as revistas femininas, a Playboy. E fascículos que marcaram época.

A Abril tornou-se uma editora imbatível, inclusive valendo-se de sua força política para obter favores oficiais graúdos, como os incentivos para a rede Quatro Rodas, dados pela ditadura, e os canais de TV a cabo pelo governo Sarney.

As mudanças tecnológicas

Dentre os editores brasileiros, nenhum foi mais antenado que Roberto Civita com as mudanças na mídia. Entendeu o papel da TV a cabo, lançando a TV A, dos satélites como difusores de sinal e da própria Internet, através do lançamento da BOL. Teve experiências bem-sucedidas com produção, com a TV Abril e com a MTV. Sempre foi o primeiro a imoprtar no país as últimas ondas do mercado norte-americano.

A visão de futuro não foi acompanhada de uma estratégia financeira adequada. Uma a uma as experiências fracassaram pela falta de executivos adequadas e por uma praga que assola empresas quando surgem tecnologias matadoras.

Sempre que aparecia uma tecnologia de corte, a ATT criava uma empresa à parte, independente, pois sabia que se fosse desenvolver dentro da própria empresa, a empresa velha mataria a nova.

A Microsoft não aprendeu a lição. Quando surgiram os sistemas operacionais para tablets e celulares, incumbiu a divisão do Windows de desenvolve-los. E os pais do Windows para computadores não quiseram amputar funções para adaptar o sistema aos mobiles. Perdeu o bonde para a Apple e o Google.

Uma a uma, as inovações da Abril foram sendo boicotadas pelos executivos do papel, receosos de perder espaço para os novos setores.

Foi assim com a TV Abril, com a TVA, com a BOL.

O erro da BOL

Um alto executivo da época me contou, certa vez, o boicote sofrido por Antônio Machado que, depois de uma brilhante passagem pela Exame, foi incumbido de colocar em pé o portal da Abril.

Houve alguns erros iniciais, como o de pretender montar uma verdadeira central telefônica para atender as chamadas, em vez das parcerias com pequenos provedores do interior, como fez a UOL. E também a ideia da padronização das revistas, transformando a BOL em uma enorme revista padronizada. Nada que não pudesse ser corrigido, sem tirar da BOL o mérito do pioneirismo e do maior acervo de publicações da jovem Internet brasileira.

De nada adiantou. Civita acabou aceitando a proposta de Luiz Frias de juntar as duas operações, da UOL e da BOL, dando a gestão para o sócio.

Pouco tempo depois, Luiz montou uma parceria com grupos da Portugal Telecom visando diluir a participação da Abril. De um dia para outro anunciou um aumento de capital e, apanhado de surpresa, Civita não conseguiu acompanhar a Folha e acabou diluído. A velha raposa sendo passado para trás pelo jovem empreendedor.

A mesma falta de visão ocorreu com a tentativa mais recente de apostar de novo na Internet, através do portal Abril e da Veja.

Certa vez, um talentoso desenvolvedor brasileiro, que havia criado uma rede corporativa de primeiro nível, me contou que tentou vender a rede para a Abril utilizar em seus portais.

Antes que concluísse a história, pedi para adivinhar o resultado:

– Um dos executivos da Abril rejeitou sua proposta dizendo que a aposta da editora, agora, era em revistas de quadrinhos de baixo custo para a nova classe C.

Ele se espantou:

– Como você sabe?

Porque, na mesma época, a IBM enviou para a Abril altos executivos da IBM norte-americana, para oferecer ferramentas para utilização em portais da Internet. E a resposta foi a mesma.

A aposta na educação

Restava à Abril apelar para a força política da Veja. A partir dos anos 90, Civita assumiu a supervisão direta da revista, envolvendo-a cada vez mais em jogadas políticas e comerciais.

Nos tempos de Mino Carta e da dupla Roberto Guzzo-Elio Gaspari, os diretores alertavam Civita quando poderia ultrapassar os limites do jornalismo para atender aos interesses políticos e comerciais do grupo. A partir dos 90, entraram diretores cada vez mais submissos e sem envergadura jornalística para se contrapor às ordens do chefe. E aí foram lambanças sucessivas.

