domingo, 7 de junho de 2026

Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento


Alex Nascimento: dando duro sobre o arquivo empoeirado do Folha da Praia, 
mas está colhendo boas recompensas

Texto compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 6 de junho de 2026

Jozailto Lima ENTREVISTA Alex Nascimento

Alex Nascimento: “O Folha da Praia renovou a linguagem da imprensa sergipana”

“Tenho já escritos dois outros grandes projetos para dois outros longas”

Em muitas frentes e esferas, a cidade Aracaju e o Estado de Sergipe precisam se preocupar mais com suas memórias. Em pesquisá-las, guardá-las e preservá-las mais efetivamente para que sirvam mais perenemente aos próprios sergipanos.

Isso parece ser uma realidade que se vincula a muitas atividades da capital e do Estado nos muitos afazeres dos sergipanos - sobretudo na esfera cultural.

Ao pesquisar o passado e o histórico do jornal Folha da Praia e adensá-los no documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju”, o jornalista e professor Alex Nascimento deu recentemente uma boa prova do quanto esta preocupação é pertinente.

A Folha da Praia, jornal alternativo concebido e levado a efeito pelo jornalista e poeta Amaral Cavalcante, vicejou bem durante os anos de 1980 e 1990.

Ele foi um veículo importante, marcou época no fim de uma ditadura militar iniciada em 1º de abril de 1964 e numa cidade que até pouco tempo reinava com seu provincianismo a toda prova. Mas silenciou-se de uma forma perversa.

Com as profundas mudanças nos meios de mídias, com a morte de Amaral Cavalcante há seis anos, uma pedra foi posta na memória da velha Folha, sobretudo envolvendo a nova geração.  

E é nesta hora que o documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” vem como um sopro forte. Não para ressuscitar a Folha, ou o Folha, como Alex a denomina.

Mas para avivar e acender a sua importância. Para dizer sobretudo às novas gerações que o passado é uma roupa que ainda pode nos servir um pouco mais.

E Alex Nascimento e a sua companheirada de missão fizeram um trabalho com precisão. Com uma mão forte: o que seria um curta de menos de 20 minutos, deu num longa de 74.

E não se tornou um longa por afetação. Tornou-se por precisão. É como se Alex e os seus estivessem em sintonia com a ideia de que a cidade e o Estado “precisam se preocupar mais com suas memórias”.

 Portanto, não é sem razão que a recepção ao documentário “Folha da Praia: um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” foi e está sendo avassaladoramente positiva.

Gente de toda a espécie está a falar bem dele. A falar bem do rigor como ele trouxe os fatos à tona. De como o documentário não dourou somente as virtudes do Folha.

De como expôs seu tombo proporcionado por um Amaral alternativo que se deixou cooptar pelo poder político e encaretou o seu semanário ao ponto de desidratá-lo e levá-lo à morte.

Mas enquanto surfou em rebeldia, a Folha vincou bem seu tempo. “Foi o retrato de uma geração e de uma liderança. Uma geração que precisava de um canal de comunicação para expressar o desejo de viver novas possibilidades, de construir uma nova história, negar um mundo caduco na política e nos costumes”, constata Alex Nascimento.

Para Alex, o que prevaleceu foi a coisa boa, a ideia sã. “Foi uma experiência marcada pela ousadia, criatividade e sentimento de liberdade sintonizada com o que acontecia no restante do Brasil. O Folha da Praia renovou a linguagem da imprensa sergipana e foi o grande veículo de divulgação e espaço da cultura, da contracultura, especialmente nos anos 80 e 90”, reitera.

Nesta Entrevista Domingueira, Alex Nascimento vai falar do prazer que gerou nele e na equipe ter feito este documentário, dirá do que pensa em fazer com a película daqui para frente e informará que isso tudo lhe enterneceu tanto que está com novos projetos de audiovisuais na cabeça para execução.
E adianta projetos literários pessoais, como um livro de poemas de gaveta e um romance em fase de escrita, e sobretudo de como pretende encarar o batente de nova sobrevivência, deixando de lado 34 anos de cátedra educativa.

