Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 5 de Junho de 2026
A sofisticação em meio a simplicidade
Por José Roberto de Lima Andrade *
A semana terminou, pra variar, com mais um daqueles Febeapa – Festival de Besteiras que Assola o País. Novo tarifaço anunciado por Trump, ataque ao Pix, e etc. Cansa falar da estupidez da classe política brasileira.
Melhor falar sobre o documentário lançado no último dia 28 de maio – “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”. Apesar de vários artigos sobre o documentário, as lembranças da minha juventude em uma Aracaju extremamente “simples” falaram mais alto. E, portanto, vão se lascar Trump e acessórios.
A Folha da Praia surgiu no início da década de 80 e durou até a metade dos anos 20 deste século. Coincidiu com o início da minha adolescência e começo da juventude em uma Aracaju, tempo que não possuía nada de extraordinário.
Fui criado no bairro São José, que para mim sempre foi o centro do mundo. Estudava, ia ao hospital, a igreja, a pizzaria, aos clubes, ao estádio de futebol, aos passeios dominicais circulares na Praça Tobias Barreto, aos shows no Constâncio Vieira, tudo isso em um raio de no máximo um quilômetro.
Para mim, Aracaju era o Bairro São José, o centro da cidade - o “comércio” – e a Atalaia. A Atalaia, um pedaço do paraíso ainda pouco habitado. Das peladas aos domingos, onde tínhamos que chegar cedo, ao surf que começou a tomar espaço do futebol.
E a vida noturna também era na Atalaia. Começava no Manequito, cuja batida, supostamente, continha substâncias misteriosas, terminando no Bar do China.
O Teimonde era frequentado por uma galera mais velha e com mais dinheiro. Tinha também a Tio Zé. Não tinha dinheiro para essa coisa de boate. No máximo, uma passada no Circo Amoras e Amores.
Mas voltando à Folha da Praia. No Hawaizinho, point da galera do surf nos anos 80 e 90, ficávamos esperando alguém distribuir o jornal. Como não tinha exemplares para todo mundo, normalmente dividíamos a leitura.
Notícias de surf, coluna social – provocativa, sem frescura – poesia, e mais um monte de coisas interessantes. Lembro até hoje de um debate sobre política entre a então liderança emergente Marcelo Déda versus o jornalista Luciano Correa.
Para mim a Folha da Praia foi o máximo de sofisticação intelectual em uma cidade de hábitos tão simples, daquilo que costumamos chamar de provinciano.
Cheguei recentemente aos 57 anos e vejo que, morando em uma Aracaju muito mais “sofisticada” - ou menos provinciana - perdemos a capacidade, salvo raras exceções, de produzir discussões e notícias no mesmo nível da Folha da Praia.
Jornal que gerou - algo raro - a expectativa de aguardar uma semana para poder absorver algo de extraordinário em um espaço tão ordinário, simples, como aquela Aracaju dos anos 80 do século passado.
Morei na Atalaia em frente à casa de Amaral Cavalcante, idealizador da Folha da Praia. Conversávamos pouco. As histórias divertidas sobre as aventuras de um Aracaju “careta” normalmente surgiam com a presença de João Augusto Gama, figura marcante na cultura e na política sergipanas.
Certa vez, ao passar pela calçada de Amaral me deparei com um papagaio que ele criava. Automaticamente, chamei o bicho por louro, lourinho – como denominamos todos os papagaios. A resposta foi um monte de palavrão. Nunca imaginei que um bicho pudesse xingar tanto. Padrão Folha da Praia.
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* É economista, professor da UFS e presidente do SergipePrevidência.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolítica com br

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