Sem conseguir avançar em nenhuma frente digital, a Abril concentrou esforços na parte educacional. Adquiriu editoras que vendiam livros didáticos preferencialmente para o MEC (Ministério da Educação) e cursos apostilados para estados e prefeituras, valendo-se da força política da Veja e da estrutura de vendedores de assinaturas para tentar se impor. As escolas eram procuradas por vendedores que convenciam diretores a escolher os livros da Abril na cesta oferecida pelo MEC.

Na gestão Tarso Genro, fechou-se essa porta. O MEC passou a divulgar catálogos dos livros selecionados e a proibir o uso de vendedores. Civita ficou possesso e chegou a telefonar para Tarso Genro, ameaçando-o com uma capa se insistisse na nova política. Não conseguiu intimidar o Ministro.

Seguiu-se uma fase de investimentos intensos no ramo educacional. Uma a uma foram sendo vendidas as empresas coligadas e o dinheiro investido na compra de cursos, para a montagem de um grupo educacional, não apenas com recursos próprios, mas com financiamentos bancários.

Mais uma vez, Civita quebrou a cara pela má escolha de executivos. A presidência do grupo foi entregue a conhecido CEO, conhecido pela megalomania. As compras foram efetuadas por preços muito acima dos de mercado. Em plena corrida da Abril, um concorrente me descreveu a estratégias a cegueira de Civita, de não avaliar os preços dos bens adquiridos.

– As contas não fecham de maneira nenhuma.

As loucuras aconteceram em todos os quadrantes, com a empresa se endividando para apostas irrealistas. Como a proposta para João Dória Jr., para a venda do controle da Casa Cor, uma proposta tão absurdamente alta que o próprio Dória duvidou da sanidade do grupo.

A aposta na direita

Restou a Civita o último berro, a identificação talentosa da nova tendência da opinião pública, de ir para a direita e para teses de intolerância. Trouxe dos Estados Unidos o padrão Rupert Murdock que foi testado pela primeira vez na campanha em defesa das armas.

Com o sucesso obtido, radicalizou. Mais e mais Veja foi se transformando em um lago de detritos, em um esgoto a céu aberto, inventando capas inverossímeis, vendendo-se para jogadas comerciais, como a de Daniel Dantas, aliando-se ao crime organizado de Carlinhos Cachoeira, para garantir o suprimento semanal de escândalos, praticando crimes de opinião, perdendo a cada edição o contato com os fatos e com o jornalismo.

Seu último feito foi liderar um pacto de cartelização da mídia em 2005, que matou qualquer veleidade de jornalismo da parte deles e que tornou a imprensa a maior ameaça à democracia brasileira e à estabilidade política e econômica.

Depois disso, houve a queima de ativos.

A venda da parte educacional deixou a família com caixa. Mas com pouca disposição de colocar dinheiro em uma empresa inviável. Começou, então, um movimento de transferência de títulos para o grupo argentino Caras. Foram transferidos dez títulos...

Mas os tempos são outros. Apesar da óbvia blindagem recebida do Ministério Público Federal no episódio Carlinhos Cachoeira, a transferência poderia configurar evasão fiscal. A família voltou atrás na estratégia e terminou aportando R$ 450 milhões, única maneira dos credores toparem o refinanciamento das dívidas... , mantendo com aparelhos os sinais vitais da empresa.

Por outro lado, a morte de Roberto Civita impediu que fossem feitos ajustes na linha da Veja. Apenas na véspera do fim, a família tomou medidas para tentar restaurar o jornalismo da revista, tarefa impossível: a revista tornou-se refém da malta que ajudou a criar.

Há, portanto, um ponto em comum entre os Civita e o governo Dilma que eles ajudaram a derrubar: o de fazer as mudanças necessárias com anos de atraso, e quando o desastre se tornou irreversível.

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Luis Nassif - Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN. luis nassif@gmail com

Texto reproduzido do site: jornalggn com br

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Linotipo, a oitava maravilha do mundo

Jornal O Progresso circula no sul e Sudoeste do Maranhão, Sul do Pará 
e Norte do Tocantins há 54 anos e utiliza um linotipo


 Ottemar, inventor do linotipo

Artigo compartilhado do site PORTAL DA COMUNICAÇÃO, de 3 de julho de 2025

Linotipo, a oitava maravilha do mundo

Equipamento para compor jornais, revistas e livros, hoje superado, revolucionou a imprensa e foi utilizado pela primeira vez pelo New Your Tribune, em 3 de julho de 1886