Alex Sandro da Silva Nascimento nasceu no dia 4 de dezembro de 1971 em Lagarto, mas sempre sentiu-se de Simão Dias. Ele é filho de Hélio Floriano do Nascimento e de Tereza da Silva Nascimento.

 É um rapaz velho que já experimentou dois casamentos que ele considera “fracassados”. “Em matéria de amor, tive muitos. Mas em matéria de união duradora, fracassei em duas tentativas”, avisa. É pai de Antônio Augusto Santos Nascimento e de Hélio Benício Santos Nascimento.

 Alex tem formação acadêmica em Comunicação Social pela Universidade Tiradentes com habilitação em Jornalismo. É pós-graduado em Língua Portuguesa e tem mestrado inconcluso em Comunicação.

Alex Nascimento e o trio elementar composto por Helena Cabral, Daniel Cireno e Sandro Cajé, parte da equipe que trabalhou no documentário

Apesar de ter uma vida umbilicalmente ligada à educação, tem amplas passagens pela Comunicação Social, sobretudo na área pública, e pelo rádio.

 “Tenho já escritos dois outros grandes projetos para dois outros longas, que penso sejam importantes para Sergipe que aconteçam. Não ficarei esperando por editais, vou buscar parcerias, buscar dialogar também com a iniciativa privada”, promete.

A Entrevista com Alex Nascimento vale o prazer da leitura. (PS - Alex trata a Folha da Praia por o Folha. Ele prefere a concordância com o jornal. A redação do JLPolítica & Negócio opta por a Folha. Não há divergência). 
 
Alex Nascimento como coordenador de Comunicação da Funcap, durante Fórum da Música Nordestina, com o cantor e compositor Aldemário Coelho

JLPolítica & Negócio - O senhor se surpreendeu com o histórico da Folha da Praia ou já entrou na pesquisa sabendo do que viria dessa sua escavação?

Alex Nascimento - Conheci o Folha da Praia na primeira vez em que fui à Praia da Atalaia, e era eu um tabaréu de Simão Dias. Acompanhei como leitor, dentro do possível, a sua trajetória, e sabia de sua importância para a comunicação, para a história da imprensa local e para a cultura sergipana. Alguns anos depois, fui apresentado por Antônio Passos ao jornalista Amaral Cavalcante, e tivemos certa aproximação. Certa feita, homenageei-o em uma inesquecível noitada que começou às 19h e foi terminar por volta das 8h do outro dia, em meu apartamento, pouco depois dele ser empossado na Academia Sergipana de Letras. Sabia o que o Folha e Amaral representavam, que teria muito material com o qual trabalhar, mas ainda assim me surpreendi. Amaral cuidou bem do arquivo do Folha, e este precisa urgentemente ser digitalizado, por razões óbvias. Foi um grande mergulho no jornalismo sergipano, especialmente dos anos 1980 e 1990. 

JLPolítica & Negócio - No final de tudo, o que lhe parece que foi aquela experiência do Amaral Cavalcante para com a comunicação e a cultura de Sergipe?

AN - Foi o retrato de uma geração e de uma liderança. Uma geração que precisava de um canal de comunicação para expressar o desejo de viver novas possibilidades, de construir uma nova história, negar um mundo caduco na política e nos costumes. Foi uma experiência marcada pela ousadia, criatividade e sentimento de liberdade sintonizada com o que acontecia no restante do Brasil. O Folha renovou a linguagem da imprensa sergipana e foi o grande veículo de divulgação e espaço da cultura, da contracultura, especialmente nos anos 80 e 90.Foi também uma experiência de amizade, cumplicidade e ocupação dos espaços urbanos, especialmente da Atalaia e da Praia dos Artistas. 

JLPolítica & Negócio - Para o senhor, toda aquela experimentação teria sido possível não fosse no momento de uma ditadura militar que morria?

AN - O Folha foi o que foi, teve a roupagem que teve, de certa forma, por causa, sim, do momento histórico, tanto que no documentário, que é dividido em seis partes, abordamos esta questão. Mas penso que experiências e construções como o do Folha da Praia possam ser consolidadas em qualquer época. Neste momento, por exemplo, um Folha da Praia, como afirma o jornalista Rian Santos no documentário, “é urgente, o mundo está encaretando, existe fundamentalismo de todos os lados”. 

