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Texto compartilhado do site BRASIL247, de 2 de maio de 2026
Morre Raimundo Rodrigues Pereira, fundador do jornal Movimento e símbolo do jornalismo de resistência no Brasil
Raimundo, que parte aos 85 anos, foi protagonista na luta contra a ditadura e referência ética da imprensa brasileira
Conteúdo postado por: Redação Brasil 247
Morreu nesta manhã, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar.
Fundador do jornal Movimento, ele deixa um legado marcado pelo rigor jornalístico, pela coragem política e pela construção de uma imprensa comprometida com a verdade e com o interesse público.
Uma trajetória marcada pela coragem
Raimundo Rodrigues Pereira iniciou sua carreira em veículos de grande prestígio, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade de suas reportagens e pela profundidade de suas análises. No entanto, foi na imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.
Durante a ditadura militar (1964-1985), quando a censura e a repressão limitavam drasticamente o jornalismo, Raimundo integrou uma geração que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e compromisso democrático.
Movimento: jornalismo como instrumento de luta
Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos pilares da imprensa alternativa brasileira. Sob sua liderança, o veículo assumiu papel decisivo na denúncia das arbitrariedades do regime e na construção de uma narrativa crítica em defesa da democracia.
Mais do que um jornal, Movimento foi também um espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas e contribuindo para a formação de uma consciência crítica no país.
O editor internacional do Brasil 247, José Reinaldo Carvalho, destacou a importância histórica de Raimundo:
“Raimundo Pereira foi um dos melhores jornalistas brasileiros”, afirmou. Segundo ele, o jornalista foi “pioneiro do jornalismo interpretativo e opinativo”, destacando-se pelo rigor e pela coerência.
Reinaldo também ressaltou o papel estratégico do jornal Movimento: “Mais do que um jornal, o MOVIMENTO foi um organizador coletivo”, disse, lembrando que o veículo ajudou a articular forças políticas e sociais contra a ditadura.
Para ele, o jornal foi “um dos propulsores da ampla frente democrática” que se formou no país naquele período.
Mario Vitor Santos, diretor do Brasil 247, também homenageou o jornalista. "Raimundo Rodrigues Pereira foi um exemplo para uma geração. Tinha a virtude máxima requerida ao jornalismo: a coragem. Aliava a isso um apreço inflexível pela qualidade da informação fornecida ao público", afirmou.
Resistência sob censura
A atuação de Movimento se deu sob intensa repressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em muitas edições, os espaços em branco denunciavam a violência do regime contra a liberdade de imprensa.
Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como ferramenta de transformação social. Sua trajetória foi marcada pela disciplina, pelo compromisso com os fatos e por uma postura intransigente em defesa da democracia.
Legado intelectual
Em uma fase posterior, Raimundo criou o projeto Retratos do Brasil, voltado à interpretação profunda da realidade nacional, reunindo reportagens extensas e análises estruturais do país.
Para José Reinaldo Carvalho, tratava-se de uma obra ambiciosa, com “reportagens de fôlego, uma verdadeira enciclopédia sobre o Brasil”.
O depoimento de um de seus melhores amigos
O jornalista Antônio Carlos Queiroz, o ACQ, também prestou uma bela homenagem ao mestre. "O Raimundo Rodrigues Pereira, mestre genial do jornalismo independente, democrático e popular, foi um daqueles lutadores imprescindíveis referidos pelo poeta Bertolt Brecht", escreveu.
"Por meio do jornal Opinião, trouxe de volta ao centro do debate público a questão nacional. Por meio do jornal Movimento, fincou as bandeiras do fim das leis de exceção da ditadura militar, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, e da convocação da Constituinte Livre e Soberana", prosseguiu.
"Radicalmente comprometido com a democratização republicana do País, e com a melhoria das condições de vida da população brasileira, o Raimundo foi também apaixonado pela divulgação das conquistas científicas. Ele dizia que o bom jornalista deve acompanhar os acontecimentos do seu bairro, de sua cidade, de seu Estado, do seu País, do planeta e também do Universo. O mundo, dizia, pode ser conhecido e o conhecimento é o caminho inevitável para que possamos mudá-lo", acrescentou.
ACQ também destacou sua visão sobre a ascensão chinesa. "Socialista, o Raimundo Pereira foi também um fã da República Popular da China", pontuou. "Vou sentir saudades do mestre, com quem eu comia feijoada com vinho, enquanto falávamos mal dos inimigos do povo brasileiro!".
Homenagem do Brasil 247
O jornalista Leonardo Attuch, fundador do Brasil 247, também destacou a importância pessoal e profissional de Raimundo, com quem conviveu em vários períodos, inclusive durante o período de criação do 247.
“Raimundo foi um grande amigo, parceiro e colunista do Brasil 247, e uma inspiração para o nosso projeto editorial”.
Um legado que permanece
Raimundo Rodrigues Pereira deixa uma obra que ultrapassa sua produção individual. Sua trajetória se confunde com a história da resistência democrática no Brasil.
O jornal Movimento permanece como símbolo de um tempo em que fazer jornalismo era um ato de coragem — e como referência permanente para todos que acreditam na imprensa como instrumento de liberdade e transformação social.
Raimundo, que será cremado neste sábado, parte, mas deixa um legado que serve como inspiração para vários jornalistas.
Texto reproduzido do site: www brasil247 com


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