Por Carlos Rodrigues 

Depois da invenção da imprensa por Gutemberg, a maior evolução nesse equipamento aconceceu em 1886 com o uso do linotipo, que substituiu a composição manual e acelerou o processo de composição de jornais, revistas e livros. O jornal New Your Tribune foi o primero a usar a maravilha da época, em 3 de julho de 1886. E reinou até 1940 quando foi desenvolvido a fotocomposição, (ou composição a frio), que gradualmente substituiu os processos de composição “a quente” da linotipo. Mas, este último, só começou a ser utilizado em larga escala entre as décadas de 1960-70, com a popularização do processo de impressão “offset”. Mais tarde, a composição com fontes digitais e os softwares de editoração eletrônica dominaram o mercado, tornando a profissão de linotipista obsoleta com a transição para a era digital. 

No Brasil, ainda se utilizam linotipos, principalmente por jornais do interior e pequenas gráficas que produzem jornais, folhetos, convites, e outros impressos artesanais personalizados. Algumas dessas máquinas estão funcionando a mais de 100 anos. Profissionais que dominam essa técnica também são raros.

Ao longo do século XIX, as prensas tipográficas avançaram e atingiram velocidades incríveis, mas a composição tipográfica continuou sendo um processo lento. O linotipo era a máquina há muito aguardada que traria velocidade a uma área totalmente nova do processo de impressão: a sala de composição.

Substituíram com muita vantagem o trabalho artesanal de escolher letra por letra, as maiúsculas na caixa de cima, as minúsculas na caixa de baixo, para com elas se ir compondo cada palavra, cada frase, cada período, até formar o artigo inteiro, a página inteira, o jornal inteiro.

Evolução

De Gutenberg até a década de 1880, as letras tipográficas precisavam ser fundidas individualmente em moldes e ordenadas à mão, de trás para frente. Embora um compositor experiente pudesse compor tipos com grande velocidade e precisão (ambas métricas que frequentemente determinavam as faixas salariais), ainda era um processo lento. E não se esqueça do tempo que levava para colocar os tipos de volta nas caixas!

Acelerar o processo de composição tipográfica era o foco de muitos inventores e editores na década de 1800. Diversas máquinas são anteriores ao linotipo, mas os linotipos, e a empresa que os fabricava, dominavam o mercado com sua funcionalidade e acessibilidade (e também com suas patentes).

Quem inventou

Ottmar Mergenthaler , um imigrante alemão em Baltimore, Maryland (EUA), é o homem mais intimamente associado ao linotipo. Engenheiro de profissão e relojoeiro por experiência, Mergenthaler fez parte da equipe contratada em 1876 para inventar uma máquina copiadora para acelerar o trabalho dos estenógrafos da corte. Em 1884, Mergenthaler havia desistido de muitos protótipos e se concentrado no conceito de fundir uma linha inteira de tipos de uma só vez. Ele encontrou a solução certa em 1886 e fundou sua própria empresa: a Mergenthaler Printing Company. Mais tarde, ela seria conhecida mundialmente como Mergenthaler Linotype Company.

Um dos financiadores do projeto foi Whitelaw Reid , editor do New-York Tribune. Portanto, foi esse jornal que primeiro testou os linotipos em 1886. Depois de alguns anos, o Tribune divulgou seu sucesso no jornal.

À medida que a máquina era continuamente aprimorada, com mais modelos e estilos em produção, outros jornais se apressavam em adicionar linotipos à sua produção gráfica. Os jornais ostentavam seus linotipos e compartilhavam a maravilha da máquina de impressão a quente com seus leitores. Chamavam-na de “A máquina do século” e “quase humana” na forma como operava semi-automatizada.

Segundo Emanuel Araújo, autor da obra “A construção do livro” (edição publicada no Rio de Janeiro pela Lexikon Editora Digital, em 2008), esse sistema apresentava algumas limitações em relação à variação de caracteres, adaptação a diagramações complexas, espaçamento de entrelinhas e correção de texto. Há de se mencionar que a mecanização da composição tipográfica fez com que muitos compositores manuais migrassem para o ofício de compositor mecânico, o linotipista, cuja produção podia atingir a de oito daqueles profissionais.