Alex Nascimento com o grande Otto em sua militância ambiental: soltando tartarugas marinhas no Oceanário de Aracaju

JLPolítica & Negócio - Havia uma ordem naquele modo do Amaral Cavalcante e de seus colegas na busca por uma realidade de comunicação?

AN - Penso que sim. Amaral sabia o que estava fazendo. Certamente que grande parte dos que fizeram o jornal não tinham consciência de que estavam envolvidos em algo tão significativo. Mas Amaral sabia. Amaral e outros mais maduros, a exemplo de Ilma Fontes, que depois fundou o jornal O Capital. Amaral sabia que o jornal precisava ter uma linguagem jovem, mas que era preciso também se comunicar com os segmentos, digamos, formadores de opinião.

JLPolítica & Negócio - Na sua pesquisa, o senhor encontrou algo de comunicação social praticado em Sergipe semelhante à Folha da Praia em Sergipe?

AN - O jornal Pipiri tinha muito do que havia no Folha, mas era outra a pegada. O Capital também foi outro jornal alternativo importante, mas era mais denso. 

JLPolítica & Negócio - Por que que em nenhum momento o Pipiri aparece como referencial no documentário “Folha da Praia: um Pasquim sob o sol de Aracaju?” 

AN - Pipiri - O Jornal da Cultura foi uma publicação inicialmente produzida pela Secretaria Municipal de Cultura com foco no que rolava em termos de arte e cultura em Aracaju, na gestão de Lânia Duarte, com editoria de Ilma Fontes. Foi um grande e importante projeto, certamente. Mas o Pipiri foi o Pipiri, o Folha, o Folha. Nós gravamos quase 15 horas de entrevistas. Tive que rever todo o roteiro original do projeto, estruturar toda a sequência de falas e imagens, digitalizar, cortar jornais e fotos, enfim, e editar todo o material que compõe o documentário exigiu, obviamente, fazer uma seleção. 

Alex Nascimento e os filhotes Antônio Augusto e Hélio Benício numa paisagem do Tobias Barreto. Ele é pai-babão

JLPolítica & Negócio - O senhor já conhecia de perto aqueles personagens mais clássicos do documentário, como Erê e Gigi?

AN - Não os conhecia pessoalmente. Foi fantástico quando vi Gigi chegando ao set de gravação. Erê, que foi casado com Amaral, foi outra maravilhosa alegria tê-lo conhecido. Assim que finalizamos as gravações com eles, eu soube que seria preciso trabalhar a participação deles no documentário com bastante sensibilidade e equilíbrio, como de resto, claro. Eu sabia o que tinha em mãos. Eu analisei cada entrevista dezenas de vezes. Trabalhei com consciência do que queria, tracei o perfil de cada um dos 18 entrevistados e, digamos, o papel que cada um deles deveria ter. Não obstante a riqueza de depoimentos de todos, Gigi e Erê tem no filme uma participação toda especial, conscientemente trabalhada. 

JLPolítica & Negócio - Afinal, existe um domínio de guarda do arquivo da Folha da Praia?

AN - Sim.  Ele é do querido amigo Samuel Santos, a quem mais uma vez aproveito para agradecer pela confiança depositada em mim. Samuel me disponibilizou todo o arquivo do Folha. 

ENTROU NA PESQUISA SABENDO DO PESO DA FOLHA

“Conheci o Folha da Praia na primeira vez em que fui à Praia da Atalaia, e era eu um tabaréu de Simão Dias. Acompanhei como leitor, dentro do possível, a sua trajetória, e sabia de sua importância para a comunicação, para a história da imprensa local e para a cultura sergipana”

Alex Nascimento e uma ruma de amigos no Memorial Professor Jouberto Uchoa durante lançamento do documentário

JLPolítica & Negócio - O Folha da Praia teria sido possível com outro personagem que não Amaral Cavalcante?

AN - Acredito que não. Um projeto como esse precisa ter um sujeito com fibra, com visão de momento, de oportunidade, de liderança e ser preparado intelectualmente para fazê-lo. 

JLPolítica & Negócio - O senhor não exibe, no documentário, qualquer senso de julgamento entre a Folha da Praia alternativa e a Folha da Praia comercial, com entrevistas vendidas. Mas o senhor vê nisso uma contradição para um jornal que se queria alternativo?

