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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A longa aventura de Zuenir Ventura

Ficamos sem o olhar precioso de um dos maiores gênios do nosso jornalismo (L.C.)

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 24 de setembro de 2026

A longa aventura de Zuenir Ventura
Por Luciano Correia *

Vai embora um dos últimos dos grandes do jornalismo. Para um mundo distópico, o melhor dos cenários: um mundo sem a grande reportagem, substituído pela fuleragem dos influencers das redes digirais, que os cursos de jornalismo insistem em chamá-las de sociais. Zuenir é um do homem da comunicação e da cultura. Passou pelos principais veículos do país, fazendo uma carreira digna dos mestres. Dentre os vários livros, “1968: o ano que não terminou”, um painel fundamental sobre nossos anos de chumbo.

Quando perguntado sobre a crise do jornalismo e o que dizer aos jovens que escolhem essa profissão, respondia de outra forma. Dizia que jornalismo, como qualquer outra profissão, é missão, portanto, a questão se resume a isso: se a pessoa gosta do que faz, terá sempre espaço para sua prática. Parece uma obviedade, mas, pela força da verdade que encerra, ajuda a incentivar jovens sonhadores a seguirem em frente, pois a simples certeza sobre essa opção é fundamental para encontrar lugar e condições para o bom jornalismo.

Conheci Zuenir na Caravana da Cidadania de Lula em 1994, em Canindé do São Francisco. Na época, tinha lido uma nota no Informe JB do Jornal do Brasil sobre um livro que ele estava escrevendo sobre Glauber Rocha. Comentei com ele que vivi três meses em Havana e morei no apartamento 759 do lendário Hotel Nacional. O sétimo andar do velho e charmoso hotel é o único que possui balcão, no meu caso, virado para a avenida 23, onde fica a famosa sorveteria Copélia, em frente ao hotel Habana Libre. 

Por ser o único apartamento com balcão, era a sede das baladas da minha turma da Especialização em Economia e Relações Internacionais pela Flacso, a então prestigiada Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales. Foi meu currículo de festeiro que despertou a atenção da senhora Mercêdes, camareira do sétimo andar, que poucos anos antes arrumava o mesmo quarto ocupado por um morador ilustre, o vulcão cinematográfico de Glauber Rocha, muito conhecido e queridíssimo em toda Cuba, onde seus filmes eram vistos com interesse e adoração, diferente da apatia dos paisanos de Pindorama, mais afeitos às novelas de Janete Clair.

Pelo afeto derramado quando se referia ao grande bardo do Cinema Novo, acho até que Mercêdes deve ter trocado umas bicotas com ele. Figura simpática e ainda enxuta nos seus “entas” de anos, a adorável camareira me comparava com Glauber, segundo ela, pelos cabelos pretos de grandes cachos e pelo estado de festa permanente en la habitación 759, regada à boa música brasileira e cubana, rum e chicas. Contei algumas histórias a Zuenir e ele perguntou se eu poderia enviá-las em texto. Claro que sim.

Mandei meu relato. Os anos passaram e nada do livro. Depois, em novo encontro fortuito, encontrei mestre Zuenir em Brasília. Não resisti a perguntar pelo livro. Uma desgraça ocorreu, disse ele, que esqueceu os originais datilografados num envelope em um táxi de sua cidade, o Rio de Janeiro. Sem cópias. E sem sucesso na incansável tentativa de reaver o ouro perdido numa trivial corrida de táxi. Ficamos sem o olhar precioso de um dos maiores gênios do nosso jornalismo sobre uma figura ainda pouco iluminada, outro gênio, de gênio difícil e brilhante. Portanto, uma tragédia para a cultura e o jornalismo brasileiros. Ontem, Zuenir acrescentou um pouco mais de drama a essa tragédia: sua ausência possivelmente não será preenchida.