A linotipo foi um invento de sucesso, que possibilitou o alargamento da produção gráfica, a rapidez no fechamento de jornais, e foi o principal meio de composição tipográfica até meados do século XX, quando entraram em cena os processos de fotocomposição e, atualmente, a composição com fontes digitais.

Processo barulhento e tóxico

O Linotipo funde automaticamente (uma liga de chumbo, antimônio e estanho) linhas inteiras de texto em “slugs” ou “lingotes” de metal tipográfico, a partir de um teclado semelhante ao de uma máquina de escrever. O operador, o linotipista, digita o texto desejado em um teclado, que aciona a liberação de pequenas matrizes de latão (moldes para as letras) de um magazine onde ficam armazenadas. Os lingotes fundidos, uma vez resfriados, são colocados em “bastões” para serem inseridos na forma da prensa que está sendo preparada para a impressão. Depois de utilizados, os lingotes são fundidos novamente para reiniciar nova produção. É um processo barulhento, que emite gases tóxicos. O aquecimento de chumbo e outros metais gerava vapores e resíduos metálicos. 

Muitos operadores adoeciam com o tempo. Era um ambiente insalubre.  Além disso os operários trabalhavam sob um calor de 60º ou mais. Imagine isso em um país tropical. Ou durante nosso verão. Os operadores usavam uma toalha úmida enrolada no pescoço para amenizar o calor. “Amenizar” é um eufemismo. Eles tomavam leite (nem todas gráficas dispunham do produto) como antídoto do ao efeito tóxico do chumbo, responsável por uma doença chamada saturnismo ou plumbismo. A ventilação nesses locais era precária, o que dificultava a dispersão dos gases tóxicos, porque muitos linotipos funcionavam nos porões de jornais ou nos fundos de estabelecimentos gráficos.

Essa intoxicação pode ocorrer por diversas vias, como a inalação de poeira ou vapores de chumbo, ingestão de água contaminada ou contato com objetos que contenham o metal. O saturnismo pode afetar diversos órgãos e sistemas, causando uma variedade de sintomas, como problemas neurológicos, gastrointestinais, hematológicos, renais e reprodutivos.  E hoje atinge também trabalhadores em fábricas de tintas, solventes, baterias, tintas, solda, mineração e construção civil. 

Texto e imagens reproduzidos do site: portaldacomunicacao com br

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

'O último romântico do jornalismo', por Luciano Correia

Fausto Wolff - Escritor e jornalista (Foto: Wikipedia)


Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 28 de janeiro de 2026

O último romântico do jornalismo
Por Luciano Correia *

Não sei exatamente quando o jornalismo entrou na minha vida, pelo menos como leitor de revistas e jornais. Papai comprava revistas sem capa a um rapaz que trabalhava na distribuidora de Zé Queiroz e as entregava semanalmente na Exatoria de Itabaiana as edições semanais de Manchete, Fatos e Fotos, Capricho, Amiga, Contigo e as famosas Seleções de Reader’s Digest. Antigamente, edições da semana anterior eram vendidas sem o frontispício da marca por um valor muito abaixo do exibido na capa. Foi na Fatos e Fotos que tive o privilégio de ler semanalmente as colunas de Nelson Rodrigues e de Carlos Castelo Branco. Pouco depois, já iniciado na juventude, me acostumei a ler jornais e, quando ingressei na UFS para estudar Engenharia Química, me tornei um fã do irreverente semanário Pasquim.

O Pasquim não foi o único, mas era o principal veículo da imprensa alternativa que desafiava a ditadura e, em termos de mídia impressa, um contumaz combatente da nossa imprensa corporativa careta e covarde, os jornalões Folha, Globo, Estadão e outros. Aqui mesmo tivemos a inusitada experiência da Folha da Praia, liderada por Amaral Cavalcante, onde batuquei minhas primeiras mal traçadas linhas em letra impressa. Foi lendo dois dos muitos grandes jornalistas do Pasquim que aprendi a escrever, se se puder considerar que eu aprendi.

Dos jornalistas que mais me influenciaram, destacam-se o brilhante Tarso de Castro e o touro indomável Fausto Wolff. O terceiro foi, sem dúvidas, o alagoano-sergipano Fernando Sávio. E um quarto, Charles Bukowski, este da literatura, mas uma literatura tão carregada de realismo que parecia saltar das páginas dos jornais.  As 569 páginas de “A mão esquerda de Deus” constituem um esboço de autobiografia de Fausto Wolff, gaúcho de Santo Ângelo, misto de brigão e playboy bonitão, um homenzarrão de quase dois metros, tão valente quanto propenso a se derramar em lágrimas diante do sofrimento de uma criança. Sempre ligado à esquerda, exilado durante a ditadura militar e brizolista quando voltou ao país após a abertura, Wolff carregava em si as dores do mundo.