AN - Como afirma o jornalista Luciano Correia, o Folha não foi um jornal planejado. Não houve, por parte de Amaral, um cuidado maior para estruturar economicamente o jornal para que ele pudesse manter a mesma verve que teve nos anos 80 e 90. Além disso, os tempos mudaram, Aracaju mudou e Amaral, e o jornal, precisavam sobreviver. Ademais, o sistema não brinca. 

AMARAL CAVALCANTE ENTENDIA DO TERRENO EM QUE PISAVA

“Amaral sabia o que estava fazendo. Certamente que grande parte dos que fizeram o jornal não tinham consciência de que estavam envolvidos em algo tão significativo. Mas Amaral sabia. Amaral e outros mais maduros, a exemplo de Ilma Fontes, que depois fundou o jornal O Capital”

Alex Nascimento: dando duro sobre o arquivo empoeirado do Folha da Praia, mas está colhendo boas recompensas

JLPolítica & Negócio - O senhor se deu por contente com a recepção do “Folha da Praia: um Pasquim sob o sol de Aracaju?”

AN – Sim. Foi uma recepção maravilhosa. Logo nos primeiros três minutos, quando o público soltou a primeira gargalhada, depois uma sequência muito bacana de respostas ao que havíamos pensado, a emoção percebida, os olhares, a plateia sem nenhuma dispersão, pessoas em pé, pessoas enxugando lágrimas. O público aplaudiu de pé e longamente, entende! Trabalhamos duro, especialmente eu e Alex Soares, meu amigo e parceiro, editor do documentário. Nos encontrávamos diariamente, incluindo finais de semana e feriados. Foram oito meses de estúdio, oito, dez horas por dia, e em casa eu ainda seguia em frente do computador ou dos jornais até às três, quatro da manhã. Além do roteiro, direção e produção executiva, eu fiz também todo o trabalho de criação e direção de design, e tudo isso me exigiu muito. Eu precisava chegar ao estúdio com tudo muito bem definido, então eu seguia trabalhando. Dizia a Soares: “Vamos refazer o que tiver que ser refeito quantas vezes forem necessárias. Vamos entregar um produto que esteja à altura do Folha da Praia e em respeito a todos os entrevistados e a essa geração que fez história na imprensa sergipana”. Acho que conseguimos. Pediram até uma versão ampliada, apesar dos já 74 minutos. Um elogio e tanto. 

JLPolítica & Negócio - Qual é o destino do seu documentário de agora por diante?

AN - Vamos inscrevê-lo em festivais, programar novas exibições. O secretário da Funcaju, Paulo Corrêa, que esteve no lançamento representando a prefeita Emília Corrêa, nos convidou para o exibirmos no Cinema do Centro; a TV Alese nos pediu autorização para exibi-lo durante as comemorações de aniversário da TV; já temos também convite para irmos a UFS. Ou seja, vamos promover outras sessões e depois disponibilizá-lo ao público através de streamings e do Youtube. Mas eu desejo ir para outros Estados mostrar lá fora o que foi o Folha da Praia e esta geração maravilhosa que marcou a história recente de Aracaju e de Sergipe. 

DAS GRANDES ESTRELAS GIGI E ERÊ

“Foi fantástico quando vi Gigi chegando ao set de gravação. Erê, que foi casado com Amaral, foi outra maravilhosa alegria tê-lo conhecido. Assim que finalizamos as gravações com eles, eu soube que seria preciso trabalhar a participação deles no documentário com bastante sensibilidade e equilíbrio”

Alex Nascimento, o documentarista, com Sandro Café, diretor de Fotografia do documentário Folha da Praia: debatendo soluções

JLPolítica & Negócio - O senhor considera que algumas figuras da comunicação nesta aventura com Amaral Cavalcante ficaram de fora do documentário e que elas fizeram falta?

