Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 24 de setembro de 2026
A longa aventura de Zuenir Ventura
Por Luciano Correia *
Vai embora um dos últimos dos grandes do jornalismo. Para um mundo distópico, o melhor dos cenários: um mundo sem a grande reportagem, substituído pela fuleragem dos influencers das redes digirais, que os cursos de jornalismo insistem em chamá-las de sociais. Zuenir é um do homem da comunicação e da cultura. Passou pelos principais veículos do país, fazendo uma carreira digna dos mestres. Dentre os vários livros, “1968: o ano que não terminou”, um painel fundamental sobre nossos anos de chumbo.
Quando perguntado sobre a crise do jornalismo e o que dizer aos jovens que escolhem essa profissão, respondia de outra forma. Dizia que jornalismo, como qualquer outra profissão, é missão, portanto, a questão se resume a isso: se a pessoa gosta do que faz, terá sempre espaço para sua prática. Parece uma obviedade, mas, pela força da verdade que encerra, ajuda a incentivar jovens sonhadores a seguirem em frente, pois a simples certeza sobre essa opção é fundamental para encontrar lugar e condições para o bom jornalismo.
Conheci Zuenir na Caravana da Cidadania de Lula em 1994, em Canindé do São Francisco. Na época, tinha lido uma nota no Informe JB do Jornal do Brasil sobre um livro que ele estava escrevendo sobre Glauber Rocha. Comentei com ele que vivi três meses em Havana e morei no apartamento 759 do lendário Hotel Nacional. O sétimo andar do velho e charmoso hotel é o único que possui balcão, no meu caso, virado para a avenida 23, onde fica a famosa sorveteria Copélia, em frente ao hotel Habana Libre.
Por ser o único apartamento com balcão, era a sede das baladas da minha turma da Especialização em Economia e Relações Internacionais pela Flacso, a então prestigiada Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales. Foi meu currículo de festeiro que despertou a atenção da senhora Mercêdes, camareira do sétimo andar, que poucos anos antes arrumava o mesmo quarto ocupado por um morador ilustre, o vulcão cinematográfico de Glauber Rocha, muito conhecido e queridíssimo em toda Cuba, onde seus filmes eram vistos com interesse e adoração, diferente da apatia dos paisanos de Pindorama, mais afeitos às novelas de Janete Clair.
Pelo afeto derramado quando se referia ao grande bardo do Cinema Novo, acho até que Mercêdes deve ter trocado umas bicotas com ele. Figura simpática e ainda enxuta nos seus “entas” de anos, a adorável camareira me comparava com Glauber, segundo ela, pelos cabelos pretos de grandes cachos e pelo estado de festa permanente en la habitación 759, regada à boa música brasileira e cubana, rum e chicas. Contei algumas histórias a Zuenir e ele perguntou se eu poderia enviá-las em texto. Claro que sim.
Mandei meu relato. Os anos passaram e nada do livro. Depois, em novo encontro fortuito, encontrei mestre Zuenir em Brasília. Não resisti a perguntar pelo livro. Uma desgraça ocorreu, disse ele, que esqueceu os originais datilografados num envelope em um táxi de sua cidade, o Rio de Janeiro. Sem cópias. E sem sucesso na incansável tentativa de reaver o ouro perdido numa trivial corrida de táxi. Ficamos sem o olhar precioso de um dos maiores gênios do nosso jornalismo sobre uma figura ainda pouco iluminada, outro gênio, de gênio difícil e brilhante. Portanto, uma tragédia para a cultura e o jornalismo brasileiros. Ontem, Zuenir acrescentou um pouco mais de drama a essa tragédia: sua ausência possivelmente não será preenchida.
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* Articulista Luciano Correia - É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê e escreve às segundas. A opinião do articulista não reflete necessariamente o posicionamento do Portal JLPolítica & Negócio.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista

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