Em A mão esquerda… ele, como é típico nesses casos, se refugia em nomes fictícios para proteger pessoas reais, ele próprio escondido na alcunha de Percival von Traurigzeit, o Pérsio, um paralelo claro com seu nome de batismo, Faustin von Wolffenbüttel, transformado no polêmico e explosivo Fausto. O livro é um vai e vem no tempo e na história de uma família que, garante Fausto, tem origem em príncipes aristocráticos da Alemanha do século XIV. Conhecendo o personagem autor, é possível que aí esteja um dos momentos em que o texto é pura ficção. Ou não. Das remotas origens em guerras sangrentas entre povos bárbaros, chega-se aos imigrantes que aportaram no Rio Grande do Sul no século XIX, onde a família que um dia foi nobre e rica inicia uma saga de muito trabalho e luta contra a pobreza.

No Rio do Pasquim e dos jornais e revistas por onde passou, Wolff passeia pelas dezenas, quiçá centenas de lindas mulheres que foram parar em sua cama, algumas socialites ricas fascinadas por um jornalista romântico e sem tostão. Em certo momento ele proclama: “tudo que tenho são um punhado de livros e algumas roupas”. E certamente foi assim durante toda a sua vida, desde os trepidantes anos na Dinamarca, onde teve mulheres e fez uma filha, até os últimos dias, quando morreu no Rio de Janeiro, em 2008, aos 68 anos, vítima de uma hemorragia digestiva, não por acaso relacionada com os anos de muito uísque, chope e cigarros. Além do excelente jornalista que foi, crítico mordaz dos colegas mais apaixonados pelos patrões do que pela causa do jornalismo, foi também um escritor de peças teatrais e vários romances, dentre eles Sandra na terra do antes, escrito para resgatar as saudades da infância da primeira filha, nascida no Brasil.

Como jornalista, ele tem outro livro bastante lido nos anos de 1980: Os palestinos: judeus da 3ª Guerra Mundial, onde traça um paralelo entre a perseguição e exílio sofridos historicamente pelo povo judeu e a condição dos palestinos, vítimas do Estado sionista desde que este foi criado, em 1948, passando pela Guerra dos Seis Dias, em 1967, pela nova guerra de 1973, pelo massacre dos assentamentos de Sabra e Chatila, em 1982, até chegar aos horripilantes dias que correm.

As farras, amores e a bebida em fartura talvez tenham sido o modo encontrado por um gigante de olhos azuis que nunca suportou as injustiças, fazendo daqueles expedientes sua válvula de escape. Como seu colega Tarso de Castro, também gaúcho e de texto ainda mais cáustico, Fausto Wolff encarnava um jornalismo cujo autor misturava-se com sua obra, o chamado jornalismo gonzo, assumidamente subjetivo e livre dessa bobagem chamada objetividade. Depois de Fausto, não houve mais ninguém que encarnasse esse personagem no jornalismo brasileiro.

Trecho

“O mulherio adorava o John, o mais moço da turma, uma espécie de Babe Face Nelson, que quando não estava conosco, andava com um pessoal mais barra pesada. Ele achava que amava Isla pela simples razão de ela não ligar para ele, e ela, certamente, não ligava para ele porque ela a amava. Para os filósofos estoicos, a dialética era uma disciplina de lógica formal, Kant complicou mais as coisas quando expôs a dialética como uma tentativa de entender o que não se pode experimentar, Hegel identificou a dialética como um resultado de dois aspectos negativos de uma mesma questão, Marx e Engels adaptaram a dialética ao materialismo histórico, mas nunca, jamais, em tempo ou dimensão alguma, alguém poderá entender o conflito dialético entre a buceta e o coração de uma mulher”.

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 * Luciano Correia - Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

Texto e imagens reproduzidos do site: sosergipe com br

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Francisco Araújo, ex-entregador do jornal, visita o arquivo...