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* Articulista Luciano Correia - É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê e escreve às segundas. A opinião do articulista não reflete necessariamente o posicionamento do Portal JLPolítica & Negócio.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br/articulista

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Jornalista e escritor Zuenir Ventura morre aos 95 anos

Texto compartilhado do site G1 GLOBO, de 22 de setembro de 2026 

Jornalista e escritor Zuenir Ventura morre aos 95 anos

Durante mais de seis décadas de atuação no jornalismo, Zuenir construiu uma obra marcada pela cobertura de episódios políticos e temas sociais relevantes do país.

Por Redação g1

O jornalista Zuenir Ventura morreu aos 95 anos nesta terça-feira (22). Durante mais de seis décadas de atuação no jornalismo, Zuenir construiu uma obra marcada pela cobertura de episódios políticos e temas sociais relevantes do país. Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.

"Morreu esta manhã, em casa, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia, o jornalista e Acadêmico Zuenir Ventura. Seu corpo será velado amanhã na Academia Brasileira de Letras e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista", comunicou em nota a Academia Brasileira de Letras (ABL).

A nora de Zuenir, Ana Roditi, disse que o jornalista morreu dormindo, sem dor e sem sofrimento. "O corpo estava muito fraco, mas ela ainda reconhecia a família e os amigos próximos. Conversava e fazia comentários divertidos sobre o próprio envelhecimento".

Imortal da Academia Brasileira de Letras, ele era o sétimo ocupante da Cadeira n.º 32, sendo eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna.

Natural de Além Paraíba, interior de Minas Gerais, Zuenir Ventura foi pintor de parede, office-boy, jogador de basquete, arquivista, professor universitário e jornalista. Teve como professores grandes literatos, como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli.

A proximidade com alguns de seus mestres abriu portas para o início da carreira. Celso Cunha, professor da Faculdade de Jornalismo, convidou-o para dar aulas de português, enquanto Hélcio Martins o indicou para um emprego no arquivo da "Tribuna da Imprensa", onde começou a dar os primeiros passos na profissão.

"1968 - o ano que não terminou"

Em 1988, Zuenir Ventura lançou o livro "1968 - o ano que não terminou". A obra serviu também de inspiração para a minissérie “Os anos rebeldes”, produzida pela TV Globo. O capítulo “Um herói solitário” inspirou o filme O homem que disse não, que o cineasta Olivier Horn realizou para a televisão francesa.

No início de 1989, Zuenir Ventura foi ao Acre como repórter especial para investigar o assassinato de Chico Mendes. Da cobertura surgiu uma série de reportagens premiada e uma história pessoal que ele costumava citar como uma das heranças mais marcantes daquela experiência.

Em entrevista, o jornalista contou que acabou assumindo a tutela de Genésio, então principal testemunha do caso. O menino, de 13 anos, permanecia sob proteção policial, mas continuava ameaçado pelos responsáveis pelo crime. Segundo Zuenir, havia um plano para matá-lo.

Após conversar com um coronel e buscar uma solução para garantir sua segurança, levou o garoto para viver com sua família. “Um dia, cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos. Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos”, relembrou.

'Cidade Partida'

Publicado em 1994, "Cidade Partida" tornou-se uma das obras mais marcantes de Zuenir Ventura. Vencedor do Prêmio Jabuti, o livro examina a violência, a desigualdade e a profunda divisão social do Rio de Janeiro a partir da experiência do jornalista em Vigário Geral, cenário da chacina que matou 21 pessoas em 1993. A obra consolidou-se como uma referência na reflexão sobre os contrastes e conflitos que marcam a cidade.

Zuenir venceu os dois maiores prêmios de jornalismo do Brasil: o Prêmio Esso e o Vladimir Herzog – cujo troféu foi entregue pela viúva do jornalista, amigo assassinado durante a ditadura.

Em 2008, ele recebeu da ONU um troféu especial por ter sido um dos cinco jornalistas que “mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos”.

A convite de João Moreira Salles, Zuenir Ventura ampliou sua atuação para o audiovisual. Ele participou da codireção de "Um Dia Qualquer", lançado em 2000, e assinou o roteiro de "Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje", documentário dirigido por Izabel Jaguaribe que chegou aos cinemas em 2003.

Texto reprodzido do site: g1 globo com/pop-arte