AN - Guardarei para sempre uma grande tristeza, que foi não ter conseguido gravar com Clara Angélica. Dois dias antes da gravação com ela, recebemos um telefonema nos informando que teria que ir para Nova Iorque. Ela mesma sugeriu nos enviar um vídeo quando chegasse, mas, infelizmente, não sei o que houve, não rolou. Fiquei muito triste. Infelizmente, houve outras figuras que foram marcantes para o Folha e que não conseguimos pegar o depoimento - ou porquê não conseguimos contato ou por desencontro de agenda. Há um detalhe: o diretor de fotografia do documentário, o querido Sandro Cajé, sergipano de Neópolis, no espaço entre a aprovação do projeto pela Paulo Gustavo, através da Funcap, e a liberação da verba para começarmos a trabalhar, Sandro passou a  morar em São Paulo. Foi preciso ajustar agenda de gravações, custos com aluguel de equipamentos, diária de hotel, alimentação, transporte etc. Nós trabalhamos com um orçamento muito curto. Produzimos um longa com recurso para um curta. Buscamos, no entanto, levar para o documentário aqueles que não foram entrevistados. E acho que, de alguma maneira, conseguimos.

JLPolítica & Negócio - Esta experiência com o documentário da Folha da Praia estaria fomentando na sua pessoa a possibilidade de outros documentários?

AN - Sim. O filme não aconteceu por acaso. Tenho já escrito dois outros grandes projetos para dois outros longas, que penso sejam importantes para Sergipe que aconteçam. Não ficarei esperando por editais, vou buscar parcerias, buscar dialogar também com a iniciativa privada. Para isso, preciso divulgar ao máximo o documentário que entregamos, preciso que conheçam o nosso trabalho. Não podemos ficar dependendo apenas de verba federal. Vou buscar dialogar com o governo em torno de um destes projetos. Claro que vou estar atento aos editais, incluindo a Lei Rouanet e outros. Ou seja, vou me movimentar. E espero também receber convites para participar de outros projetos. Estou na pista!
 
DAS CAUSAS DO TOMBO FINAL DA FOLHA

“Como afirma o jornalista Luciano Correia, o Folha não foi um jornal planejado. Não houve, por parte de Amaral, um cuidado maior para estruturar economicamente o jornal para que ele pudesse manter a mesma verve que teve nos anos 80 e 90. Além disso, os tempos mudaram, Aracaju mudou e Amaral, e o jornal, precisavam sobreviver. Ademais, o sistema não brinca” 

Alex Nascimento sempre plantou flores no lajedo áspero da comunicação: aqui entrevistando a cantora Vanessa da Mata

JLPolítica & Negócio - O senhor passou a régua em sua carreira de professor de Redação e de Literatura. Mas tem se dedicado ao que na teia do existir?

AN - É preciso ter coragem e clareza do que se quer. E pagar o preço. Tive que abrir mão de muita coisa. Não foi e não tem sido fácil. Hoje, vivo da assessoria de comunicação que presto a duas instituições, uma delas o Concese, que é o Conselho de Consumidores da Energisa Sergipe. Embora eu tenha passado 34 anos em sala de aula, sempre atuei também como jornalista, com passagens por órgãos públicos como a Sefaz e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Fui coordenador de comunicação da Funcap, na gestão de Belivaldo Chagas, à convite da amiga Conceição Vieira. Trabalhei na equipe de comunicação de uma dezena de campanhas eleitorais, enfim, tenho certo lastro e vou buscar abrir algumas portas. Preciso recuperar a renda que tinha consolidada na educação. Não é fácil. Nenhuma transição é fácil. 

JLPolítica & Negócio - O senhor acha que numa fase de desconstrução da comunicação, dá para se viver de jornalismo?

AN -  Sim, é possível viver de jornalismo, mas sob novas condições. Com as redes sociais, e esse bando de comunicadores miolo mole que as ocupam, o que temos é uma crise de comunicação, não da profissão jornalismo. O poder migrou para as plataformas digitais, desmontou o modelo econômico tradicional da imprensa e gerou a fragilidade dos fatos - que são substituídos por narrativas instáveis. Neste cenário, o jornalismo se torna ainda mais necessário como mediador confiável. O jornalismo ainda sustenta o debate político. É inegável que é mais difícil viver dele hoje em dia, mas também é verdade que é ainda mais essencial a nossa presença, mais do que nunca foi, e há espaços para um jornalismo sério. 