Ex-entregador do Diario, Francisco Araújo reencontra os jornais que distribuiu nos anos 1970 (Crisly Viana/DP Fotos)

Publicado originalmente no site do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, em 15 de dezembro de 2025 

Memória > Extra, Extra! Um jornaleiro contra um mundo de esquecimentos reencontra o Diario após quase 50 anos

Francisco Araújo, ex-entregador do Diario, testemunhou cotidiano ao distribuir os jornais pelo Recife

Por Marília Parente

Esquecendo-se do sol de quase meio-dia, do peso da bolsinha com três marmitas para as filhas e dos 80 anos incompletos sobre as pernas, Francisco Araújo encara atentamente a sede do Diario de Pernambuco, no Centro do Recife. Ele acaba de chegar ao local, após almoçar em um restaurante popular nas redondezas, e intercepta alguns funcionários na calçada: “fui entregador do jornal”, apresenta-se orgulhosamente.

Francisco deseja que alguém lhe responda o porquê de o jornal ter “ficado tão grande”. A resposta é coisa para conversa longa, motivo pelo qual esta repórter o convida para entrar e puxar uma cadeira. Com a elegância de outros tempos, o senhorzinho atarracado realinha o chapéu no modelo newsboy (que coincidentemente significa “jornaleiro”, em inglês) e topa a conversa.

Ele nasceu no dia 18 de maio de 1946, em Maceió, capital de Alagoas, e mudou-se para o Recife ainda na infância, após perder a mãe precocemente. “Fui criado por minhas irmãs. Morava em Peixinhos [Olinda] quando um amigo do bairro me chamou para trabalhar no jornal. Era um bico, um extra”, lembra.

Francisco se atrapalha quando é questionado acerca da data de início de suas atividades no jornal. E quando a memória o trai desta forma, a voz rouca vai rareando e os olhos miúdos se espremem num esforço contra o próprio corpo. Como se estar fora da precisão das notícias, ainda hoje, o deixasse desconfortável.

"Eu sei que foi nos começo dos anos 1970, quando eu tinha uns 30 anos. A rotina era difícil, o fardo de jornal é pesado e a gente acordava muito cedo para trabalhar”, vai dizendo.

Da correria nas ruas, Francisco sente falta da camaradagem com os colegas de trabalho e das amizades que fazia pela cidade. “Aprendi a me comunicar. A gente tinha que falar com todo tipo de gente para entregar os jornais”, lembra.

Recebido no Centro de Documentação (Cedoc) do Diario, o jornaleiro reencontra, pela primeira vez, alguns exemplares históricos que distribuiu pelas ruas. Com a ponta do dedo indicador, lê atentamente cada linha da matéria “Perna Fantasma surge em moradia em Tiúma”, assinada pelo jornalista Raimundo Carreiro em 10 de dezembro de 1975, que noticiava pela primeira vez uma das mais célebres lendas urbanas do Recife.

A edição histórica foi lembrada no filme O Agente Secreto, do pernambucano Kléber Mendonça Filho, em cena que retrata o esforço dos entregadores do Diario para distribuir os folhetins ao público. “Me lembro de entregar os jornais com a capa da cheia de 1975, porque também fui um flagelado das enchentes. Eu e minha família perdemos tudo”, lamenta.

O jornaleiro, no entanto, demonstra maior interesse pelo noticiário esportivo. Pelo longo corredor de gavetas do arquivo, se demora alguns instantes diante dos documentos esportivos. Em tudo que o interessa, faz questão de deslizar calmamente as mãos, com o carinho de quem criou jeito para dar boas ou más notícias.

“Eu tenho, dentro de mim, muita sede de aprender alguma coisa”, dispara Francisco, que não sabe informar se concluiu o ensino fundamental. “Eu acho a profissão de jornalista muito bonita, porque vocês têm que saber de tudo um pouco e não podem mentir. É muito difícil ser jornalista”, continua.
Francisco deixou o jornal no final da década de 1970, para trabalhar como faxineiro. Depois, foi vigilante de uma escola. Hoje, vive com a esposa e as enteadas, que vão precisar ler esta matéria para entender o porquê de terem recebido suas marmitas resfriadas. 

A primeira entrega atrasada de Francisco, contudo, pouco importa. Extra, Extra! Desta vez, ele é a matéria do jornal. 

Texto e imagens reproduzidos do site: www diariodepernambuco com br