Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 1 de Junho de 2026
Um Doc para a história da imprensa sergipana
Por Luciano Correia *
Há documentários que servem à vaidade do diretor e, talvez, de uma meia dúzia de chegados de sua bolha. Há os que são feitos só pra justificar o dinheiro recebido e, como no poema de Brecht, há os imprescindíveis.
Alex Nascimento, professor com vários anos de pó de giz em salas do ensino médio, acaba de entregar à sociedade um desses trabalhos para entrar para a história do audiovisual em Sergipe. E ao fazer isso contando a história de um jornal que impactou o cenário jornalístico local há mais de 40 anos, acabou fazendo História também, essa com “H” maiúsculo.
Alex pode ser desconhecido para muita gente, “do campo”, como se diz nas vetustas academias, incluindo a mais pretensiosa delas, a universitária. Mas nunca foi um Zé Ninguém no mundo da comunicação e da cultura.
Primeiro, como professor de Redação e de Literatura, é um jornalista que sabe a diferença do tempo de um verbo no presente do subjuntivo e no pretérito imperfeito. Depois, sabe conjugá-lo. Por fim, é jornalista como todos nós do clube, após esquentar os mesmos bancos da companheirada.
O documentário sobre a lendária Folha da Praia, jornal capitaneado pela mente vulcânica do poeta Amaral Cavalcante no comecinho dos anos 80, mostra que em matéria de imprensa já fomos muito melhores do que a maioria dos perfis de aluguel que reivindicam indevidamente a qualificação de imprensa para exercer seu jornalismo tacanho, pra ficarmos numa classificação mais branda.
“Folha da Praia: um pasquim sob o sol de Aracaju” é uma lufada na cara dos caretas encastelados nas sinecuras e conselhos de cultura que não servem pra nada. A Aracaju que sobressai do mergulho de Alex nas origens da Folha é de uma cidade ainda pequena, onde dizia-se que “todo mundo se conhece”.
Era rebelde, com perfil oposicionista, e celebrava a boemia com som e fúria nos points tradicionalmente consagrados: o Bar do China ou o velho e emblemático Manequito com sua enfieira de batidas saborosas e explosivas. Mas a chamada juventude dourada daquele final dos anos 70, inspirada pelo célebre verão da abertura política em Ipanema e Leblon, se encontrava e tietava no território democrático e psicodélico do Barbudo’s, vizinho ao Manequito, que recebia uma gente mais raiz, que não davam bola pra tietagem.
Barbudo recebia a freguesia usando batas indianas, vestindo por baixo dos panos somente uma sumária tanga, em moda na época. A Folha, como dizia um dos bordões usados semanalmente, deitava e rolava entre as mesas do apertado espaço. O próprio Barbudo, figura ilustrada, com perfil de esquerda, acabou se tornando também um dos colaboradores do jornal, escrevendo praticamente até sua morte, anos depois. Essa era a vida noturna da Folha da Praia.
Mas a diurna também precisava ocorrer, até para honrar o título de jornal de praia, apesar da intensa vida boêmia de sua equipe. E ela se dava na confluência entre o rio e o mar já perto do Colodiano, na recém-batizada Praia dos Artistas.
O nome não evocava só a poesia da arte, porque semanalmente suas areias ficavam inteiramente tomadas pela gente da música, do teatro, da dança, da poesia, além de escritores e jornalistas que fizeram daquela esquina atlântica sua tribuna livre de luta e prazer.
Pro lado esquerdo, só havia o Colodiano e o mangue, porque não havia Coroa do Meio nem a ponte que veio ligá-la à cidade depois. À direita, só a Atalaia, porque a ideia de praia, na época, terminava no Bar do China ou, vá lá, no boteco do pescador Duda, tão rústico que nem merecia o título de bar. E a juventude bronzeada e os intelectuais fetichistas que iam fotografá-la com suas máquinas e retinas já tinham decretado a caretice da velha Atalaia.
Lugar de gente descolada era a Praia dos Artistas. Foi ali que a Folha reinou soberana, estendendo as reuniões da Redação para a mesa do bar, com Amaral regendo a orquestra nem sempre afinada de jornalistas como Fernando Sávio, Ilma Fontes, Clara Angélica, Marcos Cardoso, Guga Oliveira, Zenóbio Melo e os fotógrafos Fernando Souza, Ricardo Nunes, César de Oliveira, Álvaro Vilela, entre outros.
Eu mesmo, ainda estudante na Bahia, mas escrevendo no jornal desde seu Ano I, desembarcava de Salvador direto para aquelas areias, onde também molhava o bico e aprendia com aquela faculdade de Jornalismo itinerante, pulsativa e cáustica como tudo que eu gostava na época.
Pois essa Aracaju foi o cenário da Folha alternativa que fez graça e humor, mordeu e assoprou, arranjou brigas, processos, mas fez escola no jornalismo sergipano, influindo na cultura e na política de um tempo que prometia muito mais do que temos hoje.
O documentário de Alex Nascimento é, por assim dizer, um bálsamo de saudade e homenagem à cidade que fomos outro dia - um bálsamo de nos orgulhar para sempre. Ao contar a história de um jornal, conta a de uma cidade, do seu povo e de um grupo de adoráveis vagabundos que fizeram jornalismo como se fosse diversão. Vida e festa contaminaram um jeito de fazer jornalismo como nunca mais se viu por aqui. E Alex ligou as pontas disso tudo, com começo, meio e fim.
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* Articulista Luciano Correia - É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê. Escreve às segundas.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista/luciano-correia

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