DA TRISTE AUSÊNCIA DE CLARA ANGÉLICA

“Guardarei para sempre uma grande tristeza, que foi não ter conseguido gravar com Clara Angélica. Dois dias antes da gravação com ela, recebemos um telefonema nos informando que teria que ir para Nova Iorque. Ela mesma sugeriu nos enviar um vídeo quando chegasse, mas, infelizmente, não rolou”

Alex Nascimento: revirar os escombros do Folha da Praia, abriu-lhe o apetite para novos documentários

JLPolítica & Negócio - O senhor abandonou por definitivo a sua militância comunicacional na área de ecologia e de meio ambiente? Quede aquele seu Programa Ecos em Debate?

AN - Continuo atento às grandes questões que envolvem o meio ambiente. É um tema cercado de desafios e oportunismos. Eu produzia e apresentava o Ecos em Debate, que chegou a ser considerado pela Arpub - Associação das Rádios Públicas do Brasil -, como o primeiro programa de jornalismo ambiental das rádios públicas do país. Na época, recebemos o convite para que o programa fosse transmitido também em outros Estados. Era pela Aperipê, durou dois anos e pouco, e foi bem recebido pelos ouvintes. Depois, houve mudança de direção da emissora e não foi possível continuar com o programa. Cheguei a receber alguns convites, mas não foi possível aceitá-los. Ainda mantive por um bom tempo o portal Ecos em Debate, produzimos matérias muito bacanas, viajamos pelo interior do Estado, fomos ao sertão sergipano, fizemos belas entrevistas também com personagens de renome nacional.

JLPolítica & Negócio - Mas o senhor gostou daquela experiência?

AN - Foi muito boa a experiência. Foi um período bastante agitado, chegou um momento que ficou difícil conciliá-lo com as cinco escolas nas quais eu lecionava. Realizamos também o movimento Manifesto Reduza Sua Pegada Ecológica, então uma pauta pouco conhecida do grande público, com apoio da Prefeitura de Aracaju, gestão de Edvaldo Nogueira, TV Sergipe e o Oceanário de Aracaju. Depois, aceitei convite para fazer assessoria parlamentar na Câmara Municipal de Aracaju.  Além disso, acabei me tornando presidente - porta-voz - municipal, depois estadual e delegado nacional do partido Rede Sustentabilidade. Mas esse é um outro papo…

DA POSSIBILIDADE DE VIVER DO JORNALISMO

“É possível viver de jornalismo, mas sob novas condições. Com as redes sociais, e esse bando de comunicadores miolo mole que as ocupam, o que temos é uma crise de comunicação, não da profissão jornalismo. Neste cenário, o jornalismo se torna ainda mais necessário como mediador confiável”

Alex Nascimento e o solene encontro com a grande figura de Erê, companheiro de Amaral Cavalcante: ele deu liga leve ao documentário

JLPolítica & Negócio - O que está faltando para que o senhor dê à luz “Poemas de Escavação”, seu livro de poesia?

AN -Está faltando voltar a dar atenção a ele, parar um pouco, desacelerar para completar o trabalho. Está faltando me embrenhar solitária e surdamente no reino das palavras, como diz Drummond. A ideia era lançá-lo ainda este ano, mas talvez não haja mais tempo, já que o fazimento do “Pasquim Sob o Sol de Aracaju” me cobrou muito tempo. Mas ele sairá. Você, Jozailto Lima, que é poeta dos grandes, amigo querido com quem compartilho tessituras, cujo livro “Viagem na Argila”, tive a honra de ler os originais para produzir ensaio, a seu convite, é meu maior incentivador. Diz você que tenho cá umas coisinhas que merecem ser publicadas. E serão.  

JLPolítica & Negócio - Em que pé está a concepção de “Tereza Lunática, a Catadora de Afetos”, romance que o senhor vem escrevendo?  

AN - O sujeito não escreve um poema e fica o resto do dia escrevendo poesia. Bem, pelo menos imagino que não. Escrever um romance é diferente. Exige uma entrega diária. Eu vinha dedicando seis, oito horas, à escrita dele. Agora que o filme foi lançado, estou muito motivado a retomá-lo. Já está com quase 100 páginas. É um livro sobre afetos, cheiro de doces e dramas femininos. Mas tudo a seu tempo, sem agonias, como foi o documentário sobre o Folha da Praia, cuja recepção do público tem me encorajado ainda mais. 

O QUE FALTA PARA LANÇAR O LIVRO POESIA?

“Está faltando voltar a dar atenção a ele, parar um pouco, desacelerar para completar o trabalho. Está faltando me embrenhar solitária e surdamente no reino das palavras, como diz Drummond. A ideia era lançá-lo ainda este ano, mas talvez não haja mais tempo” 

Alex Nascimento recebe no lançamento do documentário as presenças solenes de Paulo Corrêa, secretário de Cultura se Aracaju, e a esposa Kalina Elizabete Lopes Corrêa

JLPolítica & Negócio - O senhor se sente mais para a prosa ou mais para a poesia, e nessas duas esferas, quem são suas referências?

AN -  Para a prosa, embora a poesia rasgue-me a alma de maneira especial. Carlos Drummond é o maior de todos. Depois vem Manuel Bandeira, Mário Quintana, que nos humilha com sua simplicidade e dizer das coisas; João Cabral de Melo Neto e sua secura, e Manoel de Barros e tantos outros e outras. Mas olha, sem agrado tolo, temos por aqui em Sergipe grandes nomes, a exemplo de você mesmo, Araripe Coutinho. Na prosa, Machado de Assis, claro, é o maior de todos, e José Saramago que amo de paixão, como dizem, isso para ficarmos no terreno da língua portuguesa.
 
JLPolítica & Negócio - Em sã consciência, o senhor acha que ainda há lugar para literatura na sociedade contemporânea, ou ela estaria numa fase de banimento de significado? 

AN - Há lugar para a literatura justamente porque há excesso de ruído. A literatura permanece como uma das poucas experiências que exigem entrega, imaginação e profundidade. Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca - não por nostalgia, mas porque os livros ampliam as fronteiras da experiência humana. Para Milan Kundera, a função do romance, ou da literatura, é justamente resistir às simplificações do mundo, preservando a complexidade da condição humana. Clarice Lispector, por exemplo, dizia que a literatura é o território insubstituível para explorar o que não cabe nos discursos prontos. Não há tecnologia no mundo, e jamais haverá, capaz de entregar o que um bom livro entrega. 

A LITERATURA E A AMPLIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA HUMANA

“Há lugar para a literatura justamente porque há excesso de ruído. A literatura permanece como uma das poucas experiências que exigem entrega, imaginação e profundidade. Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de biblioteca - não por nostalgia, mas porque os livros ampliam as fronteiras da experiência humana”

Alex Nascimento de refrega com Marina Silva: ele e ela pitam o mesmo cachimbo de assuntos ambientais

JLPolítica & Negócio - Que evento foi aquele que o senhor produziu no começo dos anos 1990, chamado Dia da Palavra?

AN - Oito horas ininterruptas de arte: quarto, cinco peças de teatro, suítes de dança, recitais de poesias, apresentações musicais, mais de 50, sei lá, 60 jovens envolvidos, uns 15 a 20 artistas convidados. Tudo isso no Teatro Atheneu Sergipense. Nunca havia acontecido um evento cultural daquele porte na cidade de Aracaju. Tenho muito orgulho dele. Nós fizemos adaptações de textos, montamos recitais, dirigimos a garotada. No Dia da Palavra, apresentei o monólogo “A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo e jogar as cinzas depois”, do grande teatrólogo Vieira Neto. Me lembro que o músico Henrique Teles, do Maria Scombona, ainda muito jovem, foi um dos que se apresentou no evento.

JLPolítica & Negócio - Certamente isso marcou geração?

NA - Na noite de lançamento do documentário do Folha, quando saímos para comemorar, o jornalista Rian Santos, que foi meu aluno e participou do evento, estava exatamente lembrando do Dia da Palavra, do que foi para aqueles jovens, e para mim, passar três, quatro meses, dentro do teatro Atheneu ensaiando, vivendo arte. Guardo isso com muito carinho. Foi algo inusitado naquela época e o que me projetou, inicialmente, junto às escolas. Abriu-me muitas portas. 
 
Texto e imagens reproduzidos do site: jipolitica com br

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